Estudos desenvolvidos por Scherre e colaboradores têm analisado os efeitos de fatores linguísticos e sociais no processo de variação e mudança no uso do modo imperativo no português brasileiro. Dentre os fatores linguísticos investigados, alguns se destacam, pois apresentam significância estatística tanto em corpora de língua falada como nos de língua escrita.
A seguir, essas variáveis linguísticas são apresentadas com o objetivo de ampliar a compreensão da leitura do capítulo de análise dos dados, já que procederemos, quando necessário, a uma análise comparativa.
O paralelismo discursivo – variável discutida em Scherre (1998) – consiste em identificar, em uma sequência de orações, a interferência de uma forma precedente sobre a forma subsequente. No caso das pesquisas sobre o imperativo, essa hipótese tem sido confirmada: os resultados mostram que há um condicionamento linguístico no plano do discurso motivado pelas formas precedentes, ou seja, o uso do imperativo associado ao indicativo numa sequência discursiva favorece outra forma de mesma natureza, assim como o uso do imperativo associado ao subjuntivo favorece outra forma
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A discussão do efeito dessas variáveis em nossos dados – seus percentuais e pesos relativos - será apresentada no capítulo 5 e 6.
subsequente associada ao subjuntivo (cf. Sampaio, 2001; Scherre, 2003; Cardoso, 2004; Jesus, 2006).
Essa influência de uma forma precedente sobre uma forma subsequente também é verificada em estudos de outros fenômenos variáveis, conforme ilustra Scherre (1998), apresentando os resultados de quatro trabalhos que exploram esse efeito em diferentes subsistemas: o estudo de Gryner de 1990 sobre variação tempo-modo em orações condicionais; os estudos de Scherre de 1991 e 1997, Scherre & Naro de 1991, Naro & Scherre de 1996 sobre a concordância de número; as análises de Mollica de 1989 e 1991 sobre a presença/ausência de preposição de em fronteiras oracionais; e os estudos de Scherre et al. de 1997 sobre a alternância indicativo/subjuntivo em estruturas imperativas. Nas palavras de Scherre, essa é uma variável de natureza funcionalista por encontrar sua explicação em “forças de natureza externa à língua”; para a pesquisadora, subjaz à variável paralelismo “um princípio de base cognitiva que possibilita ao ser humano fazer agrupamentos” (Scherre, 1998:50).
A análise da variável denominada “polaridade da estrutura” envolve, na realidade, três aspectos: a polaridade afirmativa e negativa da estrutura; a presença ou a ausência de pronomes no contexto e o tipo de pronome: tu/teu ou você/seu no contexto. Com isso, os pesquisadores verificam a relação entre o registro da tradição gramatical para o imperativo afirmativo e negativo e o uso na língua falada e escrita. As pesquisas evidenciam diferentes percentuais de variação tanto no uso das estruturas afirmativas, como exemplificado em (37), quanto das negativas, conforme mostra (38).
(37) – DEIXA eu ver – disse ele procurando-me na sombra. (exemplo de língua escrita, retirado de Veiga, 1998:83)
(38) Não ATRASA a boiada. (exemplo de língua escrita, retirado de Veiga, 1994:152)
Os exemplos ilustram a variação em relação ao registro da tradição gramatical: em (37), há uma estrutura afirmativa com o uso de imperativo na forma indicativa em contexto de pronome você; em (38), há uma estrutura negativa com o uso do imperativo na forma indicativa. Essa alternância no uso de imperativo associado ao indicativo e de imperativo associado ao subjuntivo em estruturas imperativas afirmativas e negativas acontece tanto na fala quanto na escrita, conforme exemplificaremos no capítulo de análise dos dados. Contudo, a tendência verificada é de imperativo afirmativo
favorecendo mais o uso de formas como leva, faz, vem e imperativo negativo favorecendo mais formas como leve, faça, venha.19 Segundo Scherre (2003:180), esse efeito evidencia paralelismo semântico, visto que o uso do subjuntivo está associado ao modo irrealis, combinando-se mais com a polaridade negativa.
O trabalho de Sampaio (2001) ilustra bem esse efeito. Mesmo em um corpus com dados do Rio de Janeiro, cidade em que predomina o uso de imperativo associado ao indicativo, em média, em 94% dos casos, a polaridade negativa favorece o uso de imperativo associado ao subjuntivo: em estruturas afirmativas, os resultados de Sampaio mostram 95% de uso do imperativo associado ao indicativo; em estruturas negativas, o percentual de uso dessa forma cai para 78%. Para a autora, essa tendência ocorre por causa da possibilidade de preenchimento do sujeito, como poderia ocorrer nos exemplos do par não jogue/não joga. No segundo exemplo, há a possibilidade da leitura “você não joga”.
