A situação das sociedades muçulmanas pobres caracteriza-se pela ausência de equilíbrio do poder político na atividade econômica. Em decorrência, a conceituação destas com o “emprego de expressões generalizadas e imprecisas tipo “subdesenvolvimento”, países “dependentes”, “periferia”, “terceiro mundo” etc., como sinônimos, é proposital”(231).
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(228) Idem (nota 227), p. 41.
(229) Seyyed Hossein Nasr: O significado espiritual do Jihad (nota 58), pp 269-270. (230) Mustafa Yazbek (nota 227), p. 45
(231) João Maurício Leitão Adeodato: Uma teoria (emancipatória) da legitimação para países subdesen- volvidos. Anuário do Mestrado de Direito. Recife: Centro de Ciências Jurídicas, UFPE, Faculdade de Direito do Recife. Número 5, 1992, p. 207.
Nesse sério panorama, a nova geração muçulmana enfrenta vida dura e cheia de provocações, na corrida desenfreada para tornar-se reconhecida como produtiva. Esse comportamento social diante de um quadro realista, que indica a inferioridade perante as potências mundiais, encontra nos princípios da fé o viver ideal e nobre a manifestar-se contra o vácuo da fome, a tendência perigosa das drogas e das doenças. Nas últimas décadas, enquanto a Europa e os Estados Unidos da América cresciam, o mundo muçulmano ficava empobrecido, apresentando uma face alarmante, conseqüência da deficiência no crescimento produtivo, afetando o setor social que requer atendimento às necessidades básicas.
A contínua exploração internacional provoca paradoxalmente um aumento na resistência e na unidade da população árabe, levando, inclusive, a uma perda de qualidade de vida, devido ao excesso de horas de trabalho. Surgindo como conseqüência moral a necessidade da valorização e humanização da vida. De maneira que milhares de muçulmanos entre médicos, engenheiros, advogados, pequenos comerciantes, agricultores, carpinteiros etc., fugiram de países como o Marrocos, Argélia, Tunísia e Turquia, fixando- se na Europa, porque seus países não lhes permitiram meios adequados de sobrevivência.
No Marrocos, a política do rei Al Hassan (falecido em 1999) provocou a fuga de milhares de cidadãos, haja vista a precariedade de vida e a escassaz de emprego. A má situação e o descuido em atender às reivindicações da população, foram responsáveis por centenas de mortes por afogamentos nos acidentes de barcos superlotados na travessia do estreito de Gibaltrar, com destino à Espanha. Os que foram detidos sofreram severas punições. Para a marroquina Saadi Jimije, “o primeiro ministro Abdul Rahman Al Yossef e o rei Mohammad VI (filho de Al Hassan) têm fortes ligações com a pobreza e são contra a exploração capitalista. Pela primeira vez, a população marroquina e a monarquia estão juntas”(232).
No entendimento de Olivier Carré, os marroquinos não gostavam “da política nem do governo de Al Hassan, por estar fora da moral islâmica, o plano de economia ruim e a França, ao colonizar o Marrocos, expandiu os costumes europeus no seio do povo, sendo seguido pelo governo, encontrando dificuldade de levantar a economia e o nível social de vida do povo marroquino, que tem lutado para mudar o sistema e ter pro-
gresso”(233).
Dessa mesma deficiência social sofre o argelino. “O governo não usa a lei islâmica que é importante para o povo. O colonialismo francês acabou completamente com o Estado da Argélia. Obrigou o povo a deixar suas propriedades, tomou suas terras e destruiu os chefes religiosos, mudando o idioma e a cultura. Mas os muçulmanos lutaram contra a França até ganhar a liberdade”(234).
Nesse ponto, discordamos de Olivier Carré, porque a liberdade ainda não é completa. O povo argelino sofre com a fome, o genocídio e a indiferença internacional. Diante da intolerância governamental, salva-se por seu próprio esforço, concentrando alianças fraternas que denunciam as organizações internacionais que ampliam o poder de mercado e violam os direitos humanos. Defendem-se das provocações, mesmo sabendo
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(232) Saadi Jimije: Entrevista. Salvador: 4.3.2000.
