2005 Half-year report
3. Key data
3.4. Income statement
Marília Amorim, em seu estudo intitulado O pesquisador e seu outro: Bakhtin nas
Ciências Humanas, refere-se à Bakhtin como instaurador de discursividade, se levado em
consideração o princípio de que “é instaurador de discursividade todo aquele cuja obra permite que outros pensem algo diferente dele”. Nessa perspectiva, as indicações fornecidas pela obra bakhtiniana acerca da ideia de dialogismo ou polifonia, construída no campo da teoria literária e da filosofia da linguagem, sinalizam a problemática das Ciências Humanas, quanto ao método, seu rigor, sua cientificidade ou suas condições de possibilidade, a fim de incluir a questão da
alteridade, haja vista que, segundo a autora, é em torno dessa questão que se organiza a
produção de conhecimentos.
Apesar do monologismo aparente no trabalho de pesquisa, “não há trabalho de campo que não vise ao encontro com o outro, que não busque um interlocutor. Também não há escrita de pesquisa que não se coloque o problema do lugar da palavra do outro no texto”. (AMORIM, 2001, p. 16). Diante disso, é possível inferir a inexistência de um monologismo absoluto ou dialogismo absoluto, sendo o dialogismo, no texto em questão, “uma proposta de análise, uma via de investigação, uma maneira de interrogar e não um método de pesquisa ou um modelo de escrita” (Idem, Ibidem), sendo aqueles que compõem junto ao autor um diálogo permanente, por oposição ou acordo, atravessam e constituem sua tensão de base.
De acordo com a possibilidade de sentido, a pesquisa conduz à confirmação dos seus próprios pressupostos. Assim, a primeira alteridade do texto científico é uma forma de busca de verdade; a segunda, revela-se quanto à ideia de empatia e identificação com o outro, ao contrário, o descontínuo e o intervalo, a exotopia e a dissimetria que permitem a expressão de alteridade (AMORIM, 2001). Isso leva a crer que a escrita criadora sem alteridade entre autor e locutor inexiste, se considerada a ênfase no vivido pelo pesquisador, correspondendo à supressão da alteridade no nível da escrita propriamente dita, fato recorrente nessa pesquisa.
Cabe esclarecer, a priori, que o objeto que está sendo tratado no texto de pesquisa é, ao mesmo tempo, “objeto já falado”, “objeto a ser falado” e “objeto falante”, compondo uma polifonia possível de ser transmitida pelo pesquisador, ao passo que dela também participa. O momento da reflexão da pesquisa remete ao momento da passagem da situação de campo à situação de escrita, instaurando, assim, outra forma de abordar a questão da relação com o outro e do lugar do pesquisador serviria para compor um possível “dialogismo de campo”.
Marília Amorim (2001, p. 22) argumenta que “na ausência então de um conceito de alteridade, damos partida ao trabalho com uma noção sincrética de alteridade: o outro aqui é o interlocutor do pesquisador. Aquele a quem ele se dirige em situação de campo e de quem ele fala em seu texto”. Por isso, torna-se imprescindível discorrer sobre as minúcias dessas assertivas, de forma categórica e sintética.
No capítulo intitulado “Temática da alteridade”, Marília Amorim (2001) traz a correspondência entre as oposições realidade/construção e alteridade/identidade como forma de organizar, ao mesmo tempo, enunciado e enunciação. Nessa perspectiva, a autora coloca que todo trabalho de pesquisa pode ser considerado uma tradução daquilo que é estranho para algo
que se converterá em familiar, lançando a prerrogativa de que se alguma coisa deve se tornar objeto de pesquisa, faz-se necessário torná-la estranha, a princípio, para depois poder traduzi- la: do familiar ao estranho e vice-versa, sucessivamente, tratando a alteridade em uma proporção de estranheza, haja vista não se tratar simplesmente de um reconhecimento de uma diferença, mas de um distanciamento verdadeiro, como suspensão da evidência. Assim o fizemos com o estranhamento da representação do negro que vem sendo disseminada nos materiais didático-pedagógicos veiculados nas escolas que atendem à Lei 10.639/03, depois aproximamos essa representação à identidade negra híbrida vigente na atualidade.
A proposição autoral é a de que o pesquisador, no momento de abordagem, pretende ser aquele que recebe e acolhe o estranho, sendo o movimento real inverso, pois num primeiro momento, é aquele que é recebido e acolhido pelo outro, sendo a linguagem a própria hospitalidade, uma vez que é nela que ocorrem as trocas e acolhimentos. (AMORIM, 2001).
A alteridade própria de toda pesquisa recebe, nas Ciências Humanas, a especificidade de tratar de uma alteridade humana, pois a diferença no interior de uma identidade se estabelece na relação entre o sujeito e o objeto de pesquisa, podendo esta identidade ser negada.
