Planning stage Acting stage
1.4 Illustrative Examples
Com sua volta ao Estado de São Paulo em 1924, Lourenço Filho reassumiu a cadeira na Escola Normal de Piracicaba e posteriormente na Escola Normal da Praça, ao mesmo tempo desenvolvendo atividades experimentais na área da psicologia educacional, que tanto o encantava. Segundo Ana Paola Sganderla, desde 1914
a Psicologia Pedagógica já era um movimento reconhecido nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Nessa época destaca-se a vinda, para São Paulo, de Ugo Pizzoli, professor da Universidade de Modena, contratado para organizar e dirigir o Laboratório de Psicologia Experimental/ Pedagogia Experimental, na Escola Normal de São Paulo (SGANDERLA, 2007, p.40).
No mesmo ano, 1924, Lourenço filho traduziu duas obras de autores franceses da área da psicologia educacional, Psicologia Experimental, de Henri Piéron e A Escola e a Psicologia Experimental, de Edouard Claparède.
Sobre a importância dos estudos de Lourenço Filho para a História da Psicologia brasileira, Antônio Gomes Penna, lembra que,
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[...] de modo bastante breve, apontei para suas contribuições no terreno da História da Psicologia em nosso país, registrando os três trabalhos que produziu nesse domínio. O presente texto centraliza-se, precisamente, no significado desses três trabalhos, visando reivindicar para Lourenço Filho, o título de o “maior historiador da psicologia no Brasil” (PENNA, 1997, p.14. Grifo do autor).
Ainda em 1924, aventurou-se numa empreitada na área privada. Com mais dois sócios, constituiu a Sociedade Industrial de Lápis e Tintas (SILT), que produzia “lápis preto de escrever e de marcação de fardos, e tinta de escrever, líquida em vidros, ou em comprimidos para dissolver em água” (RUY LOURENÇO FILHO, 2001, p.29-30). O empreendimento, relacionado às letras, foi transferido para a capital paulista, onde Lourenço Filho fixara residência. No ano seguinte, a incursão de Lourenço Filho como empreendedor privado sucumbe, em função de uma grande enchente no Rio Tietê, que destrói a SILT.
O ano de 1925 tem a marca do início de uma relação de trabalho estável e duradoura entre Lourenço Filho e a Companhia Melhoramentos de São Paulo. Segundo Carlos Monarcha (1997), Lourenço Filho, na Melhoramentos, organizou “a primeira coleção de textos de divulgação pedagógica criada no País, a Bibliotheca de
Educação14, que dirigiu até sua morte.” Na Companhia Melhoramentos, “Assumiu a tarefa de consultor editorial, emitindo pareceres sobre originais didáticos e para infância. Ao longo de algumas décadas, viria a emitir quase 30.000 pareceres” (MONARCHA, 1997, p.43)15.
Também a partir de 1925, com a colaboração da professora Noemi Silveira Rudolfer, Lourenço Filho iniciou uma pesquisa com crianças do Jardim de Infância e da Escola-Modelo de Piracicaba, que, posteriormente, resultariam nos consagrados Testes ABC16, os quais,
14 Sobre a Bibliotheca de Educação ver o tópico “O papel das Edições Melhoramentos” ao final
do presente capítulo.
15 A temática das relações de Lourenço Filho com a Companhia Melhoramentos é
especificamente explorada ao longo deste capítulo, a partir da página 76.
16 O objetivo dos testes ABC é verificar a maturidade necessária à alfabetização. Foi o trabalho
mais difundido do educador Lourenço Filho, tanto no Brasil como no exterior. Os testes transformaram-se numa febre de época, que procurava concretizar o que já foi chamado de sonho dourado da pedagogia daqueles tempos: a formação de classes homogêneas, para aumentar o rendimento escolar, conforme afirma Morarcha (1997). Lourenço Filho apresenta a hipótese, confirmada pelas pesquisas experimentais que realizou com alunos de 1º grau, da existência de um nível de maturidade - passível de medida - como requisito para aprendizagem de leitura e escrita. Segundo Sganderla, “Antes da utilização dos testes ABC, as
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que a partir de 1928, “passam a ser aplicados, institucionalmente, em centros urbanos brasileiros mais desenvolvidos” (MAGNANI, 1997, p.59), popularizando-se nos anos seguintes por todo o país.
Segundo a mesma autora,
Testes ABC se caracteriza como uma espécie de síntese do
pensamento inovador e catalizador de Lourenço Filho a respeito do ensino da leitura e escrita, assim como, e simultâneamente, das aspirações nacionais características do que considero o 3⁰ momento crucial – meados da década de 1920 a meados da década de 1970 – para a constituição da alfabetização como objeto de estudo; e da utilização de determinado tipo de abordagem histórica e de método de investigação (MAGNANI, 1997, p.60. Grifo da autora).
