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IC1FILTRE CERAMIQUE

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Première partie

IC1FILTRE CERAMIQUE

A discussão referente à inimputabilidade de Payakã, rela- cionada à sua condição de índio, e toda a negociação em torno à prisão do acusado, marcada por uma recorrência semântica do privilégio, são informadas e desenvolvidas com base em outra caracterização, também levantada desde a

Veja: o poder econômico dos kayapó.

Se a maioria dos títulos de destaque (Reportagens e Chamadas de 1ª página) topicaliza a dimensão legal da acu- sação, a riqueza constitui outra linha temática que, embora apresentando menor peso quantitativo, desempenha uma função argumentativa central, orientando as principais linhas interpretativas. Dados relativos à situação econômica dos kayapó e, portanto, não diretamente relacionados à acusação, constituem uma espécie de moldura da notícia que, se do ponto de vista jornalístico tem por objetivo situar o leitor no universo do “fato” noticiado, confere sentido à

representação circulante do privilégio e à discussão referente à inimputabilidade de Payakã.

Apesar de não se constituir em notícia, ao migrar para os títulos das reportagens no domingo, 14 de junho, o tópico da riqueza ganha destaque, sendo tematizado pelo jornal

O Globo em sua primeira página. Nas reportagens, o peso

quantitativo não é significativo (OG: 2; OESP: 0; JB: 1; FSP: 0). O tópico é, no entanto, abordado com mais intensidade nas seções e nos boxes dos jornais, num espaço argumen- tativo de destaque, que subsidia e embasa a compreensão. Nas seções e nos boxes, observa-se a incidência desse tópico unicamente em O Globo e O Estado de S. Paulo (OG: 4; OESP: 5; JB: 0; FSP: 0). O jornal O Globo apresenta um investimento maior nesse sentido. Suas seções “Ricos, caiapós possuem carros e até aviões” (MACEDO, 1992, p. 8) e “Ouro transforma índios em Marajás” (SARKIS, 1992a, p. 8) interagem com o

box da Veja “Os marajás da madeira” (GOMES, 1992, p. 83),

na medida em que estabelecem a correlação entre Kaiapó/

índios/marajás, instaurando, mais uma vez, um paralelo com a

retórica jornalística de denúncias sobre as práticas políticas qualificadas como corruptas. A descrição da ostentação de sinais de riqueza destina-se a desqualificar seu usufruto e desconstruir qualquer legitimidade desse patrimônio.

No mesmo jornal O Globo, a tematização da riqueza migra para a primeira página, quando se estabelece uma relação causal entre essa riqueza e a exploração de recursos naturais em: “Ouro dos caiapó faz a riqueza dos caciques” (SARKIS, 1992d, p. 8). As reportagens que desenvolvem esse ponto, como a de O Globo: “Venda de mogno rendeu aos índios U$ 4 milhões em 91” (SARKIS, 1992d, p. 8) e da revista IstoÉ: “Índio gente fina – Os caciques brasileiros que enriquece- ram explorando como bons capitalistas as riquezas de suas reservas” (VIANA, 1992, p. 1), enfatizam o caráter exorbitante dos lucros e bens, insinuando a natureza predatória dessa atividade de exploração.

Exploram-se, assim, os números astronômicos de pro- dução “tipicamente mercantilistas”, como uma estratégia para apontar o grande sucesso do grupo, especialmente dos caciques, na incorporação à economia mercantil, pela sua familiaridade com práticas financeiras e de mercado. A contradição entre a condição indígena e a economia de mercado pode ser observada na reportagem de O Globo: “A verdadeira face do capitalismo selvagem” (SARKIS, 1992d, p. 8), que aciona, com uma retórica irônica, a representação de uma sociedade “pré-capitalista” com práticas mercantis, provocando um paradoxo entre dois estereótipos extremos e antagônicos.

