AURËLIA- PEDRO - AURELIA- PEDRO -
(.. . . ) "Tem mais, até latinha co lorida! (Descobre algumas latas de c o n s e r v a ) .
"Pra que serve isso?"
"Tem dentro o que comer!" "Tantinho assim?"
" P o i s é muito! Essa aqui é de lei t e ..."
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AU R ÉL IA - "Não enche nem meia g a m e l a , ,, " OSMAR - "Esse e o tal do pó!" ’I, 15).
Ê natural, portanto, que t e nham precon c ei to com o que lhes ê novo(O sm ar - "Mas bom, Aurelia. Prova," Au r êl ia - "Deus que me livre!" 1,17) e se sintam d i st ancia dos do ambiente citadino, a p ar ec endo-lhes este como u m ou tro mundo, um mundo feito para outros homens:
CIRO - "Levo s i m , ,, Imaginou você numa bua te? Imaginou?" Ciro "Umas casas de festa que tem por lá! ... Cada melhe rão seu moço que você ia cair so de sentir o perfume!"
Ze Toledo - "Deus que me livre! Que que eu havera de fazer lá?" (1,29),
Para enfatizar ainda mais esse isolamento dos foreiros, traçasse na peça uma linha divisória entre a esfera de vida deles e a do latifundiário, faltando-lhes inclusive subsídios para c om pr ee nd er e m o "modus vivendi" do segundo: Ze Toledo -"Aqueles tem outro modo de tra,tã com o mundo! Eles lã e nos aqui. Inutil tentã compreensão!"
Existe, por conseguinte, um grande contras te entre a "Casa-Grande" do latifundiário e a choupana do camponês (no caso a de O s m a r ) , sendo que ã fartura e ao faus to da primeira r e sp on d em a escassez e a nudez da segunda , o que nos leva a lembrar do que disse Francisco Julião: "A contradição existente entre o castelo do nobre e a choupana do servo era igual ã que, hoje, ainda existe entre a Casa Grande da Usina, do capitalista, e a cafua miserável do camponês. Qualquer dos grandes viajantes europeus que, nos últimos três séculos, p e rc o r re ra m nessa. Pátria, não esconde o seu espanto diante desse coi-.traste alimentado pela crueldade do rico contra o pobre; o fausto da casa senhorial, com sua baixela de prata e uma infinidade de criados, a dois passos apenas da tosca cubata de barro e palha, sem luz e sem ar, onde se estiola na m i séria e na promis c ui da de criminosa a imensa m a ss a dos sacrificados", (.24) Vejamos, entretanto , como Guarnieri e x terioriza no texto esse contraste: Palho ça de Osmar, Aurêlia, Osmar, Rosa Pedro e Zé Toledo comem em g a m e l a s ,,.
Pedro "La no "Cascalho" como e que e ?" Zé Toledo - "Ah, fartãoj Tolentina chega
a ter espanto. Três a quatro prato no almoço e na janta. Agora , então , que seu Feliciano viajou ê um gasto sem limite... Seu Ciro. ê danado pra se entochar. Co me que o benza Deus! Dr. Afrânio tam bêm não deixa por menos. Ficam os dois naquela mesona por mais de uma hora que so se escuta nhoc-nhoc-nhoc, dando cabo das terrina... Coisa de pasmar!" (1,31/32).
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De tal modo vitimados pelo isolamento, quer se ja no sentido de d i st an ci am en to espacial, quer seja no de d is t anciamento cultural, ocorre com esses camponeses um fe nômeno característico, discorrido por Faco: c o ncebem o mun do com o substrato da religião, buscando nela a explicação para tudo o lhes acontece, aceitando passivamente os fatos como obras de um fado e/ou atribuindo aos maus espíritos e ao demônio o que de mal lhes sucede.
Ilustremos esse- fenômeno com as falas das per sonagens, agrupando as principais idéias que t ra du ze m sua m u n d i vi dê nc ia mística,
Como ê c a ra cterístico do mundo m í stico os san tos indicarem os fenômenos da natureza, A u rê l i a p rocura ne les a indicação de chuva;
A ur ê li a - "Pelo visto, Santa Luzia mentiu!" Osmar ( C a l m a m e n t e levanta-se e vai até a ja nela, olhando para o céu) - "Sabe-se lã? A santa não mente, nos ê que não entende direito os sinal!"
A u rê li a - "Hum, hum! Tava bem certinho. Chu va!" Cl,11).
A u rê l ia - "Menina ainda, vi Nossa Senhora que me disse que chuva vinha, E veio". (.1,35).
