A.7 Conclusion and Future Work
2.1 Distributed Systems
2.4.1 Increasing and Decreasing Systems with a Static Communication Graph 20
de alta modernidade – Giddens interessou-se pelo tema das transformações da intimidade, tendo dedicado um livro a estudá-lo (1993). Mesmo sem abordar a questão dos blogs, esta obra foi de grande importância para o desenvolvimento da presente dissertação.
Estudando a modernidade, Giddens (1991) a define como sendo um modo de vida predominantemente europeu, surgido no final do Século XIV e XVII, o qual espalhou sua influência mundo afora. As mudanças provocadas por ela foram extensas e açambarcantes e aconteceram em um espaço de tempo muito curto historicamente. Uma maneira de pensar as transformações ou as descontinuidades que causou seria prestar atenção à velocidade e aos propósitos da mudança. As instituições modernas não podem
ser julgadas como se fossem uma continuidade do que já existia antes, pois muitas são realmente novas, como o Estado-nação, por exemplo.
Segundo Giddens, uma conseqüência importante da modernidade foi ter possibilitado a separação entre espaço e tempo, o que permitiu uma organização racional das práticas sociais, interferindo diretamente no modo de vida de milhares de pessoas e universalizando o passado como comum a todos.
A modernidade, conforme Giddens, realiza sobretudo o que ele entende por desencaixe. Os mecanismos de desencaixe afetam a vida cotidiana, numa interação dialética, na medida em que consistem em: Deslocamento das relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação através de extensões indefinidas de tempo-espaço. (...) Esta separação [tempo-espaço] permite desencaixar as instituições e este fenômeno serve para abrir múltiplas possibilidades de mudança, liberando das restrições dos hábitos e das práticas locais (1991, p.28-29).
Os meios de comunicação – como os transportes, ainda no século XIV; o telefone, no século XIX; ou a Internet, no século XX - cumprem o papel de facilitar sobremaneira os deslocamentos, e portanto, podem ser vistos como mecanismos de desencaixe. Isto invalida, ao menos em parte, a tese de que hoje em dia todos os indivíduos vivem num mundo de estranhos, pois nem mesmo a distância pode afetar as relações íntimas, já que as comunicações ligam todos no planeta.
Nesse sentido, Giddens (1991) argumenta que atualmente está acontecendo uma radicalização da modernidade e que em um mundo de modernidade radicalizada, a sociedade é constituída globalmente; ninguém é forasteiro e não se pode evitar o contato com os outros. No entanto, os elos sociais têm que ser construídos individualmente, pois não são mais herdados do passado, como tradicionalmente. O que ocorre é uma transformação genuína da própria natureza do pessoal. Esta transformação envolve o autoconhecimento e a predisposição favorável em relação ao outro. Segundo ele:
a confiança pessoal torna-se um projeto, a ser “trabalhado” pelas partes envolvidas, e requer a abertura do indivíduo para o outro. Onde ela não pode ser controlada por códigos normativos fixos, a confiança tem que ser ganha, e o meio de fazê-lo consiste em abertura e cordialidade demonstráveis.(1999, p.123)
partir da modernidade, quando não se tem mais as ancoragens proporcionadas pela comunidade ou laços de parentesco que ocorriam na sociedade tradicional. Na modernidade radicalizada, essas ancoragens vão ser proporcionadas em grande medida pelos sistemas técnicos (em especial os de comunicação), que chama de sistemas abstratos. Assim, lembra (1999, p.122): Com o desenvolvimento dos sistemas abstratos, a confiança em princípios impessoais, bem como em outros anônimos, torna-se indispensável à existência social. A confiança impessoalizada deste tipo é discrepante da confiança básica.
