Nesta seção, pretende-se comparar os autores das obras de arte do Palácio Itamaraty com os autores das de outros dos principais edifícios de Brasília. Como resultado dessa análise, será possível falar em dois grupos: artistas da cidade e artistas do Palácio.
Entretanto, são necessárias algumas reflexões anteriores sobre a nova capital. A construção de Brasília praticará a integração das artes56 como elemento de projeto de edifícios e espaços públicos, materializada em murais, painéis, esculturas, relevos, vitrais e jardins.
A síntese das artes, em seus projetos, suas obras construídas e suas publicações, concretiza-se na produção da arquitetura moderna brasileira, e
56 A se destacar a atuação de diversos artistas, notadamente Athos Bulcão, mas
58
reforça vínculos e redes pessoais e profissionais. Ao fazê-lo, confirma sua centralidade e sua importância na constituição do campo da arquitetura moderna brasileira, cujo clímax e, ao mesmo tempo, ponto crítico será o projeto de Brasília57.
A importância da relação entre arte e arquitetura na cidade pode ser facilmente percebida pelas 26258 obras de arte de Athos Bulcão presentes em seus mais diversos edifícios, de institucionais a residências e equipamentos urbanos. Este dado indica desde a largada que a relação dos edifícios e das obras de arte é uma tônica fundamental para a constituição do espaço e da imagem da cidade, convertendo-se alguns destes encontros em símbolos da cidade59.
57 “Essa crise [do Movimento Moderno], que terminaria por provocar uma reação
mundial contra os preceitos do Movimento Moderno, impregnou todo o projeto [de Brasília], não apenas no nível da construção individual, como também na escala do plano em si”. (FRAMPTON, p. 312)
58 Este dado é resultado da sistematização de fontes feita pela pesquisa de Iniciação
Cientítica do autor, “Arte e Arquitetura - o caso Athos Bulcão”, sob orientação do Prof. Dr. Agnaldo Faria e com Bolsa Fapesp durante a graduação em Arquitetura e Urbanismo na FAU USP. As fontes principais foram o inventário sobre as obras de Bulcão em Brasília, feito pelo IPHAN-DF, e os catálogos da Fundação Athos Bulcão.
59 Podem ser apontados como tais símbolos, entre outros, o mural externo do Teatro
Nacional Claudio Santoro, os azulejos da Igreja Nossa Senhora de Fátima, ambos de Bulcão, além do vitral de Marianne Perretti na cobertura da Catedral Metropolitana, e da escultura conhecida como “Dois candangos”, de Bruno Giorgi, na Praça dos Três Poderes.
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No entanto, considerando-se que a extensão da atuação de um artista como Bulcão60 é única e particular, e que, para além dele, apesar de um panorama amplo das artes plásticas no período, foi muito restrito o circuito de artistas colaboradores para a capital, pode-se entender a origem de uma ideia de integração entre arte e arquitetura a partir de uma raiz homogênea.61
É diante deste cenário que aparece, no Itamaraty, uma pouco usual diversidade de artistas. Para esse caráter único dele, podem-se apontar diversas razões. Dentre elas, como já analisado no Capítulo 1, vale reforçar o papel do diplomata Wladimir Murtinho, um personagem que nem artista e nem arquiteto atuante na escolha das obras do Itamaraty. O papel decisivo de Murtinho62 pode
60 Athos Bulcão era funcionário público desde 1952 no Serviço de Documentação do
Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, onde se desenvolvia uma série de publicações, inclusive para o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, sob orientação de Simião Leal. Nesse período, paralelamente, Bulcão também exerce a atividade de decoração, sobre a qual há pouca documentação. Ao ser transferido do MEC para a NOVACAP em 1957, a pedido de Oscar Niemeyer, terá o cargo de técnico de decoração. Por mais que os trabalhos de integração arquitetônica sejam a sua principal contribuição aos edifícios em Brasília, Bulcão deixa claro, em depoimentos, como o trabalho de decoração, ligado à escolha de cores, materiais e mobiliário, é uma prática corrente, não apenas em espaços interiores, mas também em eventos públicos temporários. (Bulcão,1988, p. 3).
61 Afinal, conforme será nas próximas seções, a formação do grupo e da relação entre
artistas e arquitetos no Rio de Janeiro começou tão cedo quanto o Ministério da Educação e Saúde, nos anos 1930, e veio sendo reforçada desde então, passando por Pampulha e encontrando em Brasília seu apogeu.
