Summary of the following chapters
Chapter 2. Characterization of illusory phenomena
2.2 Some distinctive characteristics of illusory phenomena
2.2.2 Illusions are robust phenomena
Ao pensarmos nos povos indígenas facilmente os vemos como pessoas que veneram árvores, plantas e animais. Pessoas que caçam apenas o que necessitam e que pedem desculpa antes de se alimentarem com eles. A relação que estes indígenas têm com a Natureza e com a comunidade onde se inserem é de harmonia e respeito. A relação que estabelecem com a natureza é uma relação harmoniosa designada por Sumak Kawsai (Equador) ou Suma Qamaña (Bolívia) que em português se traduz por Bem Viver. No entanto, apesar de sinónimos, quando situados no seu espaço e tempo, apresentam matizes que os diferenciam.
Segundo Barrera (2013) e Acosta (2012) Sumak Kawsay é uma expressão originária da língua kichwa, idioma tradicional dos Andes. Sumak, significa plenitude, realização, ideal, beleza e Kawsay, viver dignamente em harmonia e equilíbrio com o universo.
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Por sua vez a expressão Suma Qamaña deriva da língua aymara59. Suma
significa plenitude e Qamaña viver, conviver, lugar protegido e abrigado. Qama é a raíz da palavra a que são anexados alguns sufixos como ña. Suma Qamaña refere-se a um sentido do viver moral. Os conceitos são similares. No entanto, este último tem uma visão mais comunitária da vida e vivência em harmonia com a natureza – o Pachamama.
Para Kauwii (n.d) a expressão mama designa uma forma de ver o mundo, um pensamento que difere da visão Ocidental. A natureza é vista como um ser vivo e considerado como os pais do povo Kichwa. Formam uma família onde todos devem tomar conta de todos, de modo a que nenhum venha a encontra-se em risco. Esta família e os laços que estabelecem pretendem o bem-estar integral de todos os elementos.
A ideia de que a natureza é um ser vivo leva a que alguns dos elementos que a compõem sejam vistos como deuses. A natureza ganha passa a ser vista como sagrada. Nesta visão o Homem deve tirar da natureza somente o que precisa, não deve abusar dela, devendo ser cuidada. Pensam que as pessoas, tal como as plantas precisam de cuidados para que possam desenvolver-se e reproduzir- se adequadamente.
Sumak Kawsay expressa a ideia de uma vida nem melhor que a dos outros, nem em contínua luta para a melhorar. Suma Qamaña introduz a este conceito o elemento comunidade, grupo social.
Ambos os conceitos possuem um significado profundo, de valores em volta dos quais se formaram os povos andinos.
Os conhecimentos desta cultura são importantes na medida que as suas formas de entender a vida contêm elementos de equilíbrio e harmonia em todo o seu conjunto. Barrera (2013) utiliza os dizeres de Houtart para afirmar que a espiritualidade do conceito implica a paz e a construção de um mundo sem
guerra. Trata-se de bem conviveres ou bem viveres entre todos e entre tudo.
A tradução destes termos para Bem Viver ou Viver Bem traz algumas alterações ao seu real significado. Viver Bem não significa nesta filosofia de vida a posse de bens materiais colocando em causa as visões materialistas modernas, mas sim assentar em aspetos culturais, espirituais, emocionais e étnicos.
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Xabier Albó assinala que as traduções são traiçoeiras. Algo semelhante acontece
quando se traduz a expressão viver bem senão a contextualizarmos na língua e cultura que formulou o conceito original (nossa tradução, Barrera, op. cit.:n.d)
Esta filosofia de vida trata da sabedoria e capacidade de um povo se relacionar e dar valor aos princípios da vida, da natureza. Esta filosofia aporta uma ideologia que permite que uma consciência social sobre a sua existência e realidade num tempo e espaço determinado. Trata-se da perceção de cada homem da humanidade e da natureza, bem como do compromisso que cada ser tem com o que o rodeia: natureza e grupo.
