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Article 14. INCENDIE ET PERILS ASSIMILES

Como se comentou anteriormente, Barack Obama revolucionou todos os conceitos de marketing político, estratégias e campanhas eleitorais ao utilizar as mídias sociais. Certamente sua campanha vitoriosa de 2008 teve repercussão

51 mundial, inspirando diversos candidatos e equipes de marketing a utilizar as mesmas estratégias digitais.

No Brasil, as eleições de 2010 marcaram os primeiros indícios dessas novidades. A política brasileira passou a enxergar de outra maneira a série de oportunidades que a internet possibilitava.

Dois fatores ampliaram a relevância da campanha online no Brasil: o primeiro deles – e mais óbvio – é o crescimento do número de internautas no país. De acordo com o IBOPE, o Brasil saltou de 32 milhões de pessoas com acesso à internet nas eleições de 2006 para mais de 66 milhões nas de 2010.

O segundo fator que propiciou o crescimento das redes sociais nas eleições foi a própria legislação: em 16 de setembro de 2009, quando a Câmara dos Deputados aprovou mudanças que haviam sido estabelecidas em uma resolução do Tribunal Superior Eleitoral – TSE – restringindo, e muito, as campanhas na web. Mais adiante, no dia 29 de setembro daquele ano, o então presidente Lula sancionou a lei que instituiu novas regras para as eleições e liberou o uso de internet para propaganda e também arrecadação de partidos.

A sanção de normas específicas para a internet deu aos partidos políticos uma liberdade inédita na rede. Ao contrário dos anos anteriores, quando a internet estava sujeita às mesmas restrições aplicadas à TV e ao rádio, em 2010 foi possível organizar debates livremente (mesmo sem a participação de todos os candidatos), usar as redes sociais mesmo fora do período oficial de campanha, além de fazer da internet um campo de provas para todos os tipos de ideias.

Porém, mesmo com todo o suporte e as oportunidade oferecidas para esse meio, as redes sociais não passaram de meras coadjuvantes nas eleições daquele ano.

O primeiro motivo dessa realidade certamente foi o fato de que, em 2010, o percentual de brasileiros com acesso a internet não chegava a 50%, enquanto que nos Estados Unidos este número passava de 90%11 em 2008. Além disso, as redes sociais foram utilizadas essencialmente dentro de uma perspectiva de mídia de massa, na maior parte dos casos servindo apenas para propagar ideias dos candidatos como se fossem rádio e televisão.

52 Além disso, as redes sociais não foram trabalhadas como compartilhadoras de informações e troca de experiências com os eleitores. Poucos, inclusive, foram os políticos que inovaram no uso das redes e gastaram tempo e disposição para dialogar com o eleitorado.

Dilma Rousseff, por exemplo, dispunha de perfis em todas as redes sociais acima citadas, porém, mesmo tendo contratado um dos profissionais de marketing que integrava a equipe de Obama em 2008, não as usava com afinco. Diz-se mais: dos três principais candidatos ao Palácio do Planalto no referido ano, Dilma foi a que menos utilizou as redes.

No Twitter, por exemplo, Dilma relatava passagens de sua vida particular ou apenas ressaltava algum evento de sua campanha. A candidata não costumava utilizar a rede para divulgar links para outros textos ou para suas propostas de governo. Seus tweets12 geralmente não traziam nenhuma novidade e nada que

pudesse ser abordado em possíveis matérias jornalísticas. Outro ponto interessante de ser comentado é o fato de que Dilma não utilizava as redes nem sequer para rebater críticas ou colocar pontos de vista diferentes dos mostrados pelos demais meios de comunicação.

Aparentemente, Dilma passou a perceber apenas no final da campanha o poder do twitter. A partir da segunda metade de outubro, por exemplo, a interação da petista com os internautas passou a ser bem maior. Dilma passou a enviar links de vídeos e conteúdos de campanha, bem como tentou mobilizar os internautas para que divulgassem tais links.

