Os cenários de ocupação da bacia hidrográfica foram projetados considerando as tendências atuais da agricultura na região estudada, procurando tratar usos/ocupações característicos da paisagem na região estuda. Os resultados
das simulações destes cenários foram comparados ao cenário atual, o que possibilitou verificar os efeitos de diferentes atividades agrícolas nas variáveis hidrológicas do escoamento superficial direto.
Por ser uma bacia hidrográfica relativamente pequena, do ponto de vista agrícola, optou-se por considerá-la 100% vegetada com cada um dos cenários propostos, os quais estão descritos a seguir:
4.2.1 Cenário 1: uso atual
O cenário atual corresponde à ocupação da bacia por pastagem (95,84%) e fragmento de mata natural (4,16%), pois, nas datas em que ocorreram os eventos trabalhados, já havia ocorrido a colheita do milho e os 16,69% da bacia ocupados com esta cultura ficavam sob pastejo, até novo plantio, em outubro. Assim, os parâmetros utilizados de entrada referentes à vegetação foram: mata; índice de área foliar (IAF): 2,80 m2 m-2 (Xavier, 2000) e 0,95 para a FSCV
(Takken et al., 1999) e pastagem; IAF de 2,63 m2 m-2 (Caruzzo & Rocha, 2000)
e 0,70 para a FSCV (Takken et al., 1999). Os parâmetros de solo em função da ocupação foram: mata; coeficiente de atrito superficial (n) 0,30 e rugosidade superficial do solo de 1,36 cm; pastagem; coeficiente de atrito superficial (n) igual a 0,227 e rugosidade superficial do solo de 0,70 cm, conforme Takken et al. (1999).
4.2.2 Cenário 2: pastagem
A expectativa é a de que este cenário produza resultados semelhantes ao cenário atual, pois 95,84% da área já estavam sendo ocupados com este cultivo. Os parâmetros de entrada para este cenário foram: IAF de 2,63 m2 m-2, conforme Caruzzo & Rocha (2000), 0,70 para a FSCV; 0,227 para o coeficiente de atrito superficial (n) e 0,70 para a rugosidade superficial do solo (Takken et al., 1999).
4.2.3 Cenário 3: mata natural
Os fragmentos de mata natural ocupam somente 19,83 ha da área total da bacia hidrográfica, o que corresponde a um percentual de apenas 4,16% (Gomes et al., 2007a). Espera-se que este cenário produza resultados bem diferentes do atual, pois há relatos, na literatura, de que bacias hidrográficas vegetadas com florestas têm suas vazões máximas atenuadas e o tempo de pico retardado, o que, consequentemente, altera o escoamento superficial direto e o índice C. Os parâmetros de entrada para este cenário foram: índice e área foliar de 2,80 m2 m-2
conforme Xavier (2000); 0,95 para a FSCV; 0,30 para o coeficiente de atrito superficial (n) e 1,36 cm para a rugosidade superficial do solo (Takken et al., 1999).
4.2.4 Cenário 4: eucalipto
Atualmente, percebe-se crescimento acentuado do cultivo de eucalipto na região Alto Rio Grande, especialmente para a produção de carvão vegetal, madeira para móvel e produção de papel e celulose, com grande adesão dos produtores rurais ou por meio do arrendamento de terras (Viola, 2008). Números da Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas (Abraflor) mostram crescimento de cerca de 20% na área plantada no Brasil, em 2005, em relação a 2004. Em relação a 2002, por exemplo, o aumento chega a 70%. Hoje, no Brasil, são 5,2 milhões de hectares plantados com eucalipto e pinus (SEBRAE, 2007). Este fato é facilmente confirmado na região, pela presença de vasto plantio de eucalipto, próximo às cidades de Andrelândia, Madre de Deus e São Vicente de Minas, em áreas que até há pouco tempo eram exploradas com culturas anuais de subsistência e pastagens. Nas proximidades da bacia hidrográfica do ribeirão Marcela, na Fazenda Paiolinho, também se registra vasta área ocupada com esta cultura. O índice de área foliar para este cenário, considerando um eucaliptal aos 7 anos de idade, espécie Eucalyptus grandis, a
mais plantada no Brasil, foi de 3,30 m2 m-2 conforme Xavier et al. (2002). A
FSCV foi considerada a mesma da mata natural, ou seja, 0,95. O valor de 0,30 foi utilizado para o coeficiente de atrito superficial (n) e 1,36 cm para a rugosidade superficial do solo (Takken et al., 1999).
