Ser e Tempo orienta a noção de temporalidade para outros caminhos. Um tempo linear
não explica a verdadeira essência do caráter ek-statikon da existência humana, perpassado pelo “Porvir”, pelo “Vigor de ter sido” e pela “Atualidade”. Tratam-se dos modos de compreensão existencial do tempo. A temporalidade originária é finita e esta “não forma uma série, mas sim uma multiplicidade unificada de momentos estruturais[...] que não contempla serialidade ou seqüencialidade [...] Em termos positivos, a temporalidade originária é caracterizada como ekstática, horizontal e finita.”95
A ideia que parece presidir à interpretação heideggeriana da existência humana consiste em conceber a existência como êxtase – possível, portanto, unicamente como êxtase para o fim e como conseqüência, em situar o trágico da existência nessa finitude e nessa nada no qual o homem se lança à medida que existe. A angústia, compreensão do nada, só é compreensão do ser na medida em que o próprio ser determina-se pelo nada. O ser sem angústia seria o ser infinito.96
Logo, para o filósofo da floresta negra, a existência humana possui um caráter a ek- stático, ou seja, está sempre fora de si, como bem indica etimologia. Em direção ao fim (ser- para-o-fim), “a temporalidade é essencialmente ekstática”97. Diz Heidegger, que a temporalidade é o “fenômeno unificador do porvir que atualiza o vigor de ter sido.”98
Esse caráter ek-stático, é estruturado, como já prevenido, pelo Porvir, Pelo Vigor de ter sido e pela Atualidade, o que se taxou de “ekstases da temporalidade”. Por isso, “uma vida sem fim é uma vida sem norte, sem direção, projeto, sem pulso e impulso. Sendo, o homem é para o fim, sendo, simultaneamente, para o começo.”99 A temporalidade, já anunciamos, não pode se temporalizar a não ser por duas maneiras: ou autenticamente (antecipação-repetição- instante) ou inautenticamente (esperar-esquecer-presentificar). Deste modo, “há uma temporalidade originária autêntica e inautêntica, com uma unidade de futuro, passado e presente autênticos e inautênticos.”100
O porvir - por motivos óbvios - tem certa primazia já que, quando falamos de Dasein, falamos de projeto. É uma característica privilegiada do Dasein que ele seja propriamente
95REIS, Róbson Ramos, op. cit., p.109-110. 96 EE, 18.
97 ST II, 126. 98 ST II, 120.
99 PISETTA, Écio Elvis, op. cit., p. 260. 100 REIS, Róbson Ramos, op. cit., p.111.
porvindouro: o primado do futuro. Pode vir a si em seu poder-ser mais próprio (a de-cisão, a antecipação). O esperar, temporalização inautêntica da ekstase Porvir, é seguir na existência através de meros projetos que logo quando realizados devolvem o vazio a uma existência que não se compreende como vindoura. Dizer que a existência é essencialmente porvindoura faz do fim um momento de extrema atividade, como se a existência despertasse para si mesma a partir do fim. Assim, “o futuro temporaliza-se, produzindo ekstases do passado e do presente, formando uma unidade.”101
Porvir significa o advento em que a pre-sença vem a si em seu poder-ser mais próprio. É a antecipação que torna a pre-sença propriamente porvindoura, de tal maneira que a própria antecipação só é possível na medida em que a pre-sença, enquanto ente, sempre já vem a si, ou seja, em seu ser, é e está por vir. [...] Temporalidade temporaliza-se, originalmente, a partir do porvir.102
O vigor de ter sido: o assumir o que já sempre foi, ou seja, o vigor de ter sido já lançado. O esquecer é ignorar a gravidade que o “passado” possui para a estruturação do todo existencial. Heidegger inaugura um entendimento de um tempo não-serial. Se pudermos afirmar, a temporalidade heideggeriana é uma temporalidade pendular que se temporaliza através da interpenetração entre todas as instancias de tempo. No vigor de ter sido, O Dasein torna-se o que sempre foi, se compreende no já ter sido, assume e recupera o próprio ser que sempre esteve no num modo factual determinado.
