De acordo com o que diz Marcuschi (2005, p. 19), os gêneros textuais são maleáveis, dinâmicos e plásticos. Isso significa que são passíveis de transformação. Mas não deixam de ter, conforme aponta Bakhtin (1992, p. 279), a característica de serem formas relativamente estáveis de enunciados, sem os quais a comunicação verbal seria dificílima. Conforme os caracteres delineados por Marcuschi, é possível constatar que não é tarefa simples conceituar gêneros e
tipos textuais. Muitos estudiosos como Bronckart (2003), entre outros autores, procuram estudar as tipologias em busca de uma classificação que abarque uma grande quantidade das produções textuais orais ou escritas de uma sociedade. Não há consenso quanto aos termos usados devido aos vários estudos e à grande quantidade de gêneros produzidos. As tentativas são fundamentais para que as pessoas se situem socialmente e para que a aprendizagem das variedades lingüísticas se dê de forma contextualizada. Sobre a questão da definição dos gêneros, Marcuschi (2005, p. 20) tece alguns comentários pertinentes:
... os gêneros textuais surgem, situam-se e integram-se funcionalmente nas culturas em que se desenvolvem. Caracterizam-se muito mais por suas funções comunicativas, cognitivas e institucionais do que por suas peculiaridades lingüísticas e estruturais. São de difícil definição formal, devendo ser contemplados em seus usos e condicionamentos sócio-pragmáticos caracterizados como práticas sócio-discursivas. Quase inúmeros em diversidade de formas, obtêm denominações nem sempre unívocas e, assim como surgem, podem desaparecer.
Acredito que os fatores estruturais, lingüísticos e pragmáticos são um conjunto que ajuda a definir e a diferenciar os gêneros e os tipos textuais. Diante de todas essas considerações, é importante lembrar os pressupostos teóricos de Bakhtin (1992), sobre os gêneros, em A estética da criação verbal. Para esse autor, o estudo da língua não deve se dar por meio de frases soltas ou apenas pelo sistema de regras, mas precisa estar centrado em atividades interativas sobre as quais se produzem os enunciados socialmente situados. Nessa perspectiva, quero frisar que uso o termo enunciado com o sentido de texto, de qualquer extensão, e não na acepção de palavras e de frases descontextualizadas. E ainda entendo interação como uma atividade de interlocução entre produtor, ouvinte e leitor. A relação interativa envolve estratégias textuais, lingüísticas e cognitivas no processo de comunicação.
De acordo com Bakhtin, os enunciados que estruturam um discurso estão intrinsecamente relacionados à natureza dos gêneros. Portanto, os gêneros apresentam três unidades básicas:
tema, estilo e estrutura composicional. O tema é o assunto e varia de acordo com a situação comunicativa; o estilo está ligado a recursos lingüísticos e sintáticos, por exemplo; a estrutura composicional está relacionada à ligação entre frases, parágrafos, título, lead, fotografias, etc. Esses três elementos, capazes de conferir marcas prototípicas, constituem caracteres comuns que permitem a nós distinguir um gênero de outro. É o que Bakhtin chama, em outras palavras, de relativa estabilidade dos gêneros (p. 279). Relativa porque um gênero pode ter caracteres de outros, estabelecendo um caráter dialógico e ter, como já foi mencionado, recursos lingüísticos marcantes e até definidores, uma estrutura de composição peculiar que, conjuntamente, permitem às pessoas não confundir entrevista com uma carta do leitor e assim por diante.
De acordo com o já exposto, é possível notar que os gêneros têm, em sua confecção, um estreito vínculo com a realidade sócio-histórica. Sendo assim, o autor de um texto, ao escrever gêneros textuais que estão e são veiculados numa situação processual de produção e de recepção, estabelece uma relação de interlocução com um ser social. Essa marca de interlocução está ligada ao que Bakhtin chama de atitude responsiva do sujeito (p. 290). Portanto, é notório perceber que a linguagem existe e funciona nesse processo interativo, não está pronta, mas apresenta uma característica funcional dentro das relações que alguém estabelece com o texto, seja compreendendo as relações internas entre os recursos lingüísticos do enunciado ou estabelecendo elos de sentido do texto com o contexto.
Para demonstrar e confirmar como é a visão dos gêneros, algumas considerações de Bakhtin (1992, p. 279) são importantes e devem ser explicitadas:
... o conteúdo temático, o estilo, a construção composicional estão ligados no todo do enunciado e são determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação. Cada enunciado particular é individual, mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros discursivos.
Sobre a questão dos tipos textuais, apenas citarei os já tidos como tradicionais: narração, dissertação, argumentação, descrição e injunção. Essas tipologias têm a ver com as propriedades internas à construção dos textos com reflexo nos aspectos externos. É importante acrescentar que os tipos textuais não são homogêneos quando presentes em um gênero. É possível encontrar gêneros que apresentam tipos textuais diversos. A notícia apresenta, predominantemente, o tipo textual narrativo. Porém, nada impede que uma narração seja usada em uma reportagem, como um recurso para o desenvolvimento da argumentação.
