A necessidade de convergência da comunicação e das práticas educativas em geral foi discutida por Freire e Vilar (2006). Em artigo recente, os autores focalizam a aplicação da
transmissão direcionada (ou narrowcasting), pois a escolha do canal de comunicação pode
ser determinante na recepção efetiva da mensagem informativa. E definem narrowcasting como: “[...] mídias específicas para audiências específicas, a fim de proporcionar a melhoria do nível de conhecimento da população sobre condições de saúde e qualidade de vida” (FREIRE e VILAR, 2006, p. 6).69
68 Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/cne/arquivos/pdf/Med.pdf>. Acesso em: 10 maio 2011.
69 Disponível em: <http://www.projetoradix.com.br/arq_artigo/alaic/alaic2006_03.pdf>. Acesso em: 10 maio
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O artigo também ressalta o papel da mídia no processo educativo: além de entreter, ela informa e educa. Segundo os autores, uma sociedade da informação e do conhecimento colabora para que o indivíduo se torne mais participativo. Como exemplo, eles citam a telemedicina:
A telemedicina é a assistência primária a pequenas comunidades em regiões em desvantagens geográficas e sociocultural, cujo objetivo é educar e conscientizar a população sobre a responsabilidade com a saúde pessoal e coletiva, assumindo um papel importante para a assistência remota e a disseminação da informação. Essa aplicação se baseia na transmissão direcionada (narrowcasting) e tem sido útil na resolução de problemas comunitários. (FREIRE e VILAR, 2006, p.8)70
A mudança de mentalidade, seja dos profissionais de saúde, seja da sociedade em geral, no sentido de ver a área numa perspectiva da saúde e não da doença, vem encontrando abrigo em diferentes organismos, estendendo-se, também, à formação médica. É importante frisar que a saúde está conceituada pela Organização Mundial de Saúde da seguinte forma: “estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidades” (OMS, 1946, p.1).71
A discussão que recai sobre o profissional da saúde implica, também, conhecer a identidade da área e saber o porquê da escolha de uma profissão que, no contexto atual, envolve tantos conflitos de ordem política, econômica e cultural. Tal escolha não pode ser feita apenas pelo status atribuído à profissão, mas pela consciência da responsabilidade social inerente ao ato médico.
Cabe ressaltar ainda que a saúde no Brasil teve relativo avanço com o Sistema Único de Saúde. Nas últimas décadas, o país se distanciou de outras nações por realizar mais transplantes e possuir um programa de imunização em massa, que erradicou doenças como a paralisia infantil e o sarampo. Também teve programa de controle da Aids reconhecido pela OMS. Outras ações bem-sucedidas foram a da Saúde da Família e a proibição da propaganda de cigarros e de eventos ligados à indústria do tabaco, só para citar algumas. Pode-se afirmar, portanto, que a tendência geral é a de aproximar a temática da saúde às demandas da sociedade.
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Idem.
Porém, é preciso levar em conta a extensão geográfica do país. Em regiões distantes – como, por exemplo, Norte, Nordeste, Centro-Oeste etc. –, muitos desses programas se tornam ineficazes devido à escassez de profissionais qualificados para atender a população. Prova disso são as elevadas taxas de mortalidade infantil e desnutrição, bem maiores que no Sul e Sudeste, regiões em que os benefícios chegam mais rápido. Estas estatísticas também podem ser atribuídas à falta de recursos humanos na área da saúde. As chamadas regiões periféricas, além de contar com menor número de profissionais especializados, ainda necessitam de um aperfeiçoamento nas políticas públicas de saúde.
Nesse sentido, cabe à Universidade o papel de discutir tais questões, uma vez que sua função primordial é a de expandir as fronteiras do conhecimento e, com isso, enriquecer a cultura científica e tecnológica do país. Torna-se imprescindível, portanto, promover nos cursos superiores a formação de recursos humanos qualificados, os quais são elementos-chave na promoção do desenvolvimento econômico e social (GARCIA, 1989, p.53).
A discussão acerca da decadência do modelo biomédico, que deve ceder lugar a práticas baseadas na história pessoal dos pacientes – aliadas a exames e estabelecendo uma relação de confiança –, faz parte da nova realidade social. É nessa perspectiva relacional que o modelo biopsicossocial – que aborda não apenas a parte física, mas também contextos psicológicos, familiares e sociais – poderá contribuir na questão nevrálgica: a saúde da população.
