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É difícil concluir um trabalho que trata de algo tão multiforme e surpreendente como é a memória dos Irmãos da Cruz, por suas narrativas orais. Resta-nos neste instante, porém, tentar dar o último “retoque” em alguns aspectos que genericamente procuramos percorrer nesse escrito. Os três capítulos que aqui foram apresentados são ao mesmo tempo autônomos e estreitamente conectados. Falamos isso porque cada um deles tratou no seu desenrolar de uma problemática histórica específica, que só existia, no entanto, na e pela relação com as questões tratadas/problematizadas nos outros capítulos. Há um fio condutor que atravessa todos eles, e esse fio é o da memória.

O primeiro destes capítulos trafegou pela construção histórico-mnemônica das práticas autopunitivas durante a segunda metade do século XIX, no Cariri cearense. Nesse sentido, tentamos “traçar”, primeiramente, a maneira como foi se construindo, a partir de diversos movimentos, uma memória “oficial” sobre tais experiências. Essa construção remonta aos escritos de Euclides da Cunha em decorrência de seu registro “jornalístico” da guerra de Canudos, até o apanhado de alguns intelectuais caririenses entre o final do século XIX e início do XX. Essas narrativas em alguns momentos se tangenciam e em outros se afastam pela preocupação discursiva a que se veiculam circunstancialmente.

Porém, a prática da penitência é um lugar comum nesses percursos, ancorada, evidentemente, na construção de alguns dos mitos fundadores daquela região. A figura do sacerdote cearense padre Ibiapina, tornou-se então a linha de confluência e ambivalência entre algumas dessas produções escritas, e a de outro instrumento que, silenciosa e subversivamente, foi surgindo para nos proporcionar o terreno fértil e problematizante das redes e dos movimentos que interagem rumo a construções histórico-mnemônicas diferenciadas. A experiência desse sacerdote foi, nesse sentido, a linha central que costurou ao mesmo tempo em que criou a distância necessária entre os tecidos que compunham tais auto- retratos.

Em um segundo momento e num sentido a contrapelo, tentamos contemplar o terreno fértil e travesso da oralidade dos Irmãos da Cruz. Seu poder de apresentar/representar de outra maneira o que, estabelecido genericamente em alguns registros escritos, privilegiava imagens como a de atraso e fanatismo das práticas autopunitivas, tornou-se um dos pontos por onde a problemática central desse capítulo se engendrou. A partir do seu universo místico-religioso, tais homens se agrupam e compartilham experiências e temporalidades diversas, rumo a uma

interpretação bastante “original” das configurações religiosas do catolicismo desde primórdios até os dias atuais. Padre Ibiapina é uma das figuras centrais dessas costuras espaços-temporais; ele consegue ao mesmo tempo se comunicar com a mais alta figura da hierarquia católica, o Papa, como participar do universo “simples” e híbrido da religiosidade sertaneja, tornando estas dimensões próximas a partir de sua experiência.

Já o segundo capítulo tentou “adentrar” as diversas faces identitárias da Irmandade da Cruz. Objetivamos argumentar através da análise de alguns registros escritos, que, a partir da segunda metade do século XX, foi-se constituindo genericamente no campo cultural caririense uma complexa rede de instituições e de discursos que “reagrupavam”, tendo como base instrumentos diversos, um conjunto de sujeitos e práticas que até então eram renegadas ao campo do exótico. Os grupos de penitentes de Barbalha foram um desses “privilegiados”, e as festividades religiosas dedicadas a Santo Antônio, na referida cidade, se constituíram o locus propício dessa ação primeira.

Em contrapartida, no campo da oralidade encontraríamos uma Irmandade da Cruz que se compartimentava entre a necessidade de “preservação” de alguns preceitos religiosos e morais vinculados aos tempos em que suas práticas ritualísticas ocorriam pelas madrugadas em Barbalha, e um universo de experimentações novas que a inserção num circuito midiático- cultural cearense e também nacional lhe proporcionava. Esses aspectos, tensões e contradições não se encontram de forma alguma totalmente separados em suas narrativas, eles se confundem e até mesmo se “misturam” em determinados momentos, guardando, porém, seus espaços de circulação. O movimento de interação com essas dimensões díspares depende obviamente da circunstância a que sua resposta estaria vinculada no momento da fala.

