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Segundo Sophia de Mello Breyner “O primeiro critério que devemos seguir na escolha de um livro infantil é a qualidade (…). O livro infantil deve ser sensível e apurado para apurar e afinar a sensibilidade da criança (…). Deve ser um livro inteligente para desenvolver e esclarecer a inteligência e apurar o pensamento. Deve alimentar a imaginação, pois o homem não se cria só através da necessidade, mas também através do desejo. E o livro infantil deve acordar a consciência, deve acordá- la agudamente, inequivocamente, para que a criança desenvolva o sentido da responsabilidade, da liberdade e da escolha. Um bom livro não é necessariamente um livro didático, mas é sempre necessariamente um livro educador.” (cit. por Martins, 1995, p.22). Não poderíamos estar mais de acordo com a autora.

No entanto, quando falamos de livro, em particular da literatura infantil, consideramos fundamental abordar a sua génese e toda a sua história até aos nossos dias. Confessamos que, tal como o seu caminho, também o nosso para lhe encontrar as raízes foi controverso. Porém, fomos à descoberta.

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“We are, as a species, addicted to story. Even when the body goes to sleep, the mind stays up all night, telling itself stories.”(Gottschall, 2012)

Já há muito que se contam e partilham histórias. Que a tradição oral, por meio de lendas, contos e mitos, durante séculos, uniu famílias e amigos como veículo privilegiado para partilha não só de conhecimento e experiência bem como de crenças de cunho religioso, social ou mesmo educacional. Nessas reuniões familiares havia sempre os denominados contadores de histórias que faziam as delícias dos mais velhos mas em especial dos mais novos, que tomavam os dizeres como valores a seguir. Nesses tempos, mais precisamente na era medieval, a literatura era fundamentalmente oral e de tipo popular. Raros eram aqueles que sabiam ler. Contavam-se mitos – o primeiro estágio da arte de narrar – exaltando o sobrenatural, as forças da natureza e a superstição. Desde muito cedo, a literatura, (outrora de caráter exclusivamente oral) desempenhava não só um papel de distração mas também um importante papel pedagógico de transmissão de saberes de geração para geração, transportando consigo potencialidades essenciais à formação e educação da criança. Desde muito cedo que estas histórias, ao serem ouvidas, veiculam conhecimentos, estimulam, desencadeiam e promovem o desenvolvimento da imaginação, da capacidade simbólica e “destreza cognitiva” dos mais pequenos. Tradicionalmente falando, permitiam ao povo preservar e estabelecer laços entre grupos de faixas etárias distintas, conservando assim as suas raízes, crenças, hábitos, costumes e valores históricos (entre outros).

Durante muito tempo, os denominados contos populares foram uma literatura para todos, onde não havia a preocupação de distinguir os adultos das crianças, considerando-se estes últimos como adultos em miniatura e portadores dos mesmos interesses que os demais. Acima de tudo, a comunicação, a socialização, a integração de valores e a ligação do passado com o presente eram os valores que prevaleciam.

Eis que surge a palavra escrita que vem substituir a oralidade através dum novo elemento – o livro. O Homem tem agora acesso à leitura, coletiva e/ou individualmente.

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No entanto, outros géneros literários surgiram para além das narrativas orais tradicionais. Os Romances de Cavalaria, como a Crónica do Palmeirim de Inglaterra (1544) da autoria de Francisco de Morais ou a Crónica do Imperador Clarimundo (1522) da autoria de João de Barros, as consideradas obras pedagógicas como as Cartas de Sílabas ou Cartilhas1 das quais tomamos como exemplo a Cartilha para Aprender a Ler (1539) também esta da autoria de João de Barros, considerada como a primeira cartilha a surgir em Portugal ou até mesmo os catecismos ou livros de doutrina, sendo o mais antigo datado de 1529. Era através deste tipo de literatura que se procurava, acima de tudo, instruir a criança política e socialmente, consciencializando-a. Outro género literário que surge igualmente como contributo para caracterizar e enriquecer aquela que viria, mais tarde, a ser tomada como literatura infantil foram os relatos de viagens. Pautados por elementos descritivos de um mundo novo e onde o exotismo, a aventura, a viagem e o desconhecido despertavam o interesse da audiência mais jovem, os relatos de viagem eram passados às crianças pelos próprios familiares que lhes contavam histórias associadas aos descobrimentos e a novas realidades. Para além destes, os Exemplários2, considerados como contos moralizantes e de caráter educativo, foram outras das narrativas medievais que, tal como as Fábulas3, sugerem o aspeto didático e de cunho igualmente educacional que a literatura viria a ter mais tarde. No entanto, todos estes géneros literários abrangiam um público alvo muito vasto do qual a criança fazia parte. Até então era desconhecida qualquer produção literária feita a pensar exclusivamente na criança enquanto leitor.