Esta impessoalidade que advém dos sistemas abstratos não é oposta à intimidade; existe um cruzamento entre elas, e muitas vezes depende-se dos mecanismos que são fornecidos por estes sistemas para manter ou ampliar relações que podem vir a se tornar íntimas. A confiança nestes sistemas muitas vezes depende de conhecimento técnico, que também proporciona segurança, mas difere daquela que é obtida através da confiança pessoal. Esta é construída através da mutualidade e de intimidade, conforme afirma o autor: a fé na integridade de um outro é uma fonte primordial de um sentimento de integridade e autenticidade do eu (1991, p.117). Esta confiança não necessariamente é perene, ou seja, ela pode ser rompida a qualquer momento e a intimidade também deixar de existir. Ela tem que ser construída todos os dias e depende, como já foi mencionado anteriormente, do autoconhecimento e também da auto-expressão. É preciso conhecer-se bem e saber expressar-se para evitar os mal entendidos, para assegurar a continuidade da confiança: Nas relações de intimidade do tipo moderno, a confiança é sempre ambivalente, e a possibilidade de rompimento está sempre mais ou menos presente (Giddens, 1991, p.144).
Assim, sem evocar esta necessidade de confiança no outro é impossível entender o que propõe Giddens (1993) com o conceito de democratização radical da vida pessoal para se referir à prática – própria à alta modernidade – da negociação nos relacionamentos, seja com o parceiro ou os pais, filhos e outros parentes, além dos amigos. Isto pressupõe o respeito pelas posições do outro, e a não-imposição de suas próprias posições, procurando-se manter a autonomia: No terreno da vida pessoal, autonomia significa a realização bem sucedida do projeto reflexivo do eu – a condição de se relacionar com outras pessoas de modo igualitário (Giddens,1993, p.206)
Para Giddens, a intimidade não implica em perder a personalidade, mas em conhecer a si mesmo e ao outro. Para conhecer as próprias características, os indivíduos podem ser autodidatas, ou apelar para ajuda externa. Um cruzamento entre intimidade e impessoalidade acontece quando se apela para o conhecimento técnico para fortalecer o autoconhecimento. Isto pode ser obtido através da contratação de pessoas especializadas, tais como psicólogos e psiquiatras, ou então adquirindo literatura sobre o assunto. Nesse sentido é que podemos atribuir também aos blogs a mesma função.
Com efeito, os blogs e as relações que se estabelecem a partir deles exprimem exemplarmente a radicalização da modernidade de que fala Giddens, bem como as mutações que ocorrem hoje na intimidade. Surfando na Internet à procura de conteúdos em sites ou blogs que possam ser esclarecedores para o autoconhecimento, ou escrevendo sobre as angústias que os assaltam, os indivíduos travam relações mais ou menos duráveis, que podem inclusive chegar ao estabelecimento de amizades sinceras e ao compartilhamento da intimidade.
As transformações ocorridas na intimidade derivam também do processo de autonomia do eu e da reflexividade. A autonomia do eu consiste em reconhecer a individualidade do homem moderno, o qual se torna mais importante do que o grupo em que está inserido. Este processo está ligado ao rompimento com a sociedade tradicional, em que não existe mais a verdade do grupo como um parâmetro norteador a seguir, e os indivíduos se tornam responsáveis por suas próprias escolhas. Isto os leva a se questionarem constantemente, visto estarem inseridos em um mundo repleto de informações, onde têm que fazer escolhas e refletir sobre elas “quase” o tempo todo, pois terão de suportar suas conseqüências.
Giddens (1993, p.215) denomina de política de estilo de vida operando no contexto da reflexividade institucional a política que coloca o indivíduo a pensar e a decidir aspectos de sua vida cotidiana, mas que não estão tradicionalmente inseridos na política tradicional, que acontecia em espaços pré-determinados, com representantes especificamente escolhidos.
A política de estilo de vida leva o indivíduo a construir uma ética particular, agora que ele ficou órfão da tradição e não tem mais como saber se as suas atitudes estão corretas e são pertinentes. Esta ética deixa de ser particular no momento em que
este indivíduo estabelece contato com os outros e percebe neles as mesmas angústias que podem levar às mesmas respostas.
Resumindo, o que importa sobretudo reter das análises de Giddens é o entendimento de que mesmo se as relações pessoais não estão mais ancoradas apenas ao lugar em que se vive, as relações íntimas podem ser mantidas à distância (...), e laços pessoais são continuamente atados com outros que nos eram anteriormente desconhecidos (1991, p.143). Isto pode acontecer ou por causa da facilidade dos meios de transporte ou da evolução imensamente rápida das comunicações, inclusive as desencadeadas pela CMC, como os blogs, por exemplo.