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Através de diferentes abordagens, vários pesquisadores concentraram seus interesses acadêmicos no estudo do carnaval carioca. Os desfiles das escolas de samba foram apresentados como rituais de inversão, instrumento de cooptação ideológica por parte do Estado, reflexo de diferentes contextos político-nacionais, etc. Por outro lado, o espaço urbano carioca, alicerce de toda a saga destas agremiações, sempre foi um elemento secundário nas abordagens destes acadêmicos. A busca incessante de vinculação das escolas de samba à identidade nacional, transformando-as em um símbolo, uma referência do Brasil no exterior, fizeram com que a maioria dos estudos sobre escolas de samba partisse da análise da sociedade brasileira através do carnaval, desvinculando-as de seu lugar mais imediato.

Ao analisar a evolução da festa carnavalesca no Rio de Janeiro percebemos mudanças significativas ocorridas nesta festa ao longo do tempo. No entanto, esta dinâmica não pode ser analisada de forma desvinculada do contexto político- ideológico do momento histórico em que se insere. Procurarmos mostrar no capítulo “O Rio de Janeiro e o Carnaval”, ainda que de forma sucinta, o contexto da urbanização carioca no qual surgiram os ranchos, os corsos, as grandes sociedades, os bailes de máscaras, ou seja, os grandes símbolos do carnaval de outrora.

Os cariocas, por sua vez, se aproveitaram das manifestações culturais para reivindicar, implicitamente, sua condição de cidadão, no sentido de estar inserido em uma comunidade. Comunidade esta, que não está desvinculada da cidade, uma vez que a compõe e depende desta para a sua própria sobrevivência, portanto, não podendo ser esquecida pelo poder público.

O enraizamento do ser humano ao lugar – seja qual for a escala, ou nível de

pertinência – revela-se extremamente útil na análise do mundo atual, e um

interessante viés no estudo da metrópole da contemporaneidade, pois pode contribuir nas atividades de planejamento urbano, buscando uma melhor inserção do cidadão no seu espaço vivido. A busca de visibilidade e a construção de novas identidades sócio-espaciais são elementos que ajudam a entender esta metrópole cada vez mais fragmentada, porém não menos articulada (CORREA, 1999).

Na contramão dos estudiosos do tema do carnaval, nos direcionamos para os grupos de acesso do carnaval carioca. Tivemos o prazer de estar em contato com comunidades que se unem para um dia verem seu lugar representado no sambódromo e, dessa forma, torná-lo visível para toda a cidade, e para o mundo.

Pudemos perceber que os sambistas, de um modo geral, não ficam presos ao seu espaço vivido, mas sim possuem uma forte consciência de pertencer a um lugar e se utiliza deste pertencimento na construção de sua identidade individual e coletiva, útil não só culturalmente, mas na busca de visibilidade/poder. Extrapolam as fronteiras imaginárias de seu espaço vivido para se exibir e confrontar com o restante da cidade, e essa estratégia foi utilizada desde os sambistas mais boêmios e pacifistas até os contraventores do “jogo do bicho”, cuja história, por vezes, se confunde com a própria história do carnaval.

A principal referência para um sambista é a sua comunidade, termo que adquire uma conotação não só psicossocial, mas também espacial, uma vez que esta comunidade ocupa um local específico no espaço urbano. O lugar onde se

encontra a sede da escola de samba e onde habitam os componentes desta escola representa a base territorial desta comunidade. O momento do desfile é o momento do confronto pacífico entre os lugares. Confronto este, presente historicamente no mundo do samba, como nos versos de “Palpite Infeliz”, de Noel Rosa:

Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira, Oswaldo Cruz e Matriz, que sempre souberam muito bem que a Vila não quer abafar ninguém. Só quer mostrar que faz samba também

Pudemos perceber também que, ainda que a festa carnavalesca se apresente como cada vez mais lucrativa para o poder público, a palavra dos sambistas ainda não conseguiu alcançar o planejamento urbano. O desfile das escolas de samba dos grupos de acesso foi arbitrariamente deslocado do Centro para a Zona Oeste da cidade, o que resultou em maior dificuldade de deslocamento e de presença de público para estas escolas que já preparam seus desfiles com poucos recursos. As escolas de samba do grupo de acesso B, por sua vez, não conseguiram junto à Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro o direito de desfilar no sambódromo na sexta-feira, véspera de carnaval, pois a prefeitura alega dificultar o trânsito das pessoas que estão saindo da cidade para passar o carnaval em outras localidades. Enfim, falta no planejamento urbano do Rio de Janeiro ouvir quem de fato é o dono da festa.

mantêm viva a cultura do samba em tempos de globalização, seja qual for o seu lugar no mundo.

As críticas ao carnaval carioca, certamente, irão persistir. A presença de celebridades e de pessoas de outras regiões do país nas escolas é um fator que só acaba contribuindo na sobrevivência da própria festa, que ainda continua contando com a presença dos amantes da folia, como bem nos lembra Valença (1996, p.94):

O amante do carnaval sempre encontrará um pretexto para participar da folia, sempre achará nele alguma coisa apaixonante a comentar e a aproveitar. Amar o carnaval é dar a ele uma adesão irrestrita, incondicional e irracional. Quase sempre quem não consegue mais gostar dele nunca o amou de verdade.

Há quem não consiga enxergar que a base de uma escola de samba está na força da batida fiel de um componente da bateria, na leveza da porta-bandeira ao carregar o pavilhão da escola, nos foliões que desfilam nas escolas dos grupos de acesso sem a presença de público ou mídia. Estes cenários são próprios dos muitos lugares que existem na metrópole carioca, onde a força do carnaval reflete a força do lugar. A sobrevivência da cultura do samba na cidade dos cariocas e a identidade sócio-espacial dos sambistas com suas comunidades fazem o Rio de Janeiro das escolas de samba se apresentar repleto de significados e valores, de cooperação e conflito, de experiências e práticas; portanto, um lugar por excelência.

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