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Importance des polymorphismes : détection des variants

Embora a administração possa se constituir em um campo de estudos que se despolitiza na medida em que ainda tem como hegemônicos os discursos de neutralidade axiológica característicos do funcionalismo, há vários pesquisadores desse campo que consideram que os discursos são políticos, posicionamento ao qual faço adesão. Como já defendi aqui, não existem discursos neutros, assim como não é neutro o discurso apresentado nesta tese. Entretanto, quando falamos na criação de conhecimentos científicos, podemos assumir a possibilidade de dar maior clareza possível ao que representa essa não neutralidade. Se não se é neutro, quais são os posicionamentos mais claros que assumimos? Nesse sentido, após uma discussão sobre meu posicionamento epistemológico, quero destacar aqui alguns aspectos importantes em relação ao meu posicionamento político.

Estou aqui me aventurando em algo novo, mas não de maneira isolada. Sou um ser político na medida em que estou contextualmente em relações com pares e não pares que acabam socialmente se constituindo em espécies de comunidades. Para Arendt (2009), o que faz o homem ser político é sua faculdade para a ação, que o capacita para reuniões com seus pares. Não falo, porém, de simples atos de reuniões. Esses atos são políticos, os próprios processos envolvidos na elaboração de uma tese são atos políticos, tais como as discussões em grupos de pesquisa, a divulgação de pesquisas, e as bancas de defesas de projetos e de teses. Como defende Arendt (1995), a política está presente quando as pessoas se reúnem para ações discursivas ou práticas. No entanto, trata-se de algo além. Falo de dinâmicas de pertencimentos e de relações entre comunidades e grupos sociais, comunidades científicas, comunidades dentro do campo de estudos da administração, da comunidade dos Estudos Organizacionais que, por si sós, não são homogêneas e contam também com diversas outras subcomunidades.

Trata-se de uma concepção relacional de política, baseada em relações entre comunidades e, não, no indivíduo isolado (ARENDT, 1995). Assim, quando falo do lugar de pesquisadora da linha de Estudos Organizacionais e Sociedade dentro de um Curso de Administração, preciso deixar claro qual é o meu posicionamento político na relação com meus pares na academia. Para não tratar de um âmbito muito geral da relação que assumo com meus pares especificamente dentro do campo da administração.

Assim como a pós-estruturalista Butler (2003) colocou o gênero entre aspas, o questionando e o desnaturalizando, coloco também a administração entre aspas trazendo as

empregadas para seu campo de estudos. Questiono essa administração retomando discursos políticos que já foram realizados por vários pesquisadores dos Estudos Organizacionais. Questiono o campo da administração como algo hegemonicamente relacionado a problemas de ordem gerencialista. Questiono ainda que seus sujeitos de pesquisa sejam apenas os líderes de

grandes organizações e adoto mais uma concepção de vida organizada8 (CARRIERI, 2012) do

que propriamente de organização. Questiono o termo organização a favor do termo organizar (CARVALHO, 2006; MISOCZKYe VECHIO, 2006).

Defendo que consideremos a própria sociedade como uma organização, cotidianamente envolta por vidas organizadas que, mesmo não institucionalizadas, são também organização e demandam também gestão. Quando falamos de vida organizada, nos referimos à forma pela qual os homens organizam suas próprias vidas, seja em empresas econômicas, familiares (no sentido clássico) ou no trabalho informal (no sentido heterodoxo) (CARRIERI, 2012).

Coaduno ainda com a defesa de Calás e Smircich, que identificam a arbitrariedade das limitações discursivas na qual opera a teoria organizacional e defendem que se abram espaços para vozes não tradicionais que são comumente marginalizadas em teorias universalizantes (BREWIS, 2005). Para Carrieri (2012), quando discutimos outras possibilidades dentro da teoria organizacional, não negamos a administração enquanto disciplina de um saber-poder, mas a colocamos em questão.

Estudando sujeitas que representam uma ausência nos estudos organizacionais, trilho ainda em caminhos desconhecidos. E corroboro a defesa de Sousa Santos (2005), para quem é preciso construir uma ciência para além da hegemônica, pois as experiências sociais são muito mais numerosas e variadas do que essa ciência considera. Nesse sentido, acredito que os estudiosos organizacionais possam encontrar essa variedade de experiências ao direcionar o olhar para essas trabalhadoras. Com esse olhar, empreendemos o que Sousa Santos (2005) chama de sociologia das ausências. Estudar empregadas domésticas em uma tese de doutorado em administração envolve uma reflexão sobre a pesquisa que pode ser caracterizada pelas seguintes palavras de Fischer (2002, p. 68).

