desenvolvimento” através da introdução da silvicultura e do plantio de árvores exóticas, como o pinus, o eucalipto e a acácia.
3.4 O Novo Modelo de “Desenvolvimento” para a Metade Sul: uma ameaça ao Pampa
A implantação de atividades de silvicultura como um novo “modelo de desenvolvimento” no RS vem se constituindo na mais recente ameaça ao Pampa Sul-rio-grandense. O plantio de extensas lavouras de árvores exóticas, como o pinus, o eucalipto e a acácia, está sendo desenvolvido por três grandes empresas – Estora Enso, Votorantin e Aracruz celulose – com o objetivo de exportar a pasta de celulose. Para Zarth; Gerhrdt (2009, p.282):
(...) a aproximação entre a Aracruz e a Votorantim Celulose e Papel, que originou em 2009 a Fibria e a ligação entre a Fibria e a empresa sueco-
finlandesa Stora Enso, sob o nome de Veracel, revelam a concentração de capital em curso e sua articulação internacional.
Na Argentina e Uruguai, onde esse processo já se desenvolve há mais tempo, estudos indicam que a monocultura destas árvores já tem demonstrado impactos ambientais negativos ao suprimir extensas áreas de vegetação campestre e diminuir a diversidade biológica local. No Pampa Sul-rio-grandense estes impactos não devem ser diferentes, já que, o sistema de plantio não vem obedecendo às restrições ambientais estabelecidas.
Esta problemática tem incitado diversas discussões sobre o “futuro” do Pampa, principalmente porque além de aspectos econômicos e ambientais envolve uma mudança drástica na paisagem pampeana e na própria identidade cultural do povo gaúcho que habita os campos. Apesar de se constituir em uma das alternativas de “desenvolvimento” proposta para a Metade Sul, o plantio de árvores exóticas em larga escala e sem seguir as restrições ambientais propostas, pode gerar conseqüências adversas, sejam elas econômicas, sociais ou ambientais.
Nesse sentido, Chomenko (2007, p. 6) destaca que
Os cultivos de Eucalyptus spp e Pinus spp em áreas inadequadas poderão conduzir a graves conflitos, que tenderão a ser cada vez mais acentuados, seja pelo uso de recursos escassos, seja pela posse da terra ou ainda pela própria perda da identidade cultural regional.
O plantio de árvores exóticas em grandes áreas torna-se uma ameaça a biodiversidade nativa considerando que a maioria das espécies mais vulneráveis não ocorre em todo o Pampa, ocupando apenas algumas áreas restritas de campo. A redução da disponibilidade de água na região e a salinização do solo também se constituem em possíveis impactos caso as atividades de silvicultura continuem a ser implantadas. A área abrangida pelo Pampa possui um balanço hídrico negativo em algumas épocas do ano, chegando a ocorrer períodos prolongados de estiagem. Com a silvicultura, os campos com predomínio de espécies gramíneas de raízes rasas podem sofrer com a alteração de sua cobertura vegetal, já que, os monocultivos florestais possuem raízes mais profundas que atingem o lençol freático com mais facilidade. A redução da água disponível poderá também afetar o desenvolvimento de outras culturas como o arroz, a soja ou o milho. Além destes impactos, os solos podem passar a apresentar maior acidez e redução na sua
fertilidade, incremento de erosão, em função da alteração da estrutura do solo e redução de permeabilidade da água (CHOMENKO, 2007).
A presença desses cultivos em ecossistemas campestres além de modificar a flora local acabará diminuindo ainda mais a vegetação nativa existente. Dessa forma, cabe lembrar que, segundo um levantamento recente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do MMA restam apenas cerca de 40% das áreas originalmente cobertas com vegetação natural no Pampa gaúcho (MADEIRA, 2007).
Segundo Madeira (2007) existe uma incoerência do ponto de vista da implantação de espécies exóticas e da conservação ambiental; por isso:
(...) é importante esclarecer que é incorreta a idéia de que a atividade da silvicultura, ao plantar árvores exóticas no pampa, é benéfica em termos de conservação ambiental porque promove o “florestamento” ou “reflorestamento” de áreas sem árvores. Uma floresta, diferentemente de uma lavoura de árvores exóticas, é um ecossistema natural, com diversidade de fauna e floras nativas. Além disso, o pampa típico não tem e nunca teve florestas. Trata-se de um bioma onde predominam ecossistemas de campo, sendo estes, uma de suas maiores riquezas. (MADEIRA, 2007, p. 9).