62 A compreensão do papel de Murtinho na escolha e construção do conjunto de obras
que integram o patrimônio artístico do Palácio Itamaraty será essencial para avançarmos na reflexão sobre o triângulo de forças entre museus-arquitetura-arte,
60
ser considerado prenúncio à atividade de um curador, figura que na época “ainda se esboça, por vezes parecendo um título honorífico, dada a inexistência da formação e de produção alentada” (LOURENÇO, 1999, op. cit., p. 31).
Ainda sobre Murtinho e a complexidade da construção do projeto, Eduardo Rossetti analisa:
“É inegável que autoria do projeto arquitetônico é de Oscar Niemeyer. No entanto, a contribuição de Wladimir Murtinho se estende além de sua função oficial designada pelo Itamaraty, empenhando-se pessoalmente para transferir a Casa do Rio Branco para o Planalto Central. Ele formou uma tríade com Luiz Brun de Almeida Souza e Rubens Antonio Barboza para atuarem junto às autoridades locais, fazendárias e do Executivo. Os três diplomatas trabalhavam inicialmente nas salas do Ministério da Saúde, ou seja, ao lado das obras, acompanhando diretamente a rotina do canteiro. Será amparado por tais colaborações nos âmbitos burocráticos e jurídicos, que Niemeyer poderá efetivamente projetar o seu Palácio do Arcos.
[...]
Se a autoria é inquestionavelmente de Niemeyer, os dividendos do grande feito em que o Palácio se consubstancia paulatinamente, precisam ser diplomaticamente repartidos, de acordo com as especificidades de cada um dos colaboradores, desde os
assim como na reflexão sobre as complexas fronteiras entre as noções de acervo e coleção.
61
arquitetos, até os artistas plásticos, Burle Marx, desenhistas e os
engenheiros. ”(ROSSETTI) 63
Esse trecho de Rossetti expõe a complexidade do projeto, da construção, das decisões administrativas e políticas e das ações de inúmeros profissionais e agentes, como Milton Ramos e Olavo Redig de Campos, tendo como maestro o diplomata Murtinho, conforme já detalhado no Capítulo 1.64
No final dos anos 1960, na medida em que se aproximava o término da construção, as obras de arte encomendadas para o Palácio serão, inclusive, tema de matérias de jornais, não apenas para expor a grandiosidade e a qualidade do edifício, mas também para fazer frente a diversos questionamentos do governo sobre os gastos incorridos65. Em reportagem de 1968, o jornal Correio Braziliense, por exemplo, detalha:
63 ROSSETTI, Eduardo Pierrotti. “A arquitetura do Palácio Itamaraty (1959-1970) “, Nota
3, p. 1. Disponível em: <http://dc.itamaraty.gov.br/imagens-e-textos/revista-textos-do- brasil/portugues/ROSSETTI-A-arquitetura-do-Palacio-Itamaraty-1959-1970.pdf/view. >. Acessado em 20 de junho 2017.
64 “Será nas circunstâncias políticas pós-64 em que o projeto e a obra do Palácio do
Itamaraty serão implementados. Houve interesse do novo chanceler pelas obras do novo palácio, assegurando a continuidade e a manutenção da equipe de arquitetos, técnicos e funcionários já comandada pelo diplomata Wladimir de Murtinho” (ROSSETTI, op. cit., p. 2.)
65 Aliás, é interessante notar como, ao longo do processo todo, a transferência do
Ministério das Relações Exteriores para Brasília e a consolidação da nova capital federal foram temas que encontraram acolhida por parte da imprensa, sobretudo a local. Parecia mesmo haver um esforço de construção de uma opinião pública favorável à transferência, o que também seria útil no convencimento das missões diplomáticas a construírem as novas embaixadas e a transferirem o corpo diplomático .
62
O Embaixador Vladimir Murtinho enfrentou diversos problemas com relação à decoração de um palácio destinado a servir de cenário às recepções oficiais, não só do Ministério, mas também da Presidência da República. Constituiu-se então, numa comissão, sob a direção do arquiteto Olavo Redig de Campos, Chefe do Serviço de Conservação e Patrimônio do Itamaraty, com assessoramento de diversos artistas e decoradores, para escolha dos desenhos e execução de móveis e alfaias destinados à nova sede do MRE, e também à compra de obras-de-arte, estas com o assessoramento do Embaixador Joaquim Souza Leão, Ministro Djalma Lessa e Raymundo
Castro Maia66, todos conhecidos colecionadores.
66 “Raymundo Ottoni de Castro Maya (Paris, França 1894 - Rio de Janeiro RJ 1968).
