A busca pelo entendimento do artesanato de conchas de Piúma deve passar por uma investigação das relações que esse saber possui com a população local. Há de fato uma identificação desse saber com a população, de maneira geral? Como se deu esse processo?
É importante salientar que esse é um processo ainda em construção. Percebemos, por meio da pesquisa de campo, que existem ações de afirmação/ (re) afirmação dessa identidade pautada no artesanato de conchas. Um exemplo disso é a construção de pórticos na cidade, empreendimento previsto para ser finalizado ainda esse ano (2016).
Esse é um projeto arquitetônico que tem por objetivo afirmar uma identidade relacionada ao artesanato de conchas. Os pórticos ainda estão em fase de construção, mas o projeto prevê duas conchas, que serão elevadas nas duas entradas da cidade, próxima à estrada federal e próxima à divisa com o município de Itapemirim.
A primeira construção (fig 2) será constituída de uma concha que será composta no telhado.
O segundo pórtico (fig. 3), será erguido no limite geográfico com o município de Itapemirim, será composto por uma concha elevada, conforme podemos observar abaixo:
Figura 3: Projeto do pórtico de conchas de Piúma. Fonte: www.pmp.es.gov.br
A imagem acima demonstra a requisição do título “Cidade das Conchas” pelos órgãos municipais. Essa é uma clara demonstração da afirmação e construção de uma memória coletiva que precisa manter-se viva, com a preocupação de perpetuá-la às gerações futuras.
Outro ponto interessante é o fato de que esses pórticos afirmarem e legitimarem uma história que permanece essencialmente oral. Conforme já observamos acima, os documentos que tratam da memória do artesanato de conchas são escassos, presentes, na maioria das vezes, nos “causos” contados pelos moradores e artesãos.
Essa construção apresenta um novo conjunto de fontes documentais, dessa forma, fica explícita a importância dos objetos e espaços como elementos constitutivos da memória – ou „lugares de memória”, na expressão de Pierre Nora.
Os pórticos podem ser analisados sob o conceito de patrimônio, sobretudo por sua suposta carga valorativa (Chagas, 1994, p.40), afinal tem por objetivo perpetuar o “legado” que uma dada população pretende deixar para as gerações futuras, produto de uma seleção consciente (ou não) e que é herdado coletivamente.
Nele poderá estar sempre subjacente um sentimento de posse por parte das gerações vindouras pois, segundo Josep Ballart, a noção de patrimônio surge “quando um indivíduo ou um grupo de indivíduos identifica como seus um objeto ou um conjunto de objetos”. (Ballart, 1997, p.17)
Os pórticos, depois de finalizados, tornar-se-ão ícones da memória ligada ao artesanato de conchas de Piúma.
O termo ícone pode ser definido de forma bastante ampla, decidimos por restringir este conceito para que pudesse ser aplicado nesta pesquisa. Consideramos os pórticos como ícones por ser uma construção caracterizada por sintetizar uma série de forças (sociais, culturais, políticas, econômicas, etc...) que atuam em determinado período e lugar. Desta forma, eles passariam a ser representações ou imagens destas forças que atuam na cidade. Entretanto, é importante destacar que, embora estas forças estejam atuando em um determinado contexto histórico, isto não significa que suas referências não sejam válidas em outro momento. É justamente por representar este valor em um determinado momento, que estes transcendem aquele contexto e são considerados ícones em outro contexto
Os pórticos também podem ser discutidos sob a ótica de monumento. Para Le Goff, o monumento (herança do passado) é de suma importância para entender a identidade dos povos. Entende-se por monumento, as construções, edificações, bustos, etc, que perpetuem, de forma material, as memórias de determinada comunidade.
Para Riegl, é importante diferenciar os monumentos intencionais daqueles não- intencionais. Para ele, “no senso mais antigo e verdadeiramente original do termo” (1984, p.35), monumento é uma obra criada pela mão do homem com o intuito preciso de conservar para sempre presente e viva na consciência das gerações futuras a lembrança de uma ação ou destino. Nesse sentido, o monumento, em seu sentido original, relaciona-se com a manutenção da memória coletiva de um povo, sociedade ou grupo.
Esses monumentos são, no presente trabalho, entendidos como formas simbólicas, representações materiais de eventos passados - como, por exemplo, o artesanato como atividade indígena praticada em vasta região do Litoral brasileiro, bem como, figuras (artesãos) importantes na constituição deste como atividade identitária em Piúma -
ligados ao artesanato de conchas, que integram o meio ambiente construído, compondo de modo marcante a paisagem de determinados espaços públicos da cidade de Piúma.
A natureza afetiva do seu propósito é essencial: não se trata de apresentar, de dar uma informação neutra, mas de tocar, pela emoção, uma memória viva. [...] A especificidade do monumento deve-se precisamente ao seu modo de atuação sobre a memória. Não apenas ele a trabalha e a mobiliza pela mediação da afetividade, de forma que lembre o passado fazendo-o vibrar como se fosse presente. Mas esse passado invocado, convocado, de certa forma encantado, não é um passado qualquer: ele é localizado e selecionado para fins vitais, na medida em que pode, de forma direta, contribuir para manter e preservar a identidade de uma comunidade étnica ou religiosa, nacional, tribal ou familiar. (CHOAY, 2001, p.18)
Dessa forma, os pórticos se mostram monumentos intencionais, construídos por iniciativa do poder público municipal, numa tentativa de reafirmar uma identidade pautada no artesanato de conchas.
De acordo com Choay (2001), o patrimônio e o monumento são conceitos associados ao imaginário e à memória das populações. Para entendê-lo de forma significativa é necessário investigar o que faz daquele monumento um patrimônio, tentar compreender como ele toma parte da vida do lugar, como se dão as relações entre ele e a população local.
O Patrimônio Histórico ligado aos monumentos e construções, traz em si a perenização da memória. Os prédios e monumentos, como testemunhas dos fatos históricos, estão ali permanentemente a lembrar desses fatos. Assim, a construção dos monumentos de conchas de Piúma é, de certa forma, um instrumento de divulgação dessa história para gerações seguintes.
Mas a memória do artesanato de conchas em Piúma ultrapassa a representação física dos pórticos, ela se mostra, sobretudo na oralidade, característica importante na constituição do artesanato também como patrimônio imaterial. Vejamos agora como se dá essa relação com a memória na cidade.