Até o momento muito tem se falado sobre os impactos ambientais em relação à monocultura de árvores exóticas no Pampa. Contudo, conforme destaca Verdum (2007) a intervenção e ruptura cultural que esta atividade pode gerar é um custo difícil de mensurar. O incremento de atividades econômicas com objetivos de crescimento desenvolvimentista, como é o caso da expansão da silvicultura no RS, ocorrendo em ritmo acelerado de expansão, alterando totalmente a fisionomia da paisagem local e substituindo atividades econômicas tradicionais poderá gerar uma ruptura cultural muito grande ao “expulsar” o homem do campo e modificar a paisagem com a qual este se identifica.
Igualmente, um aspecto pouco discutido, mas amplamente conhecido, e inclusive já sendo observado no RS, refere-se à expansão da invasão de espécies exóticas, que passam a ser consideradas como verdadeiras “pragas” junto a alguns setores de cultivos agrícolas, destacando-se caturritas, lebres e javalis, que encontram nestes novos nichos (os plantios de espécies arbóreas) ampla possibilidade de vida (CHOMENKO, 2007). Estes animais podem trazer problemas aos produtores rurais que possuem suas lavouras próximas a estas plantações, já que, estes animais destroem as plantações em busca de alimento.
A grande questão é porque implementar o monocultivo de árvores exóticas no Pampa, descaracterizando sua paisagem, gerando impactos adversos, se podem ser adotadas outras alternativas de desenvolvimento? Em que medida a silvicultura pode gerar a melhoria da qualidade de vida da população local, se poucos empregos serão gerados e se a concentração de terras e capital só tenderá ao aumento do êxodo rural e exclusão social na região?
Nesse sentido, alternativas de desenvolvimento mais coerentes com as especificidades locais poderiam ser adotadas. Tais alternativas poderiam contar com as riquezas naturais e culturais disponíveis no Pampa, sem com isso adotar “modelos de desenvolvimento” exógenos e que não garantem a conservação dos aspectos ambientais e a melhoria da qualidade de vida das populações locais.
O modelo da matriz produtiva do RS, segundo Chomenko (2007), é bastante diversificado e dependente do campo. Dessa forma, a preservação da paisagem pampeana necessita de alternativas econômicas que garantam a diversificação de culturas e, ao mesmo tempo, mantenham as atividades seculares desenvolvidas na região, como a agricultura familiar e a pecuária extensiva, que apesar de também causarem impactos, não alteram totalmente a configuração natural dos Campos Sulinos.
Picolli; Schnadelbach (2007, p. 25) ao abordarem alternativas produtivas sustentáveis para o Pampa argumentam que:
(...) O desenvolvimento de uma agricultura sustentável, que gere produção, trabalho e renda ao agricultor, mas respeitando o equilíbrio dos ecossistemas e primando pela conservação dos recursos naturais, é a verdadeira possibilidade de melhorar o nível de vida das populações pampeanas, sem colocar em risco a existência do próprio Pampa. Neste sentido, faz-se necessário construir um modelo de desenvolvimento onde, prioritariamente, seja respeitada a conformação tipicamente campestre deste ecossistema.
Além da manutenção das atividades tradicionais algumas alternativas econômicas têm sido desenvolvidas, garantindo e conciliando retornos econômicos à conservação da vida nativa do Pampa. Algumas destas atividades potencias para o desenvolvimento do RS são a agricultura orgânica, a agroecologia, a apicultura, a própria pecuária extensiva desenvolvida há séculos nos campos, entre outras. Além destas atividades o incentivo ao turismo no espaço rural e às diferentes tipologias de turismo de natureza devem estar entre as alternativas de desenvolvimento e complementação de renda das famílias no Pampa.
O valor histórico-cultural e ambiental da paisagem do Bioma Pampa e do Alto Camaquã é imensurável. Assim, as alternativas de desenvolvimento propostas para esta porção do estado do RS precisam estar de acordo com a manutenção e preservação da geo-bio-sociodiversidade. Nesse sentido, o Ecoturismo, por valorizar estas questões, é defendido aqui como uma dessas alternativas para o (des)envolvimento local e para a conservação da paisagem.
Atenção especial deve ser dada à proteção e conservação das especificidades produtivas e da composição natural da paisagem no Alto Camaquã, que inclui desde espécies da fauna e da flora ameaçadas até os conjuntos de afloramentos rochosos e geoformas que merecem ser protegidos por lei.