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Indicateurs microbiologiques et paramètres chimiques retenus

2.4 P ROTOCOLE D ’ ÉCHANTILLONNAGE

2.4.1 Indicateurs microbiologiques et paramètres chimiques retenus

Tenho enorme apreço por tudo o que eu desconstruo. Jacques Derrida

A quarta categoria é expressa neste trabalho pela atividade de desconstruir efetuada pela paródia, forma de transposição representativa da estética atual. Apesar da conscientização das questões controversas que envolvem os conceitos de Pós- Moderno, Pós-Modernismo e Pós-Modernidade, dois deles são usados neste trabalho de forma particular. Emprega-se o termo Pós-Modernismo, quando se referencia movimentos estéticos e literários, e o termo Pós-Modernidade, quando o assunto envolve também questões culturais.

De maneira geral, os estudiosos estrangeiros teorizam a Pós-Modernidade como manifestação calcada na intencionalidade do desfazer, na preferência pelo fragmentado e híbrido, na noção de “descentramento” e desconstrução acrescidas de reverberações da ideologia estruturalista e de influências do pós-estruturalismo da década de 1980. E os traços apontados como pós-modernos são alicerçados, segundo Leyla Perrone-Moisés, na negação do caráter histórico da escrita, da leitura e do julgamento1.

O “apreço” de Jacques Derrida pela desconstrução decorre de uma “inquietação sobre a linguagem”2. A desconstrução torna-se uma estratégia de “desmontagem”. Para Derrida, desconstruir é identificar os pontos fracos em um sistema, pontos nos quais ele é capaz de fingir coerência apenas por meio da

1

PERRONE-MOISÉS, Leyla. Altas literaturas. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 184.

2

Para Derrida, tal inquietação “só pode ser uma inquietação da linguagem e na própria linguagem” (DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2002, p. 12).

exclusão e esquecimento daquilo que ele não pode assimilar3. Todo texto acabará se “desfazendo” ou se “desmontando”, não porque os autores não consigam pensar logicamente, mas, sim, porque têm de pensar no interior dos sistemas de significação – os vocabulários – que são construídos sobre um conjunto de oposições binárias cuja estrutura arbitrária não pode ser justificada. O “desconstrutor” revela as pontas soltas, as forças que se entrecruzam no interior do próprio texto. Portanto, a desconstrução é a tentativa de encontrar aqueles pontos no texto em que este deixa de ser coerente4.

Jonathan Culler, em Sobre la desconstrucción, faz uma leitura, teórica e crítica, das correntes pós-estruturalistas com ênfase particular na “estratégia geral da desconstrução” construída por Jacques Derrida. E acrescenta à postura de Derrida outra formulação, a partir da qual desconstruir o discurso equivale a mostrar como se anula o pensamento filosófico no qual tal discurso se fundamenta ou a oposição hierárquica sobre a qual ele se baseia, “identificando no texto as operações retóricas que cedem lugar a suposta base de argumentação, o conceito chave ou premissa”5. Ao introduzir a questão, Culler apresenta a desconstrução de maneira distinta como “posicionamento filosófico, estratégia política ou intelectual e modo de leitura”6.

Em relação a outras posturas da teoria de desconstrução, Joseph Hillis Miller funda sua conceituação na “consciência metódica do poder demolidor”, sobre o sentido gramatical, exercido tanto pelas figuras de linguagem quanto pela argumentação lógica. Por outro ângulo, Miller afirma que todo leitor é um “desconstrutivista” em potencial e o “poder demolidor” da leitura depende do conhecimento de cada leitor das figuras de linguagem e do uso retórico desse conhecimento elaborado pelo leitor, capazes ambos de gerar novos sentidos aos textos lidos. Porém, alerta que a desconstrução não consiste em procedimento que o

3

DERRIDA, Jacques. Of grammatology. Trad. Gayatri Spivak. London: Johns Hopkins University Press, 1976, p. 158-243.

4

VANHOOZER, Kevin. Há um significado neste texto? Trad. Álvaro Hattnher. São Paulo: Vida, 2005, p. 133-135.

5

leitor possa efetuar sozinho diante do texto, definindo-se em operação que o texto faz a si próprio e possibilitando ao leitor o reconhecimento de duas ou mais leituras “defensáveis”, “justificáveis”, mas “logicamente incompatíveis”7.

