4. Description de l'interface
4.1. Le bouton Configurer
4.1.6. ID de correspondance entre Kwisatz et la plateforme ECommerce
Hutcheon descreve a metaficção historiográfica como própria do pós-modernismo e usa o mesmo conceito de enquadramento de Goffman emprestado por Waugh. Segundo ela, na perspectiva pós-modernista, tanto a escrita da história quanto a da ficção são “discursos que constituem sistemas de significação segundo os quais entendemos o passado” (HUTCHEON, 1988, p.367); ou seja, o significado não está nos eventos, mas na maneira como eles são contados e se tornam fatos históricos. A metaficção historiográfica “recusa os métodos do senso comum para distinguir fatos históricos e ficção” (idem, p. 371),
reconhecendo que a história é um discurso, e não uma descrição exata e imparcial dos acontecimentos.
Ou seja, “ficção e História são narrativas distinguíveis por seus enquadramentos (...), enquadramentos que uma metaficção historiográfica primeiro estabelece e então cruza, apresentando os contratos genéricos da ficção e da História” (HUTCHEON, 1988, p. 109). A metaficção historiográfica se posiciona dentro do discurso histórico sem abrir mão de sua autonomia como ficção. Assim, intertextos históricos e ficcionais ganham importância paralela (mas não igual) dentro da paródia do passado textual, tanto do "mundo" quanto da literatura (HUTCHEON, 1989, p.2).
Essas obras questionam a existência de uma narrativa única do mundo, em prol da multiplicidade e disparidade. Através da narrativa, elas oferecem corporeidade ficcional, ao invés de abstração, mas ainda assim fragmentam e desestabilizam a tradição moderna. A incorporação, em Planetary, dos passados intertextuais39 da cultura pop como elementos estruturais constitutivos marcam a historicidade da obra e a familiaridade traz com ela a problematização da própria noção de conhecimento histórico (p. 367). Podemos ter uma ideia dessa operação pelos exemplos já apresentados, mas consideramos digna de nota a maneira como ela fica ainda mais clara se pensarmos no quadrinho como uma história secreta. O gênero tem como característica se apresentar como verdadeiro, reposicionando sua ficcionalidade como uma série de verdades ocultas, que outros não desejam que o leit or descubra. Tudo aquilo aconteceu. Como Coloca Currie (1998):
Ao destacar o papel da narratividade na formação da História como uma história, o modo [da metaficção historiográfica] é fundamentalmente intertextual, nos forçando a contemplar não o que o passado era realmente, mas como ele foi representado por outros textos. Estes não são apenas romances que contemplam a si mesmos tanto quanto romances que contemplam a lógica e a ideologia da narrativa no ato de interpretar o mundo40 (CURRIE, 1998, p. 68).
É interessante que Kidder (2009) utilize o conceito para posicionar Planetary na historiografia dos próprios quadrinhos de super-heróis, apontando sua historicidade como uma reação ao everwhen, o estado de presente perpétuo característico do gênero. Porém, durante a análise dos quadrinhos, observamos que a obra dificilmente se limita às convenções do
39 O conceito de intertextualidade é indissociável das teorias de Hutcheon. O termo foi cunhado pela crítica
francesa Julia Kristeva em 1966, inspirado pelo dialogismo de Bakhtin. Para a autora, todo texto é construído como um “mosaico de citações”, sendo essencialmente “a absorção e transformação de outros textos” (KRISTEVA, 1986, p.37). A noção de intertextualidade desloca o foco da figura do autor para a relação entre leitor e texto, que situa o locus da significação na história do discurso em si.
40 By highlighting the role of narrativity in shaping history as a story, the mode is fundamentally intertextual,
forcing us to contemplate not what the past was actually like but how it has been represented by other texts. These are not really novels which contemplate themselves so much as novels which contemplate the logic and the ideology of narrative in the act of construing the world.
gênero. A própria adaptação de personagens da cultura popular para o quadrinho pode ser um ato político, como quando Sherlock Holmes é contextualizado em sua época: um homem inglês com valores imperialistas e eugênicos típicos de sua época. A caracterização adiciona ao detetive (um homem moderno arquetípico) o contexto cultural que lhe é negado nos contos, promovendo a historicização do personagem.
Em nossa análise, questões de imitação e transformação dos intertextos são essenciais. É preciso levar em conta ainda as diferenças linguísticas: ainda que o desenho possa referenciar discursos históricos, a escrita e o quadrinho apresentam diferenças imediatas. No capítulo 4, vamos examinar como Planetary usa recursos de diagramação e cor para endereçar essas questões pela intermidialidade.
Para Hutcheon, a arte pós-moderna não pode deixar de ser política, por mais estetizada que pareça, porque suas representações são tudo menos neutras. Embora não exista uma teoria que determine a ação política dessas obras, sua própria existência propõe um espaço de desnaturalização. Adaptando o conceito barthesiano de "doxa" como opinião pública ou "Voz da Natureza" e consenso, Hutcheon afirma que o pós-modernismo des- doxifica (de-doxify) nossas representações culturais e seus valores políticos intrínsecos (HUTCHEON, 1989b, p.3). Porém, essa mesma lógica implica que a metaficção historiográfica existe num paradoxo: o discurso que deseja desnaturalizar (ou des-doxificar) é o mesmo que justifica sua existência.
