Esta contingência encerra, na verdade, o pressuposto que temos adotado no decorrer de nossa pesquisa a respeito da necessidade de os alunos se tornarem leitores competentes com vistas a otimizarem sua aprendizagem em todas as disciplinas. Ocorre que, em muitas situações da sala de aula, podem ocorrer falhas na comunicação entre alunos e professores, inviabilizando o entendimento dos alunos. Tais falhas são verificáveis tanto nas interações orais, quando, em momentos de “explicação da matéria” ou de orientações quanto aos procedimentos para realizar atividades, os professores acreditam estar sendo claros, mas os alunos não os compreendem, quanto nas interações escritas, quando as comandas das atividades não são compreendidas e resultam em mau desempenho dos alunos.
Para sermos mais claros na demonstração da sutileza por vezes implicada em situações como essas, observemos os registros a seguir:
Enquanto eu fazia estas anotações, ouvia o C... [aluno de primeiro ano do Ensino Médio] comentar baixinho (ele estava perto de mim): “como tem palavra difícil nessa prova”. Perguntou-me o que era “monótono”, “contraditório”. Pedi-lhe que procurasse entender pelo contexto. Ouvi-o, um pouco depois, novamente resmungando que não se lembrava de tudo, que havia palavras difíceis. Ao final, foi o penúltimo aluno a entregar a prova e classificou-a como “média” (quanto à dificuldade). O D..., que tem muitas dificuldades, disse “Eu coloquei ‘médio’, mas achei difícil”. [Apêndice D]
Os alunos estão fazendo a prova de leitura do SARESP que estou reaplicando exatamente igual à que eles fizeram em novembro do ano passado. A A... veio me perguntar o que é “expressão desqualificadora”, que ela precisa identificar numa das alternativas. Como já tinha combinado que não responderia questões sobre a prova durante a sua realização, limitei-me a pedir que refletisse sobre a palavra e que a comparasse com sua oposta: “Não posso te responder, mas pense em qualificadora e desqualificadora, no que diferem?” – Isso eu disse supondo que sua dúvida fosse quanto a essa palavra, mas ela me perguntou o que é uma “expressão desqualificadora”. Achei o fato digno de nota porque fico refletindo sobre o tipo de dificuldade que o aluno apresenta. Se ela errasse ou até acertasse por sorte uma questão como esta, eu não imaginaria que sua dúvida seria esta. Fico refletindo sobre quantas vezes, quando penso estar sendo o mais clara possível, ao explicar alguma coisa, estou sendo absolutamente ininteligível para tantos alunos. Ainda mais quando se trata de uma turma como essa, que via de regra dificilmente faz perguntas, principalmente durante as explicações. Mas as dúvidas aparecem quando estão fazendo as atividades. Preciso estar mais atenta quanto ao tipo de dúvidas que eles apresentam. [Apêndice D]
Situações como essas fazem os professores associarem as dificuldades de leitura dos alunos estritamente a limitações em seu vocabulário, já que, quase sempre, quando
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questionam algo a respeito de um texto ou atividade, os alunos perguntam o que significa determinada palavra ou expressão. Daí a prática comum a muitos professores de “simplificarem” o vocabulário, sempre que podem, traduzindo para uma linguagem que julgam mais acessível aos alunos as orientações e explicações.
Há quem argumente que essa “simplificação da linguagem” não ajuda os alunos a melhorarem seu grau de compreensão dos textos, pois ficam sempre à espera de que alguém “traduza” ou produza os significados que eles mesmos deveriam construir no processo de leitura. Uma alternativa a essa intervenção mais direta dos professores é induzir os alunos a fazerem associações que lhes permitam inferir os significados a partir de seus conhecimentos prévios e dos contextos nos quais aparecem as palavras ou expressões geradoras de dúvidas. Assim, a depender do tipo de avaliação que se faça dessa prática de simplificar a linguagem – trata-se, no caso, de uma intenção deliberada do professor, o que não significa, necessariamente, que o aluno considere mais “simples” ou “fácil de entender” determinada maneira de o professor se expressar oralmente ou por escrito – o professor pode ser acusado de subestimar a capacidade do aluno, ou simplesmente pode estar preocupado em respeitar as características que permeiam o seu grau de compreensão cognitiva. Para tornar essa representação mais complexa, podemos considerar, simultaneamente, a legitimidade dessa prática pedagógica, assim como o risco de subestimação da capacidade de compreensão do aluno.
No mais, quando um professor propõe a leitura de um texto e dirige perguntas aos alunos com o objetivo de averiguar sua compreensão, ele pode, com muita frequência, estar gerando mais dúvidas a partir das questões e atividades do que as que poderiam surgir naturalmente a partir da leitura do texto. Não sabemos, nesses casos, se o aluno não compreendeu o texto ou se não compreendeu o que o professor ou o livro está questionando a respeito do texto. São muitos níveis de linguagem sobrepostos com os quais é preciso trabalhar. Além disso, não há evidências suficientes de que a modalidade oral de expressão seja potencialmente mais eficaz no sentido de favorecer a compreensão dos alunos do que a modalidade escrita, ou vice-versa. Há muitos alunos para os quais ler orientações não surte o mesmo efeito de ouvi-las, explicadas pelo professor; outros, no entanto, ouvindo tais explicações, permanecerão com dúvidas, que podem ou não ser esclarecidas pela leitura de procedimentos claramente redigidos.
No trecho do diário de campo que transcrevemos a seguir, há registro do constrangimento de um aluno ao admitir que não compreende nada do que diz a professora:
(...) Falei muito de respeito às diferenças, de discriminação como algo negativo, que ofende e desrespeita o direito das pessoas falarem e se manifestarem, e que isso se manifesta muito na língua. Enfim, foi uma longa discussão. Ao terminar a aula, os alunos saíram para o intervalo. Desejei-lhes bom final de semana e bom feriado, o que eles me retribuíram. O R... disse: “Adorei a aula de hoje, professora”. Eu disse: “Que bom”. Logo no início da aula, entretanto, o P..., um aluno que tem muita dificuldade, veio à minha mesa com o livro na mão e disse com um ar visivelmente constrangido que não entendia nada do que eu falava. Eu lhe pedi que se sentasse mais à frente, para que tivesse mais oportunidade de me expor as suas dúvidas quando precisasse de ajuda, já que ele dizia ter vergonha de perguntar por causa dos colegas. [Apêndice D]
Segundo a fala desse aluno, outro fator que contribui para prejudicar a comunicação entre alunos e professores, além dos diferentes níveis de linguagem empregados, tanto na modalidade oral quanto na escrita, remete a aspectos do clima relacional na sala de aula, pois são comuns a alunos adolescentes atitudes de críticas severas dirigidas uns aos outros, pelos motivos mais banais. Dessa forma, o medo de se sentirem ridicularizados muitas vezes os induz a se calarem, mesmo sob pena de permanecerem totalmente alheios ao que se passa na sala de aula em termos de objetos de estudo. Talvez por isso, nos momentos de explicação dirigida ao grupo, poucos alunos manifestem suas dúvidas, embora as explicitem aos professores de modo reservado, preservando-se da exposição aos colegas.