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Dans le document COUR D APPEL DE BORDEAUX (Page 110-132)

Sertão, fundos territoriais, espaços de reserva, espaços de futuro, fronteira... todas essas conotações denotam componentes ou elementos que objetivam a transformação ou transubstanciação desses espaços assim qualificados, calcadas no estatuto da modernidade. Mas afinal, quais são os signos dessa modernidade demandada? Qual é essa modernidade de que se vale para “afastar” ou negar os sertões, para superá-los? Embora seja um fenômeno bastante complexo, aqui serão abordados apenas os traços superficiais da modernidade pleiteada – para além de suas características que já puderam ser inferidas a partir da sua

relação com a urbanidade, impetrada no primeiro capítulo –, dínamo da transição dos espaços de fronteira em prol da afirmação da lógica político-econômica e sociocultural hegemônica.

Gomes (2007) reconhece três características essenciais que permitem congregar sob o rótulo da modernidade os diversos movimentos considerados modernos: o caráter de ruptura, a imposição do novo e a pretensa capacidade de alcançar a totalidade dos fatos e fenômenos. Todos os fenômenos que se impõem a alcunha de “modernos” partem de uma negação ao que até então existia, referenciado como “antigo” ou “tradicional”, como um elemento obsoleto que precisa ser superado; disso decorre uma filiação intrínseca com a estrutura do progresso, conclamando permanentemente os signos da mudança e do avanço de modo a transformar o novo em sinônimo de legítimo. Chamada diuturnamente a assumir o papel protagonista da história, essa novidade nega o tradicional a partir da ruptura, sempre alimentando um debate, um conflito entre tempos históricos, cujo mote é a mudança radical – e não a adaptação ou o ajustamento progressivo. No escopo dessas rupturas, o moderno conclama a emergência de um sistema global, no qual toda uma lógica seria redefinida em função da pretensão de totalidade característica dessa modernidade.

No âmbito desse processo de renovação permanente, o fato moderno é mitificado, e, enquanto mito, o combate entre o moderno e o tradicional é transformado em um discurso em que o primeiro é enaltecido; a partir da glorificação e do endeusamento da atualidade, a fabricação contínua do novo encontra seu perpétuo combustível no forjamento incessante de novos passados – adversários engendrados a fim de serem sempre superados.

Segundo Baudrillard (199059 apud GOMES, 2007), a modernidade configura-se como um modo de civilização característico, oposto ao tradicionalismo das culturas anteriores; a imprecisão histórico-geográfica desta definição não estabelece uma noção operacional acerca da modernidade, de modo que Habermas (198160 apud GOMES, 2007) vai precisar de modo mais rígido, no plano histórico, o fenômeno da modernidade: moderno era um termo usado no século V para designar a nova ordem cristã em oposição ao pretérito pagão e, desde então, assumiu a noção de substituição, a qual deveria ser operada, em grande medida, sobre o modelo da Antiguidade. Apenas no final do século XVIII que a ideia de modernidade se desvinculou do modelo da Idade Antiga, quando os ideais iluministas, inclusive no campo científico, redefiniram o termo, que iria se afirmar ao longo do século XIX.

Mesmo assumindo o recorte histórico como uma operação forçosamente arbitrária, Paulo Cesar da Costa Gomes estabelece que a fundação da modernidade, em suas genéricas

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BAUDRILLARD, Jean. Encyclopedia Universalis, 1990. Tomo 5, p.552. 60

características que lhe conferem identidade, manifestou-se ao final do século XVII e ao longo do XVIII com o chamado Século das Luzes. Mutatis mutandis, as características da ordem social – em seus aspectos do pensamento científico, dos ideais políticos e fundamentos ideológicos – que então floresceram, prolongam-se na contemporaneidade, marcando uma raiz genética naquele profícuo momento histórico.

Em termos geográficos, as condições de constituição de territórios da modernidade surgiram em vários pontos da Europa Ocidental, nutrindo-se, sobretudo, da aura moderna dos grandes centros urbanos europeus: Paris, Londres e Amsterdã; dessa forma, instaurou-se um caráter cosmopolita que, embora não fosse absoluto, permitiu uma rápida difusão e circulação das ideias, apoiadas numa nova rede de comunicação estabelecida pela melhoria dos sistemas de transportes e pelo aumento considerável do nível médio de instrução. “As novas idéias difundiam valores julgados comuns a todas as épocas e a todas as sociedades e, de certa maneira, pressupunham a existência de uma unidade e de uma comunicação global.” (GOMES, 2007, p.54).

