B FCCS spatiale trou-trou
B.1 Collection du signal de fluorescence
B.1.1 Illumination laser et fonction d’efficacité de collection
No início de 2014, os rolezinhos – encontros entre centenas de jovens de periferia em shoppings de São Paulo, marcados pela internet – estavam nas manchetes de jornais e circulavam nas redes sociais. Lucas chegou ao nosso encontro perplexo com o fato de os shoppings estarem proibindo a entrada de certos jovens, mas também com a dimensão dos eventos – as fotos com milhares de pessoas espremidas entre corredores e escadas-rolantes causavam certo pânico. Propus lermos alguns textos sobre o assunto para que ele, em seguida, escrevesse um artigo com sua opinião sobre a coibição desses eventos.
Lemos dois artigos de um dos grandes jornais do Brasil, com posições contrárias em relação aos acontecimentos: um contra os rolezinhos, por considerar o shopping um lugar inadequado para receber um número tão grande de pessoas, o que colocaria em risco a integridade dos frequentadores; o outro a favor, por acreditar que sua proibição seria uma forma de marginalização da juventude e que esses eventos poderiam se tornar uma oportunidade de "negócio social", em que não só as empresas e o poder público se beneficiariam, mas também o povo e sua cultura. Lucas achou importante considerar a segurança das pessoas nesses encontros, embora acreditasse haver formas de assegurá-la sem proibir o encontro. O segundo artigo lhe pareceu um pouco otimista demais e enfatizava o consumo, uma lógica que não lhe agradava. Lemos ainda uma crônica jornalística que comparava os rolezinhos a outros acontecimentos da história em que houve uma disputa de território. A crônica terminava com uma provocação à solução apontada pela prefeitura de os rolezinhos serem realizados nos estacionamentos dos shoppings: poderia acontecer o mesmo que em Paris, quando a rainha Maria Antonieta, ignorando a realidade miserável de seu povo, sugeriu aos que não tinham pão que comessem brioches, ou seja, uma insurreição popular. Lucas se divertiu com o texto e admirou a capacidade do autor de fazer essa conexão histórica. Ainda indiquei para ele um artigo de internet de um jornalista que cresceu na periferia e expunha, em sua análise, a importância dos shoppings para essa população, tanto como espaço de lazer quanto como legitimação social via consumo. Pedi, então, que ele
escrevesse, para o encontro seguinte, um texto que respondesse à pergunta: rolezinhos em shoppings devem ser coibidos?
Respeito é bom e eles gostam
Nas passadas semanas, todos os holofotes midiáticos estavam voltados para os “rolezinhos”. Mas, afinal, o que são? O nome do movimento foi originado a partir de uma gíria bastante utilizada pela juventude atual: “rolê”, um sinônimo de programa, evento. Seus integrantes, numerosos jovens pertencentes às classes sociais menos favorecidas, criam grupos nas redes sociais com o objetivo de marcar encontros em shoppings.
Muito embora haja uma grande polêmica relacionada ao motor desses encontros, afirmo com veemência que eles não vão além das aparências: influenciados pelo modo norte-americano consumista de viver, que é imitado pelo Brasil e por grande parte do mundo, os adolescentes logo associam, inconscientemente, lazer a consumo. Além disso, apesar de unirem-se em enormes turmas pelo fato de não se sentirem à vontade em tais ambientes, por sua condição social, não se trata de uma revolta ou reivindicação. Na verdade, seu desejo é socializar, isto é, conversar, bagunçar, beijar, etc.
Julgo, ainda, de elevada importância me colocar na seguinte situação: estou com minha família no shopping e, repentinamente, centenas de jovens invadem o lugar, chamando a atenção de todos propositalmente e sendo desrespeitosos. Certamente, não seria agradável presenciar isto.
Apesar de todos os aspectos negativos dos “rolezinhos”, é essencial que respeitemos e valorizemos a liberdade de expressão alheia, pois foi por ela que tanto lutamos durante toda nossa história.
Finalmente, os shoppings são, sim, propriedades privadas. Contudo, antes de sua inauguração, seus donos são obrigados a assinar um documento que proíbe com clareza a barragem de indivíduos. Portanto, é inadmissível que, com base na criação de um estereótipo dos integrantes do movimento, os seguranças desses locais impeçam a entrada de determinadas pessoas. Isso seria, sem dúvida, discriminação, pois se trata, aqui, da cor da pele.
Assim, digo “não!” à coibição dos “rolezinhos” nos shoppings. Respeito é bom e eles gostam.
