5. Evaluer l’impact de la pêche dans le Golfe de Gabès : quels indicateurs choisir ?
5.4. Quel indicateur pour le golfe de Gabès ?
Fig. 48. Fotografia de performance Sitting/Swaying: Event for Rock Suspension, Stelarc, 1980.
A crescente importância do inconsciente torna-se uma metáfora que compara a nossa psique a um icebergue: este apenas tem uma pequena parte visível, encontrando-se a restante submersa. Segundo Gustav Teodor Fechner (1801-1887), psicólogo alemão, a parte visível, cerca de um oitavo, corresponde à nossa consciência, e aquela que não conseguimos ver, os restantes sete oitavos, corresponde ao nosso inconsciente. Esta afirmação parece, no entanto, não ter uma correspondência exata com as ideias de Fechner ou de Freud. Segundo as nossas investigações é difícil encontrar onde tal afirmação surge nas suas obras. Sabe- se, apenas, que de acordo com Ernest Jones, no primeiro volume da sua biografia de Freud surge escrito que Fechner “(…) likened the mind to an iceberg which is nine-tenths under
the water”357.
As informações e as pesquisas sobre o inconsciente sucederam-se e ampliaram-se muito durante os séculos XVIII e XIX. É já no final do século XIX que um filósofo alemão, de seu nome Eduard von Hartmann, se encarrega de reunir num único livro, Filosofia do
Inconsciente, todos os conhecimentos que na altura existiam sobre este assunto358. “Le 357 Fechner, G. T., apud Jones, Ernst, Elemente der Psychophysik, 1860, Bd. II. S. 521. e Jones, Ernst, Sigmund
Freud: Life and Work, vol. 1, Hogarth Press 1953, p. 410. No entanto, parece que foi encotrada uma referência
anterior que se refere à teoria do icebergue e que remete para uma citação de um desconhecido, Gilbert Murray, que data de outubro de 1900. O artigo de Gilbert Murray foi publicado no mesmo ano de A Interpretação dos
Sonhos de Sigmund Freud e cita o filósofo alemão que terá falecido em 1840, o que a torna a sua referência a
mais antiga que se consegue encontrar.
http://ttlg.com/Forums/showthread.php?t=132448 e https://www.mail-archive.com/[email protected]. edu/msg17378.html consultados em 25 de janeiro de 2016.
358 O livro Filosofia do Inconsciente de Eduard von Hartmann, surgiu em 1869 e iria influenciar o trabalho de Freud e de Jung na construção das suas teorias acerca do inconsciente. Hartmann analisa o trabalho de vários filósofos alemães e discute de forma inclusiva as ideias dos Vedas indianos, bem como recolhe um grande número de dados sobre a perceção, a associação de ideias, a inteligência, a vida emocional, o instinto, os traços de personalidade, o destino individual, e o papel do inconsciente no desenvolvimento da linguagem, da religião, da história e da vida social. Nesse livro, ainda, o autor refere-se ao que Jakob Böhme, Friedrich von Schelling e Arthur Schopenhauer apelidaram de “vontade” como sendo o inconsciente. Ali podemos perceber uma tentativa de reconciliar Schopenhauer, Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Gottfried Wilhelm Leibniz, e outros filósofos a partir dos quais ele argumenta que o Inconsciente Absoluto é tanto a vontade como a ideia
système de von Hartmann (…) est avant tout, spéculation métaphysique.”359
De certa forma esta coleção de dados exaustiva e enciclopédica significa o fim de uma época e de uma forma de abordar o inconsciente. Consistindo numa tentativa de fixar todo o conhecimento e todas as perspetivas sobre este aspeto da nossa psique, é a sua própria extensão que a fragiliza e que em simultâneo lhe traz valor, como assinalamos:
Fig. 49.
Fotografia de performance Cleaning the Mirror, Marina Abramovic, 1995. “Hartmann ascribed a number of specific functions to the Unconscious (vol. 2, pp. 38-39): 1. The Unconscious forms and preserves the organism, repairs its inner and outer injuries, appropriately guides its movements, and mediates its employment by the conscious will. 2. The Unconscious supplies every being in its instinct with what it needs for self-preservation, and for which its conscious thought does not suffice.
3. The Unconscious preserves the species through sexual and maternal love and conducts the human race historically steadily to the goal of its greatest possible perfection.
