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LIMITES ET IMPACT LIMITES ET IMPACT

2. IMPACT DE L’ETUDE SUR NOTRE PRATIQUE :

Este estudo pauta-se nos referenciais teóricos da Sociologia da Infância e nos estudos bakhtinianos a respeito da análise de discurso.

A Sociologia da Infância tem sido um campo escolhido com certa frequência, como teoria-metodológica, em muitos estudos acerca da infância, sobretudo no

Brasil. No entanto, tais estudos ainda somam um número que necessita ser expandido, uma vez que, devido ao fato de as crianças terem sido reconhecidas como sujeitos de direitos no século XX, os estudos sobre infância demandam hoje uma maior diversidade de abordagens teórico-metodológicas.

Assim, Sociologia e Infância foram interligadas pela modernidade, momento em que a Sociologia da Infância tende a cumprir uma missão dual: “criar espaço para a infância no discurso sociológico e confrontar a complexidade e ambiguidade da infância na qualidade de fenômeno contemporâneo e instável” (DELGADO; MÜLLER, 2005, p. 351). Nesse sentido, Müller(2010) assevera que

Como objeto de estudo, a infância não esteve excluída de todos os movimentos de classificação e fragmentação do século XX, e as dicotomias criadas entre as ciências humanas e sociais e as biopsicológicas ainda hoje são as mais difíceis de superar. A instabilidade e a insegurança causadas pela tensão entre o velho e o novo, entre os prés e os pós representam um desafio teórico- metodológico para a pesquisa na contemporaneidade, que exige novas alternativas para lidar com a complexidade e com o saber fragmentado (MÜLLER, 2010, p. 13).

Essas dicotomias, citadas por Müller (2010), contribuíram/contribuem para que a relação entre conhecimento e poder seja compreendida de maneira cada vez mais adversa, gerando assim problemas multidisciplinares. Assim, os estudos da infância não se vinculam “a uma única linha teórica ou vertente de pensamento”, mas sim “por um referencial interdisciplinar imposto pela complexidade da infância contemporânea” (MÜLLER, 2010, p. 14).

E em se tratando de criança e infância, com a Sociologia da Infância algumas concepções passam a ganhar outra conotação, uma vez que a criança não é mais constituída a partir da visão biologizante, e sim por meio de suas inter-relações e da socialização de suas culturas com seus pares. E essas relações terão graus de complexidade à medida em que a criança desenvolve seu processo de interação em diferentes momentos de sua infância, e ainda, quando passa a ter acesso a diferentes informações, valores, imagens, produtos. Nesse caso, “os processos de socialização cada vez mais complexos ocorrem a partir do momento em que as crianças de menor idade começam a passar grande parte do seu tempo fora do contexto familiar” (DELGADO; MÜLLER, 2005, p. 352).

Corsaro (2011) assegura que “grande parte do pensamento sociológico sobre crianças e infância deriva do trabalho teórico sobre socialização” (CORSARO, 2011, p. 19). Com efeito,

Esta noção de socialização na sociologia da infância estimula a compreensão das crianças como atores capazes de criar e modificar culturas, embora inseridas no mundo adulto. Se as crianças interagem no mundo adulto porque negociam, compartilham e criam culturas, necessitamos pensar em metodologias que realmente tenham como foco suas vozes, olhares, experiências e pontos de vista (DELGADO; MÜLLER, 2005, p. 353).

Prout (2010) ressalta que,

Ainda temos muito a aprender sobre formas de permitir que as crianças falem por si próprias e de sua maneira. Com muita frequência exige-se que as crianças se ajustem às formas de participação dos adultos, quando o que é necessário são as mudanças institucionais e organizacionais que facilitem e encorajem as vozes das crianças. (PROUT, 2010, p. 35)

[...]

Por outro lado, mesmo quando as disposições institucionais criam um espaço nacional para que a voz das crianças seja ouvida, para que isso realmente ocorra são necessárias mudanças na maneira de como as crianças são vistas (PROUT, 2010, p. 37).

E, no que se refere à forma de pensar sobre as crianças, a Sociologia da Infância inaugura-se em um campo que permite ser explorado por pesquisadores e estudiosos, campo este considerado por muitos como desafiador. Nesse campo as crianças são vistas como sujeitos ativos, capazes de construir suas próprias culturas e oferecer sua parcela de contribuição para o mundo adulto; como parte da sociedade e não à margem dela; como um componente cultural e estrutural de muitas sociedades e não como um ser com imaturidade biológica, ou como uma característica natural e genérica de muitas sociedades; e, ainda, pertencentes a variadas infâncias e culturas e não a uma forma única e universal.