O terceiro capítulo revisitou, pela trajetória e narrativa pessoal de um único homem, grande parte dos aspectos analisados nos capítulos anteriores, porém, com as particularidades próprias do seu universo imagético. Joaquim Mulato, líder da Irmandade da Cruz por mais de sessenta anos, mescla história, memória, poder e também saber na sua fala, chegando até mesmo, em muitos momentos, a torná-los ingredientes de um único e inominável fio interpretativo. A figura benjaminiana do narrador tornou-se relevante aqui porque, a partir dela, nos deslocamos para pensar de que maneira o sujeito carrega, pelo seu contar/cantar, inúmeros movimentos, que perderiam muito de sua face épica se não fossem costuradas narrativamente.

Joaquim Mulato trouxe a sua peculiar maneira de forjar imagens e discursos que pareceriam atualmente pedaços de um passado remoto e ignoto, de falas incompreensíveis para o mundo contemporâneo, já que ele revisitava narrativamente personagens e práticas do

passado tidas como de caráter messiânico, imbuídos dos sentidos que teriam então povoado os Sertões nordestinos entre o final do século XIX e início do XX. Porém, essas mensagens, (re) significadas pelas próprias experiências do narrador, se redefinem no movimento e na interação que sua fala estabelece com os sons ecoados de outras temporalidades.

Tal personagem produz um interessante e desafiador encontro entre signos que, precariamente recheados de explicações eruditas, conseguíramos visualizar vagamente nos livros oficiais/oficiosos de História. Ele mergulha e emerge simultaneamente do interior do desafiador universo das representações religiosas. Sua interpretação, no entanto, também remexe espaços de atuação estrangeira, e nos desloca para outra forma de pensar essas experiências vividas. Negociações de caráter político e construções imagético-religiosas dividem espaço na sua narrativa. A mansidão de sua voz constrói artesanalmente uma cartografia própria da religiosidade sertaneja, em consonâncias evidentes com outras vozes ecoadas de longe e também de muito perto de seu universo.

Para além de todas as interpretações que nos anunciam o esvaziamento ou mesmo a morte atual de determinadas práticas e apropriações culturais, principalmente as ligadas ao mundo da religiosidade tida como popular, a Irmandade da Cruz e todo o universo imagético (exógeno e endógeno) que a circunscreve, nos proporcionou um feliz e inusitado encontro com as tessituras, reagrupações e rachaduras que a memória pode possibilitar aos seus protagonistas, principalmente quando esta se desloca do seu sentido institucionalizado e institucionalizante e começa a enveredar por caminhos ainda não traçados, ou assim feitos tendo por base outros objetivos e outras preocupações. Começar a se aventurar pelas escrituras ordinárias329 desses sujeitos, mais do que uma preocupação acadêmica é também um dever político, no sentido latus do termo.

Ao contrário do que antecipadamente poder-se-ia argumentar sobre as maneiras com que os componentes da Irmandade da Cruz “travam” suas relações políticas com seus respectivos interlocutores, pensando nas formas de defesa e proteção argumentativa que lhes é engendrada pela fala, podemos concluir (tendo obviamente por base a nossa precária observação das redes e dos fios que suas narrativas fomentam) que mesmo em alguns momentos, essas defesas se façam sentir fortemente pelo que a fala declara, alianças e acordos também mostram sua força enquanto elementos de negociação constante. A experiência religiosa e histórica da Irmandade da Cruz só existe pela comunicabilidade que seus integrantes exercitam com seus interlocutores, e pelo que estes simultaneamente respondem.

No decorrer do nosso estudo, acompanhamos parte do universo de representações que a prática da penitência no Cariri cearense suscitou desde século XIX até os dias atuais nos seus observadores e naqueles que a praticaram enquanto parte do seu universo religioso. Um mosaico de imagens que por vezes aparentemente sobrepostas, construíram, no entanto, fronteiras pelo acesso espaço-temporal de suas construções específicas. Porém, não nos foi possível analisar de forma efetiva todas essas construções imagéticas, seu mapa de abrangência extrapola qualquer tentativa de delimitação mais formal.

Escolhemos direta ou indiretamente, nesse sentido, algumas fotografias que mesmo com seu caráter cifrado foram se atrelando e dialogando entre si e entre os aspectos aparentemente exógenos, mas intimamente relacionados a elas e as suas construções específicas. A historicidade da Irmandade da Cruz não encerra o panorama de práticas penitenciais que o Cariri conhecera, mas foi com ela, no entanto, que de forma indiciária e provocativa tentamos percorrer outros caminhos e outras histórias. Longe e muito perto das escrituras oficiais.

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