Quando as coisas não vão bem, como no caso , a colheita vem d iminuindo e o gado adoeceu, pensa-se em mal dição:
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A u rélia - "Assim quis porque daqui não se ti ra nada. A m al d i ço ad o que esta o sítio,,," (_1, 14),
Aurélia - "Eu digo, Osmar, tem coisa nesse sítio! Donzela e animal presente os maus e s p 'r i t o ! " Cl, 21). •
Para evitar a maldição, entretanto, deve-se buscar proteção nos santos, cultuando-lhes as imagens:
Osmar - "Amaldiçoado coisa nenhuma,' lína casa forte de santo e santa, Tem por todo lado, Vai dizer que não é de valia? Imagem e bentinho é o que não falta nesta casa.,,"
Cl, 14).
Por outro lado, a credita-se que muito mal reu nido de uma sõ vez é sinal de um passado ancestral pecamino,
so o que nao deixa de ser uma continuação da saga de Adão e Eva, ex pulso£*do paraíso e disseminadores do pecado entre os homens:
Osmar - "Mais essa!, , , .£, Aurélia! Acho que vo cê é que esta com a razão! Parece que tem uma trava na vida da gente."
Zé Toledo - "Isso ê assim mesmo!"
A ur élia - "Isso é mau que fizemo e tamo pa g a n d o !"
Osmar - "Que mau, Aurélia?"
A ur élia - "Sabe-se lá? Vem dos antigo, parentes nosso devem ter feito muito estrago. Os que vem depois é que paga," Cl, 36).
Em consonância com a idéia de maldição e doDeus cobrador, proprio do mundo místico , © castigo aparece-lhes como forma de punição de D e u s :
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A u rê li a - "Bem pensando tem seu fundo de pos sível. Castigo!"
Ora, munidos de todo esse arsenal m ís t ic o e dessa visão m a n iq u e í st a do mundo, e vivendo um presente pro b lemãtico - a colheita vem diminuindo e. o gado adoeceu - que e agravado pela possível estiagem e pela decisão do dono da terra de acabar com os arrendamentos, o que-lhes tira qual quer perspe c ti va de futuro, e nc on tr am ' eles duas saídas pa ra se a li viarem dessa (o)pressão pungente: buscar um apego a inda maior na r e l i g i o s i d a d e , ’ou rebelar^-se e buscar refúgio no cangaço. Assim, Osmar, Aurêlia, Rosa, Jeremias e Gertru des e scorregam para a primeira saída enquanto . Pedro escolhe a segunda. Para os primeiros, passar da crença, ou intuição, que o lugar estava tentado pelos maus e s p í r i t o s , para a cren ça.que ê v er d ad ei ra me nt e o demônio (ou Cão) que está lhes atrapalhando, sendo r e sp on sá ve l por todo o m a ú que lhes acon tece, não è um salto, e apenas um deslizar.
Ê m is t e r r e ferir que para conturbar o p resen te problematizado do camponês, a notícia do fim dos arrenda mentos ê concomitante a onda de que o demônio quer "desposai'’ as donzelas da região: Ze Toledo - "Pois diz que ê ... 0 da nado do Cão r es olveu ter o direito da pernada. Diz que de vinga n ça por causa da profissão; não quer deixar moça donze la!" (11,48).
Desse modo o demônio passa a ser para estes camponeses a força que catalisa e ao mesmo tempo i rradia o mal que lhes oblitera a vida. Ele se transfere de um m un do virtual para o mundo real do camponês, se "concretizando". E se "concretiza" m el ho r nas gestações de Rosa e Gertrudes, Uma vez "concretizado", o Cão passa a repres en ta r na vida dos foreiros um elemento contra q u em e necessário lutar, E eles se e n tr e ga m com dedicação a essa luta, c a n a l i z a n d o ,as sim, cegamente,* seus ímpetos de r evolta por toda a situação que os oprime (Osmar - "Perseguição danenta! Pois me ouça, seu diabo! Me ouça! Luto consigo . e não lhe dou m i n h a fa m íl i a pra pasto. Vem pra mim, porqueira, e larga dos ino cente. Por que que não vem pra mim, Tinhoso do inferno?!" 11,76).