A ideia principal do conceito é a da satisfação das necessidades mediante o relacionamento harmonioso com a natureza, trazendo assim a afirmação das culturas humanas e a proteção da natureza e seus seres vivos.
O Bem Viver supõe a possibilidade de reflexão sobre liberdade, oportunidades, capacidades e potencialidades dos indivíduos para que se desenvolvam e sejam olhados como seres humanos respeitados e respeitadores da biodiversidade. A emergência destes conceitos assenta em boa parte na exclusão e mestiçagem de raças, saberes e fazeres dos nossos dias que permitiram a emergência de classes desrespeitadas e descriminadas, ao longo dos tempos e da história da globalização. Essa exclusão serviu de combustível e alento para mostrar o seu descontentamento e desfasamento do modelo capitalista eurocêntrico na atualidade.
Na Bolívia e no Equador, o reconhecimento da plurinacionalidade e a luta dos indígenas afastados da vida social e económica, mostrou ao Estado uma nova visão e possibilidade. De tal modo, que os princípios ancestrais (sumak kawsay e
suma qamaña) passaram a ter lugar nas Constituições do Equador e da Bolívia,
respetivamente.
A filosofia deste constitucionalismo eleva os direitos da natureza (pachamama) e da cultura do Bem Viver, onde a cultura da vida e o emaranhado entre os seres vivos, pautada no valor da harmonia, se desdobram princípios como a reciprocidade e a complementaridade.
O novo constitucionalismo latino-americano prioriza a riqueza cultural e as tradições comunitárias e históricas, procura a refundação das formações políticas e jurídicas e ambiciona vencer o paradigma de política elitista. Para a materialização deste objetivo de reinterpretação pluricultural, sublinha a oportunidade do diálogo e da interculturalidade. Tenta afastar-se da sobreposição
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de culturas, para que a história não se repita com acontecimentos de preponderância da cultura europeia. É o que Santos (2010, p. 46) alcunha como
hermenêutica diatópica60, com a qual operacionaliza as ideias centrais para esse
novo movimento constitucionalista.
O Bem Viver é a plataforma necessária para o discurso multicultural onde há espaço para todas as ideias e visões que terminam encontrando significado em contexto social e ecológico próprio. A tradução destas expressões é difícil pois encerra vivências, crenças, estilos de vida, pensamentos próprios de cada grupo de cada comunidade. Este princípio poderá ser também uma alternativa à teoria do desenvolvimento. O conceito encerra a ideia de bem-estar coletivo. O pilar deste conceito é a visão ética de uma vida digna, de respeito à vida e à natureza. Desde os finais do século XX que as sociedades discutem sobre a crise ambiental e sobre a sustentabilidade emergindo assim, ainda que insuficiente e muito lentamente e inconsistente e não generalizada, uma consciência ecológica.
Um conjunto de fenómenos de dimensão planetária, que vão além do económico e são mais que ambientais porque abarcam também o social, têm surgido resultantes de uma visão capitalista que colocou todos os seus trunfos nos conceitos associados ao conforto materialista, ignorando a finitude da natureza. Esta visão levou à falência da resiliência ambiental e à devastação de recursos naturais, extinção de espécies e poluição de águas e terras de cultivo. Desta exploração desmedida temos visto ocorrer desastres e alterações ambientais. A crise ambiental planetária manifesta-se como um fenómeno existencial do modo de produção e consumo, que o desenvolvimento tecnológico acelerou e o fenómeno da globalização protegeu. E dizemos que protegeu dada a ineficiência das instituições políticas, de relações jurídicas de dominação e das relações sociais desiguais e injustas.
Nesta crise o homem não pode ser isentado de responsabilidade frentes ao processo de perda da diversidade biológica e esgotamento dos recursos naturais. Dada a crescente exploração dos recursos naturais o conceito da sustentabilidade adquire um carater central nas discussões éticas de valores que promovem a compreensão das complexas relações entre as sociedades e a natureza (Pérez & Terazona, 2017).