Um aspecto cultural da Pós-Modernidade enfatiza a presença do heterogêneo, da intertextualidade, das operações interdisciplinares. Trata-se de cultura aberta à releitura transformadora de discursos já estabelecidos pela tradição ocidental. E uma forma dessa releitura utilizada pela desconstrução manifesta-se pela paródia: discurso de inversão ou, como classifica Fontanier, figura de construção por revolução8.

Sob outra óptica, Linda Hutcheon lembra que a paródia não destrói o passado, mas o “sacraliza” e o ridiculariza em simultâneo9. Logo, ao questionar de forma ambivalente o texto de origem, o processo de descontrução paródica da fábula clássica termina por legitimar o passado quando lança mão de uma espécie literária milenar e, em paralelo, quando o dessacraliza pela atitude de implodir os padrões da narração tradicional e inverter os cânones da moralidade.

Nesse norte, retoma-se a fábula clássica desconstruída em seu modelo narrativo na busca de categorizar o corpus, privilegiando-se o fabulário de quatro escritores brasileiros cuja produção, publicada em livro, ocorre nos séculos XX e XXI: Christovam de Camargo (1935), Millôr Fernandes (1973) Eno Theodoro Wanke (1993) e Donaldo Schüler (2004).

6

Ibidem, p. 79.

7

MILLER, Joseph Hillis. “As duas retóricas: o bestiário de George Eliot”. In: A ética da leitura. Trad. Eliane Fittipaldi. Rio de Janeiro: Imago, 1995, p. 133-134. Miller acresce a essas considerações sobre a leitura algumas reflexões a respeito da escritura, concluindo que ambas envolvem “o verdadeiro conhecimento da alma humana e também da linguagem. Aqui a retórica como leitura ou conhecimento de tropos entra em jogo até para Platão. A discussão sobre retórica em Fedro apresenta um programa para os dois tipos de retórica – como escritura e como leitura” (Ibidem, p. 134).

8

“L’Inversion, que I’on appelle quelquefois Hyperbate, mais qui n’este qu’une des espèces don’t I’Hiperbate

este le genre, consiste dans un arrangement de mots renversé ou inverse, relativement à lórdre où les idées se succèdent dans I’analyse de la pensée” (FONTANIER, Pierre. Les figures du discours. Paris: Flammarion,

1977, p. 284).

9

HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo: história, teoria e ficção. Trad. Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991, p. 165.

O primeiro deles, Christovam de Camargo10, apresenta-se como um possível vanguardista na arte literária de desconstruir a fábula canônica, graças à publicação, na década de 1930, pela Companhia Editora Nacional, do Fabulário de vovô índio. Vale destacar alguns ângulos da edição da obra: o prefácio, onde o escritor Luiz Edmundo aponta a circunstância, observada durante a leitura, de o texto não apresentar vínculo direto com as possíveis fábulas de origem indígena; e a figura do vovô índio11, podendo servir de símbolo dos velhos contadores de histórias. E a ilustração de Israel Cysneiros, em leitura sem compromisso maior com técnicas de desenho, caracteriza-se por uma estrutura bipolar, um quadro temático que antecede o conto e uma espécie de iluminura que encerra a narrativa, ambos realizados no estilo bico-de-pena e ambientados no espaço físico e social do interior brasileiro.

Congregando 41 narrativas, a obra é apresentada na condição de uma coletânea de fábulas de ambiente urbano, com a missão de fazer as creanças rir e sonhar e, em paralelo, de obrigar a gente grande a puxar pelo bestunto12. O texto lança mão de dois mecanismos de desconstrução, a sátira, utilizada nas fábulas não-presentes nos modelos canônicos, e a paródia, que inverte a matéria da narração e o conteúdo da moral clássica.

10

Chistovam de Camargo, escritor quase desconhecido pela historiografia e crítica, publicou 13 obras, entre as quais Contos impossíveis, histórias de homens e bichos e Novas fábulas, conforme referências constantes na contracapa do livro Fabulário de vovô índio. Apesar de não ter localizado a obra Novas fábulas, é possível pensá-la, a partir do título, alinhada também à leitura de desconstrução.

11

O título vovô índio expressa, provavelmente, a acolhida do autor a iniciativa fracassada do governo de Getúlio Vargas que, no ímpeto de nacionalização da cultura, intentou substituir a figura tradicional do “Papai Noel” pela imagem de um “bom velhinho” brasileiro, alcunhado de “vovô índio”. A citação as festividades natalinas são explicitadas na apresentação feita pelo autor à obra, quando comenta: “Vovô Índio está servindo para muita coisa. Não queiram ver nesse bugre, prestimoso e amigo, um simples estafeta, encarregado da distribuição de brinquedos, pelo natal [...]. Na sua ronda de fim de anno pelas cidades, procura também Vovô Índio observar o homem e os bichos que se fizeram seus companheiros naturaes [...]. Explicam-se assim as fábulas de ambiente urbano, que mostram Vovô Índio, o homem da floresta, tão familiarizado com as nossas coisas” (CAMARGO, Christovam de. Fabulário de vovô índio. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1935, p. 7).

