• Aucun résultat trouvé

Impact du remodelage de la chromatine sur la transcription des séquences satellites

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 140-144)

Chapitre II Transcription des séquences satellites du génome humain

II.1 Introduction

3. Impact du remodelage de la chromatine sur la transcription des séquences satellites

Nesse ínterim, cabe outra questão, que perpassou a obra de Paine, mas ainda não foi esclarecida: por que o ateísmo não poderia ser também compatível com a democracia? É preciso pontuar que, apesar de Paine não deixar claro em seus textos o porquê de sua repulsa ao ateísmo, é opinião corrente entre a intelectualidade ilustrada da época que a crença em Deus é necessária como sustentáculo da comunidade política. Em carta de 1803, endereçada a Samuel Adams, Paine afirma categoricamente: “eu coloquei em perigo minha própria vida, em primeiro lugar, opondo-me na Convenção à execução do Rei (...) e me coloquei em perigo uma segunda vez, opondo-me ao ateísmo!”289

284 VINCENT, Bernard. Thomas Paine: O Revolucionário da Liberdade, cit., p. 269. 285 PHILP, Mark. Paine, cit., p. 106.

286 Ibid., p. 107.

287 CLAEYS, Gregory. Thomas Paine: Social and political thought, cit., p. 187. 288 RUSSEL, Bertrand. Por que não sou Cristão?, cit., p. 99.

289 Correspondence Between Thomas Paine and Samuel Adams Regarding Religion and Deism, pp. 1434-

A posição do ateísmo como inimigo da ordem social é antiga. Thomas More, em A

Utopia, afirmara:

Foi por isso que Utopus deixou a cada um inteira liberdade de consciência e de fé. Não obstante, castigou severamente, em nome da moral, o homem que degrada a dignidade de sua natureza a ponto de pensar que a alma morre com o corpo ou que o mundo marcha ao léu sem que exista alguma providência. Os utopianos creem, pois, numa vida futura, onde castigos são preparados para os crimes e recompensas para as virtudes.290

Em Thomas More, todos os atos humanos precisam de um juízo extraterreno para que, assim, a justiça possa imperar plenamente. Coube a Locke, em sua Carta sobre a Tolerância (1685-1686)291, ter estabelecido uma abordagem paradigmática a respeito da incompatibilidade entre a Commonwealth e o ateísmo.

No texto, o autor sustenta que a comunidade política tem origem num pacto, cuja função é obter, preservar e ampliar os direitos civis. Seria do interesse de cada indivíduo seguir as leis promulgadas pelos magistrados, posto que elas são a garantia da liberdade. A jurisdição do magistrado, entretanto, termina justamente nesses direitos, e não pode imiscuir- se na salvação das almas: “seu poder [do magistrado] consiste somente na força externa, e a verdadeira e salvadora religião consiste na persuasão interna da mente”.292

A comunidade religiosa, pensa Locke, não consiste numa sociedade política, mas numa comunidade livre e voluntária, ou seja, cujas pessoas entram espontaneamente, de forma autônoma (e, da mesma forma, podem dela sair), tendo a vida eterna no horizonte. As igrejas seriam, como clubes, expressões de opiniões particulares, modos privados de se fazer e se dizer certas coisas. A religião, em suma, é uma questão ligada à consciência individual, sobre a qual todo homem “tem a autoridade suprema e absoluta de julgar por si mesmo”.293

Nesse sentido, para Locke, o poder político deve ser indiferente à comunidade religiosa: por um lado, não deve restringir ou reprimir suas ações ou crenças e, por outro, não deve favorecê-las e aplicá-las como lei. Assim como o magistrado não pode forçar o homem a ser rico ou saudável, mas apenas garantir a liberdade para que cada indivíduo escolha seu caminho, o cuidado com a alma pertence apenas ao indivíduo, cabendo ao magistrado apenas assegurar a liberdade de escolha. Eis o conceito de tolerância em Locke: não implica em bem querer, tampouco apoio ou aceitação, mas em indiferença.

290 MORE, Thomas. A Utopia. São Paulo: coleção Os Pensadores, Abril Cultural, 1979, p. 296. 291 LOCKE, John. Carta Sobre a Tolerância. São Paulo: Tradução de Ari Ricardo Tank, Hedra, 2010. 292 Ibid., p. 37.