Em sentido próprio porvindoura, a pre-sença é propriamente o vigor de ter sido. A antecipação da possibilidade mais própria e extrema é o vir de volta, pela compreensão, ao vigor de ter sido em seu sentido mais próprio. A pre- sença só poder se o vigor de ter sido na medida em que é e está por-vir.103
E a Atualidade: o esforço de existir enquanto essa retomada do vigor de ter sido. Atualizar-se não é pôr-se e entender-se no presente. O ideal do carpem diem seria interpretado por Heidegger como a mais inautêntica das posturas existenciais. Estar realmente no presente, ou seja, atualizar-se, é a faina de repetir-se a si mesmo, ou seja, manter a mesmidade recuperando a atualidade da dispersão nas ocupações imediatas. Daí, a forma inautêntica ser taxada de presentificação: compreender-se desde uma temporalidade de agoras que nada mais
101 REIS, Róbson Ramos, op. cit., p.110. 102 ST II, 119-126.
é do que um tempo intratemporal. Empobrece-se assim o projeto, o ser de futurição que é o ser-homem.
O presente em Heidegger é propriamente o ins-tante, e este é a condição de possibilidade do intratemporal. Temos aqui a mais fugidia ins-tancia de tempo. O presente é pura evanescência, propriamente aquilo que se esvaece, se esvai como éter jogado ao ar. Sendo pura evanescência, o presente é “instantâneo”, concretude temporal de um mundo.
O ser que se abre junto ao que, na situação está à mão, isto é, o deixar vir ao encontro na ação do que é vigente no mundo circundante, só é possível numa atualização desse ente. A de-cisão só pode ser o que é como atualidade de uma atualização, ou seja, o deixar vir ao encontro, sem deturpações, daquilo que ela capta na ação.104
É desta maneira, que Heidegger concebe a temporalidade sem o escoamento de instantes. Um tempo não linear e interpenetrado, “em que futuro, passado e presente, os três momentos que ele inclui, são originais da mesma maneira, mas a análise destaca certo primado do futuro.”105 A representação clássica do tempo é completamente revista.
A fórmula ‘estar já desde sempre adiante de si enquanto um ser no mundo contém formas temporais: ‘já desde sempre, ‘adiante’, ‘junto de’. Existe aqui uma tentativa para descrever a temporalidade sem fazer intervir o escoamento de instantes, o tempo que corre. Existe aqui uma preocupação em encontrar um tempo original que não é mais definido como rio que corre.
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Em suma, pelo jogo de conceitos e análises da existência humana - enquanto uma correspondência com o Ser e um êxtase para o fim - o homem está inexoravelmente ligado a morte com a possibilidade, face a ela, de re-significar a existência de forma autêntica. A morte é de fato, para Heidegger, é um modo de ser da vida. A morte, na acepção heideggeriana, não é um evento, afinal, não se mostra. A morte é um acontecimento de uma vida inteira, acontece durante toda a vida por isso, quando ao Dasein “sai do mundo, no sentido de morrer, isso não pode ser confundido com o sair-do-mundo na acepção do simplesmente viver.”107
104 ST II, 120.
105 EDE, 125. “Avenir, passé, présent, les trois moments qu’il inclut sont originels au même titre, mais l’analyse
fait ressortir um certain primat de l’avenir.”
106 DMT, 51 e 52. 107 ST II, 21.
A autenticidade, para além de um status de “melhoria existencial” ou de passagem de um estado de precariedade à glória, nada mais é do que uma modificação no próprio terreno constitutivo que se taxa de impessoal. Tão forçoso e inevitável que de maneira justa taxa-se próprio-impessoal.
O Dasein tem a possibilidade de desencobrir-se da não-verdade a qual está inserida na de-cadência, de tal maneira que ele “atente” ao verdadeiro sentido da mortalidade como ser- para-a-morte, como a certeza mais incerta da existência, como a “possibilidade mais própria, irremissível, certa e, como tal, indeterminada e insuperável da pre-sença.108 Logo, a morte pode ser uma condição de possibilidade de resignificação da existência, uma reorientação voltada a uma vida exercida com auto-transparência e sem os falsos atrativos de uma sensação de infinidade que o homem assume de maneira inautêntica. Desta feita, “poderíamos dizer: o homem vive melhor por que morre mais profundamente.”109 E nada disso faz sentido sem a força de modificação da decisão antecipadora.
108 ST II, 41.
109 GABÁS, Raúl . El concepto de existencia en Heidegger. La Rioja: Logos: Analés Del Seminario de
Metafísica, n. Extra, Ed. Complutense, 1992. p. 260. “Podriamos decir: el hombre vive mejor porque muere más a fondo.”