12

No primeiro caso, a sátira ganha ênfase em O leão e o prego13, quando a

narrativa faz referência satírica ao ministro da Educação, Washington Pires; e em O

cavallo e o cocheiro, quando o fabulista encerra a narração com uma advertência

moralizante inusitada: Aviso aos “cultores da linha”, que deixam de alimentar-se,

para emmagrecer...14.

A outra forma de desconstrução utilizada pelo escritor assenta-se na ocorrência da inversão ora do corpo da fábula padrão, por exemplo, em O corvo e a raposa, ora no corpo e na alma, servindo para ilustrar tal procedimento a clássica fábula de A

cigarra e a formiga.

Nesse corte, em O corvo e a raposa, em contrapartida ao modelo clássico, no decorrer da narração o corvo não se deixa enganar pelos elogios da raposa, pois

achou que aquillo já era deboche. Na seqüência, coloca cuidadosamente o queijo em baixo da asa e profere uns palavrões de arrepiar. Em La Fontaine, como na tradição

dos modelos narrativos greco-latinos, o comportamento da raposa segue a mesma linha de sedução e o ethos do corvo reproduz o papel de vítima do logro. Assim Dom

Corvão, confuso e vexado, jurou não mais ser logrado. Em contraposição, a fábula

de Camargo inverte o ethos da personagem, pois o corvo esperto foge do poder sedutor da raposa astuciosa que, muito encalistrada com aquelle insucesso, metteu a

viola no saco, o rabo entre as pernas e caiu no Mangue. Dahi por deante, sempre que ouve falar no tal de La Fontaine, fica que só vendo15. Tal mecanismo de inversão

repete-se, no plano da linguagem, no uso de expressões de cunho popular em texto de narrativa concisa e modelar.

13

Na fábula em tela, um leão é convidado a visitar a capital de um país, uma cidade maravilhosa. A

commissão de recepção e festejos tudo faz para proporcionar ao real itinerante uma inolvidável temporada de prazeres, que o deixasse propenso a concessões e facilitasse a assignatura de tratados vantajosos para os

anfitriões. Porém, a comissão esforça-se para desviá-lo do Jardim Zoológico, onde provavelmente encontraria

o leão motivos para descrer da apregoada amizade dos homens. E cautelosamente evitava que lhe fosse apresentado, entre outros, o Sr. Washington Pires, ministro da Educação, de medo que esse notável pedagogo começasse a tratá-lo de real batrachio, crustáceo illustre ou eminente protozoário. No mesmo

texto, o fabulista satiriza os estudos camonianos de Afrânio Peixoto, o estilo literário de Tristão de Athayde e a indicação de ministro interino para Cavalcanti de Lacerda (CAMARGO, op. cit., p. 53).

14

Ibidem, p. 152.

15

Lida e “deslida” por Christovam de Camargo, a tradicional e popular A cigarra

e a formiga mostra-se desfigurada pelo alongamento da narração e pelos acréscimos

ao texto original, a partir de processos descritivos atinentes a cenários de paisagem regional, diálogos sobre temas atuais e personagens de perfil inusitado. Do narrar padrão, mantém-se o confronto entre as personagens, todavia, com a inversão de seus papéis e, assim, por conseqüência, a história e a moral permanecem, ainda que delineadas às avessas:

A cigarra vivia cantando na alegria doirada do sol. Bulhenta, espevitada, luminosa, pondo na vista as scintillações das suas asas e no ouvido as estridências festivas da sua matraca triunphal, era o deleite, a vida, a alma daquelle bosque.

Vivia cantando, no deslumbramento de uma bohemía feliz, vivia cantando a doçura da vida e a belleza das coisas, alheia a cuidados, soffrimentos e tristezas. Poeta embriagado de luz e de aromas, assim vivia a cigarra, despreocupada, risonha e inútil. A formiga escandalizava-se.

– Isto é uma pouca vergonha, não haverá por ahi uma polícia de costumes? Enquanto vivo trabalhando como um negro, essa vadia – só na maciota! Depois, na hora do aperto, já se sabe quem é mordida... Mas, d. Cigarra, não está cansada de martyrizar-nos os tympanos?