Os Testes ABC, para medir e classificar a maturidade da criança, colaboraram para que Lourenço Filho ficasse conhecido como um dos principais divulgadores das teorias de Psicologia Educacional no Brasil. Porém é importante destacar também seu papel como divulgador da Sociologia, com a difusão das teorias sociológicas sobre educação de Émile Durkheim, em 192817, quando traduz, para a língua portuguesa, a obra do sociólogo francês, Educação e Sociologia, livro que, até 1979, apresentou doze edições e teve 55.000 exemplares vendidos. Educação e
Sociologia está entre os cinco livros mais publicados na coleção Biblioteca da Educação, entre edições e tiragem até 1979. Esta
escolas brasileiras lidavam com as diferenças de aprendizagem das crianças, separando-as por idade, depois por critério de desempenho, ou seja, classes de aprendizagem lenta eram organizadas para as crianças com dificuldades em acompanhar o primeiro ano do programa de estudos. Esses procedimentos, no entanto, não permitiam que a caracterização dos problemas de aprendizagem das crianças fosse realizada antes do início do processo de instrução. Já tais testes buscavam diagnosticar e prever os problemas de aprendizagem antes que o fracasso escolar se desencadeasse” (SGANDERLA, 2007, p. 54).
17 Segundo registro no sumário cronológico de Um educador brasileiro: Lourenço Filho,
publicado pela Melhoramentos, o livro Educação e Sociologia foi traduzido por Lourenço Filho em 1928 e publicado pela primeira vez em 1929. Em Lourenço Filho: outros aspectos, mesma obra, de Carlos Monarcha, o autor cita o ano de 1928 como ano de publicação de Educação e
Sociologia, na página 29. Porém nos anexos da mesma obra (p.48), consta que a data de
publicação de Educação e Sociologia é julho de 1929. Devido à confusão nas informações, adoto aqui, 1928 como data de tradução e, 1929 como data de publicação da obra.
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aproximação entre o intelectual Lourenço Filho e a obra de Durkheim18 é fundamental para as discussões desta pesquisa, pois o ideário de educação na obra do intelectual Lourenço Filho pode estar articulado à teoria sociológica de Émile Durkheim.
No mesmo ano em que a Companhia Melhoramentos de São Paulo publica a tradução de Educação e Sociologia, outra obra de Lourenço Filho é editada: Cartilha do povo: para ensinar a ler
rapidamente19, um pequeno livro, de 46 páginas, porém de grande importância para a educação brasileira, destinado a alfabetizar crianças e adultos.
O final dos anos vinte do século XX apontava para um novo Brasil que, em meio às promessas de urbanização e industrialização, vivia revoltas pontuais e golpes armados nos Estados da federação20.
Em meio às crises, disputas políticas, econômicas e sociais desses anos, Lourenço Filho fortalece sua carreira intelectual, escrevendo, traduzindo, lecionando e publicando livros direcionados à formação de professores e à educação dos brasileiros de forma geral. Combatia assim, à sua maneira, por um ideal de “salvação nacional”, como também contra as instituições sedimentadas historicamente na sociedade brasileira e que impediam o desenvolvimento educacional de seu povo.
18 As discussões em torno da tradução feita por Lourenço Filho da obra Educação e Sociologia,
de Émile Durkheim, encontram-se no tópico “O papel das Edições Melhoramentos”, ao final do presente capítulo.
19 “Cartilha do povo: para ensinar a ler rapidamente (1928), editada pela Companhia
Melhoramentos de São Paulo, é a primeira de uma série de livros didáticos escritos por Manoel Bergströn Lourenço Filho e destina-se ao ensino da leitura e da escrita a crianças e adultos das escolas brasileiras. Até a 115ª edição, é publicada sem menção ao nome do autor, isto porque entendia Lourenço Filho que, por ocupar cargos na administração escolar, não deveria publicar livros didáticos; ‘[...] só por exigência da legislação sobre o livro didático é que passou a mencioná-lo’(Lourenço Filho, 1959, p.199. Apud BERTOLETTI, 2006, p.23). Ainda segundo Estela Natalina Bertoletti (2006), a última edição localizada da Cartilha do
povo, é de 1986. Até aquele ano, a cartilha já havia alcançado a 2.201ª edição.
20 Eram movimentos que denunciavam a insatisfação da classe militar com as instituições da
Velha República. Os tenentes, que iniciaram um movimento em 1922 contra as oligarquias dominantes, pela democratização do país e pela centralização do Estado brasileiro, encontravam-se enfraquecidos ao final do anos vinte. Surgia uma classe média urbana e uma classe operária que reivindicava melhores condições de trabalho e melhores salários. No ano de 1924, ano em que Lourenço Filho retorna ao Estado de São Paulo, violentos combates sacudiam a capital paulista. Os revoltosos são derrotados e refugiam-se no interior do estado. Estes rebeldes, em 1925, juntam-se à Coluna Prestes, que caminhava pelo Brasil, partindo do Rio Grande do Sul. Em 1927, depois de 24 mil quilômetros percorridos pelo Brasil, os últimos integrantes da Coluna se refugiam na Bolívia.
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Sua atuação nas disputas travadas em prol da modernização da nação, via educação da população, e em associação com outros intelectuais preocupados com as questões educacionais do país, torna-se mais forte no início dos anos 1930.