A formação da população residente na área da pesquisa é considerada decorrente de fluxos migratórios que se sucedem desde a chegada dos habitantes primordiais, passando pela colonização europeia e chegando aos movimentos populacionais do século XX. Com base em evidências apresentadas por Roosevelt (1987, 1989), Moran (1990), situa os habitantes primordiais da Amazônia entre os mais antigos agricultores e ceramistas da
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América. Essas populações, desde o segundo milênio antes do presente, teriam construído sociedades pré-históricas residentes em áreas de várzeas, organizadas em complexos sistemas políticos, sustentas pela produção de grãos, mandioca e pela pesca.
O estudo de Whitehead (1989) é utilizado por Moran (1990) para ressaltar que a presença de tais sociedades se estendia sobre as áreas de terras firmes, neste caso, eram mais dispersas e sustentadas pelo controle do comércio de armas, madeiras de outros produtos. A colonização europeia, iniciada desde o século XVII, teria causado a redução drástica dessas populações, sem conduto erradicar aspectos da sua sociocultura que foram herdados pelas populações que as sucederam. Entre estes, destacam-se aqueles relacionados ao uso dos recursos naturais para a agricultura, os hábitos alimentares baseados na caça e na pesca e o extrativismo vegetal e animal para diversos fins – comerciais, alimentícios, habitacionais, medicinais e outros.
O contato e a posterior convivência entre os colonizadores e os povos indígenas seguem uma trajetória complexa na formação de uma população que incorpora elementos mútuos. Witkoski (2007) trata a colonização europeia como o encontro entre duas civilizações antagônicas, mediado por racionalidades distintas, que, frequentemente, culminou com a supressão ou desorganização das sociedades ameríndias. Exemplo característico entre os eventos discutidos por Witkoski (2007) é o caso dos conflitos com o povo Mura cuja atitude se via como obstáculo à colonização portuguesa no rio Madeira (CEDAM, 1986).O Diretório dos Índios constituiu outro modo de desorganização da sociocultura indígena, controle da sua força de trabalho e, sobretudo, uma estratégia para sua integração subordinada à cultura ocidentalizada que a Coroa Portuguesa implantava na Amazônia. Estes processos culminaram na formação de uma população camponesa miscigenada – os caboclos – que, posteriormente, tornou-se um dos vetores socioculturais proeminentes na composição do campesinato amazônico.
Em períodos posteriores, entre os eventos que mais influenciaram a formação da população na região da pesquisa estão o Ciclo da Borracha, no final do século XIX e início do XX, e a criação da Zona Franca de Manaus (ZFM). As migrações de nordestinos para os seringais amazônicos provocaram o encontro entre dois modos de vida cultural e ambientalmente distintos – o sertanejo e o caboclo. Dessa reunião, surgiu o “sertanejo acaboclado”, um híbrido sociocultural adaptado ao ecossistema amazônico, que aprendeu com o caboclo os modos de usos dos recursos naturais disponíveis para sua autossustentação, mas manteve muito dos aspectos socioculturais que trouxe consigo do nordeste.
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Ao discutir o processo de migração das populações nordestinas que ocuparam a região do Careiro da Várzea desde o século XIX, Sternberg (1998) apresenta a dinâmica de apropriação da terra para residência e atividades econômicas. Estes sistemas de colonização seguiram os padrões trazidos por essa população: a miscigenação com populações indígenas e caboclas residentes e a implantação de atividades agropastoris e extrativistas para autossustentação e comercialização. Assim, estabeleceram-se as bases da formação demográfica das populações camponesas e das atividades produtivas que se disseminaram e – ainda no tempo dessa pesquisa – permanecem vigentes no entorno de Manaus.
Vale ressaltar que os aspectos socioculturais próprios trazidos pelas populações migrantes foram modificados significativamente em função das características do ecossistema e da convivência com habitantes mais antigos. Este processo produziu o que Fraxe (2000, 2004) denominou homens anfíbios, isto é, sociedades cujas atividades culturais e econômicas acompanham a dinâmica climática comandada pelos movimentos das águas da bacia amazônica. Estes homens anfíbios são os camponeses amazônicos, habitantes das várzeas amazônicas que realizam suas atividades produtivas em suas águas, terras e florestas de trabalho (WITKOSKI, 2007). Desde a segunda metade do século XX, a construção de estradas e vicinais assim como a intensificação da navegação fluvial no entorno de Manaus possibilitaram a ocupação e a extensão das atividades produtivas em áreas de terra firme, localizadas entre os corpos hídricos, ampliando o campo de ação dos homens anfíbios. Deste modo, formou-se uma socioeconomia camponesa peculiar adaptada ao ambiente natural, mas suscetível às mudanças induzidas pela dinâmica do ambiente institucional no qual se encontra historicamente inserida.
A criação da ZFM, além de atrair fluxos migratórios de outras regiões do Brasil, contribuiu para a formação de uma economia urbana e industrial de considerável complexidade. Criou-se um mercado interno que, por um lado, é demandante dos bens agropecuários e, por outro, oferta às famílias camponesas com os bens industriais de produção e consumo. O mercado de trabalho urbano de Manaus tornou-se um suporte institucional para o emprego de trabalhadores eventuais e/ou migrantes do entorno rural da capital. Em tempos recentes, uma institucionalidade diversificada tem oferecido equipamentos sociais e políticas de fomento à produção e melhoria da qualidade de vida que atingem as populações do entorno da capital, permitindo sua permanência nas áreas rurais.
Ao longo destes processos, construiu-se um perfil demográfico e sociocultural complexo que impacta profundamente a eficiência reprodutiva e a evolução econômica das UPC. Por outro lado, contribuiu para estabelecer os padrões interativos entre as estratégias e
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intervenções institucionais para o desenvolvimento urbanas e os aspectos socioculturais historicamente construídos pelas famílias camponesas. Aspectos importantes dessa interação podem ser observados nos hábitos, habilidades e sistemas de conhecimentos que se concretizam nos sistemas produtivos e rotinas de trabalho. Essa interação de modo algum é pacífica, pois envolvem resistências, conflitos, acordos, experimentos e mudanças, temas a serem apresentados e analisados nos capítulos seguintes.