3. Implications professionnelles et théoriques
3.2. Implication théorique
3.5.1 Os prazeres do pluralismo
Apesar de sua proposição de sistemas explicativos mais facilmente traduzíveis na linguagem usual do neodarwinismo (em comparação, por exemplo, com a Teoria dos Sistemas em Desenvolvimento ou a Biologia do Conhecer) a trajetória do paleontólogo Stephen Jay Gould na história recente da biologia evolutiva é a mais marcada por reações violentas da ortodoxia. A maioria dessas reações é dificilmente classificável como debates iluminadores sobre modos mais ou menos adequados de abordar os processos vivos. São mais discussões sobre quem, na comunidade científica, detém o privilégio da verdade sobre a evolução (ou quem detém a “herança sistêmica” de Darwin, digamos assim). Uma simples olhada no procedimento de validação das explicações científicas, tal como apresentado pela BC (ver parte 3.4.2, acima) bastaria para nos darmos conta da inadequação dessa discussão, e, ainda assim devo comentá-la aqui, pois inadequada ou não, ela nos mostra um aspecto importante do papel de Gould no debate sobre os processos vivos, instrumental neste trabalho.
A explicação mais simples para as controvérsias envolvendo Gould é que, ao contrário dos proponentes da DST e da BC, Gould é um popular divulgador da ciência - no estilo conhecido como haute vulgarisation, ou a discussão em uma linguagem não-técnica, sem simplificação das próprias questões (Lewontin, 1997) - com 300 artigos semanais publicados na revista Natural History do início dos anos 70 até sua morte em 2002 (Gould, 2003; Lewontin and Levin, 2002), e a reunião desses artigos em uma dezena de volumes, avidamente consumidos por um público tanto iniciado quanto leigo (por mim, inclusive). Isso, aliado aos artigos e volumes de discussões teóricas específicas, com importância ainda maior que sua haute vulgarisation no contexto amplo - e público - dos debates evolutivos.
O trio Richard Dawkins, Daniel Dennet e John Maynard Smith tem sido a principal referência das críticas neodarwinistas às proposições de Gould, que vão desde a consideração de sua abordagem evolutiva como inócua, perversa, ou simplesmente errada, até uma mal- disfarçada irritação, seja com a publicidade, seja com a relativa erudição da escrita de Gould (como um agravante, salpicada de referências ao beisebol e às operettas de Gilbert & Sullivan, suas outras paixões além da evolução). Por exemplo, em A perigosa idéia de Darwin, Dennet (1998), chama Gould de o “evolucionista laureado da América”, uma alusão
carregada de preconceitos, do ponto de vista da usual reverência à objetividade científica, às habilidades e inúmeras referências literárias de Gould. Em uma resenha desse mesmo livro de Dennet, diz o biólogo evolutivo John Maynard Smith:
Gould ocupa uma posição bastante curiosa, particularmente deste lado [o europeu, ou britânico] do Atlântico. Por causa da excelência de seus ensaios, ele veio a ser visto pelos não-biólogos como o proeminente teórico evolutivo. Em contraste, os biólogos evolutivos com quem tenho discutido seu trabalho tendem a vê-lo como um homem cujas idéias são tão confusas que mal vale à pena preocupar-se com elas, mas que não pode ser publicamente criticado porque, ao menos, está do nosso lado contra os criacionistas. Tudo isso não teria importância, não fosse pelo fato de ele estar oferecendo aos não-biólogos uma imagem amplamente falsa do atual estado da teoria evolutiva53.
Mas que falsa imagem é essa que Gould vem apresentado da teoria evolutiva? Quatro artigos específicos de Gould respondem por (ou resumem) essa querela nas ciências evolutivas, e demonstram que o problema dos neodarwinistas com Gould não se resume ao seu reconhecimento público. Os dois primeiros são importantes pelo impacto na comunidade
53Gould occupies a rather curious position, particularly on this side of the Atlantic. Because of the excellence of
his essays, he has come to be seen by nonbiologists as the preeminent evolutionary theorist. In contrast, the evolutionary biologists with whom I have discussed his work tend to see him as a man whose ideas are so confused as to be hardly worth bothering with, but as one who should not be publicly criticized because he is at least on our side against the creationists. All this would not matter, were it not that he is giving non-biologists a largely false picture of the state of evolutionary theory (Maynard Smith, 1995).