A partir das idéias de Bakhtin (1992), muitos lingüistas desenvolvem estudos sobre o tema e, assim, oferecem grandes contribuições para os avanços dos estudos na área dos gêneros e dos tipos textuais. Não tecerei considerações sobre o que os estudiosos propõem porque fugirá ao escopo desta pesquisa. Apenas apresentei pontos teóricos importantes para este trabalho. Passo à exposição dos conceitos sobre gênero e tipo textual com os quais opero e a importância de se falar sobre isso nesta pesquisa.
Conforme já mencionado, escolhi os jornalistas da mídia impressa para participarem desta pesquisa, especificamente do jornal Estado de Minas. A escolha do domínio discursivo jornalístico para embasar a pesquisa justifica-se, também, pelo fato de o jornal veicular variados gêneros e tipos textuais. O jornal é um elemento social, em que circula uma série de gêneros representativos da variedade padrão escrita, como as notícias e as reportagens. Por outro lado, faz-se necessário declarar que o jornal é um meio de comunicação em que se veiculam outros gêneros que, normalmente, não utilizam a variedade padrão escrita. Fazem uso de uma linguagem mais próxima da fala, procurando atingir o leitor, persuadindo-o a comprar produtos vários e informando-o sobre diferentes pensamentos a respeito de variados assuntos: são as propagandas, os anúncios, as colunas assinadas, as entrevistas, etc. Quaisquer dos variados gêneros veiculados
pelo jornal, expressos em diversos tipos textuais, constituem uma rica fonte de estudos para pesquisadores e professores em sala de aula.
Nesta pesquisa, utilizarei os gêneros notícia e reportagem, como exemplos de produções dos jornalistas, para mostrar que os textos produzidos estão escritos na variedade padrão e são elaborados conforme os princípios da textualidade, as meta-regras e os princípios reguladores.
Sobre o fato de os gêneros textuais servirem de apoio aos docentes, Bagno (2001, p. 59) declara: “... a escola deve dar espaço ao maior número possível de manifestações lingüísticas, concretizadas no maior número possível de gêneros textuais e de variedades de língua ...”. Diante disso, faz-se necessária a referência a um conceito de gênero e de tipo textual para nortear a pesquisa e, especificamente, guiar a análise dos textos a ser realizada no sexto capítulo. É claro que há a consciência de que os estudos dos gêneros estão sendo amplamente discutidos e, portanto, as conceituações estão constantemente sendo revistas. Mas o conceito apresentado servirá de respaldo, por ser pedagogicamente funcional, para a atuação de professores que acreditam que os gêneros em sala de aula enriquecem a relação ensino-aprendizagem. Silva (1999, p. 100-101) apresenta os seguintes conceitos de gêneros e de tipos textuais com os quais compartilho:
... o funcionamento a que se presta a noção de gênero, como uma categoria de análise, define-se por uma abordagem das manifestações concretas do discurso, cujas formas de materialidade (textual) são determinadas pelos gêneros discursivos produzidos pelos sujeitos nas e pelas instâncias sociais de uso da linguagem. (...) estudo do uso (dimensão pragmático-social), da forma (dimensão lingüístico textual) e do conteúdo temático dos discursos (dimensão temática/macroestrutural) materializados nas formas de texto. (...) um texto, pertencente a um dado gênero discursivo, pode trazer na sua configuração vários tipos textuais como narração, descrição, dissertação/argumentação e injunção, os quais confeccionam a tessitura do texto...
Evidenciada a noção de gêneros e de tipos textuais, torna-se necessário destacar que a variedade padrão escrita não deve ser ensinada por meio de frases soltas e descontextualizadas, para identificação de expressões lingüísticas rotuladas pela nomenclatura gramatical. Isso é inaceitável. Portanto, a noção de discurso e de texto, apresentada por Silva (1999, p. 87), vem juntar-se à definição de texto de Costa Val (2004) para embasar a pesquisa:
Por discurso entende-se aqui uma atividade sócio-comunicativa, produtora de sentido, construída por sujeitos sociais nas relações interacionais de que participam, o qual se manifesta lingüisticamente por meio do texto. Este, por seu turno, pode se materializar tanto na forma oral quanto na forma escrita, e sua construção se dá no processo das relações interacionais, capaz de constituir-se em um todo significativo, independentemente de sua extensão. (...) texto é aqui tomado como unidade de análise, por pressupor que é nele e por meio dele que se podem evidenciar e analisar fatores lingüísticos e extralingüísticos que compõem as suas condições de produção e recepção.