Chamou-me a atenção como Lucas se envolveu com o tema, aproveitou bem as leituras feitas, transitou com facilidade por seus argumentos, por contrapontos, e não demonstrou dúvida de sua posição, afirmando com firmeza seu ponto de vista. Ele usou algumas vezes a primeira pessoa do singular, assemelhando-se mais com um artigo de opinião, o que eu vi como uma maneira de Lucas fazer uma transição dos textos opinativos, mais pessoais, subjetivos e livres, para o gênero dissertativo de vestibular.
Ele introduziu o tema com a definição de rolezinho, e em seguida defendeu, no segundo parágrafo, que rolezinho é socialização e não reivindicação, mas, no quarto, usou a liberdade de expressão como argumento para ser favorável aos rolezinhos, o que gerou uma incoerência.
Em seguida, Lucas se colocou na situação de um cliente do shopping, para ponderar que presenciar o rolezinho não seria agradável, demonstrando capacidade de olhar a questão de diferentes perspectivas.
Quando ele criticou a proibição de entrada de algumas pessoas em alguns shoppings em resposta aos rolezinhos, ele acusou o preconceito racial da medida. Considerei ampliar a ideia de preconceito, já que o acontecimento não tinha como foco a população negra, mas a população de periferia. Lucas concordou, mas argumentou que a população da periferia em sua maioria era negra. Eu dei razão a ele, porém insisti que o preconceito racial é um dos preconceitos que aparece nessa proibição, mas não o único. Ele se propôs a ampliar a ideia na reescrita.
O final, "respeito é bom e eles gostam", pegando o ditado popular, era criativo, mas considerei que não abarcava a ponderação que fazia parte da opinião defendida por ele. Lucas percebeu que podia refinar o título, mas não sabia ainda como.
Depois desses primeiros comentários, voltamos ao início do texto para algumas lapidações desses pontos e de alguns outros que foram surgindo nessa segunda leitura.
Comentei com ele que a expressão "Nas passadas semanas" soava forçada, com a inversão na ordem do adjetivo e o plural, mas podia ser entendida como um esforço de autoria, de estilo. Ele deu uma risadinha meio sem graça e revelou que, ao ler em voz alta a expressão, soou-lhe exagerada. Dei outra opção: poderia ser "nas semanas que se passaram", mas ele optou por substituir "passadas" por "últimas", simples e direto.
Falei que o segundo parágrafo contemplava ideias importantes para o tema, como a relação entre consumo e lazer, periferia e shopping, mas que não chegava a explicitar a razão da escolha dos shoppings como lugar de encontro desses jovens. Lucas percebeu que precisa voltar ao fato para fechar a ideia do parágrafo. Lembrei-lhe de que o texto que indiquei a ele apresentava não só o consumismo como determinante para essa escolha, como também a falta de espaço público na periferia. Lucas contou que tinha lido o texto, mas não sabia como incluir essa ideia. Eu vi naquele parágrafo a oportunidade. Muito disposto, ele incluiu mais um período com essa justificativa para o fenômeno do rolezinho.
Apontei para ele meu incômodo com o uso da palavra "agradável" para justificar a preocupação com a segurança desses eventos, por ser muito subjetivo o que agrada ou
desagrada alguém. Comentei que os riscos que uma multidão representa em um ambiente despreparado para recebê-la seria um argumento mais objetivo, palpável. Ele disse, num tom frustrado, que era essa a ideia que queria passar, mas não tinha conseguido encontrar as palavras. Eu o reanimei dizendo que agora ele podia tentar de novo. Lucas, sério e concentrado, acrescentou a ideia de perigo contido nesses encontros de grandes magnitudes e que medidas precisariam ser tomadas para garantir a ordem e a segurança dentro dos espaços comerciais. Os argumentos ficaram bem mais precisos. Ele ficou satisfeito e prosseguimos.
Indiquei a Lucas a incoerência de ele se apoiar no direito à liberdade de expressão se defendia que os rolezinhos não eram manifestação. Ele viu razão no meu apontamento e eu lhe perguntei qual seria o direito que estaria mais relacionado com a tese dele, de poder ocupar um espaço de lazer livremente. Ele lembrou do direito de ir e vir e fez a alteração com afinco.