60 A hermenêutica diatópica para Santos (2010) é a interpretação de duas ou mais culturas, com o objetivo de apontar preocupações isomórficas incluindo as diferentes respostas que proporcionam.
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Desta feita, urge a emergência do abandono de um pensamento economicamente linear e o nascimento de um modo de pensar sustentado numa complexidade ética, que promove uma racionalidade ambiental fundamentada numa nova economia moral, ecológica e cultural como condição para se construir um novo modo de produção que construa estilos de vida ecologicamente sustentáveis e socialmente mais justos.
O Bem- Viver pode ser esse pensamento diferenciado, com um olhar de respeito onde a natureza assume um aspeto fundamental pois deixa de ser olhada como um objeto, mero recurso natural à disposição da vontade de Homem para a sua exploração económica, mas um verdadeiro membro da comunidade. Esta ideia revela que o princípio afasta as ideias materialistas da teoria do desenvolvimento nascida da ideologia da globalização hegemónica.
Esta visão sustentável pode definir-se como um novo tipo de desenvolvimento que satisfaz as necessidades humanas sem que, no entanto, comprometa as gerações vindouras. Efetivamente, não se pode separar o desenvolvimento sustentável da sustentabilidade como resultado do processo de transformação do pensamento social, no qual a exploração dos recursos, o desenvolvimento tecnológico e as instituições e seus valores se realizam harmoniosamente para satisfazer as necessidades e aspirações humanas.
O Bem Viver é, pois, um conceito complexo que incorpora princípios da sustentabilidade aplicados aos diferentes tipos de relações entre o homem e a natureza. Não é um conceito simplista para harmonizar o processo económico com a conservação da natureza com um enfoque das teorias desenvolvimentistas que promovem a falácia de um crescimento económico sustentado numa natureza com recursos finitos. Tal como o conceito da sustentabilidade, este conceito, fundamenta-se no reconhecimento dos limites e potenciais da natureza inspirando uma nova compreensão do mundo para enfrentar os desafios que a humanidade atravessa.
Promove valores de respeito e criação de uma nova aliança entre natureza- cultura com uma economia cujos princípios e valores são mais humanos para a construção de uma cultura política com valores éticos, sentimentos e crenças que respeitam as diferenças e possibilitando a reinvenção de modos de vida e de habitar o Planeta. São valores de respeito onde as comunidades têm direito de viver conforme os meus saberes e fazeres ancestrais - pensa-se em harmonia e afasta-se a competição egoísta, ambiciosa e desmedida para a obtenção de lucro.
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O grande problema do conceito do desenvolvimento é o facto deste os ignorar sonhos dos povos a quem foi posto o rótulo de subdesenvolvidos pelos estilos de vida predadores e consumistas dos países do norte global. A queda do conceito é de fácil perceção. Não se podem esconder os efeitos que a predação consumista provoca no meio ambiente. Efeitos que vão desde o aquecimento global, do buraco do ozono, à perda de fontes de água doce, erosão da biodiversidade agrícola ou do desaparecimento dos espaços ocupados pelas comunidades locais.
O Bem Viver pode ser a base de uma nova filosofia de desenvolvimento. Um desenvolvimento (alternativo) que represente a oportunidade de se construir coletivamente novas formas de vida sustentáveis.
Para Acosta (2012, 213) o Bem Viver
(…) não sintetiza uma proposta monocultural. O Buen Vivir é um conceito plural – melhor seria falar de “bons viveres” ou “bons conviveres” – que surge especialmente das comunidades indígenas, sem negar as vantagens tecnológicas do mundo moderno ou as possíveis contribuições de outras culturas e saberes que questionam diferentes pressupostos da modernidade dominante. O Buen Vivir, como é fácil de entender, nos obriga a repensar a forma atual de organização da vida, no campo e na cidade, nas unidades produtivas e nos espaços de convivência sociais, nos centros educativos e de saúde, etc
Este princípio filosófico não é original, nem sequer uma novidade política do nosso século. E também, como refere Acosta (op. cit.), não se trata de uma poção
mágica para todos os males do mundo. O conceito é sim a tentativa de se
encontrar uma alternativa aos problemas que afligem a humanidade.