4.2.5 Cenário 5: milho aos 15 dias após semeadura
O milho é o segundo cultivo mais expressivo da bacia hidrográfica após a pastagem, ocupando área de 79,73 ha (16,69% da bacia hidrográfica) segundo Gomes et al. (2007b). Atrelado a isso, a região na qual o estudo foi desenvolvido é um dos principais pólos produtores deste grão no estado. Para este cenário, início de desenvolvimento da cultura, situação que oferece pouca proteção ao solo contra a ação erosiva das chuvas, foram considerados os seguintes valores: índice de área foliar igual a 2,283 m2 m-2; 0,30 para a FSCV; 0,08 para o
coeficiente de atrito superficial (n) e 1,14 cm para a rugosidade superficial do solo, conforme Takken et al. (1999).
4.2.6 Cenário 6: milho aos 75 dias após semeadura
Aos 75 dias após a semeadura (DAS), a cultura do milho se encontra em pleno desenvolvimento vegetativo, tendo alcançado a sua altura máxima (1,50 m) e, também, o maior índice de área foliar (6,01 m2 m-2), oferecendo o máximo
de proteção ao solo. Os parâmetros relativos à cultura do milho, aos 15 e 75 DAS, foram adotados, segundo Manfron et al. (2003), para o híbrido P - 4071, cultivado no espaçamento de 0,9 m entre linhas e com população de 50.000 plantas ha-1. O coeficiente de atrito superficial (n) foi de 0,08 e a rugosidade
superficial do solo de 1,14 cm, conforme Takken et al. (1999). A expectativa é a de que os resultados deste cenário superem o cenário anterior, aproximando-se dos cenários mata natural e eucalipto, pois seu índice de área foliar é superior aos demais.
4.2.7 Cenário 7: café aos 15 meses após o plantio
A cafeicultura é uma das atividades agrícolas de maior destaque na região Sul de Minas, razão pela qual também se trabalhou com este cenário. Na fase inicial, a lavoura oferece pequena proteção ao solo, pois as plantas estão formando sua estrutura e, ainda, não têm folhas mortas depositadas nas entrelinhas. Também não há formação de “saias”, predispondo o solo à ação erosiva das chuvas e, consequentemente, à produção de escoamento superficial direto. Para lavoura aos 15 meses após o plantio, da cultivar Mundo Novo IAC 388-17, enxertada na cultivar Apoatã IAC 2258, plantada em espaçamento de 2,5 x 1,0 m e densidade populacional de 4.000 plantas ha-1, o índice de área foliar
adotado foi de 0,24 m2 m-2, de acordo com Favarin et al. (2002) e a FSCV foi
igual a 0,20. Os demais parâmetros, coeficiente de atrito superficial (n), de 0,3 e a rugosidade superficial do solo de, 0,73 cm, são aqueles recomendados para pomares, conforme Takken et al. (1999). Esta adaptação se fez necessária, pois não foi encontrado, na literatura, registro destas variáveis para a cultura do café.
4.2.8 Cenário 8: café aos 35 meses após o plantio
Aos 35 meses, a lavoura já está praticamente formada, com ramos plagiotrópicos entrelaçadas e deposição de folhas mortas nas entrelinhas, o que por sua vez, oferece proteção ao solo contra os impactos advindos das precipitações, reduzindo a ocorrência do escoamento superficial direto. De acordo com Favarin et al. (2002), uma lavoura da cultivar Mundo Novo IAC 388-17, enxertada na cultivar Apoatã IAC 2258, plantada em espaçamento de 2,5 x 1,0 m e densidade populacional de 4.000 plantas ha-1, aos 35 meses, tem índice de área foliar de 3,17 m2 m-2 e FSCV igual a 0,62, considerando comprimento de
superficial (n) e a rugosidade superficial do solo) foram os mesmos adotados para uma lavoura aos 15 meses após o plantio.
Os dados de todos estes cenários foram organizados em estrutura semelhante à descrita no capítulo 2, conforme recomendações apresentadas por Jetten & Jong (2006) e Jetten (2002), o que possibilitou as compilações do aplicativo PCRaster NutShell.
5 RESULTADOS E DISCUSSÃO