Chegamos na questão do preconceito racial. Lucas me perguntou como poderia falar de forma mais abrangente do preconceito contra quem frequentava os rolezinhos. Considerei com ele que o racismo estava presente no impedimento dos jovens de entrarem nos estabelecimentos comerciais, mas também havia outros preconceitos ligados a um perfil que seria associado à periferia, à pobreza. A partir desse comentário, ele incluiu a ideia de aparência de forma mais geral e citou alguns exemplos – quando eu li "odor" como um dos fatores de discriminação, fiquei impactada – será que passava até pelo cheiro essa distinção? Cheiro fazia parte da aparência? Será que Lucas estava exagerando? Ou eu estava sendo ingênua? Lembrei de comentários em rede social sobre "perfume de pobre" em ônibus ou em elevador. Lucas tinha razão.
Propus a reconstrução da frase final do texto, que origina o título, para que ela correspondesse à tese defendida, de que os rolezinhos não deveriam ser proibidos, mas algumas medidas precisariam ser tomadas para que eles não colocassem em risco nem os participantes do evento nem o público do shopping. Então ele trouxe a ideia de reciprocidade e a ponderação aparece no ditado.
A segunda versão ficou assim:
Respeito é bom e todos gostam
Nas últimas semanas, todos os holofotes midiáticos estavam voltados para os “rolezinhos”. Mas, afinal, o que são? O nome do movimento foi originado a partir de uma gíria bastante utilizada pela juventude atual: “rolê”, um sinônimo de programa, evento. Seus integrantes, numerosos jovens pertencentes às classes
sociais menos favorecidas, criam grupos nas redes sociais com o objetivo de marcar encontros em shoppings.
Muito embora haja uma grande polêmica relacionada ao motor desses encontros, afirmo com veemência que eles não vão além das aparências: influenciados pelo modo norte-americano consumista de viver, que é imitado pelo Brasil e por grande parte do mundo, os adolescentes logo associam, inconscientemente, lazer a consumo. Além disso, apesar de unirem-se em enormes turmas, pelo fato de não se sentirem à vontade em tais ambientes, por sua condição social, não se trata de uma revolta ou reivindicação. Na verdade, seu desejo é socializar, isto é, conversar, bagunçar, beijar, etc. Essa juventude constrói sua identidade com base em suas posses materiais, e, por isso, não é por acaso que seu ponto de encontro seja um pólo de consumo. Todavia, não se pode desconsiderar a falta de espaços públicos nos quais estes indivíduos possam se entreter e se divertir com a sua geração.
Julgo, ainda, de elevada importância me colocar na seguinte situação: se estou com minha família no shopping e, repentinamente, centenas de jovens invadem o lugar, chamando a atenção de todos de maneira proposital e sendo desrespeitosos, por certo, não seria tranquilo presenciar isto – um tumulto dessas proporções poderia, em caso de qualquer tipo de intercorrência, resultar em pessoas feridas, em especial crianças e idosos, ou até mortas. Diante da falta de segurança dos frequentadores desses locais, severas medidas de precaução, tais como extintores de incêndio dentro da validade, portas corta-fogo, saídas de emergência e funcionários instruídos para lidar com essa situação, devem ser tomadas com urgência.
Apesar de todos os aspectos problemáticos dos “rolezinhos”, é essencial que respeitemos e valorizemos a liberdade de ir e vir, pois ela é parte fundamental de um Estado democrático.
Finalmente, os shoppings são, sim, propriedades privadas, o que os torna alvo de regras elaboradas por seus proprietários. Contudo, antes de sua inauguração, seus donos são obrigados a assinar um documento que proíbe com clareza a seleção de indivíduos. Portanto, é inadmissível que, com base na criação de um estereótipo dos integrantes do movimento, os seguranças desses locais impeçam a entrada de determinadas pessoas. Isso seria, sem dúvida, discriminação, pois se trata, aqui, não apenas da cor da pele, porém da aparência como um todo (vestimentas, cabelo, odor, entre outros).
Assim, digo “não!” à coibição dos “rolezinhos” nos shoppings. Há de haver uma reciprocidade: respeito é bom e todos gostamos.
O texto ganhou unidade, os argumentos ficaram coerentes com a tese e com o modo de encarar o fenômeno, o contraponto foi fortalecido. As mudanças valorizaram a riqueza tímida que já estava presente na primeira versão. Ao final da atividade, Lucas esboçou um sorriso acanhado de orgulho. Eu falei que ele podia ficar contente, estava num ótimo caminho, e seu sorriso se abriu.
Lucas se mostrava bastante disponível às minhas intervenções, recebendo-as com seriedade, como um incentivo a seu pensamento, uma provocação a sua escrita, um amparo a
sua insegurança. Essa abertura dele, essa disposição, facilitava tanto nossa interlocução quanto seu desenvolvimento, sua soltura na escrita.