A presente explanação conceitua e contextualiza possíveis reações físicas e emocionais desencadeadas por circunstâncias do trabalho dos pais sociais e demais educadores/cuidadores de crianças e adolescentes. Apresenta ainda as estratégias que podem vir a ser utilizadas para enfrentar tais situações, as quais podem ser avaliadas como negativas em seu dia-a-dia.
Além do conhecimento e das habilidades técnicas para lidar com situações cotidianas, principalmente as relacionadas ao comportamento da criança ou do adolescente, os pais sociais precisam lidar com a intensa
carga emocional, de atenção e de energia física, pois as necessidades de ordem prática, como limpeza do ambiente, alimentação, higiene e segurança dos acolhidos, somam-se às necessidades de afeto e atenção dos mesmos (NOGUEIRA; COSTA, 2005b). Cavalcante (2008) considera que o desgaste emocional dos educadores em ambientes de cuidado coletivo ganha mais força em três momentos comuns nesses contextos: o período de adaptação da criança ao meio institucional, que exige aceitação rápida de hábitos, horários e regras que podem destoar completamente do que foi vivido em família até então; os períodos de transição conforme a idade avança e a criança exige cuidados diferenciados e os dias que antecedem o seu desabrigamento.
Em relação à desinstitucionalização das crianças e adolescentes, Tinoco (2007) afirma que o cuidador se depara com a necessidade de elaborar o luto pela saída dos mesmos, já que o vínculo foi perdido. Porém, é um luto não reconhecido pelo próprio profissional e pela sociedade, pois a relação não era teoricamente forte para gerar luto e a separação era esperada, portanto as reações de luto “não deveriam” aparecer. Conforme avaliam Edelstein, Burge e Waterman (2001), o luto dos cuidadores é também ambivalente, pois quase sempre sentem alívio quando a criança deixa o lar temporário ou a instituição, contrastando com os sentimentos provenientes da separação. Quando o cuidador tem dificuldade para lidar com o próprio luto pela perda da criança que é desabrigada, ou morre, uma das consequências é ele tentar se proteger de um maior sofrimento diante de novas rupturas, evitando vincular-se afetivamente às crianças (TINOCO, 2007).
Edelstein, Burge e Waterman (2001) e Tinoco (2007) afirmam que a vinculação entre educador/cuidador e a criança ou adolescente é desejável e não deve ser desestimulada, porque a experiência de vincular-se de forma segura com um adulto cuidador fará com que a criança seja capaz de viver outra relação como esta, embora possa sofrer diante de uma perda. Os autores destacam que relações seguras funcionam como fatores de proteção no abrigo, pois a partir delas a criança consegue enfrentar de forma saudável o luto pela perda e as próximas vinculações não ficarão comprometidas negativamente. O mesmo pode ser pensado para o educador e também para os outros profissionais do abrigo, ou seja, as vinculações são benéficas para o enfrentamento de perdas e para novas vinculações. Sendo assim, as emoções precisam ser adequadamente manejadas pelos cuidadores em três momentos: o período anterior ao desabrigamento da criança, desde quando se sabe que ela vai sair; o
momento da partida e o período posterior de ajuste diante da ausência da criança (EDELSTEIN; BURGE; WATERMAN, 2001).
O estresse é definido por Lipp (2003, citada por GOULART JR.; LIPP, 2008) como um processo complexo do organismo, envolvendo alterações bioquímicas, físicas e psicológicas, que são desencadeadas a partir da interpretação que o indivíduo dá aos estressores externos e internos, causando desequilíbrio na homeostase interna que exige uma resposta de adaptação do organismo para preservação de sua integridade e da própria vida. Para Lipp e Tanganelli (2002), o estresse pode produzir efeitos negativos como a fadiga, tensão muscular e inúmeras doenças, e pode aparecer não só quando ocorre um evento trágico, como a morte de um ente querido, mas também em situações adversas ligadas ao trabalho, como excesso de tarefas que devem ser realizadas em curto espaço de tempo, pressão constante e exigências exageradas.