Por esse motivo que escolhemos este campo de estudo, uma vez que a Sociologia da Infância nos permite apontar estratégias metodológicas a valorizar a criança, compreender suas culturas infantis, suas formas de organização, sua repulsa às extremidades do mundo adulto, e nos ensina a vê-las a partir de uma nova ótica, e não apenas como habitualmente a vemos, como por exemplo dentro de um espaço de educação formal. Precisamos vê-las em outros espaços que não

sejam os institucionalizados e entender que, ao contrário do que se instituiu, existem outros espaços educativos como a televisão, os espaços sociais que permitem o acesso à Internet, as ruas do entorno onde moram, as vilas, favelas, os shoppings, o cinema, os filmes... espaços ainda desconhecidos por muitos adultos.

No que diz respeito à análise bakhtiniana, a escolha por Bakhtin justifica-se pelo fato da eficácia e profundidade de seu pensamento em contribuir e se realizar em fronteiras de campos diversos, o que torna sua obra irrestrita a um campo específico. Além do que, a base epistemológica de Bakhtin é muito fértil para as Ciências Humanas, caracterizadas, pelo dialogismo, em que sujeitos diferentes interagem por meio de produção de discursos e interpretações, o que se difere das ciências da natureza, em que o sujeito examina um objeto mudo. Por esse motivo é que seu pensamento vigora, ainda que sejam contestadas algumas de suas observações sobre aspectos históricos ou antropológicos.

Além do que, se para a Sociologia da Infância as crianças são constituídas pelo processo da socialização e inter-relação de suas culturas, a relação com os estudos Bakhtinianos faz-se coerente, uma vez que, para este teórico, os sujeitos são capazes de interagir e produzir discursos e interpretações dentro do processo dialógico, o que não é possível sem a socialização.

Bakhtin (2009) ressalta que, “todo signo, como sabemos, resulta de um consenso entre indivíduos socialmente organizados no decorrer de um processo de interação” (BAKHTIN, 2009, p. 45). Neste caso, a forma tomada por cada signo será determinada não só pela organização social dos indivíduos como pelas circunstâncias em que ocorre a interação. Ou seja, se houver qualquer mudança em uma dessas formas o signo será alterado. Em relação a esta influência recíproca entre o signo e o ser, ocorrida de forma dialética como um processo de refração do ser no signo, é que se dá a evolução social do signo, da qual se ocupa a ciência das ideologias. Para isso, Bakhtin (2009) convida-nos a observar as seguintes regras metodológicas:

1. Não separar a ideologia da realidade material do signo (colocando- a no campo da “consciência” ou em qualquer outra esfera fugidia e indefinível).

2. Não dissociar o signo das formas concretas da comunicação social (entendendo-se que o signo faz parte de um sistema de comunicação social organizada e que não tem existência fora deste sistema, a não ser como objeto fácil).

3. Não dissociar a comunicação e suas formas de sua base material (infra-estrutura) (BAKHTIN, 2009, p. 45).

Assim, o processo de socialização entre os sujeitos, está para a relação entre o signo – social e linguístico – e o campo social de um determinado grupo e respectivo tempo histórico.

É com esse olhar, aproximando os signos presentes com variadas formas de comunicação humana, aproximando ideologia e realidade e, a comunicação e suas formas infra-estruturais que nos propomos utilizar as teorizações bakhtinianas neste estudo, a partir do seguinte esquema:

Imagem 2: Esquema ilustrativo do tema central deste estudo e dos eixos que nortearão as análises

Fonte: Elaborado pela autora deste estudo, 2017.

O referido esquema representa os eixos de análise – concepções de Infância, culturas infantis e educação – que envolvem as concepções de infância ao longo da história, bem como os modos de ser criança e os aspectos voltados à educação das crianças protagonistas nos filmes que constituem o corpus deste estudo.