acadêmica: “Punctuated equilibria: an alternative to phyletic gradualism” (Eldredge and Gould, 1972), em co-autoria com o paleontólogo Niles Eldredge; e “The spandrels of San Marco and the Panglossian paradigm: a critique of the adaptationist programme”, escrito com Richard Lewontin (Gould and Lewontin, 1979). A esses podemos adicionar outros dois menos celebrados (ou lamentados) mas também representativos da trajetória particular de Gould: “Size and shape” e “The return of hopeful monsters” (respectivamente Gould, 1974; e Gould, 1977). Os quatro textos resumem ou exemplificam o ataque de Gould a três pilares fundamentais do edifício neodarwinista: o gradualismo, o extrapolacionismo (no texto com Eldredge) e o adaptacionismo (na acepção de Darwin, não de Lamarck), esse último através de sua crítica direta no texto com Lewontin e a recuperação parcial das alternativas clássicas e estruturalistas ao funcionalismo darwiniano: o internalismo e o saltacionismo, temas exemplificados, respectivamente, pelos textos de 1974 e 1977.
A obra inteira de Gould (em que pese suas incursões iconoclastas a temas não especificamente evolutivos, embora normalmente utilizados para tratar temas gerais também instrumentais na compreensão dos processos orgânicos), em consonância com sua abordagem estruturalista dos objetos vivos, pode ser vista como uma continuada afirmação da necessidade de revisão do tratamento neodarwinista dado à evolução, girando sempre em torno da crítica aos pilares mencionadas acima. Seus livros técnicos ou específicos também seguem essa trajetória. O primeiro, Ontogeny and philogeny (Gould, 1977), trata das restrições (ou canalizações, ou facilitações) do desenvolvimento nos processos evolutivos, um tema ou negligenciado, ou mal formulado pelo neodarwinismo, que, como vimos, costuma restringir as relações entre filogenia e ontogenia ao controle da segunda pela primeira. Ontogeny and philogeny faz a primeira revisão crítica consistente da história científica da recapitulação - a ontogenia de um organismo como uma microcosmo da seqüência de seus
considerado cientificamente ultrapassado, sobrevive no ideário tanto acadêmico quanto popular.
Esse é justamente o caso da lingüística evolutiva, exemplar tanto pela clareza quanto para o contexto do presente trabalho: em abordagens da evolução da linguagem são utilizados paralelos ontogênicos, de desenvolvimento e aquisição da linguagem e até históricos, como as protolinguagens de crianças, primatas “aculturados”, humanos afásicos e falantes de línguas pidgin (Bickerton, 1992). Processos evolutivos como uma extrapolação de fenômenos em menor escala, esses, por sua vez, via de regra tratados de forma reducionista (Vianna, 2003). Desde a embriologia pré-darwiniana de Von Baer, no entanto, são reconhecidos processos ontogênicos independentes, ou, melhor, dependentes das condições próprias da ontogenia e da integridade do próprio organismo em desenvolvimento, e, não, de leis importadas da filogenia. O caso clássico é a embriologia de vários tipos de salamandra, que retêm formas juvenis quando adultas (processo conhecido como neotenia, também explicativo de algumas características humanas; Gould, 1977; Gould, 1991), “invertendo” a lei geral da recapitulação, inclusive influenciando a evolução na constituição de linhagens “degeneradas” (quando vistas sob a enganosa ótica progressivista da evolução; Gould, 1977).
Dois outros livros específicos de Gould, A falsa medida do homem e Seta do tempo, ciclo do tempo (1991 e 1991b)54
tratam de dois outros temas coerentes com a contínua incursão de Gould no debate darwinista. Respectivamente, as obras incursionam nos “porões” da apropriação ideológica de Darwin (como a eugenia, a justificação biológica do racismo e a mensuração da “inteligência biológica”, posição que está no cerne do entendimento da linguagem como uma capacidade biológica, diferenciadora do humano) e nas raízes históricas e epistemológicas da opção pelo gradualismo como o modo de operar da natureza. Como diz o subtítulo da obra, “mito e metáfora na descoberta do tempo geológico”. Esses temas
54The mismeasure of man e Time´s arrow, time´s circle foram originalmente publicados em 1981 e 1987. Uso
integram-se ao Ontogeny and philogeny em uma crítica coerente ao neodarwinismo e sua consideração do que ocorre nos processos “micro”, atuais e visíveis, como instâncias incipientes da fenomenologia de sistemas maiores, ou hierarquicamente distintos.
