Apesar de o imaginário de cada um dos poemas em apreço abranger diferentes elementos que poderíamos interpretar numa análise mais ampla, este subcapítulo tratará apenas aqueles que considerámos mais interessantes para o nosso estudo comparado.
No poema “A Noiva do Sepulcro” de Alexandre Herculano vários elementos usados para descrever os espaços naturais que surgem ao longo da acção podem ser interpretados de forma simbólica. No verso “O zimbro, a urze e o pinheiro” (estrofe 12, verso 4) acerca das espécies que crescem na floresta ficamos não apenas com a ideia de uma flora silvestre, como de elementos que podem ser interpretados como visualmente hostis e/ou potencialmente perigosos.
O pinheiro, embora seja mais simbólico de conceitos como a resiliência e a fecundidade não apenas pela sua capacidade de crescer em zonas áridas como pela sua folhagem perene, pode aqui ser interpretado pelo seu simbolismo visual: o conjunto das suas agulhas e da rugosidade do tronco produzem efeitos visuais e tácteis de hostilidade.
Em Portugal o termo “pinheiro” pode designar várias espécies: o pinheiro- bravo, o pinheiro-manso e o pinheiro-silvestre. Este último, Pinus sylvestris, tende a ser encontrado a norte do país, especialmente na Serra do Gerês. Na sua resina e nos óleos segregados através da sua madeira encontra-se o extracto de terebintina que, além de ser tradicionalmente usado como diluente de pigmentos na pintura a óleo, tem propriedades antibacterianas e anti-sépticas. Era, por isso, usado para tratamentos medicinais desde, pelo menos, a Antiguidade Clássica. Devido à terebintina a resina do pinheiro-silvestre pode, contudo, causar irritação na pele.
Urze é a denominação vernácula para arbustos da família das ericáceas, com folhagem também perene. A espécie Calluna vulgaris que pode designar é comum nas Ilhas Britânicas, particularmente na Escócia, tendo-se tornado num dos seus símbolos. Tende a crescer em zonas graníticas. Em Portugal há, essencialmente, duas urzes: a urze-lusitana (Erica lusitanica), que cresce principalmente no centro e a sul do país, e floresce sobretudo em tons de branco
e de rosa, e a urze-roxa (Erica cinerea) ou urze-de-Portugal, que abunda no norte do país – e que, como nas Ilhas Britânicas, floresce em tons de lilás e roxo. A sua folhagem tem uma aparência espigada que lembra as agulhas dos pinheiros e que, como acontece nos pinheiros, lhe dá um aspecto mais hostil em termos visuais e tácteis.
Zimbro corresponde a uma denominação comum para arbustos do género
Juniperus de plantas coníferas com espécies que podem ter bagas (ou, em
termos técnicos, pseudo-bagas) que, quando ingeridas, produzem um efeito tóxico.
O outro elemento natural possivelmente tóxico é o teixo, e surge associado à noite. O ponto de encontro combinado entre a dama misteriosa que aparece a dom Sueiro e o mesmo é sob o “teixo solitário” que cresce no cemitério (estrofe 32), é este o local onde o primeiro momento sobrenatural se dá, propriamente: onde o fantasma de Elvira aparece e o avisa em relação à necessidade de se arrepender das suas traições.
O teixo ou Taxus baccata, hoje espécie rara em Portugal, cresce naturalmente na zona do Gerês, por onde corre o rio Lima, nas margens do qual a acção d'“A Noiva do Sepulcro” se passa. Esta árvore cresce lentamente e pode atingir grande longevidade, na ordem dos milhares de anos de idade. Por esse motivo e por ser uma árvore de folhagem perene, tem sido utilizada na literatura e no folclore no geral como metáfora para antiguidade, para renovação, para vida e, sobretudo, para a morte. Devido ao veneno que produz – a taxina (cujos efeitos tóxicos podem chegar a ser letais) – está associado à morte e a rituais em torno da morte de acordo com o folclore de tribos druídicas.90
William Wordsworth falou do teixo no seu poema “Yew-Trees” (1803) descrevendo esta árvore como um símbolo ancestral da região tratada no poema (Vale de Lorton, em Cumbria), e, por isso, do seu valor histórico e do seu estatuto icónico. Sendo uma prática natural ao longo da história usarem-se locais já considerados sagrados por populações locais aquando do estabelecimento de um local de culto para uma nova religião – de que são exemplo a Sé de Lisboa, monumento edificado sobre uma antiga mesquita, e a Igreja da Madalena nas
suas proximidades, por sua vez edificada junto ao local onde outrora houve um templo romano a Cibele –, é natural que nas Ilhas Britânicas e na Galiza seja possível encontrar teixos em cemitérios cristãos de origem – tanto quanto se saiba – posterior à desses teixos. É de mencionar que algumas destas áreas foram outrora habitadas por povos druídicos para quem o teixo era, no geral, uma árvore sagrada, não só pelo simbolismo sobremencionado como pelas propriedades psicoactivas que poderão ter contribuído para a utilização desta espécie como enteógeno – isto é, um alterador de consciência.