No eixo Concepções de infância ressaltamos as concepções presentes nas cenas selecionadas para análise e que trazem fortes rastros das concepções, de

infância e criança, na trajetória histórica da infância e de suas [re]produções em nossa sociedade. Nomeamos o tópico de que trata este eixo de “os sentidos e significados da Infância nas narrativas fílmicas” e nele trataremos ainda dos cronotopos do tempo, espaço e [auto]biográfico da infância. No eixo Culturas infantis discutimos os modos de ser criança dispostas em tela, e que certamente têm relação com diferentes concepções de infância e de criança. O tópico de que trata este eixo apresenta-se no texto como “os modos de ser criança nas produções cinematográficas” e nele discutimos sobre as brincadeiras e o imaginário infantil. No eixo Educação tratamos dos “aspectos voltados à educação das crianças protagonistas nos filmes”. Assim nomeado, o tópico que se ocupará deste eixo discute a respeito das diferentes concepções de escola e educação dentro da história da infância, bem como das práticas escolares e disciplinares identificadas nas películas em tela.

Para Bakhtin (2009), “a palavra é o modo mais puro e sensível da relação social” (BAKHTIN, 2009, p. 36), portanto se faz presente em todas as ações que envolvem compreensão e interpretação. Assim, é pela palavra que os discursos são proferidos. É pela palavra que o homem se diferencia dos outros animais ao se constituir um ser de linguagem e tornar-se compreendido por meio da mesma. Pois, é por meio da linguagem que o homem é capaz de expressar seu pensamento, ideologias, concepções e transmiti-las historicamente a cada geração.

Quando se refere a esse processo de uso da palavra, não há como não falar em texto, quer seja oral ou escrito, uma vez que dele fazem uso todas as disciplinas e pensamentos – filológico-humanista, teológico e filosófico. Nesse sentido, Bakhtin (2011) define “dois elementos que determinam o texto como enunciado: a sua ideia (intenção) e a realização dessa intenção” (BAKHTIN, 2011, p. 308). Dentro dessa discussão, Bakhtin aponta o conceito do que conhecemos por intertextualidade, que se define pelas “relações dialógicas entre os textos e no interior de um texto. Sua índole específica (não linguística). Diálogo e dialética. [...] Não há nem pode haver textos puros” (BAKHTIN, 2011, p. 309).

Nesse sentido, pode-se inferir que não há originalidade nas construções textuais uma vez que, “[...] por trás de cada texto está o sistema de linguagem. A esse sistema corresponde no texto tudo o que é repetido e reproduzido e tudo o que pode ser repetido e reproduzido, tudo o que pode ser dado fora de tal texto (o dado)” (BAKHTIN, 2011, p. 310). Isto é, quando temos um texto constituído por meio de

outros textos justapostos, de forma explícita ou implícita, a serem absorvidos pelo texto criado estabelecendo uma relação mútua em seu interior, identificamos um processo intertextual.

No caso deste estudo, pautando-nos nos estudos de Bakhtin (2011), apresentamos o desvelamento das faces dos diferentes enunciados presentes na formação discursiva dos filmes ora selecionados, já que, de acordo com o pensamento bakhtiniano, não há como compreender um texto/enunciado de forma isolada, uma vez que cada texto sempre estará em constante diálogo com outros textos. Neste caso, ao compreendermos as narrativas fílmicas como textos, há que considerarmos a relação que estas estabelecem com outros textos presentes de forma interna, bem como os que se encontram externamente a elas. E ainda, a relação estabelecida entre os filmes, com os textos que os originaram, com os que os circunscrevem antecipadamente, com os quais trocam ideias, opiniões, com os quais fazem menção ou aos quais se opõem.

Segundo Bakhtin (2011), todo texto é um tecido de muitas vozes, e ao construir a concepção de polifonia não a deixou alheia de conteúdo histórico, social e ideológico. “Onde não há texto não há objeto de pesquisa e pensamento” (BAKHTIN, 2011, p. 307)

Pires e Tamanini-Adames (2010) lembra-nos que

Bakhtin, primeiro estudioso a elaborar os conceitos de polifonia e heterogeneidade, defendeu a ideia de que todo texto é um objeto heterogêneo, de que todo texto é constituído por várias vozes, é a reconfiguração de outros textos que lhe dão origem, dialogando com ele, retomando-o. Os sujeitos se constituem como tais nas ações interativas, sua consciência se forma no processo de interiorização de discursos preexistentes, materializados nos diferentes gêneros discursivos, atualizados nas contínuas e permanentes interlocuções de que vão participando (PIRES; TAMANINI-ADAMES, 2010, p. 71).