Não nos esqueçamos de que são dirigidos pe lo Santo H om em nessa luta contra o demônio, d epositando ne le toda a confiança que lhes dá sua fé (Gertrudes - "Não agüento mais, Rosa, vou sentar!" Rosa <- "Não faz isso que estraga toda a penitência! Ele falou!" 11,81), Pela sua mun d iv i dê nc ia m í st ic a e por todo atraso cultural de que são vítimas, não são capazes de entender o charlatanismo do pro feta a ponto de q u ererem cumprir â risca sua ordem de assas_ sinar as crianças ("Meu conselho é sangrá os dois largando ao r elento para que a p r ópria n at ureza lhe dê sumiço. Ga r anto que fica livre a terra de danação! Terra e gente pu rificada. 0 que é do mal, ao mal r etorna com a bênção de
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tudo que é santo." III, 102). Nesse m omento se concentra um ponto forte da peça, pois Rosa, r ec us an do - se a cumprir a profecia, foge, na companhia de Pedro, com o filho. Observe mos antes, o seguinte fato: o bloco de personagens oprimidas, que se apoia ainda mais na religiosidade, totaliza na peça um grupo de cinco pessoas. De forma geral podemos dizer que todos, sem exceção, s ã o -manietados tanto pelo latifundiário como pelo H o me m Santo e seu grau de alien a çã o ê tão alto que podemos realmente chamá-los de fanáticos (25), sem esquecer, ê claro, que esse fanatismo nasce da p r óp ri a situação social de oprimidos em que vivem, sendo ele, pois, nada mais do que um dos tenebrosos lastros do latifúndio e s c r a v a g i s t a . De um modo mais r e s t r i t o , tèmos que ,abrir parentases para Osmar e pa ra Rosa, cujas atitudes d iv er ge m um tanto das de Aure-lia,Je
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remias e Gertrudes. Essas trés personagens p odem ser anali sadas conjuntamente, servindo o que se diz de uma para to das, dado que, salvo alguns senões - uma intuição mais agu çada de Aurelia, por exemplo, (ela p r es sente os problemas a ntecipadamente) - não hã nada que lhes distinga a ignorân cia, a visão m an i qu e í s ta do mundo e a atitude passiva peran te os superiores, especialmente o beato. O b edecem ã risca o ritual do sangramento da criança, totalmente tomados da fé de e s tarem a se libertar do mal (.Aurêlia puxa a r ez a, G e r trudes sangra a criança e Jeremias acha "que foi feito o mandado" III, 108/109/110).
Ja Osmar, do mesmo modo manietado, é m ar ca do por uma inquietação, por uma ânsia de entender tudo que o cerca. Esse aspecto o distingue dos demais, muito embora, no final sucumba â situação e participe do sacrifício como eles o fazem, alem do que saia a gradecendo a Ciro pelo "berrf que lhes fez: "No mais, seu Ciro,,, Obrigado' por tudo, Di ga pra seu pai também quando ele voltã,,, Nunca fizemo d e£ respeito... Sinto que o que aconteceu, acontecesse em ter ras vossas,.. (.111,117),
Todavia, apesar de declarar-se um crente ("Eu t ambém que não sou descrente, (,..)"I, 35) e de reve lar-se imbuído da m e sm a m un di v i d in c i a místico- m a n iq u eí s t a dos outros membros do bloco (",.. mas fica falando a todo instante ê coisa que dã nó no peito, Um cristão vive assom brado. Vamo rezã, Pra rezã tou aqui, Mas não fica falando...- isso pra m i m alimenta os mau esprito!" 1,35) enquanto estes p as s a m a ação acred it an do piamente no demônio., ele questio na o porquê da existê nc ia do demônio.
No segundo Ato há um grande diálogo entre Osmar e A u rélia que ilustra bem a divergência entre ele e os demais:
Frente da palhoça, Osmar e Aurélia,
Aurélia - "Tudo nesse mundo é um feitiço!" Osmar - "Quisera saber por quê!"
Au r él ia - "Não adianta indagar!"
10 0 Osmar - A urelia Osmar - A u rêlia Osmar - Aurélia Osmar - Aurélia - Osmar -
"Pois, As coisas vem numa d e so rd em ,e depois a gente nota que elas têm en t r e l a ç a m e n t o . Mas so depois de já ter a c o n t e c i d o ..."
- "£ a mão de D e u s !"
"Ê uma luta de dois mundos, não ê Au rélia? Deus de um lado benzendo, o Cão do outro atazan an do o espírito. Nos no meio. Quando a sorte começa a tomá jèito de coisa boa: bumba! La v em o demo dando o t r o c o !"
- "Pois aí está porque é preciso toma partido. Fica do lado de um e de ou t r o ! Quem fica com o diabo consegue uma a p ar ência de boa sorte. Quem fi ca com Deus t e m o descanso garanti do."
