FIGURA 11: Letra de Tributo para um tropeiro
Composição: Elton Saldanha e João Sampaio Intérprete: Os Tiranos
Ao tranco numa bragada Assoviando no varzeiro Lá vai o Rosa Salcedo Saindo pra uma tropeada
Espora grande, galho atado
E o pingo trocando orelha Vai de baixo dos pelegos Uma meia rês de "oveia" Beijou a Dona Nadir
Antes de sair, abraçou os piás Largou a tropa na estrada Pras bandas do Caverá e o vento hasteia a bandeira No seu pala bichará Rosalino, o teu destino Uma tocaia desfez Morreste no fio da faca Igual a noventa e três E a tropa berra na estrada Pra te lembrar outra vez
Bate, bate casco, bate, bate mango Bate, bate casco
Tilintando a espora É a cantiga dos tropeiros Que se escuta estrada a fora
Êra boi, êra boi, êra boi, era boi
O destino do tropeiro É o mesmo destino do boi
Êra boi, êra boi, êra boi, era boi
Num repente estrada a fora A vida vai levando os dois
Rasqueteou bem o lubuno
Quebrou o chapéu na copa E um dia se foi pro céu Na culatra duma tropa
Às vezes cruza um emponchado com potros da reculuta
Me faz lembrar o Rosalino E aquela estampa gaúcha E nessa vida tropeira
Andou pela fronteira, lá pelo Itaqui Naquelas picadas brabas
Só ele sabia ir
Tirando gado da enchente Na costa do Cambaí
Êra boi, era boi
O tempo se foi pesando num cargueiro Pra trás ficou a saudade
Tilintando num cincerro E uma tropa de tristeza Berrando no saladeiro
Bate, bate casco, bate, bate mango Bate, bate casco
Tilintando a espora É a cantiga dos tropeiros Que se escuta estrada a fora
Êra boi, êra boi, êra boi, era boi
O destino do tropeiro É o mesmo destino do boi
Êra boi, êra boi, êra boi, era boi
Num repente estrada a fora A vida vai levando os dois
De acordo com informações concedidas por Elton Saldanha, em entrevista por meio eletrônico, a letra dessa canção, escrita por João Sampaio, é uma homenagem a Rosalino Salcedo, antigo tropeiro natural de Itaqui, município gaúcho que faz fronteira com a Argentina.
A canção narra a última tropeada do “Rosa Salcedo”, que saiu “ao tranco numa
bragada”, animal com a barriga branca e o resto do corpo de outra cor (conforme DRRS).
Nessa tropeada, Rosalino portava espora grande e galho atado e vestia um pala bichará, um poncho de lã grossa (conforme DRRS). Seu pingo, seu cavalo, ia trocando orelha, ou seja, ia mexendo as orelhas para diante e para trás, pressentindo que havia algum perigo iminente. Na saída, despediu-se da esposa, “Dona Nadir”, e dos filhos, os “piás”, e partiu com a tropa em direção ao Caverá, região na fronteira-oeste do Rio Grande do Sul que se estende entre Rosário do Sul e Alegrete39. No caminho, a jornada de Rosa Salcedo foi interrompida numa emboscada, em que o tropeiro foi morto. A canção faz menção ao ano de 93 (1893), ano de início da Revolução Federalista no Rio Grande do Sul. Tendo como umas das principais
características a não glorificação dos personagens envolvidos nessa guerra, trata-se de um episódio de extrema violência da história gaúcha. (CARELI, 2011, p. 229). A morte de Rosa Salcedo, “morreste no fio da faca”, é relacionada à Revolução em função da maneira bruta que as vítimas eram mortas. Pesavento (1983, p. 89) explica: “o indivíduo era coagido a, de mãos atadas nas costas, ajoelhar-se. Seu executor, puxando sua cabeça para trás, pelos cabelos, rasgava sua garganta, de orelha a orelha, seccionando as carótidas, com um rápido golpe de faca.” No refrão, fazendo alusão mais uma vez ao modo que Rosa Salcedo foi morto, afirma-se que “o destino do tropeiro/ é o mesmo destino do boi” e “num repente estrada afora/ a vida vai levando os dois”, ou seja, no saladeiro, o boi também morre pelo “fio da faca”.
Algumas circunstâncias, de acordo com a canção, trazem à memória a figura de Rosa
Salcedo: a tropa que “berra na estrada”, um homem de poncho que cruza com “potros da reculuta”, animais que se extraviaram da tropa e foram arrebanhados. Salcedo é lembrado
como um tropeiro destemido e experiente, nas “picadas brabas/ só ele sabia ir” e tinha habilidade “tirando gado da enchente”.
O cincerro, símbolo do tropeirismo, representa a saudade que se sente de Salcedo, “pra traz ficou a saudade/tilintando nos cincerros” e o que restou foi “uma tropa de tristeza/ berrando no saladeiro”. A interjeição “êra boi”, assim como em outras das canções do corpus, indica a forma como o gado era recrutado em uma tropeada, era a voz usada pelos tropeiros e carreteiros para estimular os animais a andarem (conforme DRSS).
Na linguagem, observam-se alguns metaplasmos, como em oveia (ovelha), ocorrendo
despalatização do fonema /λ/, que se transforma em vogal. Ocorre síncope na lexia pra
(para). Em “Naquelas picadas brabas”, ocorre betacismo, um metaplasmo por transformação na lexia brabas (bravas). A palavra pala tem etimologia espanhola, origina-se de palio, “um manto grego ou todo vestido largo colocado por cima de uma roupa”. Na canção, o pala
bichará é uma espécie de poncho de lã grossa. O termo rasqueteou,de origem platina, é a ação
de limpar o pelo do cavalo, ou outro animal, com a rascadeira, uma espécie de pente de ferro. Verifica-se ainda a presença dos empréstimos linguísticos já analisados cincerro e saladeiro.