“Há um sentimento generalizado não apenas hoje, mas em vários momentos históricos, que dissocia os jovens do interesse de participar em sociedade e dos temas de atualidade política, em especial os que são divulgados pelas notícias e média tradicionais. É recorrente a ideia de que é importante fazer aumentar a participação juvenil e o interesse dos jovens pelo mundo que os rodeia.”
(Brites, 2015: 7)
1. Delineando o objetivo de estudo: entre a informação e a investigação
O projeto Catch-EyoU surgiu com o intuito de proporcionar uma compreensão do distanciamento entre os jovens para com as instituições da União Europeia, encontrando deste modo, formas de lidar com o grande desafio de favorecer o diálogo, a confiança e o envolvimento ativo dos jovens nas instituições e questões diretamente ligadas à EU. O pressuposto é que a inclusão da visão dos jovens é um fator essencial para a vivência de uma democracia participativa e representativa.
O estudo envolveu a colaboração de investigadores de diferentes países europeus (Portugal, Alemanha, Estónia, Grécia, Itália, República Checa, Reino Unido e Suécia) e disciplinas, nomeadamente psicologia, ciência política, sociologia, média e comunicação e, também, ciências da educação. O objetivo era a identificação dos fatores de possível influência nas distintas formas de participação ativa na Europa por parte dos jovens, passando pela compreensão de diferentes fatores de influência nos jovens e das formas como estes se inserem na sociedade, permitindo deste modo a cidadãos interligados a decisões políticas o uso de novos instrumentos para uma compreensão mais detalhada da presente geração: a forma como a geração pensa, como age, como participa, entre outros assuntos diretamente ou indiretamente ligados ao envolvimento ativo dos jovens com
especial atenção ao seu estatuto como cidadãos Europeus.
2. Primeiro estudo: análise de notícias em dois jornais de referência
Sob a base estrutural do projeto Catch-EyoU, a primeira fase do nosso estudo envolveu a análise de jornais (de referência e online), de forma a explorar em que medida e como a Europa, os jovens e a cidadania são representados nos média. A conceção desta fase do estudo foi realizada pela equipa dirigida por Pina Lalli, da Universidade de Bolonha, e Jacob Macek, da Universidade Masaryk, ambos especialistas em Ciências da Comunicação das respetivas universidades; os dados portugueses foram recolhidos por Filipe Piedade eNorberto Ribeiro sob supervisão de Isabel Menezes e cedidos pela equipa para esta tese – pelo que, para estes dados, a análise desta tese é uma análise secundária.
Na escolha dos jornais foram tidos em consideração os dados relativos à tiragem média diária e de distribuição, tanto online como offline; foi ainda decidido incluir jornais diários com uma cobertura geográfica relativamente ampla e excluir jornais de distribuição gratuita. Foi também tomada a decisão da garantia da diversidade dos editores de jornais: os dois selecionados pertencem a diferentes empresas. A pesquisa foi efetuada em plataformas online dos jornais JN e P3, este último especificamente escolhido por ser dirigido a um público jovem.
Finalmente, a recolha centrou-se em dois anos consecutivos (2014 e 2015) e em dois períodos politicamente relevantes (duas semanas em maio e em setembro, que incluem as eleições europeias). A pesquisa foi feita a partir de palavras chave previamente definidas, para que a recolha de dados fosse equivalente em todos os países e em todos os momentos de recolha de dados. Foram utilizadas as seguintes palavras chave diretamente ligadas ao público jovem e à política: Europa, União Europeia/UE, Jovens, Juventude, Crianças, Adolescentes, Ativismo e Cidadania.
Atendendo ao tempo de realização desta tese, foi tomada a decisão de estender esta recolha de dados por mais dois anos (2016 e 2017), usando as mesmas fontes e os mesmos métodos. Esta opção teve também a vantagem de incluir o período das eleições
legislativas portuguesas, estendendo ainda o corpus de análise de forma assinalável. De forma a manter procedimentos similares, a autora desta tese teve um período de formação e consulta com o colega Filipe Piedade.
Os dados deste primeiro estudo envolvem, assim, um total de quatro anos (desde 2014 a 2017). Usando as nove palavras-chave para pesquisa nas plataformas dos jornais selecionados, JN e P3, todas as notícias relacionadas com estas dentro dos períodos indicados, de 7 a 21 de maio, e de 16 a 30 de setembro, dos vários anos, foram recolhidas e codificadas numa base de dados. A análise subsequente permitiu dar resposta a algumas questões relevantes: será que a comunicação social dá espaço aos assuntos relevantes para os jovens? Será que os jornais nacionais dão atenção a iniciativas dos jovens? Estarão os meios de comunicação a dar voz aos jovens?
3. Segundo estudo: discussão dos dados – a visão de jornalistas e políticos
A análise das diversas notícias recolhidas possibilitou o desenvolvimento da segunda fase desta investigação, através de entrevistas semiestruturadas com sujeitos dentro das áreas interligadas ao estudo em questão, nomeadamente a área do jornalismo e a área da política.
Com foco prioritário nos jovens e na possível expressão destes perante a sociedade, o objetivo das entrevistas passa, então, pela compreensão da relação jovens-política- média, partindo dos dados recolhidos na primeira fase. Para o desenvolvimento do guião, sentiu-se a necessidade de compreender o modo como a política se interliga á juventude e adquirir soluções para problemas que a juventude tem vindo a enfrentar, nomeadamente com questões que representam a ausência da política na vida dos jovens, da negatividade apresentada nos temas políticos e de possíveis fatores da aproximação dos jovens à política.
Similarmente com a perceção política, surge a necessidade de entender os campos de atuação dos média, passando o objetivo do guião também pela compreensão do
envolvimento dos meios de comunicação social com os jovens, nomeadamente o tipo de representação dos jovens dentro dos média, a visão da comunicação social perante ações da juventude e quais os efeitos produzidos na vida dos jovens cidadãos através das ações realizadas por parte da comunicação social.
Para além de entrevistar membros dentro da área da política como dos média, optou- se ainda por incluir pontos de vista de membros mais jovens e com menos experiência em comparação com membros mais velhos e com mais experiência tanto de vida como laboral. Assim, entrevistaram-se no total quatro pessoas, duas com experiência de militância política e dois jornalistas; dois jovens, com idades compreendidas entre os 24 e os 29 anos e dois mais velhos com idades compreendidas entre os 43 e os 46 anos. Não tendo sido intencional, o jovem jornalista e o jovem dirigente político, eram ambos homens; a jornalista sénior experiente em artigos de cultura e sociedade e a militante e dirigente partidária mais velha eram ambas mulheres.
Os dados desta segunda fase do estudo envolvem, assim, um guião semiestruturado e um total de quatro entrevistas com foco em cidadãos, jovens e séniores, diretamente ligados aos temas políticos e mediáticos. A análise posterior permitiu dar resposta a algumas questões relevantes: será que a comunicação social dá espaço aos assuntos mais importantes para os jovens? Será que os jornais nacionais demonstram interesse pelas ações positivas dos jovens? Poderá a comunicação social focar-se apenas na informação capaz de produzir mais audiências? Estarão os meios de comunicação a dar voz aos jovens? Todas as questões apresentadas são o foco da presente investigação que, em articulação com os dados obtidos na primeira fase do estudo, permitiu uma base de dados relativamente pertinente para a compreensão dos média nos tempos atuais e a sua representação da política e de jovens.