Destarte, o compartilhamento de uma única e comum “natureza humana” instaurou-se como ideia de grandes repercussões, permitindo a eclosão de novas escalas espaciais de identificação, de modo que as diferenças evidentes entre as diversas sociedades e seus gêneros de vida passaram a ser interpretadas como “posições” distintas no mesmo eixo unilinear de desenvolvimento – fundamento básico das teses evolucionistas da humanidade. O ápice do estatuto civilizatório foi etnocentricamente estabelecido na Europa, espaço-síntese do auge da condição humana e, para além das fronteiras tradicionais entre os Estados nacionais, região universal de referência, considerada a partir de uma base comum de identidade. A Europa como um todo foi tomada, pois, como um espaço que apresentava, com certa homogeneidade, um mesmo “grau civilizatório”, um mesmo patamar evolutivo do homem moderno – embora nem todo o continente europeu tenha experimentado, ao mesmo tempo, as mudanças advindas do espírito da modernidade.

Contraposta ao ideal nacionalista-romântico de estabelecimento das culturas nacionais, forjou-se, sob os pressupostos iluministas, uma ideia de um mundo unido sob uma única comunidade, para a qual se elegeu o francês como o idioma “culto” para a comunicação:

O francês foi adotado como língua “culta” dentro das mais importantes cortes européias da época e se impôs como idioma de comunicação, substituindo o latim na maior parte das publicações científicas e filosóficas. [...] O idioma foi a marca explícita de uma influência muito mais larga e difusa. A bem da verdade, a corte francesa representava o modelo de um certo modo de viver que contribuiu fortemente para criar a imagem de um mundo unido por um mesmo ideal de comportamento. (GOMES, 2007, p.55-6).

Concomitantemente, o cosmopolitismo sustentou redefinições no espaço e no tempo: quanto ao espaço, uma nova ideia de centralidade surgiu atrelada aos pontos espaciais de onde emergiam as inovações, instaurando uma nova ordem mundial baseada no dualismo centro- periferia, cujo core do progresso era Paris: “Paris é, sem dúvida alguma, a capital do mundo, o centro civilizador por excelência, onde tudo é ruído, movimento e espetáculo.” (GOMES, 2007, p.56); quanto ao tempo, o tempo cíclico da tradição – associado aos festejos tradicionais, em grande medida relacionados às atividades rurais – foi substituído pelo tempo linear, marcado por universais instrumentos de precisão (como, por exemplo, o relógio e o cronômetro), aperfeiçoados ou criados durante o Século das Luzes. O que aconteceu foi, pois, uma racionalização do tempo, exigência dos novos arquétipos produtivos, os quais requeriam unidades cronológicas mais precisas para alcançar uma maior eficiência produtiva. Ademais, descobertas geológicas e paleontológicas, no campo das ciências, e novas teorias filosóficas revolucionaram as ideias de duração e progresso, fundando uma sequência lógica de passado- presente-futuro, a qual legitimava a atualidade da modernidade como superação do passado e arauto do devir. (GOMES, 2007).

A própria ideia de sociedade vai se modificar com o advento da modernidade, uma vez que a esfera social se distanciou dos códigos de honra e tradição da Era Medieval, suscitando uma base de valores gerais – cujo sustentáculo era a universal “natureza humana” –, que ampliou, sob todos enfoques, as noções de tempo e espaço, e impôs uma nova leitura da diversidade cultural, submetida aos valores reconhecidos universalmente. Nesse contexto, a base da nova organização social foi dada pela constituição do Estado moderno, instituição que, conforme Paulo Cesar, consagrou a racionalidade administrativa61 a partir de três princípios fundamentais de legitimidade: a isonomia, o bem comum e o estabelecimento de equilíbrio entre interesses públicos e privados.

