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Já em 1977 houve noticiais desencontradas em Itá sobre projetos de barragem na bacia do rio Uruguai. Para a maioria da população da sede do município, a desconfiança de que “algo estava errado”, fortalecia-se na medida em que aumentava a movimentação de técnicos, principalmente quando estes vinham com helicópteros, aparelhos de grande curiosidade nos municípios do interior.

Num determinado dia baixou um helicóptero que trouxe algumas pessoas, não sei porque vieram de helicóptero, a gente não sabe isso, mas com certeza algumas pessoas com mais poder de decisão, dentro da Eletrosul, diretores, e ai então que a coisa começou a criar expectativa na cidade. (Egídio Paludo, ex-prefeito de Itá).

Já os agricultores, mais distantes da cidade, permaneciam à margem destas informações, percebendo algo quando de suas idas na sede do município ou quando da visualização de estranhos nas suas comunidades, conforme relato de um integrante do MAB:

Morava junto com meu pai. Ele ficou decepcionado porque eles vieram, avançaram por dentro da área de terra dele lá sem pedir licença pra ninguém, não pediram licença pra mim demarcar a área e medir, mediram tudo, derrubaram milho dobrado e coisa pra lá. Só que daí, ninguém falava

nada, meu pai disse: vai fazer o quê? Vai pra cima deles? Vai tocar o quê que é? Porque todo mundo fica quieto, todo mundo, ninguém falava nada. Daí ficou naquela. Foram medindo, avançando e tal só depois que nós fomos descobrir que era por causa da barragem que eles tava medindo as coisas.

O primeiro a receber oficialmente a notícia da construção da barragem de Itá foi o prefeito da época, que a repassou a seu círculo de apoio. A maioria da população, notadamente os setores mais pobres e menos influentes na política local, continuavam sem informação, descrentes dos boatos que circulavam e descrédulos da possibilidade de Itá ser alagada, dada a altura e distância que a cidade se encontrava em relação ao Rio Uruguai. Segundo Peixer:

A notícia da construção da barragem, no início de 1979, e a perspectiva de não alagar a sede é de conhecimento de apenas alguns segmentos como comerciantes, setor administrativo, profissionais liberais e algumas pessoas do setor educacional. O acesso a esta informação relacionava-se à proximidade que estes segmentos possuíam com o setor administrativo do município. (PEIXER, 1993 p. 23).

Peixer relata também a estratégia inicial da Eletrosul para conquistar o apoio da população de Itá à construção da barragem:

A estratégia utilizada pela empresa era, no primeiro momento, não liberar todas as informações e dados sobre a área e sobre o projeto. Em um segundo momento, liberou as informações e, simultaneamente, fez um trabalho de marketing, de venda de um produto, informando sobre o “progresso” que viria para a região e sua inevitabilidade. (PEIXER, 1993 p. 25).

Primeiro a Eletrosul informou que a cidade não seria alagada e destacou as vantagens para o município que poderiam ser obtidas com a obra. Neste momento se dirigiu principalmente para determinados grupos de maior influência no município. Somente depois, a empresa comunicou que a cidade também seria alagada. Desta forma, Itá viveu um primeiro momento de euforia, pois a elite econômica local já havia criado expectativas de progresso. De fato, o ex-prefeito Egídio Paludo, que na época era um pequeno empresário em Itá, assim relatou como foi “convencido”:

Eles já definiram para nós que já tinha projeto e não tinha como diminuir o tamanho da usina porque tinha que aproveitar a queda do Rio Uruguai e aproveitar o volume d’água, enfim, convenceram os mandantes do município da época que a usina era intransferível e era, como precisava para o progresso do país, a energia elétrica e assim por diante, enfim, convenceram.

Esta estratégia foi aos poucos, minando as possibilidades de resistência, ao mesmo tempo em que formou no local, uma base política de apoio ao projeto. Em fins de 1979, a Eletrosul tornou pública a notícia do alagamento da cidade de Itá. Mais uma vez, poucos indivíduos tomaram conhecimento da notícia logo no início. Segundo Peixer, esta foi repassada apenas para um pequeno grupo de pessoas, lideradas pelo prefeito, que se dirigiram a Eletrosul para solicitar ajuda ao município a fim de adaptar a estrutura para atender às demandas de construção de uma barragem. Nossa pesquisa registrou versão parecida de como a notícia da inundação chegou a Itá, através de reunião com “lideranças” convocada pelo prefeito.

Numa determinada noite, acho que foi final de novembro, dezembro de 79, o prefeito convocou ali as lideranças da cidade, que deu em torno de umas 50, 80 pessoas. Num determinado momento da reunião, um dos diretores que estava presente, anunciou na comunidade que será feita a usina, tem projeto e que a grande surpresa, mas hoje ou mais amanhã vocês vão ter que ficar sabendo, porque nós vamos ter que programar junto com vocês um grande trabalho para Itá. E aí nesse momento ele falou, “a cidade será coberta pela água do Rio Uruguai, será inundada pela Usina”. (Egídio Paludo) Quando a certeza do alagamento sai dos círculos da elite e chega à população da cidade de Itá em geral, o sentimento é de desespero, principalmente com a sentença de inevitabilidade e irreversibilidade transmitida e reafirmada pelo prefeito e pelos comerciantes à população, demonstrando o acerto da estratégia da Eletrosul que na época nem sequer concessão oficial para construção da UHE Itá havia conseguido, quanto mais uma fonte segura de recursos disponíveis. No caso da concessão oficial, só foi conseguida em 03 de março de 1981, e os recursos para construção da obra só vieram com força na segunda metade da década de 1990, ou seja, mais de 15 anos depois de anunciada a inevitabilidade, pelo prefeito e comerciantes. Porém, considerando a barragem “irreversível”, a população não encontra respaldo nas lideranças locais para se posicionar contra, e nem se considera no direito de decidir pela aceitação ou não da construção da barragem.

Nas áreas de Itá mais distantes da influência do pequena elite local que circulava em torno da prefeitura e que se encarregou de disseminar a utopia do progresso, a história era outra. As notícias dos impactos das grandes usinas hidrelétricas em construção pelo país, logo chegaram na região, os atingidos por Itaipu inclusive, gravaram depoimentos sobre o drama

que viviam, ou vieram fazê-los pessoalmente na barranca do rio Uruguai. Estes fatos, aliados a atuação dos “mediadores” possibilitou a percepção das perdas que a população teria com a construção das barragens. Além disso, as informações vagas, inadequadas e ambíguas sobre os critérios para as indenizações e reassentamento, ou simplesmente, a falta destas informações, gerou incerteza e angústia na população da região, que resultaram na resistência organizada à barragem.