É de nosso conhecimento que, em França, a literatura infantil terá tido o seu ponto de partida em meados do século XVII. Surgem assim com Charles Perrault (1628-

1 Cartilhas, Cartas de Sílabas ou Abecedários como eram conhecidas surgem na Idade Média. Caracterizados por conterem elementos lúdicos como imagens e/ou jogos, estas obras tinham como principal finalidade facilitar a aprendizagem da leitura por parte dos mais novos, apoiando o ensino da língua portuguesa. Pretendia-se, fundamentalmente, transmitir ensinamentos vários e de carácter moral não só às crianças como também ao povo.

2 Exemplários ou “enxemplios” são tomados como contos moralizantes e de função educativa.Reflectindo a grande influência do Oriente na cultura medieval Portuguesa, os exemplários tinham como propósito despertar no leitor/ouvinte o desejo de perfeição. Tomamos como exemplo deste estilo de narrativa medieval a obra Contos e Histórias de Proveito e Exemplo da autoria de Gonçalo Fernandes Trancoso, datada de 1575.

3 As Fábulas, outro género de narrativa medieval, são pequenas histórias em prosa ou em verso destinadas à instrução moral do leitor. Geralmente caracterizadas pela presença de animais falantes, as Fábulas procuram, acima de tudo, ser um veículo de educação, transmitindo as experiências morais do ser humano. Como exemplo temos a obra Da Educação (1830) da autoria de Garrett.

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1703) obras como Contos da Mãe Gansa – Histórias e contos do Tempo Passado (obra escrita entre 1691-1697) que continha uma série de contos, muito conhecidos na época, destinados às crianças, Jean La Fontaine (1668-1694) com Fábulas (1668), François Fénelon com As Aventuras de Telémaco (1699), obra de caráter pedagógico entre outros. Há agora, pela primeira vez, uma preocupação em se escrever para um destinatário específico – a criança. Escritores, autores anteriormente dedicados a outros géneros literários interessavam-se agora pela criação de uma literatura que cativasse os mais novos. Editam-se assim os primeiros exemplares de histórias para crianças, no entanto, sempre com intuito moralista. Em França, o conto de fadas torna-se moda. E em Portugal?

Em contrapartida, em Portugal a “Literatura Infantil” centrava-se em obras que descreviam mundos desconhecidos, novas realidades. Os relatos de viagens, anteriormente mencionados, falavam de naufrágios, combates, aventuras que, contadas aos serões, suscitavam o interesse por parte de todos. Obras de autores como Francisco Morais e João de Barros são tomadas como referência da literatura da época. No entanto, para além destes, é de fazer menção a outro, Gonçalo Fernandes Trancoso, autor de um livro de extrema importância, “Contos e Histórias de Proveito e Exemplo (1575), obra composta por “ contos, adivinhas, provérbios e ditos recolhidos na tradição popular, incidindo sobre questões da família e de moral, com um fundo de literatura “exemplar” bem ao jeito da época” (Barreto, 1998, p.22) e que se tornou “numa das obras mais lidas no nosso país até ao século XVIII.” (Gomes, 1998, p.6). Com a inquisição e a censura na publicação de obras literárias, assiste-se a uma carência bastante acentuada na produção literária tanto para a infância como para o público em geral, o que se veio refletir na falta de crescimento do público infantil e juvenil. A literatura portuguesa para a infância vive, assim, no século XVII particularmente de traduções de fábulas de autores como Esopo e Fedro, tendo-se tornando este género literário muito apetecido pelas crianças.