A análise e o manejo das relações com o outro constituem um dos eixos em torno dos quais se produz o saber no trabalho de campo e no ato da escrita. Dessa forma, Amorim levanta como hipótese de trabalho a questão de que em torno da alteridade se tece grande parte do trabalho do pesquisador, até por que “todo objeto de pesquisa é um objeto construído e não imediatamente dado”. (AMORIM, 2001, p.29).
Aqui nos interessa rastrear e indagar as modalidades de relação de alteridade na produção de saber e, sobretudo, no texto da pesquisa como, por exemplo, os jogos de alteridade presentes no interior de uma diferença cultural, para o etnólogo; alteridade numa diferença de classes, para o sociólogo; alteridade numa diferença de lugar enunciativo, na situação clínica.
A fim de buscar conceitos, ideias e figuras para categorizar a alteridade, Marília Amorim utiliza as metáforas de figuras gregas como Górgona, Dionísio e Artêmis. Tais figuras refletem a experiência que os gregos puderam fazer do Outro, sendo a máscara monstruosa de Górgona traduzida como a alteridade extrema, o horror daquilo que é extremamente o outro, enquanto Dionísio é a alteridade próxima, nos ensinando o tornar-se outro, diferente daquilo que somos, enquanto que Artêmis habita as fronteiras, organiza a relação com o estrangeiro. Na pesquisa, esta seria “a alteridade que se consegue elaborar, representar, traduzir” (AMORIM, 2001, p. 56).
Na atividade de pesquisa, não é possível negar a existência da tradução, a qual conjectura que um dado regime discursivo de uma língua tenha o seu equivalente na outra ou que a diferença entre esses regimes encontre uma diferença análoga na outra língua.
Assim, ao utilizar novas frases, o pesquisador coloca gêneros de discurso em choque, sendo este um diferendo, já que a ocorrência própria de um gênero não o é em outros. Até certo nível, o diferendo pode ser considerado a tensão que gera as diferentes possibilidades discursivas e, nesse ponto, ele é produtor da trama social. Como diz Amorim (2001, p. 64),
No domínio da pesquisa, podemos pensar que o diferendo é tudo que resta e que não pode ser expresso. Aquilo que conduziria a uma transformação radical do percurso da pesquisa ou então o abandono do gênero de escrita científica e a passagem para uma outra forma discursiva. Seria aquilo que da alteridade está em conflito com a própria pesquisa e que permaneceria em silêncio até que uma nova possibilidade de expressão se construa.
Portanto, a movimentação de um gênero a um distinto ou o emprego de vários gêneros em um mesmo texto compõem instantes decisivos na produção de saber.
Na tentativa de aproximar as ideias de alteridade e diferença, a autora se remete às colocações de Francis Affergan (Exotisme et altérité, Paris, PUF, 1987), o qual conjectura o juízo de que o que diminui a alteridade a uma simples diferença é o trabalho de esquecimento da qualidade em proveito da quantidade, sendo a diferença estabelecida na função lógica da pesquisa. Diante disso, faz-se necessário salientar que “a diferença traz sempre uma associação entre diferenciando e diferenciado. Já na alteridade trata-se de dissociação: o outro é irredutível a mim e a ele mesmo” (AMORIM, 2001, p.73).
Nessa perspectiva, nosso entendimento, nesse momento do texto, é o de que a alteridade do desvendar-se outro ou descobrir o outro em mim, possa estar no texto científico, uma vez que o texto, da mesma forma que a circunstância de pesquisa, são situações e lugares de produção de saber que se compõe em torno do eixo da alteridade. Ou seja, a relação dialógica entre sujeitos se dá, no texto científico, através da ideia de que os sujeitos materializam ideias por meio da escrita.
É importante salientar, também, como o Enunciado científico e texto polifônico são apresentados pela autora enquanto termos fundamentais para a problemática do texto de pesquisa, baseados no dialogismo. Cabe, então, a relembrar as definições, em tempo, dos termos monologismo e dialogismo, sendo o primeiro o apagamento das diferentes enunciações que
produzem um objeto de pesquisa e o segundo, ao contrário, remete à pluralidade de vozes que constituem toda pesquisa, seja em campo, seja no texto (AMORIM, 2001, p. 94).
