O “jovem sem nome” relata que teve uma boa infância, que foi criado até os 13 anos por uma tia que chamava de mãe. Sobre o pai, diz que “ele é um safado que não o criou e nem fala com ele”. A avó relatava ao jovem que, quando sua mãe estava grávida dele, tomava medicações ao ponto de “se tremer” (sic). Sabe que tem um irmão que fugiu e diz que sente vontade de conhecê-lo.
Aos 14 anos, foi levado pela mãe biológica. Então, revol- tou-se. Fugiu para rua e começou a fazer uso de drogas. Foi por iniciativa própria à casa de passagem. Aos 15 anos, fez sua primeira triagem em um CAPS infanto-juvenil (CAPSi). Foi acompanhado de um educador social da casa de passagem. A queixa é que ele “tem mudanças de comportamento e fez uso de drogas” (sic). Reclama que tem dificuldade para dormir e nesses momentos toma medicamentos. Relata que quando morava com a família dormia melhor. Diz que gosta de estudar, mas sente-se rejeitado na escola por ser abrigado e, por esse motivo, não a frequenta mais. Nesse momento, estava em fase de tentativa de reintegração familiar (para a mãe biológica), mas ela nunca atende ao telefone ou desliga quando falam o nome de seu filho.
Então, evade da casa de passagem, volta para rua e a consumir maconha e cola, mas continua frequentando o CAPSi. Nos atendimentos continua a resgatar sua história de vida e
a de sua família. Queixa-se da falta de amor da mãe e fala que gosta muito dela. Encontra com seus irmãos por parte de pai com frequência. Faz pinturas nas oficinas e leva para a irmã. Quando está com a família não usa drogas. E diz que, se sua mãe estivesse por perto, isso ajudaria seu tratamento, mas que sem ela vai usar drogas até morrer. Apresenta-se inquieto e resistente por vezes, porém continua a se tratar. Como resultado de sua frequência ao CAPSi e do acompanhamento da rede de assistência social, se dá o processo de reintegração familiar e ele volta para a casa da mãe. Após nove dias, é ameaçado de morte por falta de pagamento das drogas que consome e os traficantes começam a rodear sua casa. Então, sua mãe procura o Conselho Tutelar que o recoloca na casa de passagem como medida de proteção.
Lá, novamente, passa por um período de inquietação, impaciência e agressividade. Agride outros usuários e, como forma de castigo, é impedido de frequentar as atividades de um centro educacional. Por várias vezes, afirma que não aguenta mais morar em abrigo. A mãe volta a não atender ao telefone e a desligar as ligações para não querer saber de seu filho. O adolescente começa a querer ir para uma fazenda de tratamento para drogas, mas sempre volta atrás. Relata que quer mudar de vida e queria voltar no tempo para alterar o rumo de sua his- tória. No entanto, nada muda. Passa por um momento de crise: fica sem comer e demonstra grande sofrimento psíquico; por isso, é internado em uma instituição psiquiátrica. A equipe do CAPSi intervém, retira o adolescente da instituição psiquiátrica e o recoloca na casa de acolhida masculina. Passa novamente por uma fase difícil, tendo crises de agitação, agressividade e uso abusivo de drogas (tinner e maconha). Agride usuários e técnicos dos serviços que frequenta e, depois que se acalma, pede desculpas. Mostra-se desconfiado e começa a achar que a técnica contava coisas a sua mãe. Começa a falar que não precisa mais ir ao CAPSi, mas continua a frequentá-lo. Suas agressões ficam mais sérias e a polícia é chamada pela casa de
Com 16 anos, evade da casa de acolhimento. Na rua, mais uma vez é ameaçado e procura ajuda. Assim, é colocado no PPvida (Programa de Proteção à vida). Fica menos de um mês e desiste. Volta para a casa de acolhimento. É levado ao CAPSi, onde questiona a técnica se ele é obrigado a se tratar; ela responde que não e, assim, ele consente em retornar ao tratamento.
Uma nova reintegração familiar é feita por determinação jurídica. De volta à casa, segundo a mãe, o “jovem sem nome” apresenta “mau comportamento”, ameaça e provoca pessoas da vizinhança. Com menos de uma semana, a mãe começa a dizer à equipe que não quer o adolescente em casa. Então, o adolescente não retorna ao atendimento e a mãe mente sobre o paradeiro deste. Quando retorna, diz que está morando com uma família amiga de seus avós. Relata que sua mãe disse que não o quer e que, por isso, não ficou em casa. A família que o abrigou confirma a versão do adolescente. Continua com as mudanças de humor e apresenta-se, por várias vezes, impaciente e agressivo. É informado de que seu irmão foi internado no Centro Educacional do Adolescente (CEA) e isso o faz chorar muito.
Três dias depois, retorna ao serviço. Conta que saiu da casa onde estava e foi para a casa de passagem porque quis agredir um adolescente membro da família que o acolheu. Então, começa a evadir com frequência para fazer uso de drogas. Tem crises de choro e agitação. Apresenta-se sempre impaciente e por vezes não consegue realizar as oficinas, mas solicita sempre uma escuta individual. Nestas, fala da rejeição da mãe. É encaminhado várias vezes à UAI e para abrigos, mas sempre evade. Numa dessas evasões, chega a levar o irmão, que estava também na rua, para ser atendido no CAPSi, mas ambos estavam visivelmente sob efeito de drogas. O irmão não adere ao tratamento.
Suas idas e vindas cessaram quando foi internado no CEA como medida socioeducativa. O motivo foi que estava praticando assalto a ônibus, tal qual seu irmão mais velho. Quando sai, já aos 17 anos, não cumpre as medidas de liberdade assistida. Volta
ao CAPSi, no início calmo, depois voltando a ficar impaciente: não consegue ficar até o fim dos atendimentos e não consegue esperar pelos horários das consultas com o psiquiatra. Logo volta a praticar assaltos e retorna ao CEA. Foi ao CAPSi neste último mês de setembro, relatando que estava foragido. Não conseguiu dizer o que queria: uma hora era a medicação, outra era que lhe dessem dinheiro... o que de fato conseguiu foi a garantia de que sempre estaríamos ali para escutá-lo, lhe oferecer tratamento e testemunhar sua trajetória errante.