(233) Olivier Carré: L’Islam et l’état. Trad. para o árabe: Serviço de Informação do Egito – Org. Gilbert Granjuon. Cairo: Serviço de Informação do Egito, 1991, p. 41.
que : “fortes políticas recessivas serão impostas aos países periféricos, aumentarão nossa fome e miséria... e seremos culpados por ter vontade de comer”(235). Com isso, cresceram as manifestações populares, as passeatas, as greves. As populações muçulmanas pobres apoiam de forma total os grupos de resistência. Para eles, não há outra alternativa, senão resistir à expropriação da terra, aos descasos dos governos, às invasões dos territórios e à conspiração capitalista.
Esses grupos de resistência transformaram-se em instrumentos de constantes preocupações governamentais, que condenam tais organizações minoritárias e apoiam as autoridades estrangeiras. Não prometem suavizar as desigualdades sociais reinantes,
mas multiplicam a segurança ao rendimento do lucro capitalista, que desfruta de maior parte da renda de alguns países de maioria muçulmana. “Nos Estados Unidos, a partir de 1959, tomaram uma série de medidas tendentes a obrigar os países por eles auxiliados a efetuar suas compras de fornecedores americanos. Calcula-se que 80% do auxílio americano ao exterior é dispensado nestas condições”(236). Situação que oferece um lucro maior do que a ajuda prestada. Por muito tempo, alguns países muçulmanos sofreram esse tipo de escravidão.
A disparidade que conflita é a existência de uma opulenta nação a explorar a pobreza, da qual não tem mais o que tirar. Há uma grande injustiça. O Oriente Médio encontra, hoje, inúmeros problemas: pobreza, falta de habitação, desemprego, imigração e projeta-se em alguns governantes a escalada do materialismo. Como não se inquietar perante tantos conflitos? Os povos muçulmanos que vivem em guerra na época atual são aqueles que já vinham lutando contra o colonialismo estrangeiro, contra o subdesenvolvimento e as injustiças seculares.
Eles sabem que suas reservas de alimentos necessitam de eficiência na produtividade, a fim de melhorar o desequilíbrio, pois há regiões em que a produção de alimentos não alcança a quantidade suficiente para matar a fome dos habitantes. No entanto, os países desenvolvidos impedem ou criam obstáculos ao desenvolvimento econômico dessas regiões, dispondo no mercado produtos a preços mais baixos que os regionais.
O modo como o Oriente Médio é tratado pelos capitalistas ocidentais determina à massa muçulmana não abrir mão da autodeterminação, desenvolvendo-se politicamente. Reivindicar, através da mobilização dos grupos, desperta a consciência para o exercício da cidadania e exercê-lo de acordo com a Shari’ah Al Islamia.
Atualmente, essa gente tem necessidade de garantir a ordem jurídica islâmica com a preservação dos direitos do cidadão, considerando o retorno aos preceitos de conduta social islâmica uma necessidade premente. A nosso ver, é o espaço público islâmico que está faltando, para permitir ao cidadão opinar sobre os mais variados assuntos que podem ser importantes, tanto para a economia, como para o bem-estar social.
No dizer de Vera da Silva Telles: “Dramatiza grandemente a questão social em um país no qual transformações e modernizações se processam em ritmo avassalador, sem que tenha conquistado mínimos de igualdade civil e social”(237).
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(235) Luis Albert Warat: Manifestos para uma ecologia do desejo. São Paulo: Editora Acadêmica. 1990, p.115.
(236) Galache (et Allii): Uma escola social. São Paulo: Edições Loyola. 1968, p. 98.
(237) Vera da Silva Telles (et Allii): Anos 90, política e sociedade no Brasil. Org. Evelina Dognino. São Paulo: Editora Brasilense, 1994, p. 96.
Por buscar condições humanas para o povo, freqüentemente o Islã é visto como extremista. Isso requer que caminhemos entre a realidade da sua essência ideológica e as manifestações dos grupos islâmicos, que proporcionam aos pobres o direito de defesa; por isso mesmo é mal compreendido e tachado de terrorista.