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Identifier les rationalités sous-jacentes aux comportements de JHA 111 

Chapitre 6 – Conclusion générale 107 

6.4. Identifier les rationalités sous-jacentes aux comportements de JHA 111 

A única liturgia que Lutero conhecia, e bastante bem, como já se disse acima, era a liturgia romana, a Missa. Incontáveis vezes tomara parte dela, quer como fiel, quer como celebrante. Os passos da cerimônia, conforme descreveu Schott (1943, p. 444-447), lhe eram absolutamente familiares: o Initium Missae Solemnis, quando o sacerdote e seus acólitos aproximavam-se do altar; o Confiteor, consagrando o sacerdote e seu ministrante para a celebração que dirigirão, momento no qual confessavam seus pecados um ao outro e os absolviam, também um ao outro; o Introitus; o Kyrie; o Gloria in Excelsis; a Coleta; a Epístola; o Gradual; o Evangelho; o cântico do Credo Niceno; a oração de Ofertório, quando a hóstia era oferecida a Deus; a Secreta (oração silenciosa); o Prefacium (trecho iniciado com o

Dominus Vobiscum e concluído com o Sanctus); o Cânon da Missa com suas preces (em favor da Igreja, ou pelos santos apóstolos e mártires, pela “aceitação graciosa” e pela consagração do Ofertório que logo será feito, pelas palavras da Instituição e o ofertório da Oblação, pela morte que havia de ser bem aventurada pela oferta da missa,...); vinha então a preparação para a Comunhão (do Paternoster até o Pax Domini); a Fração (o cerimonial de quebra da hóstia em três partes, simbolizando o sofrimento e a morte de Cristo); a Commixture (depósito de pequena porção da hóstia no cálice, símbolo da reunião do corpo de cristo com seu espírito, ocorrido na Ressurreição); as Orações da “Pré Comunhão” (o Agnus Dei e várias Coletas); a Distribuição; a Oração da Comunhão; a Coleta de Pós Comunhão e o Ite, missa est; a Oração de Conclusão; a Benção e o Evangelho final (Jo 1:1-14). Tudo isso compondo um cerimonial altamente elaborado: genuflexões, ósculos, uso de velas, incenso, vestimentas, paramentos, objetos... Acima de tudo, conectando todas as partes da cerimônia, a música (o “canto gregoriano”), sempre presente, elevando-se, mística e majestosa pelas abóbadas do templo.46

Era esse o culto que Lutero conhecia e para o qual fora longa e eficientemente preparado. Talvez também por isso hesitasse em desprezar tudo o que aprendera a respeitar e amar. Schwiebert (1950, p. 665, tradução nossa) afirma: “Lutero, como outros, ficava impressionado com sua refinada arte [da missa romana], pois tinha um espírito estético, e hesitava em descartar toda a beleza e a arte quando transformou a Missa Romana no Culto Luterano.”

Lutero talvez hesitasse mas não tinha escolha pois não queria comprometer a verdade do Evangelho, que ele descobrira, e a doutrina central da justificação pela fé. Em seu panfleto Sobre a Ordem do Culto Público de 1523, Lutero (apud LEUPOLD, 1965, p. 11, tradução nossa) identifica três imperativas razões para reformar a Missa Romana:

46 Talvez devêssemos lembrar que ainda hoje, e mesmo após o Concílio Vaticano II, uma celebração tradicional

da missa contém basicamente essas mesmas partes Cf. CECHINATO, Pe. Luiz. A Missa parte por parte. Petrópolis: Vozes, 1982.

Há três sérios abusos no serviço litúrgico. Primeiro, a Palavra de Deus foi silenciada e só permaneceram leituras e cânticos nas igrejas. Este é o abuso mais grave. Segundo, quando a Palavra de Deus foi silenciada, uma multidão tão grande de fábulas e mentiras pagãs, lendas, hinos e falas foram introduzidos que é horrível de se ver! Terceiro, tal serviço litúrgico é feito como um ato pelo qual a graça de Deus e a Salvação podem ser ganhas. Como resultado, a fé desapareceu...

Ele não quis reformular a missa totalmente, mas transformar aquilo que julgava ser incoerente com a sua teologia. Com a concepção do culto como beneficium, Lutero quis modificar a visão de que a liturgia era para ser "ouvida" por leigos e "executada" por profissionais. Era preciso instruir o povo e proclamar a Palavra de Deus no ofício divino. Por isso uma congregação de cristãos jamais devia congregar-se sem a pregação da Palavra de Deus e sem a oração, não importando quão breve ela fosse.

Com o crescimento do ímpeto reformatório, grande confusão resultou quanto à liturgia e ao culto entre os protestantes. O prelado Kantz, Primaz em Nordlingen, no sul da Alemanha, preparou uma revisão da Missa. Karlstad47 promoveu mudanças radicais em Wittenberg. Novas ordens litúrgicas surgiram em Basiléia, na Suíça. Muitos sacerdotes passaram a omitir partes do Cânon e substituir orações evangélicas. Reed (1948, p. 71) retrata bem esse momento: “Confusão e incerteza reinavam por todo lugar. Pedidos para que Lutero esboçasse uma ordem [litúrgica] tornaram-se insistentes”.