Industrial, bacharel de direito, mecenas, editor de livros, colecionador de arte. Criado no Rio de Janeiro, Castro Maya, empresário bem-sucedido e dono da Cia. Carioca Industrial, é um defensor do patrimônio histórico, artístico e natural do Rio de Janeiro. Importante colecionador de arte no Brasil, entre os anos de 1920 e 1968 descobre e adquire quase a totalidade dos cerca de 22 mil itens de sua coleção, entre peças de arte, livros e documentos históricos. Seu acervo vai da pintura de paisagem ao abstracionismo, passando pelo impressionismo, fauvismo, cubismo, pontilhismo e surrealismo. [...]
Em 1948, Castro Maya tem papel ativo na fundação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - MAM/RJ, do qual é o primeiro presidente. Em 1952, funda a sociedade Os Amigos da Gravura. Por meio das sociedades artísticas de que participa, estimula artistas como Lívio Abramo (1903 - 1992), Fayga Ostrower (1920 - 2001), Oswaldo Goeldi (1895 - 1961), Marcelo Grassmann (1925) e Eduardo Sued (1925). Em 1964 e 1965, Castro Maya coordena a comissão organizadora do IV Centenário da Cidade do Rio de Janeiro, onde também é editor da revista Rio, criada para a ocasião. Ele constrói a Fundação Raymundo Ottoni de Castro Maya em 1963, e o Museu do Açude é aberto ao público, em 1964, em propriedade herdada de seu pai. Em 1967, Castro Maya assume trabalho na Câmara do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Conselho Federal de Cultura. Em 1972, após sua morte, é aberto o Museu da Chácara do Céu,
63 [...]
Procurou-se, na decoração do Palácio, dar rêlevo especial às obras-de-arte e aos móveis nacionais ou especialmente encomendados quadro, móveis, esculturas, tapeçarias e luminárias desenhados por artistas de renome nacional. (MADEIRA, José Vieira. “O preço de um palácio”. Correio Braziliense. Brasília, 16/05/1968, grifo nosso)
O conjunto de obras integradas do Itamaraty permite constatar o quão especial é a integração que tem lugar nesse edifício, sob a perspectiva da variedade de artistas, de gerações distintas e ou vinculados ou associados a grupos artísticos diversos e não exclusivamente ao grupo moderno carioca de Niemeyer e Costa. O trecho acima deixa claro como a obra de arte era um ponto fundamental no Palácio, a ponto de as escolhas não estarem a cargo exclusivamente aos arquitetos nem tampouco somente a Murtinho. Decorre dessa pluralidade de artistas uma pluralidade de imagens e representações sobre o que seria o moderno nacional. Esse é um dos principais pontos desta dissertação.
no Alto da Boa Vista, em propriedade deixada por ele para a Fundação, com projeto arquitetônico de Wladimir Alves de Souza, feito em 1956.
Em 1983, a Fundação Raymundo Ottoni de Castro Maya é extinta, e seu patrimônio passa a constituir os Museus Castro Maya (Museu do Açude e Museu da Chácara do Céu), integrados ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Iphan do Ministério da Cultura.” (RAYMUNDO Ottoni de Castro Maya. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa214169/raymundo-ottoni-de-castro- maya>. Acesso em: 14 de Abr. 2019. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060- 7)
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Para que fique claro como o Itamaraty abriga práticas diversas da síntese das artes, uma primeira análise consiste em compará-lo a outros espaços de Brasília. Comecemos pelos edifícios e espaços públicos do Eixo Monumental67 e da Praça dos Três Poderes, tanto os prédios principais quanto os seus anexos e jardins, todos eles localizados próximos ao Itamaraty. Obtém-se a seguinte relação de obras de arte integradas à arquitetura68:
Fig. 1 – Tabela quantitativa das obras de arte integradas aos edifícios e aos espaços públicos do Eixo Monumental (incluindo a Praça dos Três Poderes), em Brasília. Fonte: autor.
67 No Eixo Monumental, dentro da divisão de setores do plano urbano de Brasília, estão
localizados os principais edifícios governamentais, como os Ministérios, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal.
68 Seleção de obras retirada de: BRAGA et all 1997, de MINISTÉRIO, 2009; de
CASTELLO, 2005; IPHAN, 2008; do Relatório final de Iniciação Científica Fapesp do autor e das visitas de campo realizadas em Brasília em 2017, 2018 e 2019.