Como essência, a modernidade implantou uma concepção de mundo dominada pelo estatuto da razão e do progresso, de modo que a racionalização concorreu, inclusive, para o surgimento de um novo estilo literário e sociológico, uma visão de mundo dita utópica, confiante nos faustos advindos da Razão. Segundo Bureau (198462 apud GOMES, 2007), as características fundamentais desta utopia centram-se na padronização e na igualdade; na

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Dando sustentação à ideia de que heranças da ordem social iluminista se prolongam na contemporaneidade, o autor coloca que: “Entre o Estado planificador dos anos trinta [do século XX], criador de projetos, gerenciador, e as iniciativas dos serviços públicos, produção de dados e materiais para o reconhecimento do terreno, das administrações dos sécs. XVIII e XIX, existe uma forte correspondência.” (GOMES, 2007, p.59). Vale enfatizar, portanto, que os projetos de “devassamento” dos sertões no Novecentos já possuem as suas raízes nas práticas administrativas dos albores da modernidade.

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BUREAU, Luc. Entre l’Eden et l’Utopie: Les fondements imagineires de l’espace québécois. Montreal: Québec/Amérique, 1984.

segregação, de modo que cada coisa deve permanecer em seu lugar; e na geometrização do espaço. Tais características ligam-se a um princípio maior, norteador da lógica moderna: a submissão do real ao racional.

Os planos urbanísticos modernos também se valem dessa hipertrofia da racionalidade, encarando o tecido urbano como uma totalidade passível de ser apreendida em todas suas funções e dinâmicas e, mediante o reconhecimento desse dinamismo e funcionalidade, funda- se o pressuposto básico das reformulações das urbes: é possível ensejar uma nova racionalidade em que, segundo os critérios de circulação, centralização e maximização de funções, a estética também se encontra imbuída do espírito de aprimoramento da performance funcional. Assim, as linhas retas, as simetrias, os largos horizontes e os alinhamentos de perspectivas, ângulos e fachadas compreendem, enfim, “todo um programa estético em harmonia perfeita com as idéias do moderno, do novo, do funcional, que definem uma beleza urbana racional que conjuga forma e função.” (GOMES, 2007, p.61).

Todavia, a modernidade também guarda lugar para o florescimento de ditas antiutopias, segundo as quais a fé e a positividade da razão são supostamente negadas e denunciadas, explorando visões negativas e perniciosas do racionalismo extremado. Em todo caso, o ambiente privilegiado para encetar a valorização da modernidade será o espaço urbano – seja a partir da relação entre uma cidade idealizada e o modelo progressista e harmônico, fruto do endeusamento racional; seja por sua versão oposta, de caracterização de cidades incontroláveis e caóticas, corolários de uma razão demoníaca e autoritária.

Utopias e antiutopias, correntes e contracorrentes, essa dicotomia valorativa do moderno vai repercutir, inclusive, na seara artística:

Na arquitetura, as linhas retas, os ângulos retos, os planos simétricos e proporcionais definem um modelo que se opõe a um outro em que as proporções são livres de dimensões matemáticas, as curvas são predominantes e, no lugar da sobriedade de superfícies e de planos, desenvolve-se uma sobrecarga de ornamentação, sobre diversos planos encaixados que dão uma ordem colossal às construções. Na pintura, estes modelos se distinguem antes pelas [sic] temas: de um lado, há uma preferência pelas cenas emprestadas da Antiguidade ou da fábula. Do outro, os temas são familiares, extraídos do cotidiano. O primeiro modelo propõe, em geral, uma composição com poucos personagens, cujas atitudes são calmas e racionais. Vê-se aí uma predominância do desenho e notadamente do contorno, e as paisagens apresentam volumes equilibrados. No outro modelo, a composição pictórica apresenta muitas vezes numerosos personagens em atitudes movimentadas, voluntariosas e irracionais, e as paisagens são pitorescas, por vezes completamente desprovidas de personagens. (GOMES, 2007, p.64).

Em síntese, o que as reflexões deste autor colocam é que, seja no campo da Estética ou da Ciência, a modernidade, enquanto uma espécie de movimento “revolucionário” – originário do Século das Luzes –, compreende um universo fundado na dicotomia entre a

tradição e a novidade, entre a razão e a emoção. Esses pares dicotômicos/dialógicos metaforizam de modo abrangente todas as relações estabelecidas no âmbito deste momento histórico, dando luz ao contexto geral que identifica a modernidade, em seu caráter geográfico – a ser destacado adiante –, a partir de suas relações com a mundialização da economia, industrialização, urbanização, metropolização e com o destacado papel atuante dos novos modelos de transporte e comunicação.