Que história, afinal, queremos fazer quando nos inscrevemos num curso de mestrado ou doutorado? Que história queremos fazer quando imaginamos um novo projeto de pesquisa? Volto [...] a falar no grande perigo de temer o caminho ainda não trilhado,

8 “Os termos Vida Organizativa ou Vida Organizada foram retirados do (sub)grupo do NEOS, denominada de

Vida Organizada, Teorias do Poder e Estudos Organizacionais. O desafio colocado pelo NEOS nas pesquisas desse grupo procura superar os estudos organizacionais migrando para os estudos da vida organizada, partindo não mais da organização enquanto objeto maior de estudo, mas da própria sociedade, elegendo para pesquisa a ação coletiva e todos os fenômenos de organização da vida social, sejam eles organizações formais, organizações informais, movimentos sociais ou manifestações da vida cotidiana [...]” (CARRIERI, 2012, p. 18-19).

na inércia, que por vezes pode nos assaltar, justificados que somos pelos prazos exíguos de entrega de nossos trabalhos, por uma sociedade que não valoriza a formação acadêmica, etc., etc. É essa inércia que costuma atar-nos ao já conhecido, àquilo que nos parece uma boa fórmula com todas as suas coordenadas tão bem delineadas (FISCHER, 2002, p. 68).

Eu poderia argumentar que, mesmo não estando inseridas em organizações públicas ou privadas, as empregadas domésticas estão imersas em relações sociais que são também objetos de interesse da administração: a categoria trabalho. Se relações de trabalho é um dos temas presentes nesse campo, por que não abranger como sujeitas de pesquisa uma expressiva categoria de trabalhadoras no Brasil? Eu poderia também argumentar que, embora a atividade da empregada doméstica não gere lucro e renda para seus empregadores, sua atividade é um instrumento de integração nas sociedades capitalistas, pois ele se constitui em um meio de sustentação da própria atividade econômica. Se considerarmos que exercem atividades que mulheres (e homens) não têm tempo para exercer por estarem no mercado de trabalho, seu trabalho se insere na dinâmica capitalista9.

No entanto, esses são argumentos que se utilizam de temas que pretenderiam agradar àqueles que ainda mantêm uma visão ortodoxa da administração: a inserção na dinâmica capitalista e a menção ao tema relações de trabalho, que já está legitimamente presente nas divisões acadêmicas da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (ANPAD), por exemplo. E quando falo aqui de gestão de maneira relacionada às empregadas domésticas, não estou falando simplesmente de uma gestão como a gestão de tarefas ou uma gestão administrativa. Falo de uma gestão de si, de uma gestão da própria existência (FOUCAULT, 2006a; 2006b), algo mais relacionado a processos de subjetivação e que ultrapassa a visão convencional de gestão administrativa. E, quando falo do trabalho, falo de um dispositivo de poder (FOUCAULT, 1992), falo do trabalho doméstico nas práticas sociais, do trabalho doméstico como construção social, e não de uma concepção marxista ou Labour

Process Theory do trabalho (ADLER; FORBES e WILLMOTT, 2007).

Outro posicionamento político que é importante destacar em relação a esta tese diz também respeito ao campo de estudos em administração e ao campo dos Estudos Organizacionais, mas não se refere apenas aos limites desses campos. Trata-se de um posicionamento político de cunho também social, que é a afirmação da necessidade de se problematizar as relações raciais, questionando a naturalização histórica das diferenciações

9 No entanto, é importante ressaltar que a própria consideração do trabalho doméstico como um trabalho que

contribui para o exercício da atividade econômica é perigosa. Pois pode implicar a visão do trabalho como apoio para a realização do então autêntico e verdadeiro trabalho, aquele que seria, de fato, produtivo, pois é monetarizável (MARCONDES et. al., 2003).

entre brancos e negros. No caso do campo dos Estudos Organizacionais, Conceição (2009) e Rosa (2012) já chamaram a atenção para a escassez de estudos que abordam o tema. Para Rosa (2012, p. 1), inclusive, “[...] relações raciais e estudos organizacionais [são] dimensões esquecidas de um debate que (ainda) não foi feito”.

Outro engajamento político que assumo aqui é o de que, apropriando-me das enormes contribuições das feministas que há muitos anos defendem que o privado é também público, estou discutindo política e publicamente algo que pertence ao âmbito privado, a algo que pertence à esfera do particular: os lares e o que neles acontece. Coaduno com o posicionamento de Foucault (2006c), para quem mesmo as relações familiares são relações políticas. Coaduno com o posicionamento de Ávila (2008, p. 65), que defende que “[...] não podemos pensar o emprego doméstico como algo particular, mas devemos compreendê-lo no quadro das relações sociais e da formação sócio-histórica do Brasil, a partir da divisão sexual

do trabalho e da articulação entre as estruturas de classe, raça e gênero”.

O engajamento político ao falarmos em trabalho doméstico é importante porque estou falando aqui, usando as palavras de Brites (2008, p. 93), de uma “[...] domesticidade despolitizada”, de relações de trabalho dentro do ambiente doméstico cuja dimensão política quase sempre é desconsiderada, despolitização essa que vai sendo, de geração a geração, “[...] reproduzida na medida em que os adultos mantêm afastados os jovens e crianças das discussões micropolíticas da cotidianidade doméstica” (BRITES, 2008, p. 93).

Por fim, destaco meu posicionamento em uma temática que, na opinião de Ávila (2008), ainda é escassa na academia brasileira em virtude de seu baixo status. Se a autora destaca esse baixo status mencionando o campo de estudos da sociologia, no qual há vários estudos sobre o trabalho doméstico, o que poderemos dizer então a respeito do campo dos Estudos Organizacionais?

3. O CONTEXTO HISTÓRICO DAS EMPREGADAS DOMÉSTICAS NO BRASIL