A variabilidade climática da Terra é considerada um fator de extrema relevância quando se abordam questões de mudanças cli- máticas, pois, muitas vezes, um fenômeno é confundido com o outro. Esse, inclusive, é um dos argumentos-base do paradigma do aquecimento natural. O clima da Terra sempre variou ao longo da história, seja ela recente ou geológica, e, portanto, a mudança verificada nada mais é que uma tendência natural da variabilidade do clima do planeta.
Os oceanos certamente desempenham um papel relevante nessa conformação da variabilidade climática, pois há uma intensa relação de troca de energia e umidade entre a superfície dos oceanos e a baixa atmosfera, e qualquer alteração dessa troca significa alte- ração no clima regional e até mesmo global. Entre algumas dessas interações identificam-se fenômenos como os ENOS, a Oscila-
ção Decadal do Pacífico (ODP) e a Oscilação do Atlântico Norte (NOA, sigla em inglês).
O El Niño, por exemplo, caracteriza-se por um aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico equatorial centro-leste, próximo à costa do Peru, e tem duração de seis a dezoito meses. Há, também, sua antípoda, o La Niña, que se caracteriza por um resfria- mento anômalo das mesmas águas do Pacífico, com praticamente a mesma duração. O fenômeno El Niño pode ser considerado cíclico, mas esse ciclo não apresenta padrões regulares, podendo apare- cer em um período de dois a sete anos, ocorrendo com a mesma intensidade ou com picos maiores ou menores de aquecimento. Essa alteração do sistema oceano-atmosfera do Oceano Pacífico representa não só a presença de águas quentes ou frias nessa região, mas também uma alteração na interação com a baixa atmosfera, resultando em um enfraquecimento dos ventos alísios, que sopram de oeste para leste na região equatorial. Com o aquecimento das águas e com o enfraquecimento dos ventos, surgem mudanças nos padrões de circulação atmosférica tanto na baixa quanto na alta at- mosfera, o que implica, por exemplo, no transporte de umidade e, consequentemente, na distribuição das chuvas em regiões tropicais e em médias e altas latitudes (Oliveira, 2001).
Esses fenômenos afetam também o posicionamento latitudinal da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), o que gera altera- ções dos índices pluviométricos, sendo considerado um importan- te fator da variabilidade climática em nível global. No Brasil, as principais regiões a sentirem os efeitos do El Niño são a Amazônia, o Nordeste, o Sul e o Sudeste (Marengo, 2007a), como pode ser observado na Figura 17.
O potencial transformador do clima pelo El Niño é tão intenso que altera padrões de todo o mundo.
O aquecimento das águas superficiais no Pacífico Central inter- fere no regime de ventos sobre toda a região equatorial do Pací- fico. As nuvens que normalmente produzem chuvas abundantes na parte oeste do Oceano Pacífico, nas vizinhanças da Indonésia, deslocam-se para leste, para o Pacífico Central e, posteriormente, para a costa oeste da América do Sul, trazendo as chuvas ao deserto
peruano. A mudança de posição das chuvas no Pacífico provoca alterações nas condições climáticas de várias regiões continentais ao redor do planeta, devido à grande quantidade de energia envol- vida no processo de formação da chuva. Grandes secas na Índia, no Nordeste do Brasil, na Austrália, Indonésia e África podem ser decorrentes do fenômeno, assim como algumas 30 enchentes no Sul e Sudeste do Brasil, no Peru, Equador e no Meio Oeste dos Esta- dos Unidos. Em algumas áreas, observam-se temperaturas mais elevadas que o normal (como é o caso das regiões Central e Sudeste do Brasil, durante a estação de inverno), enquanto que em outras ocorrem frio e neve em excesso. Portanto, as anomalias climáticas associadas ao fenômeno El Niño podem ser desastrosas e provocar sérios prejuízos socioeconômicos e ambientais. (ibidem)
Figura 17 − Impactos do El Niño e da La Niña durante o verão (DJF) e durante o inverno (JJA)
Outro padrão essencial para nossa discussão faz referência à Oscilação Decadal do Pacífico. Esse é um fenômeno que se caracte- riza por anomalias negativas e positivas de temperatura no Pacífico Tropical e no Pacífico Extratropical, respectivamente, quando se apresenta em uma fase fria ou de ODP negativa, e anomalias posi- tivas de temperaturas no Pacífico Tropical e negativas no Pacífico Extratropical em sua fase quente, denominada ODP Positiva. Seu prazo de variabilidade é de vinte a trinta anos, sendo, portanto, um modo de variabilidade de baixa ou baixíssima frequência (Kayano; Andreoli, 2009; Mantua; Hare, 1997; Mantua et al., 2002).
Os efeitos da ODP positiva estão relacionados, geralmente, com invernos mais quentes e ar mais seco no noroeste do Pacífico, menor precipitação e acúmulo de neve nas montanhas, um aqueci- mento das águas do Pacífico Tropical Leste e na estreita banda ao longo da costa do Alasca e do oeste dos Estados Unidos e do Ca- nadá. A ODP altera os padrões de circulação atmosférica − o que geralmente ocorre associado à Célula de Walker − e os sistemas de monções da América do Sul (Garcia, 2006).
O que cabe ressaltar, porém, é que esses fenômenos causam des- vios de temperatura. Segundo Christy e Spencer (2004), reproduzi- dos por Molion (2006), as temperaturas médias globais tiveram um aumento com a ocorrência de eventos El Niño e diminuíram com sua antípoda La Niña. Segundo eles, ainda no auge do fenômeno, em 1997/1998, as temperaturas globais chegaram a apresentar anomalias positivas de cerca de 0,75 ºC, e durante sua antípoda de 1984/85, as temperaturas caíram cerca de 0,5 ºC.