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Essa seleção dos principais conjuntos institucionais evidencia um meio de artistas em constante parceria e que se consolida com as obras de Niemeyer, destacadamente Athos Bulcão, Alfredo Ceschiatti e Marianne Peretti. Na tabela acima, são abrangidos pela chave Artistas colaboradores de Niemeyer. Por outro lado, a tabela indica outro grupo de artistas que inauguram na nova capital sua atuação junto ao arquiteto, reunidos sob a chave Artistas fora do círculo de Niemeyer69.
Se ampliarmos esse cotejamento para abarcar outros dois importantes edifícios de Niemeyer em Brasília à época – o Palácio da Alvorada (1958) e o Brasília Palace Hotel – bem como o Palácio Jaburu (1977), a oposição entre esses dois grupos persiste70:
69 Existem, por fim, artistas não abrangidos por uma chave nem outra. Sobre eles, não
foi possível estabelecer, até o momento, proximidades ou distanciamentos com Oscar Niemeyer à época da construção do Itamaraty.
70 Maria Martins é autora da escultura Rito dos Ritmos, localizada no Palácio da
Alvorada (1957-1958), projeto de Niemeyer. No entanto, não há registros de uma parceria ou colaboração entre artista e arquiteto. Aponta-se, inclusive, que a encomenda teria partido de Juscelino Kubistcheck, no fim dos anos 1950. Ver: Maciel. Já Victor Brecheret possui um significativo número de obras de arte em Brasília. Além dessas apontadas na tabela, possui mais três: a escultura Índia Barthira (década de 1950) em bronze sobre pedestal de granito que desde 1962 está exposta na entrada do auditório Dois Candangos, na Universidade de Brasília (CASTELLO, 2005, p. 20), e Figuras de Mulher, duas esculturas em bronze localizadas no hall de entrada do Ministério da Educação (BRAGA et all., op. cit., p. s/n). No entanto, todas as obras de Brecheret foram aquisições, e não encomendadas exclusivamente para os seus espaços, mesmo porque o artista faleceu em 1955. Até o momento, as fontes bibliográficas e documentais não permitem estabelecer vínculos entre o artista e Niemeyer.
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Fig. 2: Tabela quantitativa das obras de arte integradas aos edifícios e aos espaços públicos do Eixo Monumental, Praça dos Três Poderes, Palácio da Alvorada, Brasília Palace e Palácio Jaburu, em Brasília. Fonte: autor.
Conforme demonstrado pelas tabelas acima, podemos classificar as obras integradas do Palácio Itamaraty nesses dois circuitos:
a) artistas que já haviam colaborado com Niemeyer, em Brasília ou projetos anteriores71, cujas obras são as seguintes72:
Meteoro, de Bruno Giorgi, 1966-1967.
Parede de Mármore, de Athos Bulcão, 1966. Treliça, de Athos Bulcão, 1967.
Sonho de Dom Bosco, de Alfredo Volpi, 1966.
Vegetação do Planalto Central, de Roberto Burle Marx, 1965.
Duas amigas, de Alfredo Ceschiatti, 1967-1968. Eva, de Alfredo Ceschiatti, 1965.
Mural em mosaico vitrificado, de Paulo Werneck, 196073
71 São eles os mais frequentes parceiros de Niemeyer em diversas obras, desde o
Ministério da Educação e Saúde (1936-1947), no Rio de Janeiro, passando pelo conjunto da Pampulha (anos 1940), em Belo Horizonte, e outros edifícios em diversas escalas e programas. Este circuito consolidou-se na construção de Brasília.
72 Dados retirados de: BRAGA et all, op. cit, 1997; Ministério, 2009; e CASTELO, 2005
68
b) artistas que até então não tinham trabalhado com o arquiteto e que não faziam parte de seu círculo profissional, cujas obras são as seguintes74:
Ponto de encontro, de Mary Vieira, 1969-1970. Metamorfose, de Franz Weissmann, 1957-1958.
Revoada dos Pássaros, de Pedro Corrêa de Araújo, 1967- 1968.
Muro Estrutural, de Sérgio Camargo, 1965-1966. Templo de Oxalá, de Rubem Valentim, 1977.
Grande relevo branco, de Emanoel Araújo, sem data. Canto da noite, de Maria Martins, 1968.
Três jovens, de Lasar Segall, 1939.
Nu deitado, de Victor Brecheret, 1940 (circa).
