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III - TDA4950 - TDA8145 GENERAL DESCRIPTION

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III - TDA4950 - TDA8145 GENERAL DESCRIPTION

Rumeu (2004) apresenta uma análise variacionista de formas de tratamento de segunda pessoa do singular pautando-se na proposta de Brown e Gilman (2003 [1960]). Os dados foram extraídos de cartas oficiais e não oficiais (pessoais) escritas nos séculos XVIII e XIX no e do Rio de Janeiro, visto que houve dificuldade em estabelecer a identificação naturalidade de alguns dos envolvidos.

Foram analisadas 59 cartas pessoais escritas por homens nobres da época, sendo 30 de cada século, subdivididas ainda em 15 de circulação pública e quinze de circulação privada.

Faz-se necessário mencionar o parâmetro estabelecido por Rumeu (2004) para distinguir o que é público e o que é privado, administrativamente. Para isso, a autora se valeu de Barbosa (1999, p. 149, 150):

Devemos entender por documentos da administração colonial em circulação pública tanto aquele de caráter deliberativo oficial, quanto os de requerimento pessoal junto à estrutura de poder, em que pelo menos um dos interessados esteja na condição de pessoa jurídica ou de representação oficial de Estado. (...) Na administração privada, devem- se compreender os textos trocados entre instituições não governamentais e ou entre particulares quando um deles, ou os dois, estava(m) em condição de pessoa jurídica ou de representação

institucional. Em geral, nesse grande grupo, enquadram-se religiosos, monocultores das grandes fazendas, pecuaristas, extrativistas e comerciantes em geral.

Em suma, os textos de ordem pública correspondem àqueles que foram remetidos aos poderes no tempo do Brasil colônia e do Império. Nesse período, havia uma hierarquia nas interações sociais dos envolvidos no processo de quem escrevia para quem recebia a carta e o assunto era puramente oficial. Os textos privados, por sua vez, apresentam características que dizem respeito aos interlocutores; são assuntos de ordem pessoal ou social.

Para fazer a pesquisa, a autora procurou dados de formas nominais e pronominais de tratamento, e selecionou os seguintes grupos de fatores extralinguísticos: (i) distribuição temporal (cartas dos séculos XVIII versus cartas do século XIX); (ii) tipo de texto (cartas oficiais versus cartas não oficiais); (iii) relação estabelecida entre os missivistas, pautada na semântica do poder e solidariedade (cf. Brown e Gilman (1960))

Foram recolhidas 551 ocorrências de formas de tratamento de segunda pessoa do singular, sendo 371 (67%) no século XVIII e 180 (33%) no século XIX. As formas de tratamento encontradas foram: Vossa Excelência, Vossa Mercê, Vossa Senhoria, Vossa Majestade, Senhor, Vós, Tu e Você. O SENHOR foi empregado em cartas oficiais e não oficiais e VOCÊ apenas em cartas não oficiais. Embora a maioria dos dados de TU tenham ocorrido em cartas não oficiais, como esperado, dada a sua ligação com a informalidade, houve um dado em uma carta oficial.

Em se tratando das relações de poder/assimetria e solidariedade/simetria, Rumeu (2004) utilizou uma distinção proposta por Lopes (2001), a fim de identificar como se deram as relações sociais de inferior para superior (assimetria ascendente); de superior para inferior (assimetria descendente) e as relações entre membros com o mesmo status, que, nesse caso, foram pessoas pertencentes a uma classe social alta (simetria).

Descrevo aqui somente os resultados relativos a TU, VOCÊ e O SENHOR, alvos desta tese. No século XVIII, os resultados para VOCÊ foram: (i) 94% de ocorrências na relação de superior para inferior; e (ii) 6% na relação simétrica. Por sua vez, TU contou com as seguintes taxas: (i) 92% nas relações simétricas; e, inesperadamente, (ii) 8% na relação de inferior para superior. Por fim, O SENHOR

teve distribuição equilibrada: (i) 32% dos dados na relação de inferior para superior; (ii) 35% na relação de superior para inferior; e (iii) 32% na relação simétrica.

No século XIX, VOCÊ teve o padrão de uso bastante alterado, aparecendo apenas na relação simétrica. TU manteve sua ligação com a relação simétrica, desta vez com 100% das ocorrências. O SENHOR deixou de aparecer na relação de superior para inferior, distribuindo-se similarmente nas relações de inferior para superior (48%) e simétrica (52%).

Rumeu (2008) analisou 170 cartas pessoais trocadas entre 1877 e 1948 por membros cultos da família Pedreira Ferraz-Magalhães, nascidos no Rio de Janeiro, mas que passaram a residir em outras regiões do Brasil e do mundo. O objetivo da pesquisa foi investigar o processo de inserção do VOCÊ no quadro pronominal do português brasileiro e sua concorrência com o TU.