Assim, a metaficção historiográfica será sempre cúmplice dos gêneros, linguagens, ideologias e instituições que critica, pois é a partir destas que ela constrói seu discurso de enfrentamento. Hutcheon afirma que
esse é um tipo estranho de crítica, uma ligada também à sua própria cumplicidade com poder e dominação, uma que reconhece que não pode escapar da implicação naquilo que, no entanto, ainda deseja analisar e até mesmo minar. As ambiguidades deste tipo de posição são traduzidas tanto no conteúdo como na forma da arte pós- moderna, que assim purifica e desafia a ideologia, sempre conscientemente41.
(HUTCHEON, 1989b, p. 4)
Enquanto a metaficção de Waugh é prisioneira da linguagem, a de Hutcheon parece estar irremediavelmente enredada na ideologia que deseja derrotar. A noção de crítica cúmplice e a ideia da metaficção historiográfica, que constrói para então destruir, nos leva a refletir sobre Planetary como objeto de estudo e sua relação com o movimento revisionista do qual faz parte. Apesar de suas intenções críticas, Planetary é, acima de tudo, uma revista em
41 (...) this is a strange kind of critique, one bound up, too, with its own complicity with power and domination, one that acknowledges that it cannot escape implication in that which it nevertheless still wants to analyze and maybe even undermine. The ambiguities of this kind of position are translated into both the content and the form of postmodern art, which thus at once purveys and challenges ideology – but always self-consciously.
quadrinhos produzida com intenção comercial, publicada por uma editora especializada no mesmo gênero que a obra deseja criticar.
Da mesma maneira, Watchmen, obra seminal de Alan Moore que reimaginou super-heróis em 1986, foi produzida pela segunda maior editora de comics do mundo e teve o impacto imprevisto no mercado de gerar uma série de imitações que tomavam para si a violência sem o teor crítico da obra original. Mesmo as maiores quebras ainda podem ser reincorporadas pelo pensamento hegemônico, tornando-se apenas convenções.
Por fim, Mark Currie constrói sobre os pensamentos de Waugh e Hutcheon e traz a ideia da metaficção como um discurso limiar, "um tipo de escrita que existe na fronteira entre ficção e crítica, e que toma essa mesma fronteira como seu tema" (CURRIE, 2013, p.2). De acordo com o autor, a fixação metaficcional com o limite entre literatura e realidade seria apenas uma metade, a metade ficcional, de um movimento metacrítico maior. Quando a metaficção dramatiza essa fronteira, ela duplica a ambiguidade epistemológica do texto, que realça sua própria artificialidade na tensão entre a descoberta objetiva e a criação subjetiva deste mesmo artefato.
Currie posiciona a metaficção na historiografia da teoria literária, relacionando intimamente produção ficcional e crítica; uma noção retomada posteriormente por Zavala, segundo o qual todo texto de metaficção “contém sua própria teoria da linguagem, da leitura e da escrita, e que essa teoria é irredutível e intransferível a outro texto literário” (ZAVALA, 2007, p. 136). Currie também usa a leitura feita por Derrida da obra de Saussure para indicar a condição da crítica como construção textual, ou seja, incapaz de ser separada do objeto que critica. Para ele, Derrida aplica as ideias de Saussure ao próprio texto do autor,
lembrando que, assim como a linguagem estrutura seu objeto, a metalinguagem também o faz. Mas e sobre o terceiro nível de referência como estrutura? E sobre o próprio texto de Derrida e sua tentativa de representar Saussure? A escrita de Derrida apresenta duas estratégias para lidar com esse problema. A primeira é a ideia de imanência: a ideia de que Derrida está tentando não se referir a Sassure de fora, mas que ele opera dentro do texto, em seus próprios termos. (...) A segunda é um tipo de autoconsciência no texto de Derrida que previne seus próprios termos de adquirirem status metalinguístico ou objetivo ao realçar sua relação difícil e paradoxal com a linguagem que descrevem. (CURRIE, 2013, p.9)
Esse método, a ideia de operar dentro do próprio texto, eventualmente levaria à desconstrução. A tautologia proposta por Currie (a ficção é crítica, a crítica é ficcional) nos parece especialmente útil para analisar Planetary, um quadrinho com tendências políticas evidentes.
Por fim, é interessante observar o movimento do conceito de metaficção: do narcisismo proposto por Hutcheon ao caráter crítico estabelecido por Currie, ou do romance
que se desdobra para dentro ao romance que olha para fora - um paralelo do contraste entre forma e função na metalinguagem estabelecido por Leeuwen. Este escopo abre espaço para a presente pesquisa: não uma análise puramente formal, mas estrutural, onde o produto da tensão metaficcional, a análise dos intertextos de Planetary, é tão importante quanto seu discurso.