A inserção dessa canção neste eixo de análise de nosso trabalho se deve a uma interpretação que coincide com o apontado por Fanjul a respeito dela. Ao abordar como a narrativa de mortes individuais parece constituir uma ausência no primeiro período do que viria a se ser denominado “rock argentino”, o autor indica que apenas décadas depois tal tipo de narrativa irá realizar-se, “com o campo já extremadamente diversificado no seu alcance social, em um país profundamente transformado” (Fanjul, 2017b, p. 79). É como exemplo de uma dessas possíveis realizações que o autor irá sustentar algo que nos parece central acerca da canção. Mais do que a interpretação em si da possibilidade de uma morte individual narrativizada, nos interessa a leitura de que em “Caroncha” se desenvolve uma história “de degradação social” (p. 69).
Vemos nessa definição uma boa síntese dos aspectos cujo funcionamento no intradiscurso da canção já intuíamos tornar interessante a sua inclusão neste eixo de análise. De qualquer modo, é preciso de antemão ressaltar que a superfície textual de “Caroncha” se apresenta para nós com um alto grau de opacidade. Será, então, a partir do limite imposto por essa opacidade que iremos buscar expor o que na canção nos parece permitir entende-la como uma história de degradação social e, além disso, por que a sua configuração como tal nos parece relacionável à determinação do “local” no discurso que estamos estudando neste capítulo.
A textualidade de “Caroncha” parece conter uma narrativa sobre o processo de formação de um indivíduo, cuja designação passa de “niño bebé” na primeira cena dessa narrativa, a “valiente indio barrial” e “violento niño bebé”, numa segunda cena. A atenção a esse deslizamento na designação do personagem que tem protagonismo no fio narrativo da canção já nos dá mostras tanto da existência de uma transformação como do teor desta, com a irrupção do sentido de violência.
O desenvolvimento narrativo dessa transformação se constrói entre a primeira e a segunda estrofes:
Feo, eso es feo
Es fulero pa’l balero la verdad Fea, es fulera, camorrera, Es muy fea la verdad
La hebilla de un cinturón te fue a enseñar mucho más Rulitos ensangrentados en el patio lloran
Aprende el niño bebé lo que nunca olvidará
Fea, se hace fiera, callejera, Se hace callo la verdad Y mama leche fea, verdadera, En la calle, otra verdad Te has aliviado, caroncha Valiente indio barrial,
Tubitos ensangrentados en el charco flotan Violento niño bebé [violento niño bebé] ¿qué injusticias vengarás?
O personagem cujo processo formativo nos parece ser o foco narrativo se constrói enquanto entidade pessoal no intradiscurso através de uma certa vacilação entre:
i. a instância de alocutário, demarcado numa 2ª pessoa, conforme se nota no nível narrativo da primeira estrofe (“La hebilla de un cinturón te fue a enseñar mucho más”) e na realização de interpelações na segunda (“te has aliviado, caroncha”, “violento niño bebé, ¿qué injusticias vengarás?”); e
ii. a instância de personagem representado, demarcado numa 3ª pessoa, de forma clara por exemplo na primeira estrofe: “Rulitos ensangrentados en el patio lloran / Aprende el niño bebé lo que nunca olvidará”.
Em um nível narrativo do intradiscurso, o processo formativo do ser representado, que antes apontamos, se projeta na situação vivida por ele. Ao início, acompanhamos uma cena doméstica em que o personagem é atingido pela violência, sendo ensinado pela “hebilla de un cinturón”. Os efeitos desse ensinamento sobre o ser representado são intensos, tanto no campo da sensação (“rulitos ensangrentados en el patio lloran”), como no da moral (“lo que nunca olvidará”). Dessa cena, circunscrita ao “patio”, passamos a outra, demarcadamente instaurada num espaço que já não é doméstico: “la calle” é uma imagem constante na segunda estrofe, além de determinada por outros elementos do intradiscurso, tais como a referência a “el charco” e, até mesmo, a caracterização do personagem como “barrial”.
E, no que diz respeito à situação desse ser, se na primeira cena era numa posição de maior passividade que era representado, na segunda passa-se a projetar a sua
agentividade. A primeira ação, que tanto pode ser interpretada como de aspecto contínuo como concluído mas em um tempo que iniciado no passado inclui o presente, “te has aliviado, caroncha”, é determinada pelo verso seguinte, “tubitos ensangrentados en el charco flotan”, uma vez que uma vinculação entre aliviarse e drogarse se inscreve a partir dessa imagem, que projeta especificamente uma representação do consumo de drogas injetáveis. Já quanto ao segundo predicado que tem “el niño bebé” como participante, é interessante notar que, em conjunto com a qualificação o personagem, neste momento, como “violento”, a projeção futura “¿qué injusticias vengarás?”, ao formular-se de modo a perguntar não se há injustiças a serem vingadas, mas sobre quais as injustiças sofridas que serão vingadas, inscreve justamente o discurso transverso: El niño bebé padeció
injusticias y se volvió violento. Esse implícito pode, é claro, ser remetido, no próprio
intradiscurso, à primeira cena, onde se enuncia a imposição de uma violência sobre o personagem.