Outra variável independente que tem efeito bastante significativo na variação do imperativo e que vem sendo investigada nas pesquisas é o tipo, a posição e a pessoa
dos pronomes oblíquos - variável de natureza sintática, introduzida nas pesquisas por
Leite (1994:1-11), que investigou a presença/ausência de pronome na oração. Scherre et al. (2000a) ampliaram o entendimento dessa variável com o objetivo de investigar também o possível efeito da pessoa do pronome. Mostram, por exemplo, que a presença do pronome oblíquo se ou me depois do verbo favorece categoricamente o uso do imperativo na forma subjuntiva, como ocorre em Cale-se. Segundo os autores, isso ocorre porque o uso de imperativo associado ao indicativo – como em Cala-se - possibilitaria o preenchimento do sujeito, deixando de assegurar, dessa forma, a leitura imperativa. Por outro lado, a mudança de posição do pronome para antes do verbo favorece o uso variável do imperativo, visto que não bloqueia a leitura imperativa, conforme exemplifica a autora (Se coloca no meu lugar).
Outros resultados em relação ao tipo e à posição de pronomes se confirmam nas pesquisas: pronome oblíquo me proclítico ou ausência de pronome favorecem o uso de imperativo associado ao indicativo - nesses casos a leitura imperativa está assegurada, independente da forma variante usada; pronome oblíquo se proclítico favorece uso do imperativo associado ao subjuntivo – aqui a possibilidade de perda da leitura imperativa é a explicação para os resultados. Essas tendências estão exemplificadas em (39) e (40).
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Veremos no capítulo 6 as implicações da posição da negação em orações imperativas negativas.
(39) – Me DIZ uma coisa – Disse Simão interrompendo. (VEIGA, 1995:54) (40) E se VISTA para o cemitério se tiver vontade de fofocar. (dado de fala do
NURC/RE citado por Jesus (2006))
Resultados seguindo essa tendência foram encontrados em Scherre et al. (1998); Sampaio (2001); Scherre (2003; 2004); Cardoso (2004); Jesus (2006).
Na análise de Scherre (2003), além da possibilidade da perda da leitura imperativa das sentenças, caso o verbo seja usado na forma associada ao indicativo, nos casos descritos acima, há outro aspecto a ser considerado para a interpretação da variável que analisa os clíticos: a coexistência de formas que refletem momentos linguísticos diferentes. A autora diz que o fato de pronomes oblíquos enclíticos favorecerem o imperativo associado ao subjuntivo mostra um reflexo da língua portuguesa falada em outro momento no Brasil. Já o uso de clítico na forma de pronome pessoal reto conjugado ao uso do imperativo associado à forma indicativa mostra o uso atual que se estabelece nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Em seus dados, a autora verifica que a ocorrência de pronome do caso reto depois do verbo em estruturas imperativas favorece categoricamente o imperativo na forma indicativa.
O uso de pronome pessoal reto na posição pós-verbal não é previsto pela tradição gramatical a qual também não prevê o uso do imperativo gramatical associado à forma indicativa, em contexto de pronome você. Pensando na associação desses dois aspectos em uma sentença imperativa, é possível falar no princípio de coesão estrutural, nos moldes propostos por Lucchesi (2000:141). Segundo esse autor, há um princípio que se baseia na tendência que existe de duas formas de uma mesma gramática co-ocorrerem em uma sentença.
Em Sampaio (2001:89), esse princípio também é considerado. Em sua análise, a autora identifica favorecimento de formas associadas ao indicativo co-ocorrendo com pronomes na forma reta; já em relação aos demais clíticos, há um favorecimento de formas subjuntivas.
Cardoso (2004) analisa o uso do imperativo em dados de língua escrita em textos do escritor goiano José J. Veiga. Seus resultados em relação à presença e posição de clíticos seguem, em geral, a mesma tendência aqui explicitada. Já em relação ao uso do pronome da forma reta depois do verbo, seus resultados divergem das demais pesquisas: em um contexto, em que a frequência de uso do imperativo associado ao indicativo é de 43
apenas 24%, formas como leva, faz, vem, na presença de pronome reto, ocorrem em apenas 14% dos dados. Na interpretação da autora, contudo, o princípio da coesão estrutural se mantém, já que em termos de peso relativo (0,42) e, considerando a frequência global de uso do imperativo na forma indicativa no corpus (24%), o desfavorecimento é muito pequeno.
