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A bossa nova representou uma fase de renovação e modernização da música popular massiva brasileira, que introduziu novos estilos de composição, harmonização e interpretação, determinando uma mudança na linha evolutiva da canção brasileira. À consolidação do mercado corresponderam transformações no conjunto do processo, como o desenvolvimento da mentalidade empresarial e seu conseqüente aprimoramento tanto no mundo do disco como no do show business. Foi a definitiva transformação de alguns artistas brasileiros em astros, abandonando, definitivamente quaisquer resquícios de uma “aura marginal” (DIAS, 2000: 56).

O álbum Chega de saudade (Odeon), lançado no início de 59, causou grande impacto na música popular brasileira e mundial. O long play conseguiu sintetizar a vontade de ruptura a partir do adensamento de uma suposta tradição. Ao transformar o violão em instrumento rítmico-harmônico, João Gilberto não apenas mudou a função do instrumento na tradição da música popular brasileira – via de regra, de acompanhamento melódico –, mas também concentrou na batida a não-regularidade rítmica do samba, a regularidade do bolero e a irregularidade do jazz. João Gilberto incorporou a sonoridade da bateria das escolas de samba

ao violão: enquanto o polegar reproduzia a marcação do surdo, tangendo a primeira corda do violão, os três dedos médios “batucavam” as cordas inferiores como se fosse um tamborim. A performance minimalista também se baseava na voz, reduzida ao mínimo de potência e sem ornamentos excessivos, articulada ao violão e aos outros instrumentos, valorizando as melodias sem se sobrepor ao ritmo. Os arranjos de Tom Jobim valorizavam os contrapontos e criavam uma atmosfera de tessitura diáfana, com os instrumentos “comentando” a melodia conduzida pela voz.

A consolidação da bossa nova ajudou a estimular ainda mais a modernização do samba, em contraposição ao “samba quadrado”, que seria o samba de ataque mais percussivo e divisões rítmicas bem definidas. No entanto, o inusitado encontro entre vanguarda e tradição proposto pela bossa nova não apagou do cenário musical o samba tradicional e o samba- canção bolerizado, comercialmente fortes nos anos 50, e nem se constituiu sem dialogar com estes gêneros, atualizando-os. Os espaços sociais de circulação da bossa nova inicialmente resumiam-se a apartamentos (nas casas dos músicos, jornalistas e produtores), boates (no circuito da boemia da zona sul carioca) e grêmios estudantis, marcando uma cena ligada à juventude de classe média urbana, cosmopolita.

A fase de maior evidência da bossa nova esgotou-se nos últimos meses de 1962 (SEVERIANO e MELLO, 15:1998), período que ficou marcado pelo legendário show do Carnegie Hall em Nova York, que apresentou a bossa nova para o mercado norte-americano. A partir do ano seguinte, os principais personagens da bossa nova procuraram outros caminhos: Tom Jobim e João Gilberto fixaram-se nos Estados Unidos, iniciando suas carreiras internacionais, e Vinícius de Morais passou a trabalhar com outros parceiros, como Carlos Lyra, Baden Powell e Toquinho, distanciando-se do universo da bossa nova. A Odeon, antiga casa do gênero, dispensou seu cast bossanovístico após o auge do movimento. Carlos Lyra e Nara Leão, entre outros, começaram a dar contornos mais políticos às suas carreiras, em crítica à “jazzificação” da bossa, buscando as “raízes” da música popular, com preocupações sociais. A bossa nova começou a sair de moda, e os jovens músicos queriam fazer agora o chamado “samba moderno” ou então “música popular moderna (MPM)”, que acabou por ser chamada de “música popular brasileira” (MOTTA, 2000:36), baseada inicialmente em um engajamento político-musical por parte de seus participantes. Esta nova fase era uma tentativa de lançar as bases para uma canção nacionalista e engajada, mobilizadora, uma bossa nova participante, portadora de uma mensagem mais politizada que trabalhasse com materiais musicais do samba tradicional. O violão agora passa a ser tocado de uma forma diferente, com uma divisão rítmica mais definida, com um acento mais “afro”