Com o século XVIII chegam novas mudanças na literatura, em particular a literatura infantil, fruto de alterações de caráter social e político. Por toda a Europa, faz-se sentir uma influência marcante do Iluminismo e seus ideais. Autores românticos

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como Locke, Rousseau e Pestalozzi publicam tratados de educação e obras que vêm não só transmitir os novos ideais sobre a socialização e formação da criança bem como contribuir para os progressos da pedagogia, a alteração na forma como a infância era vista na sociedade e, desta forma, para o aparecimento duma literatura destinada aos mais novos. Surge assim, no século XVIII, o aumento do público infantil e jovem. Em Inglaterra, publicam-se obras como As Aventuras de Robinson Crusoe (1719) de Defoe ou As Viagens de Gulliver (1726) de Jonathan Swift. Para além destas, reedições e novas versões de livros anteriormente editados são publicadas ao longo de todo o século.

Contrariamente ao sucedido no século anterior, o Romantismo traz a Portugal o gosto pelo popular, tradicional, antigo e nacional, e com ele surgem os primeiros trabalhos de autores portugueses que tinham por objetivo a educação, formação e doutrinação do jovem e da criança, reflexo dos acontecimentos sociais e políticos da época. O Livro dos Meninos (1778) da autoria de João Rosado de Villa-Lobos e Vasconcellos, onde se “Dão as Ideias Gerais e Definições das Cousas que os Meninos Devem Saber”, a Coleção de Contos Filosóficos (1793) de Francisco Luiz Leal ou Lições de um Pai a uma Filha sua na Primeira Idade (1803) são alguns exemplos. Traduções, imitações e adaptações de obras estrangeiras para a língua portuguesa conquistam alguns leitores juvenis ao longo do século. Com a implementação do ensino elementar em 1759 e com a valorização do ensino da língua portuguesa, criam-se condições para modernizar não só o ensino como também o país.

Contudo, e considerando Portugal em particular, é no século XIX que se dá um impulso decisivo na literatura portuguesa para as crianças. “A maior parte dos que escreveram sobre literatura infantil portuguesa é de opinião que foi no século XIX, sobretudo com a geração de Antero, Eça e Junqueiro, a chamada geração de 70, que pela primeira vez surgiu entre nós uma literatura para crianças. Põe-se, porém, a questão se, de facto, se passou a escrever livros para a infância ou se se começou a pensar nas crianças e a escrever sobre elas. Surgiram as primeiras tentativas para

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compreender a natureza infantil e para reconhecer que a infância é um mundo à parte.” (Pires, s/d, p.71)

Com a influência da Revolução Francesa e seus ideais agora presentes em território português, assiste-se a profundas alterações no setor da educação. Resultante da reação de alguns dos elementos da Geração 704, em particular há que salientar o papel marcante de Eça de Queirós5, há uma consciencialização face à necessidade de se escrever para crianças, considerando agora “a criança como um ser humano com características próprias e não simplesmente um indivíduo em estágio para a fase adulta.” (Barreto, 1998, p.25)

Segundo afirma Barreto (2002, p. 303) “A literatura infantil deve estimular o prazer e o gosto pela leitura, usar uma linguagem adequada ao seu interlocutor, linguagem simples e bela, encantatória, sem conceder facilidades ao vulgar, despertando e satisfazendo a fantasia e não abusando da lição moral ou declaradamente exemplar. Certamente, não deve tomar a criança por indivíduo incapaz ou tolo, excedendo-se no uso de diminutivos, nem usar uma forma narrativa magistral“. Muitos foram os autores que, por meio de tentativas, se dedicaram ao lançamento de títulos. Da Educação (1830) de Almeida Garrett, A Cartilha Maternal (1876) de João de Deus6 e, mais tarde, Campo de Flores (1893), igualmente da sua autoria, os Contos para a Infância (1877) de Guerra Junqueiro, Contos Populares Portugueses (1879) e Contos Nacionais para a Infância (1882), ambos da autoria de Adolfo Coelho7, Contos para

os Nossos Filhos (1882) de Maria Amália Vaz de Carvalho e Gonçalves Crespo, o Tesouro Poético da Infância (1883) de Antero de Quental são alguns dos muitos exemplos.

4 Composta por Antero de Quental, Oliveira Martins, Teófilo Braga, Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro e Adolfo Coelho.

