• Aucun résultat trouvé

Entre as travestis não moradoras da pensão e mais próximas às rotinas da Sempre- Viva, uma brincadeira bastante frequente dizia respeito às representações sobre transexualidade, localizando-a entre a ideia de loucura e/ou doença e a noção de fragilidade hiperfeminina decorrente dos discursos tradicionais sobre os lugares sociais de gênero.

Nesse sentido, diz-se, de um lado, que se é transexual nos momentos em que alguma inabilidade, esquecimento ou equívoco se evidencia, aproximando-se a interpretação sobre aquele episódio às representações lúdicas sobre loucura.

Francisco brincou: “eu não ligo se quiseres me dar um pastelzinho”. Mônica, que guardava o pacotinho com o último pastel no colo, deu-se conta: “ai, a louca... oferece e depois coloca aqui no colo, pra ninguém pegar, né? Ai, é que eu sou transexual” (Trecho extraído do diário de campo de 08 de dezembro de 2008).

Ser transexual desponta, aqui, como uma categoria de “doença mental”, da pessoa

desequilibrada emocional e comportamentalmente. Portanto, ser transexual é ter problemas, estes referentes ao estado mental, à lucidez cognitiva e às capacidades de compreensão. Muito recorrentemente, brinca-se, usando a ideia de loucura relacionada à transexualidade como justificativa para certas ações atrapalhadas: “ai, ela é assim porque é transexual”. Durante uma conversa em que caracterizávamos uma pessoa conhecida como um fake – isto é, algo falso, artificial, “de mentira” – por sua falta de credibilidade política, Carina brincou aos risos: “então ela é transexual. Transexual também é maluca e toda fake”.

Carmem entregou a Carina duas folhas sequenciais (...), que ela começou a ler atentamente, até que Carmem lhe disse que “do outro lado tem mais”, o que a fez virar as duas folhas unidas e checar as costas do papel, vendo apenas o papel em branco. Carmem riu, dizendo que não era atrás, mas na folha seguinte. O episódio foi suficiente para quebrar a seriedade de Carina ao olhar os papéis: “eu sou doente; se me falar pra virar, eu viro, né?” (Trecho extraído do diário de campo de 11 de dezembro de 2008).

Tais brincadeiras, ao insinuarem inabilidade, estupidez e/ou parvoíce, aproximam-se dos conhecidos chistes a respeito das mulheres loiras, os quais se disseminaram amplamente a partir do sucesso da canção “Lôraburra”, lançada pelo cantor Gabriel o Pensador em 1993. Essa aproximação me ficou clara no dia em que viajávamos de carro a uma cidade vizinha

quando, perdidas entre as entradas da cidade até o local do evento que perseguíamos, uma de minhas sujeitas, travesti, e uma amiga sua autodenominada transexual sugeriam jocosamente, ao descobrirem o caminho correto depois de muitas voltas, que retornássemos até o Vale das Passagens para, então, seguirmos pela rota mais fácil, descoberta naquele momento. Os gritos agudos fingindo pavor e inaptidão em meio ao trânsito e as conclusões de “ser transexual” davam o tom da brincadeira, entre vozes simuladamente lânguidas e propositalmente agudizadas.

De outro lado, a ideia de transexualidade também é apropriada jocosamente como sinônimo de fragilidade, sensibilidade exagerada, aproximando o estereótipo risível da transexual ao estereótipo caricatural da mulher representada pelos discursos tradicionais de caráter machista e naturalista.

Magali mexia em algum documento no computador. Disse-me que estava estudando a bíblia, especificamente uma parte que trata de questões próximas à homossexualidade. Enquanto isso, ouvia uma seleção de músicas, dentre as quais havia aquelas que eu não reconhecia. Uma era da banda Zero, de que Paulo Ricardo fizera parte antes de integrar o RPM. Mônica dizia que era apaixonada por Paulo Ricardo; tinha o vinil do RPM e chorava ao ouvir London, London. Rimos da cena que conseguimos imaginar. E ela se apressou: “ai, bem transexualzinha, né?” (Trecho extraído do diário de campo de 26 de janeiro de 2009).

Na brincadeira de Mônica, o aspecto da fragilidade e da debilidade física e emocional associado à caricatura risível da transexual aparece sublinhado pelo recurso linguístico do diminutivo, de modo que zinha, em “transexualzinha”, reinforma o caráter débil e depreciativo da representação a partir da qual se tecem os comentários jocosos.

Tal modalidade de expressão jocosa, seja expressando loucura ou fragilidade, diz respeito a uma apropriação crítica dos significados psico-biomédicos inerentes ao que Berenice Bento (2006) caracteriza “dispositivos da transexualidade”, ou seja, tecnologias discursivas que versam sobre a transexualidade a partir de uma perspectiva normativa e universalista e que produzem sujeitos e padrões de normalidade/anormalidade. Bento (2006) ressalta as disputas travadas entre a psicanálise e a biomedicina desde os estudos de Robert Stoller e de Harry Benjamin na definição do “verdadeiro transexual”, os quais centraram a “causa” do fenômeno no insucesso do processo de castração e na incompatibilidade entre sexos psíquico e físico, respectivamente, considerando a cura por meio da terapia psicanalítica e da intervenção cirúrgica. A despeito mesmo das divergências, as duas correntes explicativas

participam da construção dos protocolos referentes à transexualidade vigentes até hoje – ou do dispositivo da transexualidade.

Assim sendo, as sujeitas criticam, através de práticas de jocosidade, os significados psico-biomédico atribuídos à categoria transexualidade, os quais a dotam de uma dimensão de descompasso psicológico em relação ao desejo e à subjetividade das sujeitas em questão – daí as representações centradas na loucura e na doença –, bem como de expectativas heteronormativas acerca das performatividades de gênero (BUTLER, 2003) – daí as representações ancoradas na fragilidade e sensibilidade caricaturais da feminilidade. A brincadeira visa, portanto, à apropriação e à ressignificação lúdicas das explicações patologizantes das áreas médicas, não a uma forma de chiste com relação às pessoas autodenominadas transexuais em oposição hierarquizante face àquelas que se afirmam travestis. Ou seja, ou a imagem da transexual louca é uma brincadeira com a explicação médica, não uma desvalorização simbólica em relação àquelas que se reconhecem transexuais. Afinal, as identificações entre transexualidades e travestilidades não seguem rígidos ou claros regimes divisórios, de maneira que as sujeitas com as quais estive em contato se reconheciam, na interação comigo e com suas amigas e colegas, travestis, mas não raramente acionam a categoria transexual e/ou transex em suas páginas virtuais e endereços eletrônicos, aparentemente como uma forma de revalorização no mercado do sexo.

Documents relatifs