O estudo sobre os efeitos da variável independente tipo de verbo tem sido bastante complexo, visto que sua análise envolve a abordagem de diversos aspectos como o número de sílabas dos verbos no infinitivo, o paradigma regular/irregular e os componentes fonológicos como maior ou menor saliência fônica e o traço [+] ou [-] aberto da vogal imediatamente precedente na forma verbal conjugada em verbos regulares da primeira conjugação. O princípio da saliência fônica está sendo considerado da seguinte forma: a) verbos com oposição mais marcada (perceptível) do tipo faz/faça; diz/diga; b) verbos com oposição menos marcada do tipo dá/dê; vai;vá (cf. Naro, 1981).
Scherre et al. (1998), analisando corpora de eventos diversos de língua falada, mostram que verbos monossílabos favorecem o imperativo associado ao indicativo; os dissílabos e trissílabos têm efeito intermediário; e os polissílabos favorecem a associação ao subjuntivo.
Constataram também que, nesse corpora, cujo percentual de uso do imperativo associado ao indicativo é de 80%, o traço [+] aberto da vogal precedente em verbos flexionados da primeira conjugação tende a favorecer ainda mais essa forma como em fAla, Olha; já a possibilidade de ocorrer imperativo associado ao subjuntivo com verbos de primeira conjugação aumenta, se o traço da vogal precedente for [-] aberto, como em tEnte, vIre. Segundo os pesquisadores, trata-se também de um caso de paralelismo linguístico, no plano fônico.
Quanto ao paradigma regular/irregular, a tendência encontrada nas pesquisas é de que verbos da primeira conjugação tendem a favorecer o uso do imperativo associado ao indicativo com formas do tipo leva, canta (considerando as restrições da vogal precedente descritas acima); enquanto a tendência observada nos verbos das demais conjugações é de favorecimento do imperativo na forma subjuntiva, considerando as restrições impostas pelo princípio da saliência fônica: a) verbos com oposição mais marcada (perceptível) do tipo faz/faça; diz/diga tendem a favorecer o uso de imperativo associado ao subjuntivo; b) verbos com oposição menos marcada do tipo
dá/dê; vai;vá tendem a favorecer imperativo associado ao indicativo (cf. Scherre et al., 1998; Cardoso, 2004; Jesus, 2006; Scherre, 2003; 2004; 2007).
Outra variável linguística que tem sido investigada (Scherre, 2002; 2004; Cardoso, 2004) é a presença e a posição de elementos discursivos – chamados âncoras discursivas – à direita ou à esquerda de estruturas imperativas, como vocativos e advérbios. Cardoso (2006) mostra que a presença desses elementos depois do verbo tende a favorecer o uso do imperativo associado ao indicativo, conforme exemplificado em (41) e (42), enquanto sua posição à esquerda desfavorece esse uso, conforme exemplificado em (43) e (44)20.
(41) Empurra aqui, Chico. (Dja – 63 anos)
(42) Desce daí, menino, tá roubando minhas goiabas. (Dja – 63 anos) (43) Ò gato, fique quieto. (Pau – 30 anos)
(44) Mateus, pare de tomar suco. (Neu – 32)
Essa variável de natureza discursiva nem sempre tem mostrado significância estatística nas pesquisas acerca da variação do imperativo no português brasileiro. Em nossa análise, conforme mostraremos no capítulo de análise de dados, foi atribuída significância estatística aos dois grupos de fatores considerados: um grupo no qual investigamos só a presença e a posição do vocativo, e o outro no qual analisamos a presença de palavras e expressões do tipo: por favor, isto, isso, aí, daí, aqui, lá, cá. A hipótese para o primeiro grupo é a de que a presença e a posição de vocativos à direita do verbo no imperativo tendem a favorecer a associação ao indicativo; enquanto a ausência, nesta posição, tende a desfavorecer esse uso. Já em relação ao segundo grupo, em que se considera apenas a presença e a ausência dos elementos citados, a hipótese é a de que há um aumento do uso de imperativo associado ao indicativo na presença desses elementos.
De uma maneira geral, as tendências descritas aqui em relação ao comportamento das variáveis independentes que apresentamos foram confirmadas em nossa análise quantitativa. Essas análises serão apresentadas no capítulo 6.
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Os dados de 41 a 44 foram retirados do corpus formado por falantes nativos de Fortaleza que estão morando no Distrito Federal.