Não devemos estranhar, portanto, que Gould seja um alvo preferencial da reação da ortodoxia, e não apenas por sua maior visibilidade. A DST ressente-se, em sua crítica bastante apropriada do neodarwinismo, de um programa investigativo consistente, que abranja os vários, ou os mais importantes, aspectos da teoria evolutiva. A BC, por outro lado, “peca” exatamente pelo motivo oposto: por tratar-se de uma epistemologia completa, fechada, é difícil até mesmo um diálogo produtivo de suas proposições teóricas com outros programas, tradicionais, complementares ou alternativos.
É claro, tanto a DST quanto a BC têm tido participações importantes no debate como um todo, e suas opções (mais claras, ou mais incisivas, que em Gould) pela abordagem sistêmica tanto do organismo quanto das relações orgânicas têm tido repercussões cada vez mais evidentes e disseminadas na comunidade acadêmica. Por exemplo, temos a utilização do conceito de organização autopoiética em Margulis e Sagan (2002), e Lynn Margulis, ela própria responsável por uma tese levemente herética do papel da simbiose na evolução, tem, não obstante, trânsito e voz na comunidade hegemônica de biólogos evolutivos. Têm igualmente se multiplicado os tratamentos sistêmicos do organismo, da ecologia e da evolução, direta ou indiretamente informados pela DST ou pela BC. O maior exemplo é o já comentado niche construction de Kevin Laland (ver parte 3.2, neste capítulo), levado suficientemente e cada vez mais a sério pela comunidade a ponto da revista britânica Nature (famosa por não publicar desvios mínimos da ortodoxia) conceder a seguinte introdução ao artigo “Personal effects”, de Dan Jones (2005; tradução minha):
Seres vivos, da bactéria ao humano, mudam seu ambiente, mas as conseqüências para a evolução e a ecologia só agora estão sendo compreendidas, ou pelo menos é o que dizem os “niche-constructivists”.
“Pelo menos é o que dizem os “niche-constructivists”” é melhor do que nada em se tratando da Nature, mas muito aquém de uma mudança de perspectiva no tratamento dos processos do vivo. O restante da matéria segue a usual linha editorial da revista, de pesar prós e contras e concluir que “é cedo para dizer se essa abordagem irá gerar insights que teriam sido, de outra maneira, perdidos” (Jones, op. cit.). Ou seja, a velha política em ciência de, alternativamente a considerar uma abordagem equivocada, dizer que ela realmente não apresenta nenhum desafio ao que sempre afirmou a ortodoxia, e portanto, fazemos melhor em prosseguir na segurança já testada do velho paradigma.
3.5.2 A crítica ao programa adaptacionista e o poliedro de Galton
O tratamento dado pela Nature ao construtivismo de Laland não é muito diferente da recepção neodarwinista a Gould, a não ser pelo fato de Gould ter encontrado um espaço bem maior de exercício intelectual e, como já dito aqui, “cercado” a teoria evolutiva com propostas de revisões estruturais em pontos-chave caros à ortodoxia, e portanto inspiradoras de uma reação igualmente robusta. A proposta isolada de niche construction, por exemplo, deixa intacto o papel da seleção natural como o agente causal preferencial da mudança evolutiva (pois a conservação é considerado um não-fenômeno, ou uma “falta de pressão seletiva”, no neodarwinismo; Mayr, 1998). A crítica de Gould ao adaptacionismo, cujo marco é o texto seminal escrito com Lewontin (Gould and Lewontin, 1979) marca a diferença entre Gould e a Biologia do Conhecer no conceito de adaptação. Por exemplo, dizem Maturana y Mpodozis (1992) que não é possível falar em caracteres não-adaptativos em oposição a caracteres adaptativos pois, ainda que haja espaço para uma variação independente de características
(desde que não interfiram destrutivamente na realização autopoiética do vivo) sua participação ou não no encontro com o meio não torna variável o processo inerente ao organismo de conservação da adaptação. Ou se está adaptado, ou não se está vivo.
Gould e Lewontin naquele artigo particular de 1979, e Gould no restante de sua obra, seguem a estratégia alternativa de aceitar que pode haver determinadas características (ou qualquer característica em determinados momentos) que participam de uma constituição preferencial da linhagem na deriva (sorting, para Gould, 2002), mas que isso não é sempre assim, e talvez, em relativamente poucos casos isso seja assim. A explicação alternativa é que muitas características presentes nos organismos são “tímpanos” (spandrels, em inglês; vãos arqueados), a exemplo daqueles da Catedral de São Marcos, em Veneza. Na catedral, os tímpanos servem de suporte a uma iconografia cristã, que, dada a sua proeminência estética no contexto de todo o conjunto arquitetônico, tem-se a idéia que não apenas os tímpanos, mas toda a abóbada da catedral, foram projetados para a apresentação das imagens. No entanto, os tímpanos são uma restrição de todo o sistema arquitetural, um sub-produto, ou a “sobra” da construção da abóbada em arcos (Gould and Lewontin, 1979).