4. The Unconscious often guides men in their actions by hints and feelings, where they could not help themselves by conscious thought.
5. The Unconscious furthers the conscious process of thought by its inspirations, and in mysticism guides mankind to the presentiment of higher, supersensible unities.
6. It makes men happy through the feeling for the beautiful and artistic production.”360361 que, respetivamente, influenciam a existência do mundo e a sua natureza ordenada. A vontade apareceria no sofrimento e a ideia na ordem e na consciência das coisas.
359 Hartmann, Eduard von, apud Filloux, Jean-Claude, op. cit., Paris, 2009, p. 11. 360 Kihlstrom, John F., loc. cit.,1993-2007, p. 11.
361 “Hartmann atribuiu um número de funções específicas ao inconsciente (vol. 2, pp. 38-39):
1. O Inconsciente dá forma e preserva o organismo, repara as suas lesões internas e externas, orienta adequadamente os seus movimentos, e medeia o seu emprego e utilização através da vontade consciente.
2. O Inconsciente fornece a cada ser as fontes necessárias, através do instinto, com o que ele precisa para a autopreservação, e para o qual o seu pensamento consciente não é suficiente.
3. O Inconsciente preserva a espécie através do amor sexual e do amor maternal e conduz a raça humana histórica e continuamente para a sua meta que é atingir a maior perfeição possível.
4. O Inconsciente muitas vezes orienta os homens em suas ações com pressentimentos e sentimentos, exatamente onde eles não se podem ajudar a si mesmos através do pensamento consciente.
Assim, a análise pré-freudiana da vida mental partindo das tentativas sucessivas de compreensão do inconsciente, procurando desenhá-lo e definir a sua estrutura, atingiu o seu limite com Eduard von Hartmann e a sua mencionada obra Filosofia do Inconsciente. Um dado curioso é que este trabalho foi extremamente popular. Os seus três volumes tornaram- se extremamente procurados, o que nos dá conta do interesse geral por estas matérias362, e
foi traduzida para inglês e francês.
Para Hartmann, o universo era governado pelo Inconsciente363. “Il s’agit d’une sorte de panthéisme hégélien où l’Inconscient représente l’âme universelle, l’Un Tout qui apporte au sein de la nature une logique immanente.”364 Uma e outra vez, Hartmann apresenta o
inconsciente como algo que está em todo o Universo e em toda a matéria. Funciona como elemento agregador, como se todas as coisas tivessem uma dimensão de participação numa ordem universal das coisas. O que o distingue é um aspeto extrassensível que lhe está associado − algo que o aproxima de um cariz religioso ou animista, ou de uma energia. A questão da energia, como já vimos, é muito relevante para uma das possíveis definições do inconsciente enquanto algo tangível. É essa necessidade de o tornar palpável que o aproxima e o relaciona também com o corpo.
Fig. 50. À esquerda: fotografia de Eduard von Hartmann, s.d.; à direita: fotografia de capa do livro Philosophy of the Unconscious, Eduard von Hartmann, 1884.
5. O Inconsciente promove o processo consciente do pensamento através das suas inspirações, e do misticismo, orientando a humanidade para o pressentimento da existência de entidades superiores suprassensíveis.
6. Ele faz os homens felizes através dos sentimentos proporcionados pela fruição da beleza e das coisas artísticas” (trad. nossa).
362 Tendo tido um total de 12 edições (nove delas na Alemanha), sendo que a última foi publicada já em 1923. 363 A letra maiúscula inicial na palavra Inconsciente é da sua responsabilidade e atesta o valor e a importância dada pelo autor a este aspeto da nossa psique.
Segundo Hartmann, o Inconsciente consistia numa força dinâmica altamente inteligente composta por três camadas: o “Inconsciente Absoluto, no qual estava representada a
mecânica do universo físico; o Inconsciente Fisiológico, subjacente à origem, à evolução, ao desenvolvimento e aos mecanismos da vida; e o Inconsciente Relativo”365, que Hartmann
considerava ser a origem da vida mental consciente. “(…) Il est établi que non seulement
l’inconscient intervient dans les processus de la vie organique, mais encore que l’activité consciente de la pensée repose nécessairement sur une activité inconsciente.”366
O “Inconsciente Relativo” de Hartmann é o que tem maior aceitação e utilização por parte dos investigadores atuais. John Kihlstrom367, Professor do Departamento de Psicologia da
Universidade de Berkeley, Califórnia, que prefere chamar-lhe “inconsciente psicológico”, associa este conceito aos estados mentais e processos que influenciam as nossas experiências, o pensamento e a ação fora da esfera da consciência e dos fenómenos que nos rodeiam, e que são independentes dos mecanismos de controlo voluntário. “Hartmann a eu, en effet,
le mérite de distinguer clairement l’inconscient dans la vie corporelle et l’inconscient dans l’esprit humain”368. É esta separação e a consequente relação com o corpo que nos concerne.
