VIOLÊNCIAS
1 Violência Psicológica 437 (42,9%)
2 Discriminação por ser Mulher 435 (42,7%)
3 Violência Moral 315 (30,9%)
4
LGBTIFOBIA
(Mulheres que não estão/se identificam com padrão cisheteronormativo = 168)
50 (29,8%)
5 Violência Institucional 266 (26,1%)
6
RACISMO
(Mulheres que se autodeclaram de cor/não brancas = 333) 83 (24,9%) 7 Violência Sexual na Infância/Adolescência 222 (21,8%) 8 VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA
(Mulheres que engravidaram e/ou sofreram aborto = 723)
104 (14,4%)
9 Violência Doméstica 132 (12,9%)
10 Violência Física 118 (11,5%)
11 Violência Sexual na Vida Adulta 114 (11,1%)
12 Violência Patrimonial 60 (5,8%)
Fonte: Dados da Pesquisa Ampliada.
A partir das questões abertas e caixas de comentários, solicitou-se que as mulheres participantes narrassem livremente em maior profundidade suas vivências quanto a violência contra a mulher, por meio da sentença disparadora “Queremos saber mais sobre as suas vivências e percepções sobre a violência. Comente sua resposta anterior, se desejar.”
Foram produzidas 254 respostas narrativas e todas fazem parte deste estudo, representando a voz múltipla e diversa de todas as mulheres participantes da pesquisa ampliada.
Abaixo são descritos trechos das narrativas em que as mulheres participantes relatam como se apresentaram as violências em seus cotidianos e trajetórias de vida.
Os trechos foram selecionados a partir do encontro com as narrativas, o atravessamento das palavras relatadas pelas mulheres participantes e suas reverberações afetivas na pesquisadora, também vulnerável às violências expressas pelas participantes, tendo vivenciado situações de violação muito próximas às descritas e/ou experimentado intenso impacto emocional frente a relatos que versam sobre dores e sofrimentos profundos ocorridos no percurso cotidiano da trajetória de vida destas mulheres e, muitas vezes, banalizados e/ou ignorados pela ordem social hegemônica, mas que resultaram/resultam em marcas latentes, externas e/ou internas, visíveis e/ou invisíveis em seus corpos, suas histórias, suas vidas.
Compreende-se que existe uma diversidade de experiências e de modos de ser mulher, que se estabelecem a partir dos lugares sociais que estas mulheres ocupam e que são condicionantes ao acesso (ou não) de oportunidades para exercício pleno de sua cidadania, como sujeitos de direitos. Neste sentido, como apontado por Djamila Ribeiro, é necessário romper com uma visão universal (do homem branco, colonizador, cisheterossexual) das vivências e experiências de mulheres, considerando “[...] as categorias de raça, gênero, classe e sexualidade como elementos da estrutura social que emergem como dispositivos fundamentais que favorecem as desigualdades e criam grupos” (RIBEIRO, 2017, p. 61).
Entendendo que a visão universal, a história única, silencia grupos, não permitindo que suas vozes sejam ouvidas e reafirmando o silenciamento que historicamente marca as narrativas e vidas de grupos minoritários, diferentes dos que ocupam posição privilegiada na hierarquia de poder social, político e cultural da sociedade, isto é, a visão universal condiciona e legitima o discurso dominante masculino, branco e colonizador e implica na sustentação do regime de opressões estruturais.
É fundamental que a partir da análise e compreensão das vivências individuais das mulheres participantes desta pesquisa, se identifique quais são as condições sociais dos grupos aos quais essas mulheres são pertencentes, que experiências são partilhadas e comuns a cada grupo, como as vivências individuais de violências se expressam em seus cotidianos e evidenciam opressões estruturais, bem como a intersecção de categorias que estabelecem experiências distintas e desiguais no modo como essas violências são vivenciadas, sentidas e compreendidas (RIBEIRO, 2017).
Deste modo, em vista das tipificações das violências, serão apresentados relatos que se relacionam e evidenciam a percepção das mulheres participantes quanto ao modo como as violências se expressam em seus cotidianos, espaço onde se desvela a vida, permeado por contradições, hábitos e atravessado por elementos políticos, culturais, sociais, históricos e econômicos.
As narrativas foram, primeiramente, lidas integralmente e no segundo momento distribuídas em 12 categorias temáticas, de acordo com o Quadro 2, que caracteriza as violências. Esta etapa, densa e ao mesmo tempo delicada por sua complexidade, foi permeada por reflexões envolvidas na escolha de quais narrativas devem ser elencadas? Como devem ser apresentadas? E alinhadas ao exercício constante no compromisso em não reproduzir, na medida do que se tem de conhecimento e possibilidade, reducionismos quanto a importância e significado das histórias partilhadas.