Vários dos missivistas eram bacharéis: João Pereira do Couto Ferraz, Jerônimo de Castro Abreu Magalhães, Fernando Pedreira de Abreu Magalhães, Jeronimo Pedreira de Abreu Magalhães (padre Jerônimo). As filhas do casal Zélia Pedreira de Abreu Magalhães e Jerônimo de Castro Abreu Magalhães eram freiras e, tendo em vista a vocação escolhida, a autora classifica as religiosas como cultas, já que todos os membros da família tiveram contato com a cultura literária, musical e linguística.

Trinta cartas íntimas foram separadas para averiguar o comportamento das formas TU e VOCÊ. Trata-se de correspondências trocadas entre irmãos, pai e filhos, mãe e filhos, avô e netos, divididas em três fases: (i) de 1877 a 1897; (ii) de 1898 a 1923; e (iii) 1924 a 1948.

Foram controlados como grupos de fatores extralinguísticos o sexo dos informantes, a faixa etária e os remetentes. Apresento na tabela a seguir apenas os resultados para TU e VOCÊ.

Tabela 1: Distribuição geral das ocorrências de P2 (tu) e P3 (você) em cartas oitocentistas e novecentistas da família Pedreira Ferraz – Magalhães – todos os dados

FORMAS DE P2 (TU) E P3 (VOCÊ) EM CARTAS PESSOAIS OITOCENTISTAS E NOVECENTISTAS

FORMAS DE P2 (TU) FORMAS DE P3 (VOCÊ) TOTAL

Oco % Oco % Oco %

331/496 67% 165/496 33% 496/496 100% Fonte: Rumeu (2008, p.123)

Houve 496 ocorrências, sendo 67% de TU e 33% de VOCÊ. Os resultados corroboram a preferência pelo TU em situações íntimas já observada em outros trabalhos. Quanto à frequência do VOCÊ, a autora acredita que sua implementação já estivesse em curso, com 33% das ocorrências.

No que tange ao sexo e à faixa etária, Rumeu (2008) obteve os resultados expostos a seguir:

Tabela 2 : Cruzamento dos grupos de fatores gênero e faixa etária em relação à produtividade das formas de P2 (Tu) e de P3 (Você) nas cartas oitocentistas e novecentistas da família Pedreira Ferraz Magalhães.

OS MISSIVISTAS EM RELAÇÃO AO GÊNERO E À FAIXA ETÁRIA

FORMAS DE P2 (TU) FORMAS DE P3 (VOCÊ) TOTAL

OCO. % OCO. %

OCO./(%) TOTALPOR

GÊNERO

Homem Jovem (1) (de 14 a 30 anos) 29/32 91% 03/32 09% 32/157

(21%) 157/496 (32%) Homem Adulto (2) (de 31 a 50 anos) 66/71 93% 05/71 07% 71/157

(45%) Homem Idoso (3) (mais de 51 anos) 44/54 81% 10/54 19% 54/157 (34%) Mulher Jovem (1) (de 14 a 30 anos) - - 34/34 100% 34/339

(10%) 339/496 (68%) Mulher Adulta (2) (de 31 a 50 anos) 14/68 21% 54/68 79% 68/339

(20%) Mulher Idosa (3) (mais de 51 anos) 178/237 75% 59/237 25% 237/339 (70%)

TOTAL 331/496 (67%) 165/496 (33%) 496/496

Fonte: Rumeu (2008, p 141)

Houve alta produtividade do TU, o que, de acordo com Rumeu (2008), se deve ao fato de que os resultados saíram de cartas escritas por homens. Já o VOCÊ, manifestou-se em missivas escritas por mulheres, excetuando a mais idosa, que preferiu o TU, tendo sido responsável pela maioria dos dados desse pronome.

Os resultados para o fator sexo, tanto para o TU quanto para o VOCÊ, reforçaram a hipótese laboviana (1990) de que, em processos de mudança, os homens tendem a mais conservadores em relação à língua, enquanto as mulheres lideram a mudança. Na amostra de Rumeu (2008), elas deram

preferência ao VOCÊ e eles ao TU. Apenas uma das mulheres, a mais velha, foi resistente à implementação do VOCÊ, dando preferência ao TU.

Com relação ao controle da hierarquia social, Rumeu (2008) considera apenas membros de uma família, o que não permite a observação do tratamento dado a pessoas não próximas. Outra observação importante é que não há dados contabilizados na pesquisa de cartas escritas do filho para o pai, em que seria esperado maior recorrência de O SENHOR, pronome mais polido, usado para pessoas mais velhas, quando em situações que exigem respeito.

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