5Eça de Queirós foi um dos homens da Geração de 70. Homem com visão clara e concreta para com os problemas existenciais da época quanto à quase ausência de literatura para as crianças, Eça faz uma comparação , bem presente nas suas Cartas de Inglaterra (1903), face à literatura para crianças em Portugal que em nada se parece com o que encontra em Inglaterra, aquando da sua permanência no estrangeiro. Pautado por um espírito moderno e ágil que lhe era característico, Eça fala-nos de “ Literatura de Natal” – livros destinados às crianças que se vendiam sobretudo no Natal – por entre críticas ao atraso presente em Portugal.

6 João de Deus de Nogueira Ramos (1830-1896) foi considerado o maior pedagogo do século XIX. Tendo dedicado praticamente toda a sua vida à causa d a defesa das crianças e dos seus direitos enquanto tal, João de Deus teve um papel muito importante na instrução elementar infantil. Como pedagogo que era, foi devido ao seu interesse, incansável dedicação e à criação de um novo método global de leitura que as crianças passaram a aprender a ler, através de textos escritos numa linguagem simples e acessível à sua faixa etária.

7 Adolfo Coelho defendia o emprego de contos e formas afins, jogos e rimas com o intuito pedagógico e de facilitar à criança a aprendizagem da língua portuguesa.

13 Figura 2 – Livro A Cartilha Maternal (1876) e João de Deus.

Figura 3 – Livro Contos para a Infância (1877)

No entanto, e embora seja visível o crescimento das publicações destinadas às crianças, o gosto pelo maravilhoso tradicional mantém-se e com ele as traduções, reedições e versões de autores estrangeiros8. As obras editadas para os mais jovens continuam a ter por objetivo formar o caráter e o intelecto por meio do ensinamento de determinados valores presentes no público adulto, não valorizando assim a verdadeira natureza e interesses da criança enquanto ser humano. Segundo Gomes (1998, p.14) “(...) a necessidade sentida nos meios burgueses de guiar o desenvolvimento intelectual e orientar as emoções das crianças não só obriga (...) a empreender reformas escolares, mas a consagrar-lhes sobretudo obras de educação cívica, patriótica, moral e religiosa”, contribuindo, desta forma, para o caráter didático pedagógico formal que ainda se fazia sentir na literatura para as crianças9.

8 Alguns exemplos são: os Contos dos Irmãos Grimm (1822), As Aventuras de Robinson Crusoe de Defoe, as Viagens de Gulliver, as Aventuras de Alice no País das Maravilhas(1862), Os Três Mosqueteiros (1845), Oliver Twist (1839) entre muitos outros. 9 É de salientar de que nem só as crianças constituíam o público consumidor deste género de literatura que abrangia também um número considerável de adultos menos letrados.

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Contudo, verificam-se na segunda metade do século XIX alterações ao nível da literatura infantil, onde escritores, embora mantendo o cunho moral dos textos, exploram substancialmente o fator lúdico dos mesmos. Há a preocupação de, através dos livros, transmitir à criança a cultura adulta, a vivência em sociedade e os seus valores, por meio de ensinamentos morais que contos, fábulas, lendas e, em particular no século XIX, a poesia ajudavam a consolidar.

Neste contexto, surgem não só as primeiras histórias de viagens originais em português como também a poesia que toma um lugar de destaque. Na literatura infantil verifica-se um predomínio da literatura de tipo tradicional, através da adaptação de narrativas tradicionais como as canções de embalar, jogos e rimas, capazes de satisfazer as necessidades de leitura e formação da criança. Como anteriormente referimos, muitos foram os autores que publicaram obras destinadas ao público infantil. De entre todas, a obra poética de João de Deus merece especial atenção, não só pela simplicidade dos temas abordados e igualmente das imagens presentes, bem como da clara proximidade e aceitação que teve por parte do público mais novo. Outras duas personalidades a que não poderíamos deixar de fazer menção foram Virgínia de Castro e Almeida10 e Ana de Castro Osório11, duas autoras que se iniciam na escrita para as crianças já nos finais do século XIX, escrita essa que as torna marcantes ao longo do século seguinte. Consideradas das mais importantes autoras na literatura infantil, transmitiam, por intermédio das suas histórias, os ideais republicanos que já tomavam evidência. Com a introdução da obrigatoriedade do ensino primário em 1844, há assim um aumento não só do número de leitores jovens bem como um crescimento significativo da produção nacional.

