A problemática questão das relações entre língua e literatura é de uma tal complexidade que extravasa, em larga medida, as fronteiras do nosso trabalho. Neste sentido, não é nosso intento justificá-la com questões de índole teórica, é antes fazer uma breve reflexão sobre a maneira como as obras literárias entram na linguagem quotidiana,
158 sob a forma de expressões, mais ou menos formulares, cujos utilizadores muitas vezes ou desconhecem ou não atribuem o merecido alcance a essa relação de filiação literária. São expressões que, de forma recorrente, são utilizadas nas mais variadas ocasiões, mas que encerram em si uma carga semântica e cultural extraordinária que só poderá ser verdadeiramente compreendida se tivermos em conta a obra literária que lhe está na origem, com todo o significado que transmite.
Uma dessas expressões é, por exemplo, ‘Ser un quijote’. O Dicionário da Real Academia Espanhola (RAE) atribui duas aceções ao termo quijote35: a primeira, “hombre que antepone sus ideales a su conveniencia y obra desinteresada y comprometidamente en defensa de causas que considera justas, sin conseguirlo”; a segunda, “hombre alto, flaco y grave, cuyo aspecto y carácter hacen recordar al héroe cervantino”. Ambas as entradas do dicionário ajudam a perceber o significado do termo; contudo, se não tivermos em consideração a personagem que lhe está na origem e que é bem explícita na segunda aceção, essa compreensão seria lacunar e incompleta. Na verdade, sem conhecer a obra de Cervantes, de que forma poderemos saber como é o herói cervantino? Qual é o empenho de um quijote na realização de uma empresa? A resposta a estas questões está na leitura de
El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha. O cavaleiro da triste figura crê encarnar
em si os ideais que os livros de cavalaria da sua biblioteca reificavam. D. Quixote é o lutador incansável e idealista que vive num mundo de princesas e gigantes que nada tem a ver com o palpável mundo de moinhos de vento e filhas de estalajadeiros. É o destemido que não se deixa abater pelos fracassos, antes continua, persistente, na busca dos seus ideais, incompreendido num mundo em mudança. Será esta figura, por vezes cómica, por vezes trágica, criada por Miguel de Cervantes, em 1605, aquela que está na origem da expressão ‘Ser un quijote’, ou seja, alguém com traços de loucura, ingénuo, que quer mudar o mundo vivendo numa realidade alternativa, mas, ao mesmo tempo, decidido e persistente defensor altruísta das causas que considera justas. Não são poucas as vezes em que os vizinhos espanhóis fazem uso desta expressão no âmbito político, e não só.
Outra expressão cuja origem e significado tem relação com uma obra literária é
‘Ser una celestina’ ou ‘Hacer de celestina’. Tal como no caso de quijote, também no termo celestina36 o Dicionário da RAE faz alusão à obra que está na base do mesmo: “Por alusión a Celestina, personaje de la Tragicomedia de Calisto y Melibea”. Esta obra de transição
35http://lema.rae.es/drae/?val=quijote (consultado a 16/07/2014) 36http://lema.rae.es/drae/?val=celestina (consultado a 16/07/2014)
159 entre a Idade Média e o Renascimento, da autoria de Fernando Rojas, foi publicada em 1499. Localizada em Salamanca, a trama confere um peso significativo a uma alcoviteira chamada Celestina. Ela encarregava-se de levar e trazer mensagens entre enamorados, conseguir proporcionar encontros aos casais em sua casa e proporcionava jovens a quem pagasse mais. É desempenhando o papel de intermediária entre Calisto e Melibea que Celestina ganha a sua imortalidade enquanto mito linguístico. Regressando à definição do Dicionário da RAE, celestina é pois sinonimo de “alcahueta” (alcoviteira), que por sua vez significa “Persona que concierta, encubre o facilita una relación amorosa, generalmente ilícita”37
. Todavia, esta definição, sem a carga semântico-cultural que a obra de Rojas lhe empresta, dificultaria a plena compreensão de toda a conotação negativa presente no título da notícia “Fidel Castro califica a Aznar de "Celestina" que recluta latinoamericanos para la guerra”38
, onde o antigo presidente de Cuba acusa o presidente do governo espanhol à data, José María Aznar, de atuar como uma alcoviteira entre os jovens latino-americanos e o exército americano em guerra no Iraque. Sem conotação negativa, mas da mesma forma semanticamente abrangente é o título de uma notícia mais recente publicado no El País em linha: “Celestinas del siglo XXI en Silicon Valley”39
que conta como, por uma avultada soma de dinheiro, mãe e filha conseguem encontros amorosos a ricos e famosos. A leitura dos dois títulos, sem o suporte de La Celestina de Fernando Rojas, podia resultar menos sugestiva e estaria amputada do significado que transmite.