Lipp e Tanganelli (2002) consideram que o estresse ocupacional é caracterizado pela tensão, frustração, ansiedade e exaustão emocional, em função de aspectos do trabalho definidos pelo indivíduo como ameaçadores. O estresse ocupacional agrava-se quando há por parte do indivíduo a percepção das responsabilidades e da existência de poucas possibilidades de autonomia e controle.
Já Tamayo e Tróccoli (2002) consideram a exaustão emocional como uma resposta ao estresse ocupacional crônico, caracterizada por sentimentos de desgaste físico e emocional, na qual o indivíduo sente que está sendo super exigido e reduzido nos seus recursos emocionais. A exaustão emocional pode comprometer a saúde mental e física dos trabalhadores e deteriorar a qualidade de vida no trabalho e o funcionamento da organização. Ela sinaliza a primeira etapa do burnout, síndrome psicológica decorrente da tensão emocional crônica no trabalho. Variáveis organizacionais e do trabalho, como um papel profissional ambíguo e conflituoso, sobrecarga e pressão, além da rotatividade voluntária, estão relacionadas a estados de exaustão emocional e ao burnout (TAMAYO; TRÓCCOLI, 2002).
Em situações e demandas específicas (internas ou externas), advindas de eventos causadores de estresse e avaliadas como sobrecarga aos recursos pessoais, o indivíduo utiliza um conjunto de esforços cognitivos e comportamentais, o qual se denomina coping (FOLKMAN, 1984; FOLKMAN et al., 1986). O nível de estresse vivenciado não depende apenas das exigências da situação e nem somente do repertório de enfrentamento do indivíduo, mas também da relação entre as exigências e os recursos percebidos e avaliados pelo indivíduo. Antoniazzi, Dell’Aglio
e Bandeira (1998) referem que toda e qualquer atitude ou tentativa de administrar o evento que causa ameaça ou é avaliado como fonte de estresse, é considerada uma estratégia de enfrentamento, independente de seus resultados serem positivos ou não.
No referencial de Folkman e seus colaboradores (FOLKMAN, 1984; FOLKMAN et al., 1986), as respostas ou estratégias de enfrentamento são classificadas quanto à função em duas categorias: enfrentamento focalizado no problema e enfrentamento focalizado na emoção. No primeiro caso, a pessoa engaja-se na modificação do problema ou situação causadora de estresse, planejando soluções com vistas a controlar ou lidar com a ameaça. O enfrentamento focalizado na emoção tem como função principal a regulação da resposta emocional causada pelo problema/estressor, com o objetivo de diminuir a tensão emocional gerada. Tamayo e Tróccoli (2002) analisam que, através dessa estratégia com foco na emoção, os propósitos podem ser manter a esperança e o otimismo, negar tanto a situação quanto as suas consequências, ou atuar como se não importassem as circunstâncias. Exemplos de estratégias desse tipo são a esquiva, a autoculpa, a culpabi- lização de outros, a evitação-fuga e comportamentos que visem abrandar o desconforto emocional. Em situações passíveis de mudança, a tendência é que seja utilizado o coping focado no problema, enquanto o focado na emoção é mais comumente utilizado em eventos que dificilmente podem ser modificados.
Seidl, Tróccoli e Zannon (2001) ressaltam que diferentes estratégias de enfrentamento podem ser utilizadas simultaneamente para lidar com determinada situação estressora. Além das estratégias de enfrentamento focalizadas no problema e na emoção, esses autores consideram ainda a existência de outras, que são a busca de apoio ou suporte social (instrumental, emocional ou de informação) e as práticas religiosas/pensamento fantasioso. Quanto a essa última estratégia de enfrentamento, cabe enfatizar que existe uma diferença entre religiosidade e espiritualidade, pois segundo Lukoff (1992, citado por FARIA; SEIDL, 2005), religiosidade é a adesão a crenças e práticas ligadas a uma instituição religiosa organizada, e espiritualidade é a relação que a pessoa estabelece com um ser, ou força superior, na qual acredita.
O último tópico da Revisão da Literatura, apresentado a seguir, discorre sobre a família, em especial sobre seu papel para o desenvolvimento das gerações mais novas. A importância da abordagem desse tema se dá pelo entendimento de que os pais sociais, nas instituições de acolhimento, exercem as mesmas funções dos pais biológicos em sua relação com as crianças e adolescentes.