Hoje, com as reflexões que a sociologia nos trouxe sobre as minorias, o conceito de tolerância talvez pareça demasiado obsoleto (e deva ser substituído por outros, como a convivência ou aceitação) e o de indiferença insuficiente para as nossas demandas (uma vez que há religiões perseguidas não pelo governo, mas pela própria sociedade). Entretanto, tal ideia lockiana, importante frisar, é fundamental numa época em costumes e crenças poderiam levar à morte. Em Locke, aliás, a falibilidade humana seria um argumento em prol da tolerância: "toda igreja é ortodoxa para si mesma, e é herética ou em erro para as outras".294

Entretanto, a tolerância conhece seus limites. Em primeiro lugar, a intolerância: a religião que não respeitar os direitos civis ou que não aceitar a tolerância, não deve ser aceita. Em caso de conflito entre as leis civis e as crenças religiosas, as primeiras devem ser aceitas. Aquele que julga firmemente que sua religião não deve respeitar das regras da comunidade política deverá aceitar as consequências legais de sua posição. Locke chega a sugerir (o que é digno de nota) a tolerância aos muçulmanos, desde que eles aceitem as regras da comunidade política e não jurem obediência a príncipes estrangeiros, e aos ameríndios, desde que respeitem os direitos civis (o sacrifício de crianças, exemplo extremo que Locke sugere, não deveria ser aceito).

Mas há um segundo limite à tolerância, que nos interessa mais: o ateísmo – “não podem ser tolerados aqueles que negam a existência de Deus”.295 O ateu não seria apenas aquele que não acredita em Deus, mas aquele que não acredita em nenhum tipo de recompensa ou punição após a morte, o que o torna indigno de confiança, pois, para ele, não há motivos para respeitar as leis. Percebe-se, portanto, que, apesar de toda a argumentação anterior, o sustentáculo último da sociedade continua a ser o universo divino. Locke não acredita que o respeito aos direitos civis seriam suficientes para garantir a harmonia dentro de uma sociedade; em suma, para Locke, a razão não era uma força suficiente para sustentar uma comunidade política – e isto é a raiz de sua repulsa ao ateísmo. Salta aos olhos do presente o curto espaço do texto que Locke dedica ao ateísmo, que demonstra tanto a existência de um diminuto número de ateus no século XVII296, quanto certo consenso de que eles não devem ser tolerados. Para Locke, ase s diferentes opiniões sobre a religião não apenas devem ser aceitas, mas também seu contraste é construtivo para a sociedade, o ateísmo, entretanto, não se configura como opinião, e é colocado ao lado da intolerância.

294 LOCKE, John. Carta Sobre a Tolerância, cit., p. 46. 295 Ibid., p. 80.

296 FEBVRE, Lucien. O Problema da Incredulidade no Século XVI: A Religião de Rabelais. São Paulo:

A ideia lockiana a respeito de uma incompatibilidade entre ateísmo e democracia parece manter-se predominante entre a intelectualidade do século XVIII. Filósofos como Voltaire e políticos como Bonaparte mantinham a visão de que a religião era estritamente necessária para prevenir uma subversão social. Dentre os jacobinos, mantém-se essa noção lockiana, mas acrescenta-se um elemento novo: o ateísmo passa a ser visto por muitos como uma doutrina de ricos, estranha ao povo. A posição mais conhecida a esse respeito é a de Robespierre, que, em 21 de novembro de 1793, afirmou no Clube dos Jacobinos: “o fanatismo é um animal feroz e caprichoso, que foge diante da Razão. O ateísmo é aristocrático, a ideia de um grande Ser que vela sobre a inocência oprimida e pune o crime triunfante é totalmente popular”.297 Danton, por sua vez, discursou na Convenção a 26 de novembro de 1793: “não queremos aniquilar o reino da superstição para estabelecer o reino do ateísmo”.298 A 25 de dezembro, dois dias antes de emitir o mandado de prisão de Thomas Paine, Robespierre, na Convenção, novamente deixa clara sua hostilidade ao ateísmo: “o fanático coberto de escapulários e o fanático que prega o ateísmo têm em si muita semelhança”.299 Assim, o ateísmo ao negar existência de Deus e de uma punição após a morte, era aristocrático, não concedendo nenhuma compensação às injustiças sofridas na terra pelos desprivilegiados.