A conexão destes dois aspetos, corpo e inconsciente, surge em vários autores, como, por exemplo, em Arthur Schopenhauer e Friedrich Nietzsche, ou nos investigadores ligados à psicologia experimental Johann Friedrich Herbart, Hermann Helmholtz, Gustav Fechner, ou, ainda, nos pioneiros dos tratamentos terapêuticos a partir deste mesmo inconsciente, como sejam Pierre Janet, Sigmund Freud, Carl Gustav Jung ou Alfred Adler. Mas em Hartmann é estabelecida uma associação direta. Este espaço é relevante para perceber as ligações que se estabeleceram com as artes e, nomeadamente, com o eclodir da performance enquanto expressão deste inconsciente ligado ao corpo. “(…) L’organisme, en effet, est inexplicable
comme simple mécanisme; il y a un psychisme de l’organisme, et c’est l’inconscient.”369.
Sublinhe-se a sugestão de que o organismo pode ser considerado como uma simples montagem de partes funcionais, uma tentação para dividir e separar partes do organismo dito corpo − a vida do espírito e a vida do corpo. A analogia com um mecanismo é também sinónimo de uma época enfeitiçada pela descoberta e visão das máquinas e do seu poder de transformação. Aqui o corpo é entendido como um mecanismo que suporta algo superior e mais elevado − o espírito (ou a mente), ou mesmo a alma. A sobreposição do corpo, do inconsciente e da alma vão assim no mesmo sentido de uma visão dualista. Apenas a desmultiplicam sucessivamente onde surge esta associação do corpo como um veículo da alma. Esta é uma visão que idealizava e propunha uma separação entre corpo e mente e que atribuía ao corpo uma função mecânica. Hartmann segue na mesma linha, apesar de
365 Idem. 366 Idem.
367 Não nos foi possível encontrar dados referentes ao nascimento do autor. 368 Idem.
considerar e de dar importância ao inconsciente e de lhe atribuir um espaço e uma função própria e importante.
Ora, é nesse espaço que se insinua a construção de sentidos simbólicos a partir do corpo e das suas ligações ao universo e à alma como parte desse todo. “L’instinct, de même, présente
une finalité inconsciente; il est une activité qui poursuit un but sans en avoir conscience.”370
Todavia, e mais uma vez, a questão da falta de consciência do inconsciente é sublinhada e é-lhe atribuída uma qualidade negativa.
Deve-se ao trabalho enciclopédico de Hartmann a noção muito comum, que ainda hoje é fundamental, de que o uso do inconsciente demonstra capacidades e poderes superiores aos disponíveis pela consciência vulgar. Veja-se, por exemplo, como o autor atribui a necessidade de um organismo se alimentar a ações e mecanismos que estão para além da nossa consciência ativa. Ou seja, os sinais que nos dizem que temos fome e que temos necessidade de comer e de alimentar o organismo são parte integrante do instinto e por isso, segundo Hartmann, do inconsciente.
“La nutrition demande également l’action dirigeant d’un principe psychique: ʻPuisque, dit Hartmann, aucune explication matérialiste ne peut rendre compte de ce changement si intelligent, il faut bien le rapporter à l’intervention intelligente d’une volonté intelligente.”371
As novas ciências cognitivas têm também procurado contrariar a noção de que todas as atividades do organismo dependem em absoluto da consciência. Têm procurado corrigir algumas destas noções, mas que de alguma forma se mantêm como uma das suas mais relevantes descobertas. Ou, de certo modo, poderá dizer-se que há um reaproveitar de algumas das ideias que Hartmann defendia já na sua época. “(…) D’autre part, l’inconscient gouverne
les sentiments: l’amour est un vouloir poursuivant un but sans conscience, le plaisir l’écho des satisfactions ou des contrariétés d’une volonté qui s’ignore.”372 O amor é aqui dado como
um querer e uma finalidade da qual não temos consciência. Assim como o prazer é definido como um eco de uma vontade que se ignora e da qual não temos também consciência. Um dos exemplos que as ciências cognitivas nos dão que se assemelha a estas teorias e ideias de von Hartmann é a descrição do conjunto de processos que ocorrem abaixo do nível da consciência quando estamos envolvidos num processo de conversação. No nosso entender é de sublinhar as componentes performativas que também surgem associadas a este processo. O intricado relacionamento que se opera entre a consciência exterior e uma divisão interna e que procura aceder a essa superfície tem uma componente física e performativa que simboliza a constante necessidade de procurar sentidos para a posição relativa do corpo no mundo. Principalmente, e de forma mais notável, estas pulsões tornam-