"0 que me agonia ê saber porque ê que Deus tendo criado tudo tão certinho r e so lv eu dã vez pro Tinhoso. Devia ter capado ele de início..."
~ "Ta se pondo no lugar de D e u s , Osmar? Ja é petulância.'"
"Que o quê.' . , . É que sou burro,não en tendo as c o i s a s !,., Não entendo e que ro entender!,,, Eis onde me atrapalho!" "0 jeito só ê ter fé: cumpri com os mandamen
tos, pega o que ensina os mais velhos e ir vivendo de acordo... Sem m u it a pergunta, sem muita questão!"
"Pois veja só: o diabo vem, encontra brecha e se instala, jã ê um ponto pro
loi Aurelia Osmar - A u relia Osmar - A urelia Osmar - Aurelia Osmar - A u relia Osmar - A urelia Osmar -
Tinhoso. Pega Deus e jã r es po nd e n d om a n da um Santo Homern que sabe lida com o demo ,.. Mas, enfim, quem manda irais - Deus ou o dia
bo?"
- "Isso nem é coisa que se pergunta. Se diabo existe e que Deus criou..."
"Pois pra qui? Pra ter mais trabalho?" - "Sei lã que não peço satisfação pro Al
tíssimo, Ele lã sabe o que faz. Ja no meu pobre entend im en to acho que ë pra ter como castiga a g e n t e ..."
"Mas Deus mèsmo castiga.,."
- "Mas não castiga "Ele", Deus!- Castiga com o diabo. Deus sendo bom, não pode fazê mal... Mas é preciso faze mal pra dã castigo. Então, Ele criou o diabo..." "Que seria assim como que uma p olícia de Deus !"
- "Olhe, que mais ou menos!"
"Ê!... Teu pensamento tem justeza. Mas em a s si m sendo como ê que a gente tem de lu ta contra o diabo?"
- "E vai deixa de luta, Osmar?! Onde já se viu?"
"Mas se o diabo castiga por m a ndado de Deus, tem de agüenta o castigo!"
- "Ora, Osmar!"
"Ora não, que o q u e ’digo tem cabimento! Veja o negocio do Pedrò. Se os soldado ti vesse vindo pra castiga ele. e a gente fos se luta contra os soldade, quem tava no errado era a gente, que o castigo vinha em c u mp rimen to da lei. E luta contra os soldado era luta con tra a lei,.,"
Aurélia - Aí nao pode não ..."
Osmar - "Mas o caso é o mesmo, Se a coisa se dá como voei tá dizendo, lutá contra o dia bo é lutá contra a lei de Deus. Então , não p o d e '"
A ur é li a - "É, sendo assim, de fato não pode..." Osmar - "Então, teu p ensamento tá errado..." A ur é li a - "Vai vê, tá mesmo,.,"
Osmar - "Mas tando errado, Deus e o diabo tem o m e sm o valor!"
A u rélia ~ "Diz isso não, velho!" Osmar - "Então como e que é?"
A u ré l ia - "É ir vivendo, Osmar, Sem muita p ergun ta, sem muita questão!"
Osmar - "Hum! , , , Mas Deus tem de ser mais forte.,," A urélia - "Tem de ser.,." (11,68/69/70)
Por este diálogo notamos o quanto A u ré l ia é mais a c om od ad a que Osmar e o quanto este se debate p r oc ur an do en t e nder o emaranhado em que se encontra ( m ) .
Outro aspecto que lhe dá tons diferentes dos de mais é o ato de r e voltar-se contra tanta p erseguição do demô n i o , expressando totalmente sua ira: "Caridade coisa n e nhuma que pra m i m já chegou! Tomei fartão de coisa r u im n essa casa, Que tinha i peso de tudo quanto mais odeio essa gente que dei xou o Cão tomá conta de tudo!.,. (III, 98), "Vá entrando, ir mão! Ali é a porta do inferno, pode ir entrando,., Entre no
inferno'" (111,99),
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Infelizmente, a situação se torna a tal pon to caótica que Osmar perde de uma vez a parca capacidade de e n tendimento que possui ("Meu pai, jã não sou h omem de pen sarnento. Minha cabeça esvaziou. Não sou de muito pensa. Sou h o me m da terra. Me sumiu todo o entendimento..." III, 102 ) e tal qual os demais, ou seja, do m esmo modo t o r t u r a d o ,quer d esfaz er -s e do "entulho" o mais d ep ressa possível. Nada mais questiona, apenas ajuda para que o sacrifício saia tal qual o m an da do pelo Santo Homem.
A i nd a que essa vontade de Osmar de e n te nd er