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Section 2 – Progrès substantiels sur des facteurs de succès des IG

B. Identification des IG

Na produção do saber apropriado, consideramos os fundamentos ou raízes desse processo a cultura camponesa – sua permanência e mudança – e a

tecnologia de produção do café (orgânico e sat) articulados nos seguintes princípios: promoção da vida, protagonismo dos agricultores, fortalecimento da agricultura familiar, cosmovisão, reciprocidade, solidariedade, dignidade, justiça e democracia.

A cultura camponesa comporta o princípio da reciprocidade no qual o ato de dar-receber-retribuir (dar) espalha-se nas práticas de produção do saber apropriado que está implicado nas relações dos sujeitos entre si, com a terra, a planta e os frutos. É possível compreender o processo de produção do saber tendo em vista a dinâmica do princípio de reciprocidade. Práticas da cultura camponesa permanecem porque mudam; vividas pelos agricultores associados passa por adoções e rupturas dentro da dinâmica de produção do saber apropriado.

O passado e o futuro são tempos entrecruzados no tempo presente, mediatizados pelo conhecimento humano, afinal o passado e o futuro só existem como interpretação humana. O presente é constituído da ação concreta possível. A preservação ambiental teve sua nascente na avaliação dos “erros” do passado e na previsão de suas conseqüências no futuro. O futuro se torna real, previsível - no presente - nos resultados vividos no cotidiano do aqui e agora.

A reciprocidade articula outro princípio, o da ordenação do mundo – a cosmovisão; por exemplo: o equilíbrio da planta depende do equilíbrio da terra, desta depende a saúde do ser humano e do planeta como lugar humano. Nesse caso, há uma ampliação do conceito e prática da cosmovisão, inicialmente, restrita ao local, atualmente é ampliada e relaciona o local ao global, planetário. Nesse sentido a preservação do ambiente é preservação do humano planetário; é preservação da vida.

Originalmente a família camponesa era o núcleo central onde o filho aprendia com o pai em uma relação vertical de autoridade portadora do saber; o pai é mas, também o filho pode ser, “força plena”, na compreensão de

Woortmann & Woortmann (1997). Hoje, o processo de produção de saber é, fundamentalmente, sustentado por relações horizontais, nas quais o agricultor ensina a outro agricultor: são dois sujeitos que estão no mesmo lugar hierárquico. Pode ocorrer também uma inversão na hierarquia da relação de pai para filho; ao ser alterada esta relação, o filho ensina ao pai. A lavoura é um lugar de aprendizado. Porém a lavoura de aprendizado pode estar próxima ou distante, pode ser da família, do vizinho ou pode estar em qualquer lugar do Brasil para onde os agricultores se deslocam para troca de experiências.

O entrelaçar das relação sociais descritas ao longo desse texto como terrenos de produção do saber apropriado pelos agricultores associados torna-se visível também na relação entre os três temas geradores desse saber vistas como vínculos muito estreitos dos agricultores entre si ( considerando-se os colaboradores externos), com a terra e com a planta. Assim, essas três dimensões entrelaçadas podem ser visualizadas a seguir:

FIGURA 8. Temas geradores do saber apropriado. Fonte: pesquisa de campo.

A troca de experiências entre agricultores é a dinâmica validada como a AGRICULTOR

que mais favorece a produção do saber apropriado. Nela, os procedimentos das experimentações, a avaliação dos resultados e os riscos são ouvidos, discutidos, testados; assim o saber é compartilhado numa relação entre iguais ou em relações horizontais.

No âmbito da produção do saber, desenvolvem práticas de observação e experimentação. A observação pode ser de contemplação – “olhar e ver” – desenvolvendo-se de maneira sistemática ou aleatória e o aprendizado se dá sem a interferência do agricultor sobre o observado. Depois, o aprendido passa a ser experimentação ou ação planejada para obter o resultado observado ou para alterar, melhorar ou corrigir o resultado observado. No momento da experimentação o sujeito é mais ativo. Na produção do saber de grupo, a observação e experimentação podem ser decorrentes da ação individual, de grupo ou coletivas. São as trocas ou o saber compartilhado que ampliam o a produção do saber. O desenvolvimento e fortalecimento destas relações horizontais favorecem a prática do protagonismo dos agricultores.

