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Implications de la phytothérapie dans les affections neurologiques [29] :

LISTE DES ILLUSTRATIONS

MATERIELS ET METHODES

A- Implications de la phytothérapie dans les affections neurologiques [29] :

358 RAUTER, Cristina. O estado penal, as disciplinas e o biopoder. In: Batista, V. M. Loïc Wacquant e a

questão penal no capitalismo neoliberal. Rio de Janeiro: Revan, 2012, p. 73.

359 idem.

360 FOUCAULT, Michel. Em defesa da sociedade: curso no Collège de France (1975-1976). 2ª Ed. São Paulo:

Inserido nesse movimento do capitalismo na chamada pós-modernidade, o Brasil tem uma demanda por ordem que necessita do descarte. A radicalização da ordem econômica carrega consigo os escombros do controle social genocida.

Em “vidas desperdiçadas” o sociólogo polonês Zigmunt Bauman361 nos fala da

história moderna como uma história de produção de projetos humanos que nos ajuda a compreender como funcionam as engrenagens do biopoder. Dos “projetos humanos” erguidos na modernidade e suas intrínsecas relações com a demanda por ordem, isto é, dos projetos humanos que evocam a desordem juntamente com a visão da ordem e nomeia o mal, o entrave, o supérfluo, o descartável, o “refugo” na construção desse projeto. Nas trilhas de Mary Douglas, Bauman observa que nenhum objeto é “refugo”, descartável ou mal por suas qualidades intrínsecas, e nenhum pode adquirir essas “condições” mediante sua lógica interna de funcionamento, “[...] é recebendo o papel de refugo nos projetos humanos que os objetos materiais, sejam eles humanos ou inumanos, adquirem todas as qualidades misteriosas,

aterrorizantes, assustadoras e repulsivas [...].”362

Bauman faz uma leitura da modernidade e pós-modernidade em que a figura do descartável e do refugo é subjacente e produto inevitável dos projetos implementados para o desenvolvimento do capitalismo. O refugo é como o lixo decorrente da “produção” de algum produto novo nesse sistema, é sempre resultado desse processo, mas ninguém se preocupa com esses dejetos, sequer sabemos ou procuramos os motivos pelos quais são descartados. O sociólogo Polonês nos fala então que esses refugos que se acumulam com o “desenvolvimento” dos projetos é o segredo sombrio e vergonhoso de toda “produção”, não temos coragem de visitá-los fisicamente ou no pensamento, assim como não nos aventuramos e temos medo de visitar bairros pobres, “ruas perigosas”, periferias de grandes cidades. E assim removemos esses “refugos” de nossos olhos e nossa imaginação tornando-os invisíveis e inimagináveis, não significando nada seu sofrimento e destruição. Só nos preocupamos com eles quando as “defesas elementares da rotina se rompem, as precauções falham”, quando esses refugos insistem em resistir e ultrapassar as fronteiras físicas e imaginadas do nosso projeto. Nessas preocupações, acionamos os “coletores de lixo” que atuam reavivando as fronteiras entre o desejável e o repulsivo, o aceito e o rejeitável, a normalidade e a patologia, o dentro e o fora do universo humano. Esse trabalho é necessário, pois essas fronteiras não são naturais, é preciso sempre traçar fronteiras numa incansável atividade de demarcação.

361 BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Trad. Carlos A. Medeiros. RJ: Zahar, 2005, pp. 29-45. 362 Ibidem, p. 33.

O racismo de estado que nos falava Foucault funciona nessa mesma lógica, fazendo recortes produzindo esquadrinhamentos para separar o útil e o inútil, o saudável e o patológico, o normal do anormal, o criminoso do cidadão. E assim, os coletores de lixo não deixam de ser os órgãos do sistema penal que através da criminalização ajudam a manter as divisas e fronteiras, preparando o terreno (ou se incumbindo ele mesmo) do descarte dos refugos, ou dos “seres humanos refugados”.

A produção de projetos humanos, assim como o racismo de estado, tem o objetivo de

“[...] abrir mais espaço para ‘o bem’, e menos ou nenhum para ‘o mal’”363, gerir a vida para

deixá-la mais segura e saudável à custa da eliminação do perigo. Para Bauman364 “é o bem

que faz do mal aquilo que ele é: mal. ‘O mal’ é o refugo do progresso.” São os diversos processos de classificação e enquadramento social que buscam traçar os parâmetros da vida normal, correta, ajustada, que faz com que outras vidas ou formas de se viver sejam consideras anormais, incorretas, desajustadas. É a concepção do modelo de família burguês e patriarcal que criam as tão propagadas “famílias desestruturadas” ou “desagregadas” que tanto observamos nas práticas da justiça da infância e juventude. É o processo de moralização e criminalização que criam sujeitos imorais e criminosos. Enfim, são os processos que demarcam as “vidas dignas de se viver” que produzem as vidas indignas, descartáveis, que podem ser facilmente extermináveis. O discurso da proteção da vida é produtor da morte assim como o progresso é produtor da barbárie.

Na projeção das formas do convívio humano no capitalismo, o refugo são os seres

humanos. Bauman365 diz que alguns seres não se ajustam a forma projetada e nem podem ser

ajustados a ela, aparecem como nódoas numa paisagem elegante e serena. Como seres inválidos, anormais, desajustados, perigosos. Sua ausência na paisagem só beneficiaria e tornaria ela mais harmoniosa, padronizada e tranquila à forma projetada ou à estética dessa forma. A construção da ordem é assim uma estética e uma aperfeiçoada forma de convívio humano, em que a ordem vem ser a condição em que tudo se encontra em seu espaço adequado e executa funções apropriadas. O caos se torna o inimigo número um, ele sempre vai ofender o projeto estético.

É na implicação da construção da ordem que a “visão da pureza” entra em cena. Na verdade a pureza é uma “visão da ordem” em que cada coisa deve ter seu lugar “justo” e “conveniente”, tendo como oposto da “pureza” aquelas coisas/pessoas que são sujas, imundas,

363 BAUMAN, Zygmunt. Vidas desperdiçadas. Trad. Carlos A. Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p. 41. 364 Idem.

isto é: coisas/pessoas “foras do lugar”. Porém, “o mal-estar da pós modernidade” que

Bauman366 nos apresenta também concebe coisas/pessoas para as quais não existe nem “lugar

certo”, nada foi reservado a elas em qualquer fragmento da ordem construída. Essas são as coisas/pessoas que não podem ser colocadas em nenhum lugar nos quais o modelo ou o projeto estético da visão de pureza criou. Com essa “visão de pureza”, o extermínio e o racismo de estado entram também em cena: já que o mundo ou o projeto estético da pureza não possui lugar para acomodar essas coisas/pessoas, “[...] será preciso livra-se delas uma vez

por todas – queimá-las, envenená-las, despedaça-las, passá-las a fio de espada.”367

A construção da ordem pela “visão de pureza” e pelo racismo de estado tem no estágio atual do capitalismo se ancorado na criminalização de toda a conflitividade social e dos problemas sociais decorrentes da radicalização da ordem econômica. Por isso é que “esta nova ordem prevê a magnificação do sistema penal e o consequente aumento vertiginoso das taxas de encarceramento, bem como da industria carcerária (polícia, tribunais, advogados,

fornecedores de equipamentos prisionais).”368