Gabriel Ash (2002) afirmou haver comparação possível entre o capitalismo global e o catolicismo do fim da Idade Média. Ambos, segundo o autor, são considerados fenômenos pretensamente portadores de verdades irrefutáveis. O Papa Bonifácio VIII afirmava não haver salvação possível fora da Igreja Católica. Ash assegura com ironia não haver salvação possível fora do âmbito do capitalismo moderno. Esse, como na Igreja, se tornou em artigo e profissão de fé. Dessa forma, uma das “virtudes” do modelo é a sua capacidade de produzir cultura, a partir da transformação das visões de mundo e na adoção da racionalização instrumental pelos indivíduos desejosos em acumular, condição essa que permitiu a expansão globalizada de seus movimentos e influências.
Max Weber (1864-1920) foi o autor que precocemente vislumbrou o alcance e a potência da racionalização da vida social (cultura, Estado, economia, ciência, etc.), ao enfocar sua análise na compreensão da ação social subjetiva dos indivíduos, e não nas análises dirigidas às instituições sociais ou dos grupos sociais. A ação social, para Weber, se configura em um sistema, que ao se tornar claro e objetivo para o indivíduo pela via do planejamento metódico, se transforma em um poderoso elemento para a mudança da sociedade. A ação social se expressa quando o indivíduo estabelece relações sociais com os outros para constituir a concordância ou não para a predisposição à mudança. A sociologia compreensiva de Weber foca sua atenção nas ações do indivíduo, pois o coletivo
83 não funda valor em si, ou carrega valores que dão significado a uma determinada conduta. A ideia do coletivo somente tem sentido quando pensado sociologicamente a partir das relações estabelecidas pelos comportamentos sociais individuais.
Para Weber, os fatos sociais não são tratados como “coisas”. São desvelados à luz do conhecimento científico, por meio da racionalização e da intelectualização do mundo. Weber (2001), com base no conceito do tipo ideal, se propôs a explicar os elementos basais do desenvolvimento que caracterizam a racionalidade e ação instrumental e simbólica da civilização ocidental moderna ao defender “[...] trata-se do racionalismo específico e peculiar da cultura ocidental” (WEBER, 2001, p. 30). A ação instrumental é aquela orientada para o êxito visando atingir determinados fins. Para Habermas (1987), é esse tipo especial de ação que caracteriza, inclusive, as concepções do trabalho. Dito de outro modo, são aquelas ações dirigidas e coordenadas para a dominação e transformação da natureza, e devotadas para a organização da sociedade visando construir as condições materiais objetivas que permitam, inclusive, a reprodução material dos mundos da vida e da própria sociedade. Talvez aqui resida o grande desafio da sociedade contemporânea, encontrar e consolidar outras possibilidades filosóficas e sociológicas que permitam a emergência de uma nova racionalidade e que comporte romper com a tradição utilitarista e insustentável que fez do homem o centro da natureza, tese defendida à ferro e fogo pela civilização ocidental.
A manifestação individual racionalizada do ethos calculista é orientada para fins e valores (WEBER, 2000, 2001). A racionalização dirigida com relação aos fins expressa as perspectivas da conduta de outros homens ou objetos do mundo exterior, e se elas indicam possibilidade razoáveis de alcançar os fins racionalmente avaliados e perseguidos (WEBER, 2000). É uma opção estritamente racional, delimita-se um fim e é racionalmente buscado utilizando os meios adequados para alcançar o sucesso. Na racionalização com relação a valores, existe a crença orientada por um valor (ético, estético, religioso). Desse modo, não é o fim que orienta a condução da ação, mas o valor. Na racionalização afetiva, quando essa se relaciona a afetos e sentimentos (a conduta é movida por sentimentos, como orgulho, vingança, paixão, inveja, medo). E por fim, a racionalização tradicional, quando essa se manifesta e é fundamentada em uma tradição ou costume enraizado historicamente.