Em 7 de maio de 1794, quando decretou o culto deísta ao Ser Supremo e à Imortalidade da alma, Robespierre expôs um discurso chamado Sobre as relações das ideias

religiosas e morais com os princípios republicanos e sobre as festas nacionais, no qual

clarificou sua posição em relação ao ateísmo. Robespierre assim se dirige aos ateus:

Quem, pois te deu a missão de anunciar ao povo que a Divindade não existe – oh, tu, que até apaixonas por essa árida doutrina e nunca te apaixonaste pela pátria? Que vantagem encontra em persuadir o homem de que uma força cega preside seus destinos e golpeia ao acaso o crime e a virtude; que sua alma não passa de um sopro ligeiro que se extingue às portas do túmulo? A ideia de seu aniquilamento lhe inspirará sentimentos mais puros e mais elevados que a de sua imortalidade? Inspirar-lhe-á mais respeito por seus semelhantes e por si mesmo, mais dedicação à pátria, mais audácia para enfrentar a tirania, mais desprezo pela morte ou pela volúpia? Vós, que chorais sobre o esquife de um filho ou de uma esposa, por acaso vos sentis consolados por aqueles que vos diz que deles não resta mais que uma vil poeira? Infelizes que expirais sob os golpes de um assassino, vosso último suspiro é um apelo à justiça eterna! A inocência no cadafalso faz empalidecer o tirano em seu carro de triunfo; teria ela esse poder, se o túmulo igualasse o opressor e o oprimido? (...) Ora! Como não seriam verdades essas ideias? Ao menos, não concebo como a natureza poderia ter sugerido ao homem ficções mais úteis que todas as realidades; e se a

297 VOVELLE, Michel. A Revolução Francesa Contra a Igreja: Da Razão ao Ser Supremo, cit., p. 204. 298 Ibid., p. 204.

existência de Deus, se a imortalidade da alma, não passam de sonhos, ainda assim seriam a mais bela de todas as concepções do espírito humano.300

O ateísmo, assim, seria antirrepublicano na medida em que nega o triunfo último da justiça sobre a injustiça, e não fornece reparação ou sentido à vida, sobretudo, dos oprimidos. Como Locke, Robespierre vê a crença em Deus e na Imortalidade na alma (ainda que não na forma cristã, mas na forma deísta) como algo necessário à coesão social: “a ideia do Ser Supremo e da imortalidade da alma é um chamamento contínuo a justiça; ela é, portanto, republicana e favorece a vida em sociedade”.301

Para Slavoj Zizek, a oposição ao ateísmo por parte de Robespierre vai além: "o ateísmo, para ele, era a ideologia dos aristocratas cínico-hedonistas, que haviam perdido todo o senso de missão histórica".302 Na visão de Zizek, a justiça revolucionária consiste em quatro pilares:

Voluntarismo (crença de que se podem mover montanhas, ignorando leis e

obstáculos), terror (uma vontade impiedosa de esmagar o inimigo do povo),

justiça igualitária (sua imposição brutal imediata, sem nenhuma

compreensão das 'complexas circunstâncias' que pretensamente nos impelem a proceder de maneira gradual) e, por último, mas não menos importante,

confiança no povo.303

Tal noção justiça revolucionária, na visão de Robespierre, somente se efetiva se coadunada com a crença numa justiça eterna, que daria um suporte e justificativa últimos ao voluntarismo e ao terror. Zizek aponta que essa noção de justiça revolucionária está profundamente aportada no que Lacan chamou de "perspectiva do Juízo Final", ou seja, uma justiça infinita "eternamente adiada, sempre por vir, mas mesmo assim aqui, presente como o definitivo horizonte de nossa atividade".304

Em momento algum Paine advogou pela punição dos ateus (e sua estreita amizade com William Godwin era prova de sua generosidade para com esse grupo), tampouco compartilhava de qualquer um dos “quatro pilares” da justiça revolucionária ou do ateísmo como doutrina aristocrática. Entretanto, é clara sua rejeição ao ateísmo. Paine nunca foi claro sobre o porquê de sua oposição ao ateísmo; entretanto, em The Age of Reason ele reitera a racionalidade e a necessidade de uma justiça eterna pós-morte, um lugar comum na época,

300 ROBESPIERRE, Maximilien de. Discursos e Relatórios na Convenção, cit., pp. 174-175. 301 ROBESPIERRE, Maximilien de. Discursos e Relatórios na Convenção, cit., pp. 175-176. 302 ZIZEK, Slavok. Robespierre: Virtude e Terror, cit., p. 41.

303 Ibid., p. 42. 304 Ibid., p. 27.

como se viu. Pode-se concluir que, se Paine não defendeu a punição aos ateus, em contrapartida manteve a necessidade de alguma crença religiosa como fator de coesão social.

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 140-144)