A analogia com os organismos é clara. Restrições estruturais, conseqüências da integração de determinadas características com outras partes do organismo (o que Darwin chamava de “correlação das partes”; Darwin, 1859) e restrições de desenvolvimento (ou seja, caminhos preferenciais ou canalizados pelo desenvolvimento sistêmico, e, não, modular ou desarticulado dos organismos) são não apenas impedimentos à ação de um mecanismo principal, mas fenômenos diretivos do percurso de uma linhagem, tanto na conservação fenotípica como no surgimento de novas características. Gould e Lewontin criticam o “entulho teleológico” em conceitos como pré-adaptação (como se estruturas presentes no passado evolutivo fossem adaptações atuais incipientes), levando Gould e a paleontóloga
Elizabeth Vrba a criar o conceito de exaptação, ou o “seqüestro” de características disponíveis para suas atuais funções (Gould and Vrba, 1982).
No já mencionado Ontogeny and philogeny, Gould (1977) explora as relações entre os processos ontogênicos e a evolução, particularmente, como mudanças - por razões adaptativas ou não - no timing do desenvolvimento e nos processos de crescimento alométrico (coordenado) das partes, canalizando e facilitando (ou seja, apressando) o percurso filogenético. Esses dois temas, o papel da estrutura ou da “forma” na conservação e na mudança evolutivas, e a “evolução rápida” (descontínua, saltatória), são, já foi dito neste capítulo, as alternativas clássicas à evolução adaptativa, às vezes coordenadas em um só sistema explicativo, como no caso do mendeliano William Bateson. Sob esses temas, as variações orgânicas podem ser diretivas na evolução e, não - como na metáfora funcionalista criticada por Lewontin - soluções aleatórias para problemas preexistentes colocados pelo ambiente (ver parte 3.2, neste capítulo).
Os dois temas foram, nas palavras de Gould (2002), sintetizados no “poliedro de Galton”55: o organismo é um poliedro, vivendo em estabilidade orgânica (diríamos hoje, em homeostase), apoiado em uma de suas várias “facetas”. A tendência é a conservação, e “pequenos empurrões” fazem o poliedro mover-se, mas voltar à posição original. Movimentos mais fortes podem girar o poliedro, que então assumirá rapidamente uma nova posição discreta (Gould, 2002). Aí estão as sementes da evolução sistêmica e uma crítica “estrutural” ao neodarwinismo (nos dois sentidos de uma crítica estruturalista e à estrutura do pensamento neodarwinista).
55
Francis Galton - primo de Darwin - era, como outros naturalistas do século XIX, de difícil definição quanto às suas preferências epistemológicas, ao menos em termos dos padrões atuais. Eugenista e adepto da craniometria, Galton poderia ser visto apenas como mais um “darwinista social”, não fosse ele também um pluralista quanto aos modos de operar da evolução. A exemplo de Samuel Butler, Galton pensava que Darwin não havia prestado suficiente atenção às lições lamarckianas, internalistas e - diríamos hoje - sistêmicas, de seu avô comum, Erasmus Darwin (Gould, 2002; Bateson, 1972).
3.5.3 O pólipo tripartido de Agostino Scilla
Gould viveu para ver publicada sua magnum opus (de fato, um volume de mais de 1.400 páginas) que chamou exatamente de The structure of evolutionary theory, fazendo referência aos dois sentidos de “estrutural” a que aludi acima. Na obra, Gould articula sua crítica aos três pilares epistemológicos do neodarwinismo: gradualismo, extrapolacionismo e adaptacionismo. Ao contrário da DST e da BC, porém, Gould trata seus temas como uma revisão, ou um desenvolvimento, do darwinismo, e, não, a substituição de uma epistemologia por outra. (Gould, 2002). Gould utiliza uma metáfora ao mesmo tempo orgânica, histórica e estética, os desenhos de um pólipo do pintor siciliano seiscentista Agostino Scilla, para conceber a teoria evolutiva como uma essência darwinista - o tronco do pólipo - mas com ramificações ou extensões sujeitas às modificações históricas e contingentes do desenvolvimento científico. Corte o tronco, e o organismo morre, mas as mudanças em suas ramificações podem e devem ser profundas, se o que desejamos são reformas estruturais. Gould concebe a pedra fundamental do edifício darwinista original (ou seja, edificado pelo próprio Darwin) como a estrutura tripartida nos ramos “agência”, “eficácia” e “escopo” (não estou seguro de minhas traduções; em inglês: agency, efficacy e scope; ver Gould, 2002).