Além disso, a sociologia de Weber concebeu o poder como um aspecto diretamente ligado ao desenvolvimento das sociedades humanas. Sua concepção não está conectada à ideia central da autoridade. Estrutura-se especialmente nas formas e nas estratégias que alguns indivíduos usam para impor sua supremacia, na medida em que a historicidade transformadora do homem o faz buscar seus próprios meios para alcançá-la. É a racionalização das habilidades do “homem econômico” e instrumentalizadas por um pequeno grupo de indivíduos que se sobrepõe aos demais, e essas condições estão na
84 origem e formação do capitalismo. O “homem econômico”, nesses termos, invoca a ação racional com o objetivo de elevar ao máximo seus lucros, por meio de métodos capazes de enfrentar e superar os concorrentes. Ele é um hedonista, e seguidor da doutrina que considera o prazer individual no curto prazo como o único bem razoável e elevado, como princípio e fim da vida moral, determinado em grande medida pelo sucesso na vida econômica. Por certo há um exagerado determinismo disciplinador da gratificação retardada na proposta de Weber (2000). Entretanto, parece ser uma realidade aceita que o mercado capitalista exige ação social racional, calculista e orientada a fins previamente determinados.
A comunidade de mercado como tal constitui a relação vital prática mais impessoal que pode existir entre os homens. Não porque o mercado implica luta entre os interessados. [...] Mas porque ele é orientado de modo especificamente objetivo, pelo interesse nos bens de troca e por nada mais. Quando o mercado é deixado à sua legalidade intrínseca, leva apenas em consideração às coisas, não a pessoa, inexistindo para ele deveres de fraternidade e devoção ou qualquer das relações humanas originárias sustentadas pelas comunidades pessoais. (WEBER, 2000, p. 420).
Nessa referência, há uma clara concordância com os escritos de Polanyi (2000), na medida em que ele se refere aos reflexos da ação, pois a busca competitiva do lucro deixa marcas indeléveis nas estruturas sociais de pertencimento dos indivíduos, pois,
[...] a transformação implica uma mudança na motivação da ação por parte dos membros da sociedade: a motivação do lucro passa a substituir a motivação da subsistência. [...] Todas as rendas devem derivar da venda de alguma coisa e, qualquer que seja a verdadeira renda de uma pessoa, ela deve ser vista como o resultante de uma venda. (POLANYI, 2000, p. 60).
O autor citado adverte, no entanto, que a generalização desse sentimento na sociedade capitalista acaba desintegrando as demais estruturas sociais (normas, convenções, redes, prestígio social) onde essas relações originalmente estavam inseridas. Isso ocorre na medida, em que instala o espírito competitivo e concorrencial entre os indivíduos. A crítica de Polanyi (2000) à sociedade de mercado não está baseada na economia, pois parece que quase toda a sociedade humana está fundamentada nela. O traço deletério é a prevalência egoísta do auto interesse. As perspectivas capitalistas, desse modo, permitem e induzem o engajamento pessoal à ideologia dominante, que é competitiva, concorrencial, e cotidianamente geram rupturas nas práticas e, por extensão, na cultura tradicional, a qual se torna, desse modo, supostamente anacrônica e deslocada.
85 O caminho da lógica concorrencial busca, no limite, contemplar os desejos da acumulação privada. Assim, a propriedade das coisas naturais e materiais representam sentido quando podem ser convertidas em objetos monetarizáveis. Esse fenômeno difunde as condições para a manifestação e o surgimento da sociabilidade predominantemente capitalista que, em grande medida, conduz da mesma forma os processos sociais rurais. É razoável admitir que a sociabilidade (capitalista) transforma a visão e a interpretação do mundo dos indivíduos e, conjuntamente com a essência e a substância do ser social e político por meio da exacerbação do individualismo. Os recursos materiais e imateriais existentes, geralmente utilizados para as possibilidades da autoprodução fundamental dos mundos da vida, são paulatinamente transformados em capital e na produção de mercadorias com valor de troca. E, por consequência, em valor de mercado e, por extensão, se torna em um elemento permanente de socialização e de sociabilidade.
Esses temas serão estendidos na seção seguinte.