Se repetirmos o exercício anterior e buscarmos no Dicionário da RAE o lexema
donjuán40 encontramos, a propósito da origem do termo, a referência a “don Juan Tenorio, personaje de varias obras de ficción” que, de forma inequívoca, marca a filiação literária do termo. Quanto ao significado, a mesma entrada diz “seductor de mujeres.” Porém, a abrangência semântica e cultural transcende a informação presente no dicionário. Na verdade, a forma como a imagem de Don Juan Tenorio foi construída ao longo dos tempos, nas várias obras em que figura, confere-lhe um sentido mais profundo e uma conotação carregada de simbolismo negativo que os académicos da RAE parecem não recolher. Personagem aparentemente baseada em sedutores reais, Don Juan inspirou inúmeras obras, desde a literatura à pintura, passando pela música. Aquele que é considerado o mais antigo 37http://lema.rae.es/drae/?val=alcahuete (consultado a 16/07/2014) 38 http://internacional.elpais.com/internacional/2003/11/01/actualidad/1067641202_850215.html (consultado a 16/07/2014) 39http://elpais.com/elpais/2014/01/03/gente/1388742134_657885.html (consultado a 16/07/2014) 40http://lema.rae.es/drae/?val=donjuan (consultado a 16/07/2014)
160 texto percursor desta figura é El burlador de Sevilla y convidado de piedra de Tirso de Molina, obra dramática, publicada em 1630, que definirá os traços do mito: o sedutor que recorrendo a truques, estratagemas e enganos consegue ludibriar todas as damas que encontra, desonrando-as a elas e aos noivos. Ainda que esta figuração vá sofrendo adaptações ao longo dos tempos, adquirindo alguns traços particulares, como no Don Juan
Tenorio (1844), de José Zorrilla, onde assume uma figuração próxima do herói romântico e
de verdadeiro apaixonado, o essencial mantém-se: herói pícaro, enganador e sedutor que usa sem grande consideração as mulheres, centrado nos seus desejos de permanente conquista, sem olhar a meios41. Estamos perante um vastíssimo terreno fértil para a utilização de uma expressão que ultrapassa as chamadas “revistas del corazón”, cujas páginas estão repletas de ‘donjuanes’, sem distinção de nacionalidades; o uso dela está vivo, como é sabido, no nosso quotidiano.
Uma última expressão que queríamos evocar neste contexto é ‘Ser un lazarillo’ ou
‘Hacer de lazarillo’. Também neste caso, a filiação literária de expressão é reconhecida
pela RAE (“del diminutivo de Lázaro, protagonista de la novela Lazarillo de Tormes, que siendo adolescente servía de guía a un ciego”42), que atribui ao termo o significado de “muchacho que guía y dirige a un ciego” e de “persona o animal que guía o acompaña a otra necesitada de ayuda”. Tal como Lázaro de Tormes serviu de guia ao cego, atualmente, em Salamanca, cidade por antonomásia do Lazarillo de Tormes, os turistas são guiados nas visitas aos monumentos pelos ‘lazarillos’ modernos (guias), muitas vezes encarnados nas simpáticas ciganas que circulam pelas ruas da zona histórica, integrando-se assim com os turistas desejosos de ver as belezas artísticas e conhecer os segredos que escondem.
Em jeito de síntese, as expressões idiomáticas, que apresentámos acima como exemplo, permitem-nos concluir, sem grandes dúvidas, que estas locuções de ascendência literária, utilizadas de forma corrente e contínua nos mais variados suportes e registos, foram paulatinamente assimiladas pela língua viva do quotidiano, ganhando uma relativa
41 Entre as obras que tratam esta figura, além das já referidas, podemos acrescentar, entre outras, o Dom
Juan, de Molière (1665); a ópera de Mozart, Don Giovanni, com libreto de Lorenzo da Ponte (1787); o
poema épico de Lord Byron, Don Juan (1821); o poema de Guerra Junqueiro, A morte de D. João (1874); o poema sinfónico de Richard Strauss, Don Juan (1888); o romance Don Juan, de Gonzalo Torrente Ballester (1963); o filme de 1995, realizado por Jeremy Leven e protagonizado por Johnny Depp, Marlon Brando y Faye Dunaway, Don Juan de Marco; a peça teatral de José Saramago, Don Giovanni ou O Dissoluto
Absolvido (2005); e, por fim, a figura de Barney Stinson da séria norte-americana How I Met Your Mother,
que representa o sedutor empedernido que continuamento procura novas formas de conquistar as mulheres, sempre fugindo a qualquer tipo de compromisso.
161 autonomia e independência das obras que estão na sua génese, mas que só se percebe o seu verdadeiro valor referêncial quando a sua descodificação não negligencia a hermenêutica do texto literário que lhe serve de suporte. Parafraseando as palavras de Rosana Acquaroni, podemos afirmar que a literatura proporciona aos aprendentes de uma segunda língua, no nosso caso concreto o espanhol, os elementos linguístico-culturais necessários para que as interações com falantes nativos sejam facilitadas, aumentando assim o seu grau de integração (Acquaroni Muñoz, 2007: 15). Em suma, são expressões de ascendência literária convertidas em mitos linguísticos cuja interpretação é consubstancial com a literatura.