A fim de lograr entendimento das proposições acima em nossa pesquisa, a necessidade do exame dos quadros conceituais se mostra latente. Diante disso, o primeiro exame é realizado em torno da enunciação, colocando o problema da alteridade no texto no nível da língua, afirmando que “nesse nível, pode-se dizer que todo sistema de comunicação supõe relações de diferença pois do contrário não faria sentido falar de comunicação” (AMORIM, 2001, p.95). A partir desse princípio, são apresentadas as relações de diferenças, em que a primeira consiste na assertiva de que não há linguagem sem possibilidade de diálogo, ou seja, sem a possibilidade de resposta; e a segunda é a de que a citação é própria do humano. Portanto,
A alteridade sob a forma do diálogo e da citação é pois o traço fundamental da linguagem. Não há linguagem sem que haja um outro a quem eu falo e que é ele próprio falante/respondente; também não há linguagem sem a possibilidade de falar do que um outro disse. (AMORIM, 2001, p. 97).
A enunciação no trabalho científico também exige a existência de pessoas distintas, haja vista a necessidade do confronto de diferentes pontos de vista, seja na forma do diálogo ou da citação. Diante disso, torna-se imprescindível salientar, à luz do texto em questão, a ideia de Beveniste (apud AMORIM, 2001, p.97) de que o termo enunciação designa o ato individual através do qual a língua é posta em funcionamento, ou seja, é a conversação da língua em forma de discurso. Sendo assim, de acordo com o pensamento saussuriano (idem, ibidem), o discurso, diferente da fala é de natureza social, pois inclui um locutor na sua singularidade e na sua intenção de influenciar um ouvinte.
É importante, nesse momento, esclarecer a existência das posições enunciativas da
pessoa, entendida como aquele que está em posição de falar, e da não-pessoa, que pode ser
compreendida como aquele que, a priori, não está em posição de falar, não podendo confundi- los com a ideia de indivíduo e outras pessoas do senso comum.
Na relação alteritária como eixo da produção de saber, “a enunciação científica enquanto tentativa de dizer o verdadeiro, se funda pois sobre uma relação de alteridade própria ao diálogo. Sem o outro para me objetar, não posso enunciar” (AMORIM, 2001, p. 104). Logo, a noção da existência da polifonia no texto científico, na perspectiva de Mikhail Bakhtin, pode ser entendida como o modo como as vozes dos outros se misturam com a voz do sujeito no enunciado.
A relação locutor/ouvinte é concebida na noção do destinatário bakhtiniano, uma vez que há a habitação de duas categorias no universo silencioso da escrita, cujas definições é nomenclaturada como destinatário, representa a instância de pertencimento social da obra e que trabalha em seu interior, e o sobredestinatário, sendo um momento constitutivo de todo enunciado, é aquilo que, na palavra, não estanca na imediatez da enunciação e impulsiona para um adiante ilimitado (AMORIM, 2001, p. 116).
As relações dialógicas são possíveis em relação a toda parte significante do enunciado, como por exemplo, uma palavra. Assim, podemos dizer que existem graus de dialogismo de uma palavra, cujas categorias podem ser ordenadas nos princípios de que: 1) a palavra está orientada para o seu objeto; 2) há um discurso representado e objetivado; 3) o autor utiliza as palavras do outro para suas próprias finalidades, no entanto as duas palavras são “equipotentes”, associação que faremos com a questão da estética e da representação na literatura e como analisar esses fatores no texto objeto.
Em se tratando do gênero científico, a problemática se dá pelo reconhecimento da oposição entre monologismo e dialogismo, uma vez que tal gênero é considerado monológico, cujo discurso está orientado para o objeto e a palavra serve para representar. Diante disso,
A relação dialógica de uma palavra monológica será representada a posteriori, quer dizer, por aquele que lê e não, por aquele que escreve. Podemos dizer que essa relação se mostra apesar do autor. Podemos dizer ainda que toda palavra dialógica, toda réplica ou resposta tem também um caráter monológico. (AMORIM, 2001, p. 152).
Em suma, a proposição de Marília Amorim é a de que tais categorias sejam um convite a um certo tipo de investigação, citado como “a pesquisa dos diferentes caminhos que pode percorrer um texto para encontrar seu objeto, através da complexidade da relação com o outro” (AMORIM, 2001, p. 155). Assim, sobre as ciências humanas pode-se afirmar que elas estão substanciadas no texto, considerando as três faces do texto de pesquisa em Bakhtin, das quais a primeira é a reconstituição do contexto enunciativo e dialógico em que o texto foi produzido, no caso desta pesquisa tentamos trazer esse contexto para a atualidade; a segunda diz respeito à formulação de leis explicativas do texto, aqui elencamos as categorias basilares pós- colonialistas e bakhtiniana para nos servir de parâmetro de análise da obra de literatura infanto- juvenil, também escolhida como corpus, e produto do que vem sendo realizado nos referidos materiais objetos de nosso estudo; enquanto que a terceira é a interpretação do sentido do texto, viés que atendemos a partir da proposição da representação da identidade negra híbrida.