Nesse sentido, o cinema se constitui como sistema cultural, uma vez que é possível, pelas múltiplas vozes apreendidas no filme, a interação entre consciências individuais, por possuir forma e conteúdo ideológico que se processa a partir de campos específicos e em múltiplos discursos, a serem observados, dentro do processo de comunicação, como signos.

Ainda sobre polifonia, vale lembrar que, para Bakhtin, dialogismo e polifonia estão associados. A polifonia “se define pela convivência e pela interação” e se

caracteriza pela “posição do autor como regente do grande coro de vozes que participam do processo dialógico. [...] mas deixa que se manifestem com autonomia...” (BEZERRA, 2012, p. 194). Quanto ao dialogismo, Bezerra (2012) o define como “procedimento que constrói a imagem do homem num processo de comunicação interativa, no qual eu me vejo e me reconheço através do outro, na imagem do outro, na imagem que o outro faz de mim” (BEZERRA, 2012, p. 194). Assim, quando o “eu” se projeta no “outro”, na comunicação dialógica, o “outro” também se projeta nesse “eu”, a fim de que haja a confirmação da existência da multiplicidade de “eu” inacabado, inconcluso – o “eu para mim”, o “eu para o outro” e o “outro para mim”.

Nesse processo dialógico, “a palavra acompanha e comenta todo ato ideológico. Os processos, de compreensão de todos os fenômenos ideológicos (um quadro, uma peça musical, um ritual ou um comportamento humano) não podem operar sem a participação do discurso interior” (BAKHTIN, 2009, p. 38).

Por isso, a opção também de análise a partir da categoria Ideologia, uma vez que, de acordo com Bakhtin (2009) “é, precisamente, na palavra que melhor se revelam as formas básicas, as formas ideológicas gerais da comunicação semiótica” (BAKHTIN, 2009, p. 37). Além do que, o cinema traz em si a fertilidade do campo imagético e a multiplicação de signos da nossa sociedade, sendo assim, mais uma possibilidade para a [re]produção de culturas, apresentando-se como um produto de consumo. E, os produtos de consumo, conforme aponta Bakhtin (2009), podem ser transformados em e associados a signos ideológicos.

Bakhtin (2009) defende que a existência da superestrutura se dá pelo fato do jogo e da relação que esta estabelece com a infraestrutura. Tal relação ocorre por intermédio dos signos e pela capacidade que há em se fazer presente em todas as relações sociais. E, em cada relação, cada signo é revestido de sentidos próprios. Tais sentidos são produzidos a serviço dos interesses daquele grupo.

Contudo, o verdadeiro lugar do ideológico, para Bakhtin (2009), “é o material social particular de signos criados pelo homem. Sua especificidade reside, precisamente, no fato de que ele se situa entre indivíduos organizados, sendo o meio de sua comunicação” (BAKHTIN, 2009, p. 35), por esse motivo não pode ser explicado em termos de raízes supra ou infra-humanas.

Um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele também reflete e refrata uma outra realidade, que lhe é exterior. Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia (BAKHTIN, 2009, p. 31).

Bakhtin (2009) ressalta que:

[...] os temas e as formas da criação ideológica crescem juntos e constituem no fundo as duas facetas de uma só e mesma coisa. Este processo de integração da realidade na ideologia, o nascimento dos temas e das formas, se tornam mais facilmente observáveis no plano da palavra (BAKHTIN, 2009, p. 46).

Assim, a realidade dá lugar à formação de um signo, por isso que os índices de valor com características ideológicas constituem índices sociais de valor com pretensões ao consenso social, ainda que esses índices sejam realizados pela palavra – quer seja na voz dos indivíduos ou por um organismo individual. E é pelo consenso social que estes são externados no material ideológico.

A esse respeito, Bakhtin (2009) afirma que

O tema ideológico possui sempre um índice de valor social. Por certo, todos esses índices sociais de valor dos temas ideológicos chegam igualmente à consciência individual que, como sabemos, é toda ideologia. Aí eles se tornam, de certa forma, índices individuais de valor, na medida em que a consciência individual os absorve como sendo seus, mas sua fonte não se encontra na consciência individual. O índice de valor é por natureza interindividual (BAKHTIN, 2009, p. 46).

E, o cinema é um campo de criatividade ideológica que “tem seu próprio modo de orientação para a realidade e refrata a realidade à sua própria maneira” (BAKHTIN, 2009, p.33). Assim, apresenta-se como um objeto significativo para o estudo das ideologias.

Seção III

A infância e a sociologia da

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