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condição
de
deus
em
cada
geo‐grafia.



Trazendo
de
volta
neste
momento
Bataille
para
fazê‐lo
dialogar
com
Helder
 em
 Os
 Passos
 em
 Volta
 ,
 tendo
 em
 vista
 essa
 dimensão
 divina,
 é
 importante
 rever
 como
 a
 noção
 de
 sagrado
 e
 divino
 do
 segundo
 tem
 pouco
 a
 ver
 com
 uma
 religiosidade,
 embora
 haja
 uma
 componente
 espacial.
 Para
 o
 autor
 francês,
 a
 divindade
tem
muito
menos
a
ver
com
figuras
religiosas
e
se
aproxima
muito
mais
de
 uma
relação
de
origem
a
partir
do
uso
da
língua.
Uma
relação
com
o
original
ou
uma
 noção
de
origem
a
ser
fundada
pelo
uso
da
palavra
é
o
objetivo
de
Bataille,
e
não
 voltar
 e
 pensar,
 do
 ponto
 de
 vista
 histórico,
 o
 início
 ou
 primeiro
 significado
 da
 palavra.
Ou
seja,
não
é
sobre
o
significado
já
dado,
mas
sobre
quais
sentidos
e
afetos
 se
podem
produzir
ao
fundar
esses
novos
espaços,
neste
caso,
quartos,
manipulando
 referências
exteriores
e
considerando‐o
como
grafia.
Da
mesma
forma
que
Benjamin
 em
A
Tarefa
do
Tradutor
e
Helder
em
seus
poemas
Mudados
para
o
português,
não
 é
 sobre
 ir
 em
 direção
 a
 uma
 origem,
 mas
 estabelecer
 uma
 dimensão
 donde
 se
 podem
 originar
 novos
 reais
 pela
 manipulação
 da
 língua.
 Assim,
 esse
 poeta‐deus
 inicia
em
“Estilo”,
e
pelo
quarto,
sua
língua
via
linguagem.



.AMBIENTE
02:
DO
LEITE


Num
primeiro
movimento
de
fundação,
em
“Holanda”,
conto
imediatamente
 posterior
 a
 “Estilo”,
 o
 quarto
 reaparece
 não
 como
 espaço
 onde
 toda
 a
 narrativa
 toma
 lugar.
 Nessa
 narrativa
 dada
 por
 um
 poeta
 sentado
 num
 país
 que
 “agora
 é
 vacas”
e
num
fluxo
de
consciência
que
termina
com
o
aparecimento
de
uma
visita,
o
 quarto
desdobra‐se
como
lugar
de
experiência
“desejada”
com
o
demônio.
Porém,
 ainda
 que
 não
 principal,
 é
 território
 de
 onde
 o
 poeta
 parte,
 reparte
 e
 se
 reparte
 (HELDER,
2005,
16).


O
quarto
fica
sobre
uma
loja
onde
se
vendem
leites,
natas,
queijos,
 cremes.
Tudo
isso
é
gordo
e
branco.
Ele
desce
as
escadas,
pára
em
 frente
 a
 leitaria.
 Que
 é
 isto?
 –
 pergunta.
 Refere‐se
 a
 Deus,
 devorador
 de
 natas.
 –
 Há
 uma
 confusão
 qualquer
 –
 supõe.
 –
 Sou


um
inocente.
Afastem
Deus
daqui.
Além
disso
estou
amaldiçoado.
 (HELDER,
2005,
17)


LEAL
(2008b),
em
seu
artigo
“No
Reino
das
Mães:
Notas
sobre
a
Poética
de
 Herberto
 Helder”,
 argumenta
 sobre
 a
 ambivalência
 do
 papel
 da
 figura
 materna
 na
 poesia
 Helderliana:
 “(...)
 por
 um
 lado
 é
 aquela
 que
 dá
 vida
 e
 é
 portadora
 da
 memória,
e,
por
outro,
é
também
aquela
que
é
modificada
pelo
nascimento
do
filho”
 (LEAL,
2008b,
127‐128).
A
mãe,
detentora
do
leite,
líquido
fluido
maternal,
é
que
dá
 o
 tom
 do
 ambiente
 do
 quarto,
 pois
 abaixo
 dele
 se
 localiza
 uma
 leitaria.
 Se
 em
 “Estilo”
 o
 que
 define
 o
 quarto
 é
 sua
 ambientação
 dada
 internamente,
 aqui
 o
 que
 caracteriza
 o
 quarto
 é
 algo
 exterior
 a
 ele.
 Silvina
 Lopes
 aponta
 tal
 dimensão
 maternal,
dada
numa
dialética
entre
morte
e
vida,
como
colocado
acima
ao
discutir
 a
poesia
de
Helder
como
uma
que
trabalha
unidade
e
divisão:
 
 (...)
pois
o
mundo
é
duplo
–
é
uno
enquanto
limite
em
extensão
de
 suas
formas,
é
duplo
na
medida
em
que
qualquer
forma
é
dada
na
 linguagem
e,
por
isso
mesmo,
é
descrição
e
criação.(LOPES,
2003,
 63)
 


