4.3 Rire
4.3.2 Imitation
Olhando para a vizinhança do Sr. Juvenal Ramos, nota-se que são todos familiares. Ele mora num cutelo6 com pouco mais de oito casas, sendo uma desabitada e mais dois pardieiros, que pertencem a filhos e irmãos seus. As casas (habitação), como recorda Sobral (1999: 75) «funcionam como momentos de memória» e, neste sentido, percebe-se o empenho do Sr. Juvenal Ramos em recordar os nomes dos seus tios, tios-avós e irmãos que ali residiram e as lutas que tiveram para as erguer. Para preservar a memória dos seus parentes, ele ainda guarda alguns objectos como um rádio que um tio enviou de Dakar quando ele era criança, as fotos de quando vivia em Portugal, as encomendas que os seus filhos emigrantes lhe vão enviando (relógio de parede, retratos, etc.). Para além de preservar as memórias, ele também tem a preocupação de manter “a casa intacta”. Por isso comprou as parcelas de terreno aos irmãos, como já foi referido. Esta atitude, que José Sobral (1999) encontra entre os grandes proprietários de terras, no caso que estou a descrever aplica-se a um simples ex- emigrante, que não gostaria de ver estranhos a morar nas propriedades dos seus antepassados e, por isso, aplicou as suas poupanças na compra das mesmas.
Nota-se que o esforço do Sr. Juvenal para preservar o legado familiar revela um défice de conhecimento quanto à história da sua família. O Sr. Juvenal explica isso pelo facto de ter perdido os pais ainda criança e, isto, aliado ao facto dele ter emigrado cedo para São Tomé e
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Cutelo são pequenas montanhas no topo das quais ficam as residências. As encostas são usadas para a prática agrícola.
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Príncipe, privou-lhe da convivência com os outros parentes que lhe pudessem ter contado mais coisas sobre os seus antepassados. Também as secas e as fomes que dizimaram uma boa parte da população das ilhas (cf. Carreira, 1983), fizeram com que muitos jovens crescessem longe dos pais, avós e restantes familiares por estes terem morrido durante as crises ou por terem emigrado sem dar notícias. Importa frisar que foi no período da fome de 1947 que o Sr. Juvenal viajou para São Tomé e Príncipe. Tudo isto impediu-o de saber mais sobre os seus antepassados. Ele apenas recorda o nome dos seus avós, mas não sabe onde nasceram, de onde vieram, etc. e ouviu dizer que o seu bisavô também morava no cutelo onde ele reside hoje, mas o resto continua uma incógnita.
Sobre o contraste entre o mundo dos grandes proprietários e o dos trabalhadores, importa olhar com atenção para o estudo que José Sobral realizou em 1993 numa freguesia do interior de Portugal já que a realidade encontrada é semelhante à que encontrei no interior de Santiago. O autor afirma que
o universo dos grandes proprietários contrasta (…) com o mundo dos mais humildes, jornaleiros e pequenos proprietários rurais (…). Os primeiros não têm frequentemente casa ou terra, os segundos têm-nas em termos escassos. Não há uma continuidade familiar na sua transmissão, sempre sujeita a uma partilha que implicou a divisibilidade física, pelo menos das terras. O recheio das casas era escasso e pobre: alguma cama, mesa ou cadeira, roupas. Não há identificação entre um património e uma família. Não há retratos – a situação está a mudar rapidamente em todos estes casos, devido sobretudo aos efeitos da emigração – que recordem avós mortos e que permitam a identificação fisionómica entre os membros da família actuais e os passados. Não havia, e ainda hoje são raros, os escritos, pois a população mais velha era maioritariamente iletrada ou pouco familiarizada com o escrito (e os documentos relativos à propriedade são evidentemente raros). Meios e lugares da memória são escassos, a inscrição destas famílias no espaço perde-se no anonimato (para o observador externo). As suas terras, dispersas em blocos, por vezes algo distantes, sem barreiras físicas a delimitá-las, também não servem para singularizar um possuidor. Os seus túmulos são anónimos ou, nos casos mais afortunados, campas de mármore – do indivíduo ou do casal e não de uma linha familiar. (Sobral, 1999: 77).
Nesta perspectiva, e na linha daquilo que foi citado no parágrafo anterior, nota-se que nas famílias dos ex-emigrantes e nas dos camponeses do interior de Santiago, de um modo
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geral, não há qualquer narrativa de história familiar, ao contrário dos mais poderosos. Certamente, alguns poderosos podem ter existido em Cabo Verde, mas não foram objectos de análise neste trabalho. As famílias que estudei estão restringidas à oralidade, mesmo quando se referem a títulos de propriedades das suas parcelas de terras, como é o caso do Sr. Juvenal Ramos. Um dado relevante é que a maioria destas pessoas não sabem o nome completo dos seus avós, o máximo que conseguem recordar são as ocupações, mas o trajecto de vida constitui um mistério. Também é visível que não há um sentimento de pertença à um colectivo familiar que justifique a elaboração de uma história da mesma. Importa ainda frisar que não há o cultivo de uma memória familiar por dois motivos: primeiro, por não haver conotações dos seus bens materiais com os do passado; segundo, por não haver uma disputa de posições socias em que a sua narrativa familiar constitua um capital importante. (cf. Sobral, 1999)
Se, para os ex-emigrantes, o desconhecimento e a desvalorização das narrativas familiares é um facto, o mesmo não se pode dizer dos seus descendentes. Estes falam com muito orgulho do pai, da mãe, do avô, do irmão, ou de qualquer outro membro da família que tinha vivido no estrangeiro, sobretudo, na Europa ou nos Estados Unidos de América. Ter um parente na emigração significa ter a possibilidade de receber, em primeira mão, as novidades do mundo da moda e das tecnologias de informação e comunicação, receber remessas, etc. Estes gestos contribuem para fortalecer os laços, uma vez que mesmo não conhecendo pessoalmente o familiar que vive ou que viveu no estrangeiro, ele é mencionado nas conversas. Em Cabo Verde é difícil encontrar uma casa que não tenha um dos seus membros a residir no estrangeiro e é visível a presença deles através dos presentes que enviam, das fotografias que cobrem as paredes, mas sobretudo quando regressam de férias. Tudo isso contribui para a criação de uma narrativa familiar.