Destarte, quando se fala, contemporaneamente, de um suposto pós-modernismo, pode- se aventar que o principal traço de oposição do moderno ao pós-moderno63 encontra-se “apenas” no grau de confiabilidade destinada à razão universal, ainda que no seio da própria modernidade tenham surgido contracorrentes, sendo um período bem menos monolítico do que se supõe, uma vez que fora marcado por um campo de tensões e conflitos em torno da legitimidade da atividade intelectual e de sua organização64. De qualquer modo, enquanto, em traços gerais, o estatuto da modernidade conclamava que as noções de ordem, progresso, equilíbrio e civilização seriam tributárias de acesso à verdadeira humanidade por meio da racionalidade, o estatuto do pós-moderno vai negar a prerrogativa exclusivista da razão enquanto único princípio legítimo da cultura e do saber, promovendo a valorização do particular, do desconstrucionismo, das estruturas míticas e das noções de caos e anarquia. (GOMES, 2007).

Outro intelectual que tece considerações gerais acerca da modernidade é Anthony Giddens, o qual, em linhas gerais, emprega este termo num sentido amplo para referir-se às

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O marco inaugural do dito pós-modernismo se deu, conforme Gomes (2007), na arquitetura, suplantando a arquitetura moderna, sendo esta baseada na performance funcional, no purismo estético e na pesquisa de materiais, de modo a engendrar uma estreita comunhão e harmonia entre os elementos do trinômio ciência/tecnologia/arte. Nas ciências sociais, a pós-modernidade se instaura com a reintrodução da hermenêutica enquanto tentativa de superar o racionalismo moderno – conclamado, sobretudo, a partir dos “idiomas” científico-filosóficos do marxismo e do estruturalismo –, uma vez que seria menos passível a generalizações e ortodoxias, e mais atenta às especificidades. Por outro lado, outra linha interpretativa argumenta que o pós- modernismo, ao invés de ser uma nova fase, é mais uma manifestação de contestação ao racionalismo da modernidade, similar a outras manifestações também ocorridas no decurso da era moderna.

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O próprio autor coloca que a ciência é provavelmente o principal fundamento da modernidade, instauradora do novo código de valores dessa época; no entanto, mesmo dentro do campo científico, a modernidade abrigou dois polos epistemológicos díspares: a corrente racionalista, pautada na argumentação lógica, ordenada e sistemática, no acúmulo progressivo de conhecimento, na valorização privilegiada da forma ou “linguagem” científica (método), na explicação e nas verdades universais; e as contracorrentes, que, embora de diversos matizes, podem ser congregadas essencialmente na assunção de uma postura pautada em verdades relativas, que devem ser analisadas em seus contextos socioculturais específicos, na interpretação dos fatos a partir de suas expressões, na valorização do conteúdo dos fenômenos e na aceitação do papel da subjetividade no processo do conhecimento. Em suas palavras, este autor vai dizer que: “estas correntes contestatórias do racionalismo aceitam várias vias para a constituição do saber, inclusive a concepção racionalista, considerada como parcial, reducionista e simplificadora. A valorização do sentido, da expressão, do único, do espontâneo, da subjetividade e da multiplicidade de vias analíticas implica o fato de que estas correntes utilizam elementos de análise diferentes daqueles previstos pelo racionalismo. Implica também o fato de que existe um discurso próprio e individualizado que se opõe ao discurso da ciência institucionalizada, esta oposição sendo, aliás, o principal traço de identidade dessas ‘contracorrentes’.” (GOMES, 2007, p.34).

instituições e modos de comportamento que foram estabelecidos na Europa pós-feudalismo, mas que assumiram um impacto decisivamente mundial apenas no século XX. Segundo Giddens (2002), a modernidade, a princípio, é distinta por três dimensões: as relações sociais calcadas no uso generalizado de força material e de maquinário no processo produtivo; a supremacia do capitalismo enquanto sistema de produção de mercadorias, envolvendo tanto a competitividade de mercado de produtos quanto a mercantilização da força de trabalho; e a instituição da vigilância, base da força organizacional típica da vida social moderna, referindo-se ao controle e à supervisão, seja no comando direto ou no uso da informação para a coordenação das atividades sociais.