O
 quarto,
 palavra
 que
 diz
 de
 um
 espaço
 único,
 mas
 é
 uma
 parte
 de
 um
 espaço
 dividido
 por
 quatro,
 é
 justamente
 descrição
 e
 criação.
 A
 própria
 palavra
 “quarto”
é
unidade,
e
não
unidade
como
proliferação,
pois
é
uma
parte
de
quatro.
E
 o
leite
apenas
dá
mais
intensidade
a
tal
paradoxo:
é
único,
pois
é
um
tipo
de
líquido,
 mas
 é
 criação,
 especialmente
 em
 Helder,
 porque
 é
 fluxo
 primordial
 maternal
 que
 irradia,
 tal
 como
 o
 sangue,
 a
 água
 e
 o
 ar
 segundo
 LOPES
 (2003,
 08),
 propondo
 formas
 a
 irredutíveis
 vazios.
 Longe
 da
 psicanálise,
 o
 que
 Helder
 faz
 é
 pensar
 o
 estatuto
materno
numa
dupla
acepção
devir.



Neste
 segundo
 quarto,
 logo
 após
 o
 primeiro
 em
 “Estilo”,
 um
 movimento
 é
 continuado
 pelo
 narrador,
 portanto.
 Se
 no
 primeiro
 conto,
 o
 quarto
 é
 onde
 toma
 lugar
 a
 gestação
 de
 um
 poeta,
 com
 definição
 de
 seu
 modo
 de
 dar
 conta
 da
 “desordem
despudorada
da
vida”
(HELDER,
2005,
13);
neste
segundo
conto,
o
poeta
 já
 saiu
 deste
 período
 de
 formação
 intrauterina
 para
 se
 colocar
 exterior
 a
 ele,
visto
 que
“nascer
é
separar‐se
da
mãe”
(LEAL,
2008b,
131).
Por
isso,
a
leitaria
está
acima.
 O
poeta
não
vive
na
leitaria,
mas
se
alimenta
do
produto
dela,
o
leite,
para
sair
do


quarto.
Ainda
que
a
partir
de
então
a
narrativa
tome
lugar
nas
paisagens
da
Holanda,
 onde
 o
 poeta
 inocente
 tem
 de
 lidar
 com
 o
 Demônio,
 o
 movimento
 de
 saída
 acompanha‐o
como
sua
maldição.



.AMBIENTE
03:
SOBRE
A
LINHA
FÉRREA


Já
 em
 “Comboios
 para
 Antuérpia”,
 na
 narrativa
 de
 um
 homem
 solitário
 em
 seu
 quarto
 a
 espera
 de
 um
 transporte
 que
 o
 leve
 a
 Antuérpia,
 o
 quarto
 é
 caracterizado
pelo
que
está
embaixo
dele,
tal
como
em
“Holanda”.
Se
em
“Holanda”
 é
 a
 leitaria
 que
 está
 abaixo,
 neste
 conto,
 é
 uma
 linha
 férrea.
 Em
 ambos,
 esses
 espaços
exteriores
que
ambientam
os
quartos
são
espaços
da
fluidez.


Entretanto,
se
o
leite,
líquido
maternal,
é
um
fluxo
que
faz
o
poeta
irromper
 da
massa
compacta
dos
prados
por
onde
passeiam
as
vacas
em
“Holanda”,
o
fluxo
 de
um
trem
em
“Comboios
para
Antuérpia”
produz
outros
efeitos.


(...)
 casa
 sobre
 a
 linha
 férrea.
 Os
 comboios
 faziam
 estremecer
 o
 meu
 quarto.
 (...)
 passava
 o
 dia
 e
 a
 noite
 no
 quarto.
 Na
 linha
 de
 baixo
 rangiam
 e
 apitavam
 comboios
 que
 talvez
 fossem
 para
 Antuérpia.
 Eu
 pensava
 em
 Deus
 quando
 os
 comboios
 trepidavam
 nos
 carris
 e
 apitavam
 tão
 perto
 de
 mim.
 Quando
 iam
 possivelmente
 a
 caminho
 de
 Antuérpia.
 Pensava
 nos
 comboios
 como
 quem
 pensa
 em
 Deus:
 com
 uma
 falta
 de
 fé
 despreparada.
 Pensava
 também
 em
 Deus
 –
 um
 comboio:
 algo
 que
 sem
 dúvida
 existe,
 mas
 é
 absurdo,
 que
 parte
 com
 um
 destino
 indefinido:
 Antuérpia
–
que
possivelmente
(evidentemente)
não
era.
(HELDER,
 2005,
39)


Esta
minha
vida
agora
é
circular
e
eu
sufoco,
sem
dela
poder
sair,
 com
 o
 deus
 que
 lá
 existe,
 com
 Deus,
 com
 Deus...
 Comboios
 que
 não
 param
 de
 ranger
 e
 apitar.
 Comboios
 que
 partem.
 Durante
 a
 noite
 acordo
 muitas
 vezes
 com
 Deus
 a
 apitar.
 Mas
 de
 manhã
 a
 minha
falta
de
fé
parece
ainda
maior
e
compreendo
que
nunca
hei‐ de
sair
deste
quarto
e
que
os
comboios
são
simples
pensamentos,
 como
 Antuérpia,
 uma
 inspiração
 difusa,
 confusa.
 (HELDER,
 2005,
 41)


Primeiramente,
os
efeitos
do
ruído
na
ambientação
do
quarto
são
nítidos
na
 leitura
 dessa
 narrativa:
 o
 quarto
 estremece,
 os
 apitos
 parecem
 soar
 próximos


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