– Quem canta, seus males espanta!

– Isso é velho, já não pega mais. A senhora o que não quer é crear juízo!

– Nasci para cantar!

– Não há dúvida! Aposto que pensa ser assim uma espécie de Bidu Sayão...

– Quem tem uma voz como eu tenho!...

– Ainda si fosse a Buenos Aires, cantar para alguma fábrica de pomadas, vá lá, sempre entrariam uns cobres. Mas assim, a toa, sem nunca arranjar nem um contractozinho para figurar num programma de rádio!

– Não faço questão de dinheiro!

– Já sei, já sei, mas uma coisa lhe afianço, é que commigo não há de contar!

– Fique sossegada, minha velha, não preciso! – Ora, vivo tão bem!

– Pois sim, mas eu é que não trocava a minha vida pela sua. Que tem arranjado, com toda essa cantoria? Nada, absolutamente nada! E veja só o que se dá commigo. Trabalho, não há dúvida, mas que casa farta, a minha! Agora mesmo, acabei de levantar um puxado, para ir accumulando mercadorias...

– Bobagem? Então, a fazer pouco no meu trabalho, hein! Atrevida! Deixe estar, quando chegar o inverno, ahi é que serão ellas!

A cigarra deu uma gargalhada.

– Isso é literatura, minha velha, resultado de andar com o La Fontaine a mesa de cabeceira... Então você já viu inverno no Rio?

– Quando vier a minha porta, lá pela estação fria, perguntar-lhe- ei o que fazia durante o verão...

– Responder-lhe-ei que cantava! – Eu então...

– Já sei, já sei, dirá: “cantava? Pois agora trate de dansar!” Ora, isso é plágio. Você demonstra, não há dúvida, apreciável erudição, mas anda fora da moda e no mundo da lua. Na Europa, vá lá que as formigas sejam insolentes e as cigarras morram de fome, mas no Brasil, com esta luz, este sol, esta primavera ininterrupta! Isto aqui é de quem mais canta, e o trabalho, entre nós, foi feito para os trouxas.

– É o que havemos de ver...

– Você então não sabe que estamos numa terra de funccionários públicos? Como elles não podem cantar, sempre que alguém os procura na repartição saíram para tomar café ou jogar no bicho. E, apesar de serem muito mais inúteis do que eu, que, afinal de contas, sempre alegro os bosques, levam vida folgada e milagrosa e nunca lhes faltam alguns tostões no bolso.

– Quem não trabalha não tem direito a comer!

– Isso foi antigamente, amiguinha, hoje, não. Quem trabalha produz, e quem produz nada mais faz do que contribuir para o desequilíbrio da vida. A sociedade precisa pouquíssimo de quem produza. Atrás de quem consuma é que anda todo o mundo de lanterna accesa...

A formiga achou que já havia perdido demasiado o tempo dando trela aquella vadia e partiu apressada para o trabalho, no qual mergulhou com a seriedade e méthodo que todos lhe conhecem. Chegou dezembro e reuniu-se o governo dos bichos, para levantar a estatística das actividades do anno e tomar, para o exercício seguinte, as medidas asseguradoras da prosperidade pública.

Apresentou-se a formiga, esse grande elemento de abastança e fartura do reino, a receber a recompensa devida ao seu labor incessante e profícuo. Não poderiam os poderes públicos deixar de cumulá-la de honrarias. Uma cadeira de deputado... que sonho! E, quem sabe, não a havia merecido?O que ella queria era ver a cara da cigarra, quando a estigmatizassem pela sua vadiagem impenitente, a apontassem à execração publica por aquela mentalidade parasitária, que era a vergonha, tristeza e dor da nobre estirpe dos insectos.

Como secretário geral do governo, lia o macaco o relatório da vida nacional no anno a findar-se. Mostrava-se a formiga séria e concentrada, como convinha a um bicho da sua envergadura

moral. A cigarra fazia de vez em quando uma observação irônica.

O macaco ia lendo: “A crise, que no anno passado já se esboçara, devida ao excesso verificado na producção, accentuou se este anno de maneira impressionante. Viu se o mercado abarrotado de coisas, as quaes, nas circunstâncias em que nos encontramos, só por um gracejo de mau gosto podem ser chamadas ‘utilidades’, tendo sido impossível encontrar nas praças do exterior collocação para um apavorante saldo de mercadorias. As perspectivas para o anno vindouro são verdadeiramente aterradoras.