Concebidas em um intervalo temporal praticamente idêntico (1965- 1970)75, as obras reunidas nos dois circuitos descritos acima permitem-nos
74 Dados retirados de: BRAGA et all, op. cit, 1997; Ministério, 2009.
75 A obra Victor Brecheret é datada de 1940, a Lasar Segall é de 1939, e a de Rubem
Valentim é de 1977 e a de Emaoel Araújo não possui identificação de data. (Ministério, 2009). Essas quatro obras, mesmo não tendo sido adquiridas ou encomendadas no período da construção, foram consideradas na análise em função da sua intensa relação com o edifício e com as outras obras selecionadas, tal como a proximidade com a de Sérgio Camargo no auditório, no caso de Araújo e Valentim; e com as esculturas do terceiro pavimento, no caso de Brecheret e Segall. Esta última foi doada pela Associação Cultural de Amigos do Museu Lasar Segall em 2001 (Ministério, op. cit., p. 96); a de Brecheret foi doada em 1982 pela família do artista. (Pellegrini, 2000, p. 178). Já a obra de Werneck, claramente integrada à arquitetura pela sua materialidade, é datada de 1960. Vale lembrar que o estudo preliminar do edifício é iniciado em 1959 e a sua versão a ser desenvolvida, a terceira, é de 1963. Assim, essa data claramente corresponde ao projeto do mural, sendo ele feito durante o estudo preliminar ou essa
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verificar a variedade de artistas, de gerações artísticas distintas e vinculados a grupos e temáticas diversos no Itamaraty. Sobre associações artísticas, temos, por exemplo, Sérgio Camargo e Franz Weissman, próximos ao Grupo Neoconcreto carioca; Burle Marx, Athos Bulcão e Paulo Werneck, ligados ao circuito carioca de arquitetura; Alfredo Volpi, relacionado ao Grupo Santa Helena de São Paulo, Maria Martins, escultora em diálogo com os surrealistas e dadaístas europeus; Mary Vieira, com obra de caráter cinético; Emanoel Araújo, com obras que discorrem sobre questões político-culturais da herança africana no país.
2.2. A identidade nacional na nova chancelaria
O ministro Wladimir Murtinho, presidente da Comissão de Transferência para Brasília, do Ministério das Relações Exteriores, concedeu ontem entrevista coletiva à imprensa, no Itamarati, rechaçando a recente grita ocorrida no Congresso Nacional, quando parlamentares acusaram o Governo de ter liberado uma verba de 110 milhões de cruzeiros, a fim de que fôssem adquiridos produtos no exterior, para o nôvo prédio do Ministério em Brasília.
Explicou o ministro Murtinho que no nôvo Itamarati apenas serão utilizados produtos brasileiros. Fêz então uma ampla dissertação sôbre tudo o que foi e está sendo feito em Brasília. Disse que o palácio foi desenho por Oscar Niemeyer e está sendo executado por Milton Ramos. Os desenhistas dos móveis são os brasileiros Sérgio Rodrigues e Bernardo Figueiredo. Os jardins são de Burle Mars, que
data pode corresponder à década e não a um ano específicamente. Não foi encontrada, nem em fontes documentais nem na bibliografia do artista, a data de construção do mural.
70
também fêz os cartões para as tapeçarias, que serão executadas por Colaço Nicola e Decors. Até os talheres, todos de prata, de formas modernas, estão sendo fabricados no Brasil.
Fêz questão de salientar que “o nôvo Itamarati será eminetemente nacionalista e tropical”. Segundo ainda informações do ministro Murtinho, o gôverno brasileiro apenas importará para o nôvo palácio alguns tapetes orientais e três quadros, que se relacionam a três históricas cidades brasileiras: Salvador (1628), Rio de Janeiro (1831) e Ouro Preto (1780), os quais se encontram, respectivamente
em Madrid, Nova York e Paris76. (BARRO, Pedro. “Diplomacia: Tuthill
vai aos EUA para relatar crises brasileiras”. Tribuna da Imprensa. Rio de Janeiro, 27/09/1966, p. 4)
Este trecho em matéria de 1966, quando as obras do Itamaraty já estavam em fase final, mostra como a questão da identidade nacional é um argumento importante para a concepção do novo Palácio. A necessidade de representar uma identidade nacional no MRE é uma questão tanto específica da chancelaria e deste edifício quanto geral em Brasília, conforme será visto nesta seção.
A partir de 1966, durante os anos iniciais da Ditadura civil-militar no país e a crise financeira que ocorria, Murtinho será questionado sobre os custos do Palácio. Interessante notar que, diante disso, a resposta do diplomata terá teor
76 “Com referência à verba de 110 milões de cruzeiros, explicou o ministro que se destina
ao prédio do Itamarati na Guanabara e que tem por objetivo mantê-lo como nos tempo