10 Virgínia de Castro e Almeida (1874 - 1945), escritora de literatura infantil e outros géneros literários como o romance e a literatura de viagens, inicia-se na escrita para a infância com A Fada Tentadora (1895). Autora de inúmeros romances e contos juvenis como Histórias (1898), Terra Bendita (1907), Capital Bendito (1910), História de Dona Redonda e da sua gente (1971), Virgínia é caracterizada pela constante atenção ao carácter formativo tão assinalado nos contos que escrevia.

11 Ana de Castro Osório (1872 -1935) foi uma escritora a quem a literatura infantil portuguesa muito deve. Republicana assumida, Ana Osório defendeu a inclusão não só de contos mas igualmente de rimas tradicionais nos livros escolares para as crianças. Caracterizada pela fluência e pureza da sua escrita, a autora é diferenciada pela determinação com que procura ir de encontro aos interesses do seu público, as crianças. Com um trabalho muito vasto, Ana Osório não restringe o seu contributo na adaptação de textos e reconto de histórias de tradiçaõ oral mas igualmente na criação de originais seus, trabalhos didáticos e divulgação do livro enquanto objeto essencial na educação da criança. A Minha Pátria (1906), Histórias para Crianças (1919), Viagens Aventurosas de Felício e Felícia ao Pólo Norte (1922) são alguns dos exemplos presentes na sua obra.

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No entanto, nem só o livro dava os seus primeiros passos enquanto literatura para a infância. Com o desenvolvimento das técnicas de impressão e com o aparecimento da imprensa pelas mãos de Gutenberg, assiste-se ao aparecimento dos primeiros jornais destinados à criança enquanto novo consumidor.

Surgem os primeiros títulos destinados ao público infantil: Bibliotheca Familiar, e Recreativa – Offerecida à Mocidade Portuguesa (1835), O Amigo da Infância (1847), o Ramalhetinho de Puerícia (1854), A Ilustração da Infância (1877), o Jornal da Infância (1883), As Crianças (1884), o Almanaque das Crianças (1892) e a Revista Branca (1898) são os primeiros títulos de referência.

Podemos constatar que é no século XIX que se dá uma maior preocupação por parte da sociedade em refletir na literatura para as crianças as condições sociais e políticas em que se vivia, mundialmente. Dá-se a passagem para um novo século, o século XX. Com ele assiste-se a grandes modificações na sociedade portuguesa. Implantada a República em 1910, acentuam-se os ideais outrora refletidos na literatura para as crianças já no passado século XIX.

A criança é agora, por parte do autor, merecedora de uma atenção especial e há um aumento ainda mais acrescido na publicação de obras para este público leitor. Há agora uma preocupação de tornar a obra literária para a infância estimulante não só ao nível da imaginação bem como humorista e portadora de qualquer assunto de interesse geral. Assiste-se, desta forma, a um acentuar da rutura entre literatura para os mais novos e para adultos. Pretende-se agora uma literatura diferente que, acima de tudo, apele ao gosto pela leitura e encoraje a criança ao contacto com o objeto livro. Multiplicam-se as obras nacionais publicadas para as crianças, tidas como essenciais à evolução psicológica e formação do caráter da criança enquanto ser humano e leitor. A insistência no combate ao analfabetismo persiste por parte da Constituição Portuguesa (1911) e com ela a publicação de obras de teor pedagógico e formativo – como os manuais de boas maneiras -, que visavam instruir e educar os mais novos facultando-lhes informações não só de utilidade educativa em sociedade, bem como despertar-lhes a curiosidade para fatos de caráter científico presentes no mundo que os rodeava.

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Muitos são os autores, já de obra iniciada anteriormente, que vingam na literatura para a infância no século XX. Nomes como Ana de Castro Osório e Virgínia de Castro e Almeida, já anteriormente mencionados, Afonso Lopes Vieira com Animais Nossos Amigos (1911) e Canto Infantil (1912), Henrique Marques Júnior com Algumas Achegas para uma Bibliografia Infantil (1928) e Fernanda de Castro com Mariazinha em África (1925) são alguns dos muitos autores de referência na história da literatura infantil. Também Fernando Pessoa, embora pouco relacionado com o mundo da literatura infantil, dedicou alguns dos seus versos às crianças - “Os poemas para Lili”.

... Figura 4 - Livro Animais Nossos Amigos (1911) de Afonso Lopes Vieira

Figura 5 – Livro Algumas Achegas para uma

Bibliografia infantil (1928) de Henrique Marques