De uma forma geral, a assiduidade de Dilma nas redes sociais foi tão baixa que, após agradecer os votos que recebera nas eleições, a candidata não demorou muito a desaparecer de vista, frustrando boa parte de seus mais de um milhão de seguidores no Twitter, por exemplo. No dia 13 de dezembro daquele mesmo ano sua conta recebeu o último tweet, não sendo mais atualizada até os dias de hoje. Em outras palavras, o perfil da atual presidente da República não é atualizado há mais de quinhentos dias, mesmo com a promessa feita na última mensagem postada:

53 Figura 5: Última mensagem publicada por Dilma no Twitter, em 13/12/2010.

No Governo, os perfis virtuais mais próximos da presidente atualmente são o do Blog do Planalto e o da Secretaria de Imprensa da Presidência da República. O primeiro mostra o cotidiano da presidência, com informações sobre agenda, por exemplo. Já o segundo, traz informações sobre a agenda da presidente Dilma Rousseff em todo o país.

José Serra, por sua vez, foi o candidato à presidência que melhor utilizou as redes sociais em sua campanha eleitoral. Ele soube perfeitamente moderar seus

tweets de campanha e de mensagens pessoais, quando demonstrava sua rotina,

sua família e até seu lado avô. Além disso, o candidato interagiu em tempo integral com seus seguidores, por exemplo, divulgando permanentemente links e materiais de campanha. Serra demonstrou intimidade com as redes sociais e suas ferramentas. Através do Twitter, o tucano falou sobre sua agenda e também recebeu diversos tipos de conteúdo de seus seguidores, reforçando a ideia apresentada anteriormente de que, na internet, qualquer um pode ser produtor de materiais.

A interação de Serra com seus eleitores virtuais foi tamanha que, durante praticamente toda a campanha, a hashtag13 #pergunteaoserra estava entre as mais

comentadas do Brasil, por exemplo. Outro diferencial do tucano em relação à petista foi o fato de Serra ter mantido suas contas nas redes sociais mesmo com o término das eleições. Ele continuou postando diariamente sobre sua rotina como profissional e como uma pessoa normal, que tem família e gosta de viagens, por exemplo.

Dilma Rousseff e José Serra são exemplos de candidatos que, mesmo não utilizando todo o potencial que as mídias sociais oferecem, incluíram este novo meio em suas campanhas ao Palácio do Planalto. Porém, os exemplos brasileiros não param por aí. Nas eleições ao governo do Estado do Rio Grande do Sul, ainda

54 em 2010, Yeda Crusius e Tarso Genro também incluíram as redes sociais de alguma forma em suas campanhas eleitorais, tentando através delas uma aproximação ainda maior com eleitores e possíveis eleitores.

A candidata tucana, Yeda Crusius, mesclou postagens sobre sua rotina como governadora gaúcha (eleita em 2006), e a respeito de sua candidatura e sua campanha pela reeleição. Dificilmente abordava temas sobre sua vida pessoal e nunca compartilhava conteúdos multimídia. Ao contrário de Dilma Rousseff, Yeda costumava responder críticas via redes sociais, nominando-as, inclusive. Um ponto negativo do uso das redes por Yeda, porém, era a forma como a candidata redigia suas mensagens: confusas e, as vezes, incompreensíveis. Em suma, a tucana usava as redes apenas para compartilhar suas iniciativas e pensamentos, comparando-se sempre a outros governos.

Já o atual governador Tarso Genro, que derrotou Yeda Crusius nas urnas em 2010, certamente foi o que melhor utilizou as redes durante o período de sua campanha, sempre com mensagens claras e objetivas. Tarso interagia com seus amigos virtuais através de postagens bem elaboradas, sempre lhes dando uma resposta, além de lançar via redes conteúdos especialmente para eles. O candidato petista, inclusive, virou notícia no país inteiro ao organizar um almoço para cerca de duzentos tuiteiros14, que foram selecionados na própria rede social. Certamente um diferencial em sua campanha.

O que podemos concluir através destes vários exemplos que tivemos nas eleições de 2010 é que as mídias sociais vieram para ficar. Obama lançou a ideia, e esta foi extremamente bem aceita pela grande maioria dos candidatos, que acabaram percebendo o quão promissoras e rentáveis elas podem ser, em termos de comunicação e interação com o eleitorado.

Dilma, Serra, Yeda e Tarso: ambos perceberam a capacidade das redes sociais, porém, a falta de experiência e o baixo índice de brasileiros conectados a internet podem ter sido cruciais no não-desenvolvimento das práticas virtuais naquele ano. O pleito de 2010 tornou-se apenas um esboço, um pontapé inicial, foi o primeiro passo dado em direção ao uso pleno das mídias sociais na política

55 brasileira. A tendência é que, nas próximas eleições, essas novas ferramentas sejam cada vez mais utilizadas e suas qualidades muito mais exploradas.

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