Ao fazê-lo, a nosso ver, certo aspecto dessa primeira cena se reforça. A imagem de que uma criança é ensinada pela “hebilla de un cinturón” poderia, a partir de diversas representações ideológicas que funcionaram plenamente em sociedades ocidentais, talvez em especial latinas, até poucas décadas atrás, considerar-se natural, comum e, portanto, esperável. Entretanto, há – para além do discurso acerca de “la verdad”, ao qual nos dedicaremos a seguir – um aspecto material na representação de uma criação repressiva na primeira cena que, se não salta aos olhos já naquela cena, se evidenciará, quem sabe, ao relacionar-se o implícito que no parágrafo acima sustentávamos funcionar sob a pergunta “¿qué injusticias vengarás?”. Estamos nos referindo ao grau de violência à qual se submete a criança. A formulação “rulitos ensangrentados” nos parece reforçar esse aspecto, não apenas por fazer irromper a imagem do sangue como consequência física do castigo, o que em si já projeta a representação de uma aguda violência, mas ainda pela possibilidade de que essa imagem se veja afetada, no intradiscurso, pela de “rulitos”. Para além da referência concreta a uma parte do corpo que, em si mesma, projeta também uma agressão severa, uma vez que, sendo destinada à cabeça, poderia até mesmo vitimar o agredido89, pensamos no efeito discursivo desse diminutivo “rulitos”, no interior da representação de um corpo infantil, sobre a projeção de uma violência extrema sobre esse corpo.
89 Esclarecemos que a referência à cabeça se dá na medida em que “rulitos” remeteriam aos cabelos da
Acreditamos que o discurso sobre a “verdad”, que se inscreve a essas estrofes, produz efeito semelhante. Aquilo que parece ter a forma de um segmento comentativo, da instância narradora sobre o narrado, compõe também o relato do processo formativo. Isso se torna especialmente evidente na segunda estrofe, com a irrupção de formulações que projetam de forma concreta não apenas a noção de mudança, mas a específica ideia de processo: “[la verdad] se hace fiera”, “se hace callo la verdad”. É interessante notar, inclusive, que são comuns as formulações com um hacerse análogo ao que irrompe aí para a expressão de processos ocorridos em trajetórias pessoais. Nestes casos a construção usual é a do verbo combinado a um grupo nominal introduzido sem artigo, sendo que a formulação inscreve o sentido de alcance, por uma pessoa, do estado ou condição expresso pelo grupo nominal, como em “se hizo escritora” ou “se hicieron amigos”. Em “Caroncha” é notável que a formulação com hacerse tenha “la verdad” como sujeito e, não, “el niño bebé”, personagem humano representado. Seria possível, por exemplo, na conformação desse intradiscurso, o enunciado el niño bebé se hizo valiente indio barrial ou el niño bebé se hizo violento. A enunciação do processo formativo com este verbo transferida a uma entidade não apenas abstrata, mas à qual se atribuem traços universalizantes, como pode ser “la verdad”, parece-nos produzir um efeito sobre a individualidade da narrativa realizada. O vivido pelo personagem representado é atribuível a outros seres, sobretudo se estes se encontram em condições análogas.
Se levantamos essa hipótese, ganha maior relevância ainda a caracterização dessa “verdad”, experimentada pelo “niño bebé” mas passível de experimentação por outros, no intradiscurso. Essa caracterização tem um traço demarcado: é pleonástica. O reforço do sentido de “feo” se inscreve não apenas a partir de sua própria repetição, inclusive reiterada, como também da sinonímia (“fulero”, “fiera”) e da intensificação (“muy fea”, “fiera”90). Além dessa ênfase, acreditamos haver alguma colinearidade entre a caracterização de “la verdad” como “camorrera” e “callejera”. Por mais que os significantes se inscrevam a relações interdiscursivas diversas, nos parecem compartilhar, em alguma medida, o sentido de conflitividade ou tensão: “camorrera” a partir das imagens mesmo de “pelea”, “pendencia”, “contienda”, “riña”…; “callejera” pela projeção de uma situação que rompe com a expectativa do status quo, daquele que está “en la calle”, “desocupado”, ao invés de dedicado àquilo que se espera socialmente (o trabalho,
90 Apesar de entrar em relação sinonímica com “feo”, o adjetivo “fiero”, sobretudo no espanhol argentino,
o estudo, a família). Por fim, a formulação “se hace callo la verdad” compõe a projeção de um processo formativo e, especificamente, de uma formação dolorosa.
A atenção a como se caracteriza essa verdade experimentada pelo protagonista individual do relato, mas passível de atribuição a outros seres, nos parece um pressuposto importante para chegar às últimas estrofes da canção:
Vibran las paredes del pueblito, nada puede Llevarte del lugar
Vibran las paredes del pueblito, nada puede Llevarte del lugar
Vibran las paredes del pueblito En el barrio,
¿Qué sucede? En el barrio,
¿Qué sucede, qué sucede, qué sucede? En el barrio,
¿qué sucede, qué sucede?
A leitura de um efeito de abertura da narrativa a uma dimensão mais ampla e menos individualizada, a partir do discurso sobre “la verdad”, pode se sustentar e, ao mesmo tempo, ressoar nessas estrofes em que o espaço parece ser recortado de outra forma, com relação às primeiras estrofes. Por mais que já houvesse entre a 1ª e a 2ª uma diferenciação entre “patio” – casa e “calle” – “charco”, se vê o espaço determinado pela experiência individual nas duas primeiras estrofes e, aqui, determinado de outra forma, como espaço coletivo realmente: o que se diz sobre ele, o que se narra acontecendo (“vibran las paredes del pueblito”, “¿qué sucede en el barrio?”) nele tem essa dimensão coletiva, a nosso ver, senão como participante, como observadora ou até mesmo afetada. Pensamos que tal dimensão pode ser conectada à irrupção do significante “Caroncha”, na medida em que relações interdiscursivas permitem relacioná-lo a determinada variedade de fala, colocando a representação de uma fala popular no interior de uma projeção do “barrio” e do “barrial”.