Em vista destas considerações, optamos por manter as narrativas em sua totalidade e de acordo com as escolhas descritivas das mulheres participantes. Foram suprimidos apenas trechos que tratavam de informações que poderiam comprometer a preservação ética da identidade destas mulheres. Além disso, palavras abreviadas e/ou compreendidas como erros de digitação, sem qualquer prejuízo ou alteração de seu significado, foram editadas.
A organização por meio de categorias demandou a escolha em elencar e dividir as narrativas em trechos, de acordo com as tipificações das violências. No decorrer deste processo de análise foi possível identificar intersecções entre as categorias emergentes, mesmo tendo sido apresentadas em trechos.
Ressalta-se que as narrativas não foram associadas/cruzadas junto ao perfil sociodemográfico, pois, considerando que o processo de construção do Banco de Dados da pesquisa ampliada segue em andamento pela pesquisadora-referência Oliveira (no prelo) em parceria com o grupo de pesquisadoras que compõe o Coletivo Adelaides. O período definido para conclusão desta dissertação não possibilitava a espera pelo término desta etapa quantitativa de tipificação das mulheres participantes da pesquisa. Assim, as narrativas são apresentadas organicamente, sem explicitação direta da relação de cada fala com os dados sociodemográfico da mulher que a escreveu/desenvolveu.
Observa-se a existência de um conjunto de opressões que tipificam os cotidianos a partir de diferentes expressões da violência e vulnerabiliza em maior ou menor grau os espaços de
vida das mulheres, de modo geral e, em específico, das mulheres atuantes no campo da Saúde Coletiva e que participaram como respondentes da pesquisa-retrato ampliada.
Este conjunto de opressões se qualifica por meio de marcadores sociais da diferença que se naturalizam socialmente e não produzem condições concretas de existências dignas. Ao contrário. Os marcadores de classe, raça, gênero, idade, religião, entre outros, estruturam a sociedade e determinam lugares sociais específicos e, muitas vezes, desiguais e violentos.
Neste sentido, seguindo o proposto por Carla Akotirene (2019) para a compreensão da epistemologia interseccional constituída pelo feminismo negro, há que se considerar a impossibilidade de lutar e se posicionar contra uma única opressão, visto que o direito de uma existência livre de intolerância não é de um grupo particular. Não se trata, portanto, de uma somatória de opressões, que hierarquiza os sofrimentos e violências.
Trata-se da análise e compreensão de como as opressões e quais condições estruturais “atravessam corpos, quais posicionalidades reorientam significados subjetivos desses corpos, por serem experiências modeladas por e durante a interação das estruturas, repetidas vezes colonialistas, estabilizadas pela matriz de opressão, sob a forma de identidade.” (AKOTIRENE, 2019, p. 44).
A partir do pensamento interseccional constrói-se uma perspectiva complexa e criativa a fim de evitar essencialismos e reconhecer a possibilidade de que enquanto oprimidas, por exemplo, também somos capazes de corroborar com as violências.
Porque passa-se a enxergar a matriz de dominação colonial que “[...] sustenta todo um sistema de injustiças e inequidades com base em diferentes categorias e inter-relações” (FERRUFINO et al., 2019, p. 153) que serve de base para as sociedades modernas e opressoras nas quais se formam redes de desigualdade que vão se perpetuando e reestruturando no processo de formação de diferenças que determinam identidades. Deste ponto de vista, a interseccionalidade orienta e dispara condições para que as diferenças sejam enxergadas como identidades conectadas pela modernidade colonialista, inseridas nos fluxos e fixos das estruturas opressoras, tal como dos processos de opressão, produtores destas diferenças.
Ou seja, interseccionalidade é pensar raça interceptada por outras estruturas, de modo a compreender “quem são as pessoas realmente acidentadas pela matriz de opressões” (AKOTIRENE, 2019, p. 47) na avenida estruturada pelo racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado, estando localizado, enquanto conceito e metodologia, no arcabouço teórico do feminismo negro. Pois, as feministas negras ao proporem a interseccionalidade
visavam “combater multideterminadas discriminações, pautadas inicialmente no binômio raça- gênero” (AKOTIRENE, 2019, p. 52).
Quando distante, portanto, deste uso politizado que faz saber e enxergar as desigualdades raciais interseccionadas por outras opressões, numa compreensão de que “[...] as pessoas e grupos se encontrem em diferentes posições de opressão e desempenhando papéis de oprimido simultaneamente” (FERRUFINO et al., 2019, p. 153); a crítica deve direcionar-se para este mau uso do pensamento epistemológico feminista negro e não para o imprescindível conceito em si, como apontado ainda pela autora Akotirene (2019), que demostra a disputa acadêmica atual que envolve o conceito da interseccionalidade e o esvazia de sua riqueza conceitual e afrocêntrica.