Em dezembro de 1523 Lutero respondeu com seu pequeno panfleto intitulado Formula Missae et Communionis. Nele esclareceu o princípio que o conduziu para a reforma da liturgia da Missa (apud LEUPOLD, 1965, p. 20, tradução nossa):

Não é nossa intenção agora, nem nunca foi, abolir completamente o serviço litúrgico de Deus (cultus dei), mas

47 Karlstadt, que se chamava Andreas Bodenstein, e nascera em Karlstadt – daí o apelido – ex-aluno de Lutero,

assumiu a direção do movimento reformatório em Wittenberg enquanto Lutero se encontrava no castelo Wartburg. No inverno de 1521/22, Karlstadt escreveu e publicou livreto com o título “Da Eliminação das Imagens”. Karlstadt tomou posição não somente contra esculturas, mas contra pinturas, a nova tendência na arte do Renascimento e da Reforma. Há autores que consideram Karlstadt o primeiro puritano.

antes purificar esse mesmo que aí está em uso, das infelizes excrescências que o corrompem e excluem seu uso evangélico.”

Lutero passara a pregar regularmente a Palavra de Deus nos cultos e eliminara da missa as seções de orações e comemorações que enfatizavam a idéia de sacrifício e culto aos santos (o Ofertório e o Cânon). O restante do serviço ele conservara inalterado e ainda em latim, apenas acrescentando o cântico de hinos em alemão pela congregação. É que, apesar de saber que mudanças litúrgicas eram necessárias, Lutero preocupava-se com as pessoas. Ele preocupava-se com o fiel, com o ser humano que participava dos cultos. Repetidamente, tanto em sua Formula Missae e em sua Deutsche Messe ele expressa essa preocupação (apud LEUPOLD, 1965, p. 61, 80, 36, tradução nossa):

Eu não quero fazer inovações só por serem inovações. Hesito e tenho receio, em parte por causa dos mais fracos na fé, que não conseguiriam mudar uma antiga e habitual ordem de culto para uma nova e desconhecida.

Na igreja nós não queremos matar de tédio o espírito do fiel. Cuide para que o povo nem se entedie por muitas repetições da mesma coisa ou se confunda pelas muitas mudanças dos cânticos e lições.

Não podemos deixar que alguém faça de um jeito um dia e que outro de outro jeito num outro dia, permitindo que qualquer um desfile seus talentos e confunda as pessoas de tal forma que elas nem entendam nem retenham nada!

Também por isso Lutero conservou partes da missa em latim, mesmo tendo sido considerado por Karlstadt como “neopapista”. É curioso como esse comportamento de Lutero, o de respeitar os limites do povo, é semelhante ao de Calvino em Genebra, quando se decidia sobre a freqüência da celebração da Ceia do Senhor. O povo genebrino se habituara a celebrá- la algumas poucas vezes no ano e Calvino queria celebrá-la todo mês. Mas decidiu abrir mão da sua vontade, respeitando o povo, o que assim explicou: “Teríamos desejado partilhar da Ceia do Senhor todo mês mas, quando descobri quão poucos se permitiam convencer disso,

pareceu-me melhor poupar a fraqueza da fé do povo do que lutar obstinadamente contra ela.” (Calvino, apud BAIRD, 2001, p. 28).

Lutero não buscou um total rompimento com a igreja romana pois entendia que algumas boas coisas tinham de ser preservadas e que outras podiam ser preservadas para que os fiéis, seguidores de suas revolucionárias idéias, ainda tivessem pontos de identificação com a expressão da fé como conheciam até então. Maduro (1981, p. 181-182) fala da importância de uma inovação religiosa manter ao menos alguma continuidade com as tradições antigas:

Para que uma inovação religiosa se constitua efetivamente em elemento dinamizador da autonomia religiosa de uma classe subalterna, é mister que essa inovação [...] consiga conservar certa continuidade com as tradições da mesma classe (e, sobretudo, com as tradições religiosas dessa classe). Tal continuidade pode possibilitar que essa inovação religiosa se comunique, se difunda, provoque adesões e gere uma mobilização coletiva em torno da mesma.

Blankenburg (1979, p. 121, tradução nossa) afirma que “Lutero não queria ofender os ‘fracos na fé’, aqueles que não estavam prontos para acolher transformações drásticas.”

Mas havia muito trabalho a fazer. A liturgia se tornara monopólio de especialistas, tornando-se exageradamente elaborada. Um grande número de livros litúrgicos tinham de ser coordenados para a celebração completa do complicado ritual. Às vezes dava mais trabalho achar o que devia ser lido do que ler o que devia ser lido! Só que “...quando a liturgia se torna tão complicada que apenas os técnicos no assunto podem manuseá-la, e os leigos não têm participação eficiente nela, então [...] cessa de ser liturgia.” (SHEPHERD, 1957, p. 101).