Em eficácia Gould discute a identificação de um ou mais mecanismos diretivos ou causais dos processos evolutivos (que, para os neodarwinistas, resume-se à seleção natural e, para Darwin, era principalmente a seleção natural). Em sua proposta de modificação estrutural no “ramo eficácia”, Gould difere da BC que propõe a deriva natural como um mecanismo alternativo à seleção natural. Em Gould, a deriva genética56, ao lado da seleção natural e variadas restrições estruturais e emergência de características, são agentes causais alternativos
56
Deriva natural não é igual a deriva genética (ver parte 3.4 sobre deriva natural na BC). No entanto, com relação à especiação, que será comentado na parte 3.5.4 a seguir, tanto para a BC quanto para Gould e mesmo
em um processo geral que Vrba e Gould chamaram de sorting (Vrba and Gould, 1986, citado por Gould, 2002) que, descritivamente, é “agnóstico” sobre mecanismos causais ao mesmo tempo que reconhece o estabelecimento de linhagens específicas, ou, em termos neodarwinistas, “sucesso reprodutivo diferencial” (mas, não necessariamente, seleção).
Em sua proposta de mudança estrutural do ramo escopo, Gould reclama da tradição extrapolacionista, desde Darwin, já discutida aqui, de que processos em pequena escala são explicativos de processos mais abrangentes. Em termos evolutivos, ou, mais especificamente, para os interesses de um investigador de uma ciência histórica como a paleontologia, isso quer dizer que a investigação do registro fóssil pode trazer resultados curiosos, uma “coleção de selos”, mas tem pouca importância para um modelo explicativo, pois tudo o que ocorre no tempo geológico pode ser explicado em termos da mudança da freqüência de genes em populações variáveis. Para além das questões paleontológicas, o extrapolacionismo implica também a aceitação de um modelo reducionista já longamente discutido neste trabalho, o que nos leva à necessidade de reestruturação do terceiro “ramo” da estrutura evolutiva - a agência - o debatido locus preferencial da evolução, crucial para uma contextualização dos modos de relação orgânicos e, para fins deste trabalho, principalmente os lingüísticos.
3.5.4 Especiação: espécies-indivíduos e o contexto dos modos de relação
O texto “Punctuated equilibria: an alternative to phyletic gradualism” (1972), em que Niles Eldredge e Steve Gould introduzem sua teoria do equilíbrio pontuado, foi concebido como um trabalho técnico para resolver uma antiga questão da paleontologia. Já no Origem das espécies, Darwin insistia que a mudança lenta e gradual era o tempo e o modo da
evolução, e que o fato de não encontrarmos muitas formas transitórias no registro fóssil reflete a extrema imperfeição desse registro. Era como se, de um livro, restassem apenas algumas folhas, e dessas folhas, apenas fragmentos esparsos. Darwin considerava o assunto tão
importante - pois se o registro fóssil fosse lido literalmente, sua evolução gradual estaria desacreditada - que dedicou o nono capítulo inteiro do Origem para tratar da “Imperfeição do registro geológico” (Darwin, 1859). Criou-se um paradoxo na paleontologia em que, apesar dessa investigação histórica produzir volumosas evidências bem diferentes do modo e do tempo darwinianos, apenas a descoberta de seqüências transicionais eram consideradas “evidências de evolução” (Eldredge and Gould, 1972). Em particular, Darwin via o percurso das linhagens no tempo como a contínua e gradual transformação de uma espécie em outra, ou gradualismo filético, que requer (em sua versão tradicional) formas transicionais de cima abaixo no registro fóssil. Um desafio á transformação filética veio de dentro do próprio neodarwinismo, com a ênfase na especiação e com a teoria alopátrica de Ernst Mayr (1998).
Mayr defende que o processo de especiação - o nascimento de novas espécies por ramificação de um tronco parental - e não a transformação filética, é o principal modo de