Consta que há muito se crê que a inalação do aroma do teixo, especialmente no Verão, quando é mais intenso, seja suficiente para provocar perturbações da visão; mesmo na Antiguidade, naturalistas como Pliny the Elder, lhe observaram efeitos nocivos causados pela mera respiração do odor que exala da árvore.91
A tragédia Romeo and Juliet (1595) de William Shakespeare implica que havia já na altura um conhecimento muito rudimentar do efeito psicoactivo do odor do teixo na sabedoria popular quando o criado de Romeo, Balthasar, na terceira cena do acto quinto, diz ter adormecido debaixo de um teixo e sonhado com o confronto que na verdade precipitou a morte do co-protagonista da tragédia, possivelmente para se desresponsabilizar por não ter ajudado o seu amo. Actualmente, sabe-se que apenas a ingestão das suas sementes pode provocar realmente alucinações e que o pólen lançado pelos pés dióicos masculinos e pelos pés monóicos se limita a causar comichões, sonolência e, no máximo, a induzir ataques respiratórios em asmáticos. Devido à presença de tribos celtas no actual Reino Unido (em particular, no País de Gales) bem como em Portugal e em Espanha, não seria totalmente despropositado considerar que podem existir superstições ligadas ao teixo no folclore destas regiões, nomeadamente em relação à sua toxicidade e à sua ligação ancestral à morte.
No poema de Soares de Passos, em que o cemitério é o local primário da acção, também uma árvore com conotações especificamente lúgubres aparece mencionada mais do que uma vez: o cipreste – designação popular para árvores da família das Cupressaceae. Em Portugal a espécie predominante é designada
cipreste-português (Cupressus lusitanica). Tanto o teixo como o cipreste são árvores ancestralmente ligadas à morte e frequentemente encontradas em contextos de arquitectura funerária já desde a Pré-História: nas Ilhas Britânicas as suas folhas são muito usadas em guirlandas para funerais.92 William
Shakespeare, na peça Twelfth Night (1623), inclui o teixo e o cipreste numa canção entoada por Feste, o tolo (the fool), a respeito de uma morte por amor – antes, por desgosto amoroso (acto segundo, quarta cena).
Outro elemento do imaginário que importa ter em consideração é o mocho. Os versos “E só lhe quebra o socego / O mocho e a fonte ruidosa [sic]” (estrofe 56, versos 3 e 4) em “A Noiva do Sepulcro” e “O mocho pia na marmorea cruz [sic]” (estrofe 3, verso 4) em “O Noivado do Sepulcro” aludem ao som emitido pelo animal. Mocho é uma designação comum para as aves de rapina da família Strigidae, a que pertencem não só espécies diversas de mocho como de coruja, na sua maioria solitárias e noctívagas.
Na Antiguidade Clássica a coruja era associada à sabedoria por ser, na Grécia Antiga, o símbolo da deusa Atena – deusa da sabedoria. O bufo-real (Bubo
bubo), em particular, é uma espécie relativamente comum em Portugal,
especialmente em regiões do interior. Na sua Natural History (Naturalis Historia) Pliny the Elder diz que o avistamento de um bufo ou corujão (denominações comuns para diversas espécies de Bubo) pode, por vezes, constituir um mau presságio, e que é no geral uma ave funérea. Menciona ainda o facto de o som produzido pelos bufos ou corujões não ser o piar melódico de uma ave comum mas uma espécie de grito. Podemos, por isso, presumir que o piar deste tipo de animal seja aqui um elemento que reforça a componente do medo: piar esse que é ainda mais marcante devido ao contraste com o relativo silêncio da noite.93
Em “O Noivado do Sepulcro” de Passos e em “A Noiva do Sepulcro” de Herculano há ainda dois elementos naturais que surgem não como referência a espaços naturais, mas para descrever personagens. Referimo-nos à rosa e à açucena, respectivamente. Estes elementos surgem também em algumas das baladas inglesas e escocesas em apreço. É ainda de mencionar que na Natural
History de Pliny the Elder o lírio e a rosa surgem associados devido à sua
92 BUSHFIELD, 1897: 277.