(como era dito na época), em timbres mais próximos do samba “quadrado”. No entanto, as interpretações vocais, como no caso de Geraldo Vandré, não rompiam com a bossa nova, pois evitavam exageros, e em geral, os próprios arranjos das canções não reforçava o papel dos instrumentos de percussão. A união da tradição com as conquistas estéticas da bossa nova era uma estratégia deliberada que se dava paralelamente à aproximação e parcerias dos jovens compositores com os sambistas do morro, como Cartola, Zé Keti e Nelson Cavaquinho.

Assim, entre 62 e 63 houve uma acentuação e demarcação de fronteiras, muitas vezes postiças, entre a bossa nova “jazzística” e a “nacionalista”. O impasse, em parte, reproduzia a tentativa de ampliação de materiais sonoros para a conquista de novos segmentos de consumidores, consolidando um “público jovem”, especificamente o da classe média universitária, ligado à tradição, mas também à modernidade. Surgiram gravações que, guardadas suas especificidades, combinavam nos arranjos as tessituras despojadas da bossa nova, timbres jazzísticos de trios instrumentais com a incorporação de instrumentos de escola de samba – tamborim, pandeiro, cuíca e agogô. Este padrão será determinante para a configuração da sonoridade básica da MPB, até o advento do tropicalismo, quando houve uma mudança no padrão instrumental do conjunto das canções. Aliás, este padrão de sonoridade esteve intimamente relacionado à estética imposta pela gravadora Elenco, de Aluísio de Oliveira, copiado em parte pela Philips. As duas gravadoras praticamente monopolizaram o campo da MPB nascente, ajudando a consolidar o rótulo em meados da década de 60.

A Philips, empresa transnacional do setor elétrico, administrada basicamente por capital holandês e alemão, iniciou suas atividades discográficas no Brasil adquirindo a CBD - Companhia Brasileira de Discos62 em 1958, comprando o selo Elenco já na década de 60 além de instalar aqui um estúdio e uma fábrica próprios. O Selo Elenco foi criado em 1963 por Aluísio de Oliveira, ex-integrante do conjunto O Bando da Lua. Aluísio havia sido diretor artístico da Odeon durante o surgimento da bossa nova, e, entusiasmado com o sucesso, fundou o selo para lançar apenas discos do gênero. Associando-se a selos norte-americanos, sua estratégia era comercializar no Brasil discos de bossa nova com cantores brasileiros gravados nos Estados Unidos. Com a migração de seu cast para grandes gravadoras, e a concorrência desleal com as majors, Aluísio vendeu a Elenco para a Philips em 65 (TINHORÃO, 1969:123). Esta foi uma das estratégias coordenadas por André Midani, então presidente da Philips, que havia saído da Odeon, onde acompanhou o processo de gravação

62 Em 1945, no Brasil, foi fundada a Sociedade Interamericana de Representações, Sinter, responsável pelo

lançamento do primeiro long-playing fabricado no país. Em 55, a Sinter passa a chamar-se CBD, que, um ano depois, inicia a fabricação de discos de 12 polegadas e, dois anos depois é pioneira ao lançar no Brasil o disco estereofônico.

dos primeiros sucessos da bossa nova, especialmente dos primeiros e revolucionários discos de João Gilberto, ficando conhecido como grande incentivador da então insurgente MPB.

Com o golpe militar em 64, a estratégia política e poética da música engajada daria lugar à busca por novas referências estéticas e outras formas de combinação entre o nacional- popular e o internacional, a partir da afirmação de outras posturas ideológicas dentro da música popular. A crise político-ideológica da esquerda estimulou ainda mais o debate e a busca de novos paradigmas musicais diante do mercado, consagrado pela “era dos festivais”.

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