Faltaria o governo ao seu dever, si deixasse de profligar, como ora o faz, o espírito ganancioso, anti-patriótico e anti-social de certas empresas e indivíduos altamente perniciosos: com um alarmante alheamento das condições em que vivemos, há quem se obstine nas fainas de uma super produção dannosa, da qual decorrem a baixa geral dos productos, o abandono dos campos, o ‘chômage’, a ruína das indústrias e a miséria pública.

Entre esses maus cidadãos, cumpre destacar, para a censura de todos, a formiga, factor de desaggregação, fermento de revoluções, o architecto máximo da nossa ruína econômica!” - Morte a formiga, morte a formiga! – berraram os animaes. Restabelecida a calma, continuou o secretário: “O governo vê se na obrigação de controlar, doravante, as suas criminosas actividades e, como único meio de minorar os terríveis effeitos da crise que nos assoberba, decreta immediata incineração de quatro quintos das mercadorias existentes nos seus entrepostos. Espera a alta administração do país, com essa medida radical, desafogar o mercado e conseguir o levantamento dos preços. Não quer o governo terminar a sua mensagem ao povo com um anáthema. Assim, aponta a consideração de todos esses modelos de virtudes públicas – a cigarra – com uma compreensão nítida das difficuldades da hora que passa, o admirável insecto cruzou os braços, renunmciando a contribuir, com um trabalho nefasto, ao aggravamento dos nossos males. Não só não produziu, como levou a sua abnegação patriótica ao ponto de subtrahir aqui e ali, para seu consumo, no nobilíssimo intuito de argumentar o bem estar geral, o que mais facilmente lhe vinha as mãos, fazendo quanto nella estava para que os nossos productos não baixassem a uma absoluta desvalorização.

Honra, pois, à cigarra, luzeiro, espelho e guia dos patriotas!”16.

Ao se aproximar os dois textos17, salta à vista as dessemelhanças entre eles, a começar pelo conjunto da organização espacial de ambos. Em vista disso, examinam- se, a seguir, as particularidades de acréscimo e inversão.

16

Os acréscimos à narrativa clássica, classificados também de figuras de amplificação18, são aqui assinalados por procedimentos variados, entre os quais se destacam a citação de versículo bíblico (Quem não trabalha não tem direito a

comer!); o comparecimento de provérbio (Quem canta, seus males espanta!); o uso

de descrição poética do comportamento boêmio da cigarra (Poeta embriagado de luz

e de aromas, assim vivia a cigarra, despreocupada, risonha e inútil); a fala plena de

censura e ironia da formiga (Isto é uma pouca vergonha, não haverá por ahi uma

polícia de costumes?); a repetição de dito popular expresso por comparação

metafórica de associação preconceituosa (vivo trabalhando como um negro); a estratégia de citar o autor do texto original, contextualizando-o, com humor (Isso é

literatura, minha velha, resultado de andar com o La Fontaine a mesa de cabeceira);

o processo intertextual de acentuar a polarização das personagens no diálogo, a cigarra destinada às atividades artísticas e a formiga ao trabalho utilitário (Ainda si

fosse a Buenos Aires, cantar para alguma fábrica de pomadas, vá lá, sempre entrariam uns cobres. Mas assim, a toa, sem nunca arranjar nem um contractozinho para figurar num programma de rádio!); a crítica satírica à administração pública na

pessoa de seus funcionários (Você então não sabe que estamos numa terra de

funccionários públicos? Como elles não podem cantar, sempre que alguém os procura na repartição saíram para tomar café ou jogar no bicho. E, apesar de serem muito mais inúteis do que eu, que, afinal de contas, sempre alegro os bosques, levam vida folgada e milagrosa e nunca lhes faltam alguns tostões no bolso); a presença de

atividade político-administrativa ausente no texto parodiado (Chegou dezembro e

reuniu-se o governo dos bichos, para levantar a estatística das actividades do anno e tomar, para o exercício seguinte, as medidas asseguradoras da prosperidade

17

O modelo original da fábula de Camargo, a narrativa de Esopo, consta da página 76 deste trabalho, quando se aborda a categoria de adaptação.

18

Ao abordar os tipos de alteração sofrida pelo texto no decurso do processo intertextual, Laurent Jenny cita a figura retórica da amplificação, apresentada como “transformação dum texto original por desenvolvimento das suas virtualidades semânticas” (JENNY, op. cit., p. 39).

pública); a contraposição de comportamento, cigarra irônica e formiga sisuda,

estabelecida no decorrer da leitura feita pelo macaco sobre o balanço econômico da