No escopo dessas dimensões, a forma social engendrada mais importante da modernidade foi o Estado-nação, instituição e sistema reflexivamente monitorado, seguidor de políticas e planos coordenados em escala geopolítica e marca distintiva da organização – isto é, do controle regularizado das relações sociais no âmbito de distâncias espaço-temporais indeterminadas.

Em diversos aspectos essenciais, as instituições modernas, para este autor, vão ensejar um caráter descontínuo com os modos de vida pré-modernos, uma vez que a era moderna é qualificada substancialmente por sua celeridade, por seu dinamismo extremado, não só no ritmo, como também na amplitude e profundidade das mudanças, alterando substancialmente práticas e comportamentos sociais. Concordando com essa interpretação, Gomes e Costa (1988) vão colocar a modernidade como um período de estabelecimento de um movimento permanente de rápidas substituições e interações entre o “antigo” e o “novo”:

De certa forma, a modernidade é um tempo de conditos entre o “moderno” e o “tradicional”, mas também entre as visões do novo e a impresivibilidade das transformações, entre as versões proclamadas da mudança e os processos efetivamente vividos. Compreende assim uma com-vivência – a vivência conjunta de múltiplas intensidades entre conflitos e transformações, resistências e ambigüidades, desordem e organização, compondo uma atmosfera com a qual podemos nos confrontar em diversas escalas e contextos espaciais. (GOMES; COSTA, 1988, p.50).

Esse dinamismo da vida social moderna é o corolário, segundo Giddens (2002), de três elementos principais: o primeiro é a chamada separação de tempo e espaço, em que, ao invés de se tornarem mutuamente alheios ao processo de organização social, são recombinados de modo a operarem eficazmente a coordenação das atividades sociais sem uma menção necessária às particularidades do lugar – “A organização social moderna supõe a coordenação precisa das ações de seres humanos fisicamente distantes; o ‘quando’ dessas ações está diretamente conectado ao ‘onde’, mas não, como em épocas pré-modernas, pela mediação do lugar.” (GIDDENS, 2002, p.23).

Essa reorganização do tempo e do espaço fundamenta o segundo elemento: a expansão dos mecanismos de desencaixe das instituições – ou seja, os mecanismos que deslocam as relações sociais de seus lugares específicos para recombiná-los a partir de grandes distâncias, indeterminadas, no espaço e no tempo. Tais mecanismos, os quais são tomados em conjunto como sistemas abstratos, podem ser de dois tipos: as fichas simbólicas, meios de troca com valor padrão, intercambiáveis numa grande variedade de contextos, mesmo que distantes em termos temporais e espaciais; e os sistemas especializados, que impõem conhecimentos de ordem técnica que podem ser usados independentemente dos praticantes e dos clientes que deles se servem, por mais que estejam separados no espaço e no tempo dos pontos de origem desses conhecimentos. Para além das áreas tecnológicas, “[os sistemas especializados] estendem-se às próprias relações sociais e às intimidades do eu. O médico, o analista e o terapeuta são tão importantes para os sistemas especializados da modernidade quanto o cientista, o técnico ou o engenheiro.” (GIDDENS, 2002, p.24).

O terceiro elemento é a reflexividade institucional, dizendo respeito ao uso regular e contínuo de conhecimentos como diretrizes para as circunstâncias da vida social e das relações materiais com a natureza, organizando-as e transformando-as, de modo a deixá-las suscetíveis a intensas revisões à luz de novos conhecimentos ou informações. Desse modo, a modernidade configura-se como uma ordem pós-tradicional, mas sem substituir efetivamente as antigas certezas por novas, dadas pelo conhecimento racional, uma vez que institucionaliza o princípio da dúvida radical, insistindo na apresentação dos conhecimentos somente sob a forma de hipóteses, abertos à revisão e passíveis de serem abandonados em prol de outros sistemas explicativos mais adequados: “A dúvida, característica generalizada da razão crítica moderna, permeia a vida cotidiana assim como a consciência filosófica, e constitui uma dimensão existencial geral do mundo social contemporâneo.” (GIDDENS, 2002, p.10).

Para além da Ciência, essa relação visceral entre a modernidade e a dúvida radical apresenta-se também como existencialmente perturbadora na cunhagem das identidades pessoais, pois “o eu, como os contextos institucionais mais amplos em que existe, tem que ser

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