No nível local, o saber apropriado é produzido e consolidado em espaços de compartilhar experiências como as lavouras, os grupos locais nos bairros e o grupo de representantes de bairro. O saber individual e coletivo é ampliado, permanentemente, pela troca de experiência que ocorre no nível local e que também se desloca para outros espaços quando esses agricultores recebem visitas de agricultores de outras regiões do país ou saem do município para compartilhar suas experiências e conhecer outras experiências. Trata-se de um processo de ensinar e aprender permanente e dialógico.

Podem ter como foco um determinado tema, mas esse se inscreve no ambiente como um todo. Nada está desarticulado nas relações da parte com o todo e do todo com a parte. Esse é um modo de olhar decorrente do princípio de cosmovisão.

produção democrática e dialógica do saber apropriado que são, como já foi dito, a lavoura, grupos de bairro e grupos de representantes de bairro. Nesses espaços, o saber produzido circula em um fluxo de dupla-mão de cá para lá e de lá para cá validando experiências. A representação e a participação direta são práticas exercidas no cotidiano das reuniões e tomada de decisão. Estas indicam possibilidades ricas para estudos sobre a teoria de campo e representação política na perspectiva desenvolvida por Pierre Bourdieu.

As relações entre o local e o mundo globalizado ocorreram fundamentalmente pela via do mercado justo, fair trade, mercado internacional. Das primeiras participações em feiras internacionais até as visitas de intercâmbio entre produtores e consumidores foram construídos os vínculos que os colocaram integrados ao mercado que se caracteriza pelo princípio da solidariedade.

Os vínculos criados com os consumidores e compradores traduzem uma forma de proximidade e de intercâmbio importante na consolidação da rede de solidariedade que motiva as relações internacionais e o marketing do produto com valor agregado pelo fortalecimento da agricultura desenvolvida em pequenas parcelas de terra, proveniente de trabalho familiar, social e ecologicamente responsável. A relação direta entre os produtores e consumidores é testemunho da busca da solidariedade em um plano internacional. Nesse caso, porém, sofrem as restrições típicas do mercado que, sob o signo da solidariedade, busca por um lado escapar do domínio explorador desse mesmo mercado tratando esses sujeitos de forma diferenciada: preço justo, o fortalecimento da agricultura familiar e a justiça nas relações de trabalho são vantagens sinalizadas pelo mercado justo. Entretanto, escondem a desigualdade das relações entre consumidores de países centrais em relação aos países periféricos. Basta considerar que o Brasil é o maior exportador de café em grão do mundo; porém, a Alemanha, uma das compradoras do café fair trade de Poço

Fundo, é a maior vendedora de café do mundo – isso sem plantar um pé de café em seu território52. O mercado justo aproxima sujeitos tão diferentes

(consumidores e produtores) e aparentemente exclui a possibilidade de ruptura com tal contradição.

A garantia de preço, considerado justo, submete os agricultores a um certo conformismo no qual a relação desigual é escamoteada. Entretanto, as lutas por soberania do Brasil como vendedor de produto beneficiado e ruptura com mercados hegemônicos já se encontram no discurso dos protagonistas desta pesquisa ainda vislumbradas como sonho distante.

Em nome do princípio da autonomia, há avanços e dificuldades, há contradições. A autonomia vem sendo conquistada desde a consolidação das comunidades eclesiais de base. É uma autonomia com laços de fé e força da religião. A igreja deixa marcas nesta trajetória: a constituição da identidade referenciada nas comunidades e no “protagonismo dos agricultores”foi estimulada pela igreja que se colocou como forte suporte nesse processo. O avanço das instituições políticas reguladas pela organização interna como a associação e a cooperativa por um lado, testemunha um forte braço que expressa a autonomia dos agricultores, por outro lado, expressa seu afastamento de instituições políticas de caráter classista como o sindicato ou estatais como a Emater.

Abandonaram o Sindicato de Trabalhadores Rurais e sem representação nessa instituição pouco podem fazer para alterar ou contribuir com a direção do sindicato no sentido do cumprimento de demandas de interesse dos agricultores em geral. É importante ressaltar que esses agricultores não adotaram a via

52 Em consulta à Empresa Internacional de Comunicação da Alemanha; Confirmaram que a Alemanha não produz café para seu consumo nem para exportação; em suas próprias palavras: “O clima não permite”. IMPRENSA Alemã. DW.World.De.Deustsche Welle. Disponível em: < [email protected]>. Acesso em: 09 jun. 2008.