As seções e os boxes dos jornais também topicalizam o ponto da exorbitância dos lucros, sugerindo interpretações da mesma natureza: O Estado de S. Paulo traz “Floresta gera milhões de dólares aos índios” (TURCATO, 1992e, p. 13), as relações de mercado internacionais aparecem em O Globo: “Índios se associam à empresa inglesa” (GRANDE…, 1992, p. 5) e de novo em O Estado de S. Paulo: “Ingleses continuam negócios” (SANTANA, 1992, p. 5). A concepção da identi- dade indígena a partir de categorias essencializadoras é acionada na seção de O Globo “Índio não quer apito, prefere caminhonete” (SARKIS, 1992d, p. 8), em que, com ironia, a riqueza é insinuada como um elemento descaracterizador da identidade indígena de Payakã e dos kayapó.

Esse ponto dialoga diretamente com o debate da inim- putabilidade. A integração comercial e a riqueza acumu- lada são acionadas para levantar questionamentos sobre a legitimidade e a autenticidade da identidade indígena de Payakã, como ilustra carta de leitor da Folha de S.Paulo de 17 de junho, que vai além, fazendo um juízo de valor:

O índio Paulinho Payakan tem fazenda, anda de carro, pilota avião: é acusado de estupro e talvez sonegue impos- tos. Quer dizer Paulinho Paiakan não é mais um silvícola. Progrediu, agora é um civilizado. (FELLA, 1992, p. 3).

Assim, interagindo com a noção de “aculturado” que circula na Veja e nas reportagens dos jornais, a participação no mercado constitui o principal alvo da argumentação para negar a identidade indígena de Payakã, usada com maior força na parte opinativa. Nesse mesmo sentido, estende-se o discurso crítico da Folha de S.Paulo aos kayapó:

[Payakã] chefe de um povo mercantilista, aculturado, com todos os vícios e virtudes dos brasileiros que moram no Sul do Pará. O povo de Paiakã tem aviões, caminhões e negócios lucrativos com as madeireiras da região. Os caiapós são considerados ótimos negociantes e investi- dores argutos. (GONDIM, 1992c, p. 15).

A partir dessa ambiguidade, encaminha-se uma interpre- tação a respeito do uso oportunista dessa “dupla” identidade, como na seção “Nus mas com dinheiro no bolso” (TURCATO, 1992a, p. 12), que serve de subsídio na argumentação da acusação. Por outro lado, as seções “Dependência” (MENDES, 1992d, p. 14) e “O domínio dos caiapó” (TURCATO, 1992f, p. 14) topicalizam um ponto importante: as desigualda- des geradas pelas diferenças de direitos entre os “cidadãos comuns” e os índios, como se pode observar em trecho de reportagem de O Globo: “os caiapós são os únicos a pode- rem explorar o mogno, o que não é permitido aos brancos” (SARKIS, 1992a, p. 8). Isso gera outras contradições, entre as quais, o papel desempenhado pelos kayapó nas relações de

produção quando “[...] já chegaram a ter em sua reserva até 12 garimpos, nos quais cobram 15% do ouro que os brancos extraem” (SARKIS, 1992a, p. 8).

Assim, a linha temática da riqueza, que aparentemente é acionada para caracterizar os atores principais, e que parece ocupar um lugar marginal na configuração da notícia, constitui, na verdade, um elemento importante no debate sobre o estatuto legal de Payakã, no consenso em torno ao privilégio e no próprio conceito de cultura indígena que circula no material opinativo. As referências ao poder eco- nômico de Payakã e dos kayapó, difusas em todo o material, constituem os pressupostos do material opinativo, sendo acionados como “evidências” na argumentação política em que o tom acusatório se desloca de Payakã aos kayapó, do

estupro à riqueza.

Portanto, a riqueza dos kayapó, caracterizada como exces- siva e ilegítima, é apresentada como um critério definidor de identidade, incompatível com a condição indígena. O consenso em torno à situação privilegiada da qual usufruem os kayapó ricos e poderosos é acionado como uma espécie de antídoto contra a imagem do senso comum que associa as populações indígenas à pobreza e à incapacidade de gerir sua própria vida e que justificaria, portanto, a tutela. A parte noticiosa levanta elementos da contradição entre riqueza e

tutela, esta última representada como um sistema desigual que outorga vantagens a quem já gozaria de prerrogativas. Essa base de “informações” permite formular, na parte opinativa, uma retórica acusatória que coloca em questão a coerência da legislação que sustenta o sistema tutelar dos índios.

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