A grande novidade desta proposta é que ela brota de grupos marginalizados que convidam a que sejam discutidos conceitos tidos como intocáveis. Questionam a permanente competição entre os seres humanos que a era moderna promove e o significado de bem-estar ocidental. Promovem o respeito pelos saberes autóctones, sem que despromovam a lógica da modernização tecnológica ou de saberes da história do pensamento da humanidade que contribuam para a construção de um mundo harmonioso.
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Desta feita, uma das tarefas fundamentais do Bem Viver reside no diálogo
permanente e construtivo de saberes e conhecimentos ancestrais com a parte mais avançada do pensamento universal, em um processo de contínua descolonização da sociedade. (Acosta, 2012: 201).
O conceito de Bem-estar atravessa as diferentes áreas da vida social e gera confusão pois foi utilizado como sinónimo de desenvolvimento, progresso, riqueza conceitos centrados em metodologias métricas. As propostas que estes conceitos trazem questionam a ética do viver bem pois convidam a uma competição sem limites, o que resultou no facto de para uns viverem bem, milhares tiveram de viver mal (Ibidem).
Os paradigmas atuais não evitaram que problemas como a depredação da natureza, pela exploração de recursos naturais que permitam o crescimento económico apregoado pelas teorias do desenvolvimento, o aquecimento global, a perda da biodiversidade e também a exploração e a falta de reconhecimento de povos cujos princípios, saberes e fazeres se diferenciam dos que são anunciados pelas nações ditas civilizadas. O Homem tornou a sua própria vida insustentável. Acosta (op. cit.: 201) refere que
Para entender o que significa o Buen Vivir, que não pode ser simplesmente associado ao “bem-estar ocidental”, é preciso começar recuperando a cosmovisão dos povos e nacionalidades autóctones. Este reconhecimento, plenamente, não significa negar uma modernização própria da sociedade, incorporando na lógica do Buen Vivir muitos e valiosos avanços tecnológicos.
A teoria de desenvolvimento, baseada na globalização hegemónica, assenta num modelo produtivista-consumista e na depredação dos mais fracos. Os Estados, os sujeitos que têm o dever de proteger os cidadãos, tornam-se impotentes por um lado e por outro permitem a ingerência dos novos atores internacionais em políticas que determinam o bem-estar da população.
Nos princípios do Bem Viver a economia tem como pilares a solidariedade. Aqui procura-se que a concorrência desleal, a competição e especulação financeira não façam parte do jogo. Para que a economia solidária se verifique precisam de existir relações de produção e de colaboração que promovam a suficiência e a qualidade.
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Nesta economia solidária as relações de trabalho igualitárias, inclusivas e não discriminatórias são fundamentais, pois o ser humano é fator essencial da economia. Luta-se contra esquemas de produção antropocêntricos que promovem a destruição do planeta.
Os paradigmas vividos e defendidos ao longo da evolução do próprio Homem já não têm lugar. O Homem precisa de agarrar à racionalidade e reconhecimento de que a Humanidade deve ser defendida tendo em conta a relatividade económica e cultural de cada Povo.
Este reconhecimento quiçá devolva às sociedades a possibilidade do respeito por outras formas de saber e fazer, não permitindo que os saberes e fazeres ancestrais sejam vistos como subdesenvolvimento, mas sim como individualidade de cada comunidade, cada Povo, cada Estado. Mais ainda, este respeito poderá permitir que a ambição do Homem deixe de ser desmedida e egoísta a ponto de perigar a sua própria continuidade.
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