Introduzida em meados da década de noventa por Gilles Fauconnier e Mark Turner, a mesclagem é uma operação cognitiva responsável pela integração conceptual entre espaços mentais. Fauconnier & Turner (2002) alegam que a mesclagem é uma operação básica, central na imaginação, em que, a partir de mapeamentos, estruturas parcialmente provenientes de espaços (inputs) são integradas de forma seletiva, originando um novo espaço chamado “mescla” – o qual pode conter propriedades emergentes. Além dos espaços inputs, participa do processo de mesclagem um espaço genérico, que é mais esquemático e atua na estruturação do mapeamento. O espaço proveniente dessa integração conceptual – o espaço mescla – é, segundo Fauconnier (1997, p.22), mais rico que seus inputs e, ao ganhar consistência, é capaz de promover uma reorganização das nossas categorias e nossa forma de pensar sobre elas. Como apontado por Croft & Cruse (2004, p. 39), a Teoria da Mesclagem
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Nossa tradução de: “(...) because of the many spaces a description may originate in, because of the many ways in which counterparts may be accessed, a given sentence does not have a fixed set of readings; rather, it has a
generative potential for producing a set of interpretations with respect to any discourse mental-space
avança nos estudos sobre espaços mentais; e seu foco é investigar “como a informação de dois espaços, construídos amplamente para incluir domínios, é combinada de forma a produzir novas estruturas conceptuais38”.
Há três importantes processos envolvidos na mesclagem: composição, realização e elaboração. A composição é o processo em que elementos são mapeados seletivamente dos espaços input e se fundem para proporcionar novos elementos e relações. A realização é a efetivação da mescla, que permite ser interpretada como um padrão mais rico. Já a elaboração responde pela simulação mental proporcionada pela mescla, possibilitando que esta seja operada dinamicamente (FAUCONNIER & TURNER, 2002, p. 48).
Fauconnier & Turner (2002, pp. 119- 135) apresentam quatro tipos de redes de integração, que citamos suscintamente. São elas: Rede Simplíssima, Rede em Espelho, Rede de Escopo Único e Rede de Escopo Duplo. As duas primeiras são redes simétricas e as duas últimas, assimétricas. A Rede Simplíssima (Simplex) pode ser exemplificada como um tipo de rede de integração que unifica harmonicamente elementos de um espaço input – como papéis em um frame – a valores dentro de outro espaço input, gerando uma mescla em que as conexões se encontrem aplicadas. É percebida em um exemplo como “Yoda é o mestre de Luke”, em que os valores “Yoda” e “Luke” são integrados em um frame organizador, assumindo os papéis de “mestre” e “discípulo”.
A Rede em Espelho (Mirror) é uma rede de integração em que todos os espaços participantes (inputs, genérico e mescla) compartilham um mesmo frame organizador e os inputs se espelham entre si, não havendo conflitos nesse tipo de rede. Um exemplo trivial e cotidiano é visto quando alguém diz “eu devia ter me escutado”: uma única pessoa se projeta em espelho estruturado por um frame de comunicação, sendo ela mesma o locutor e interlocutor em uma conversa interna.
A Rede de Escopo Único (Single-scope) apresenta dois espaços com diferentes frames estruturadores. Nesse conflito entre frames, apenas um dos espaços projeta estrutura parcial do frame na mescla. A metáfora convencional, que mapeia estrutura de um domínio fonte a um domínio alvo, é entendida como um tipo de rede de integração de Escopo Único.
A Rede de Escopo Duplo (Double-scope) também apresenta frames diferentes nos espaços input, mas – diferentemente da Rede de Único Escopo – o possível conflito nas estruturas dos frames organizadores não impede que ambos sejam projetados para integrar a mescla. Os inputs não são justapostos, e o próprio conflito proveniente da diferença de frames
38Nossa tradução: “(...) how information from two spaces, construed broadly to include domains, is combined to produce novel conceptual structures” (CROFT & CRUSE, 2004, p. 39).
produz uma integração bastante criativa na mescla, onde surge uma estrutura emergente, mais rica que seus espaços input. Diversos casos lexicais (como “cirurgião açougueiro”, “área de trabalho do computador”, “vírus de computador”) e gramaticais (como “cavar a própria cova”), foram estudados como exemplos desse tipo de rede. O diagrama a seguir (figura 3), reproduzido de Fauconnier (1997) e Fauconnier & Turner (2002), ilustra esquematicamente a operação de uma mescla integrada como Rede de Escopo Duplo:
Figura 3: Diagrama da Mesclagem
O exemplo de Fauconnier (1997) para ilustrar o processo de mesclagem subjacente à expressão “vírus de computador” permite identificar os quatro domínios envolvidos nessa integração. Há o espaço relativo ao campo da biologia, contribuído pelo léxico “vírus” e o espaço relativo ao campo da informática. O espaço genérico contribui com informações esquemáticas sobre a estrutura, que é algo comum ao vírus e ao computador. Na mescla, surge o “vírus de computador”, que é um programa nocivo ao computador, como estrutura emergente que contém informações parciais dos dois domínios principais que lhe deram origem, além de informação própria.
Coulson (2001) comenta que uma mescla pode ser empregada para mudar a saliência de um elemento, realçando ou contrastando aspectos de seu esquema original. E, referindo-se
ao uso de mesclas relacionadas a temas polêmicos39, a autora afirma que, ao recrutarem frames com forte envolvimento sociocultural, as mesclas são eficazes em evocar respostas afetivas dos interlocutores, pois parecem ter forte apelo motivacional (COULSON, 2001, pp. 200-1). Sintetizando as considerações de Coulson (2001, p. 158-161) sobre as mesclagens, concordamos que a habilidade das pessoas em integrar prontamente as informações léxico- gramaticais e construir categorias ad hoc é sugestiva do poder dos chamados conceitos temporários, que são construídos na nossa memória de trabalho, com propriedades emergentes altamente atuantes no gerenciamento do sentido.
A discussão desses processos corrobora a forte relação da experiência e da cultura na construção do sentido. Assim, os mapeamentos e integrações que fazemos, longe de parecerem acrobacias improváveis, são – conforme nos dizem Sweetser & Fauconnier (1996) – efetivados inconscientemente e de forma natural, mesmo a partir de pistas linguísticas sutis.