370 Idem.
371 Ibidem, pp. 11-12. 372 Ibidem, p. 12.
se visíveis quando estão envolvidos outros. Quando o processo de subjetivação é posto em andamento na superfície do real.
Vejamos a descrição do conjunto vasto de operações que realizamos no mais banal ato de estar em relação com um outro através de uma conversa qualquer:
“Accessing memories relevant to what is being said;
Comprehending a stream of sound as being language, dividing it into distinctive phonetic features and segments, identifying phonemes, and grouping them into morphemes;
Assigning a structure to the sentence in accord with the vast number of grammatical constructions in your native language; Picking out words and giving them meanings appropriate to context; Making semantic and pragmatic sense of the sentences as a whole; Framing what is said in terms relevant to the discussion; Performing inferences relevant to what is being discussed; Constructing mental images where relevant and inspecting them; Filling in gaps in the discourse; Noticing and interpreting your interlocutor’s body language; Anticipating where conversation is going;
Planning what to say in response (…).”373
A compreensão deste número extenso de operações e a capacidade de as colocar em processo operando-as é feito em níveis que se encontram afastados da consciência. E também já Hartmann nos colocava perante esta possibilidade seguindo as ideias dos seus antecessores metafísicos.
“Reprenant Schopenhauer, Hartmann explique comment il nous arrive souvent d’éprouver du plaisir à faire des actions que nous condamnerions à l’avance, et pour lesquelles nous croyons avoir de l’antipathie. Cela n’indique-t-il pas clairement que notre volonté poursuivait au fond d’autres fins que celles que notre conscience lui prêtait?”374
A relação entre o prazer e a função, entre a obrigação e o desejo, entre o cumprimento de regras e a vontade do corpo, nem sempre estão concordantes.
Recordemos as linhas de Hamlet, que trazem para a vida uma necessidade de escape constante, algo que se situe entre o dormir e o sonhar, que permita escapar ao sofrimento de cada decisão de cada momento da vida. Ser ou não ser, viver uma vida de sofrimento ou escapar para dentro do sonho ou da morte. Esta angústia permanente que se joga entre o corpo e a mente. Um corpo que sente e que impõe essas forças emocionais e uma mente que procura evitar e esquecer o mundo. A tensão entre a necessidade de abrir o interior e o fundo ao mundo e uma vontade de resistir e de fechar que contraria essa vontade de deixar entrar a luz. Estas tensões são já preocupações centrais da personagem “hamletiana” que antecipa o que se chama o homem moderno. E que sem dúvida herdámos e nos empurraram
373 Lakoff, G., e Johnson, M., op. cit., 1999, p. 21. 374 Filloux, Jean-Claude, op. cit., 2009, p. 12.
até aos dias de hoje.
“To be, or not to be – that is the question: Whether ‘tis nobler in the mind to suffer The slings and arrows of outrageous fortune Or to take arms against a sea of troubles, And by opposing end them. To die – to sleep – No more; and by a sleep to say we end
The heartache, and the thousand natural shocks That flesh is heir to. ‘Tis a consummation Devoutly to be wish’ d. To die – to sleep.
To sleep – perchance to dream: ay, there’s the rub! For in that sleep of death what dreams may come, When we have shuffled off this mortal coil, Must give us pause. There’s the respect That makes calamity of so long life.”375
Começará a ser possível estabelecer a ligação do inconsciente a uma dimensão performativa na relação direta com os mecanismos que o corpo mantém vigilantes e em operação, mesmo quando não damos conta deles? Necessitará o corpo de um constante equilíbrio e manterá, por isso, uma tensão dialogante incessante consigo e com o fechamento do mundo?