Para Alves (2003a, p.21), hoje “o médico é um profissional como os outros”. Perdeu sua aura sagrada. E, para exemplificar esta afirmação, ele cita a observação do diretor da Escola de Medicina de Princeton: “um médico é uma unidade biopsicológica móvel, portadora de conhecimentos especializados, e que vende serviços” (Idem). Se no passado a figura do médico era considerada uma extensão da própria família – um generalista capaz de resolver não somente os problemas do corpo, mas também os da alma, profissionais que muitas vezes eram conselheiros da família –, atualmente, devido às mudanças processadas ao longo do tempo e com o surgimento das especialidades, tudo isso resultou em prejuízo aos pacientes, sobretudo no que diz respeito às relações interpessoais.
No que se refere às especialidades médicas, o foco desta pesquisa está nos estudos das doenças mamárias e nos diferentes aspectos que envolvem cuidados direcionados às mulheres. E como esses cuidados não se limitam aos médicos, mas se estendem a outros
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profissionais, também foi importante analisar as diferentes áreas da saúde envolvidas na rotina do paciente oncológico.
E quanto às práticas discursivas constituídas no campo teórico da linguagem, Citelli (2004, p.55) afirma que “as cadeias discursivas contribuem para arrefecer o sentimento de solidão humana, visto que nelas os ‘contratos de linguagem’ autorizam recuperar a tradição, a história, assim como prospectar projetos futuros”. Esse contrato está relacionado às práticas sociais. Maingueneau, por sua vez, explica que a
noção de contrato pressupõe que indivíduos pertencentes a um mesmo corpo de práticas sociais sejam capazes de entrar em acordo a propósito das representações de linguagem dessas práticas. [...] Logo, um sujeito ao enunciar presume uma espécie de “ritual social da linguagem” implícito, partilhado pelos interlocutores. (MAINGUENEAU, 1997, p.30)
Com essa definição em mente – e levando em conta minha prática profissional ao longo de 30 anos de trabalho, dos quais 20 foram na área da saúde e como profissional da comunicação –, fica claro que para o paciente o contrato de linguagem não se estabelece de forma plena no ato da consulta. Ou seja: muitas vezes as explicações dadas pelo profissional da saúde suscitam mais dúvidas do que respondem.72
Como as dificuldades são inerentes ao ato médico, muitos ruídos ocorrem no processo comunicacional, em detrimento do bem-estar do paciente. Por isso, a linguagem atua como um instrumento essencial para minimizar os ruídos comuns em situações dessa natureza. É necessário, portanto, romper com as múltiplas barreiras impostas (social e culturalmente) no atendimento médico para que essa relação seja humanizada.
De acordo com Jaspers (1998, p.19), o “pressuposto é que ambos, médico e paciente, são seres racionais que se opõem conjuntamente a um processo da natureza, conhecendo-o e tratando-o, e que pela sua humanidade se unem na apetecibilidade da meta”. Embora a racionalidade deva estar presente no ato médico para garantir objetividade no diagnóstico e no tratamento, ela não pode prescindir de sua humanização.
Para encerrar este tópico, cabe ressaltar a preocupação por parte do Ministério da Educação no que diz respeito à formação do médico, registrada no Artigo 5º das Diretrizes Curriculares do curso de Medicina de 2001:
72 Vale destacar que são múltiplas as representações coletivas e individuais abordadas no processo de diagnóstico
e tratamento do câncer de mama. A doença pode causar o chamado vazio da esterilidade, frustração nos relacionamentos, enfim, incertezas de todo tipo e origem.
I - promover estilos de vida saudáveis, conciliando as necessidades tanto dos seus clientes/pacientes quanto as de sua comunidade, atuando como agente de transformação social;
II - atuar nos diferentes níveis de atendimento à saúde, com ênfase nos atendimentos primário e secundário;
III - comunicar-se adequadamente com os colegas de trabalho, os pacientes e seus familiares;
IV - informar e educar seus pacientes, familiares e comunidade em relação à promoção da saúde, prevenção, tratamento e reabilitação das doenças, usando técnicas apropriadas de comunicação. (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 2001)73